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13 de junho de 2005

Duas partidas

Eugénio de Andrade é um poeta. É, será sempre, um poeta maior - as suas palavras iluminam, alimentam, espraiam. A luz da sua cidade bate nos olhos de quem o lê, o rumor do rio indomável a correr para um mar tão frio, tão sobranceiro, soa mesmo à indizível distância. A mão já não escreve outras palavras. A perfeição das que desenhou pertence por inteiro a esta língua que nos reveste.
*
A liberdade não esteve sempre aqui, como agora, que nem se dá por ela, de tão (re)conhecida. A liberdade custou vidas, vidas inteiras, formas de sacrificar o pessoal ao colectivo, de sacrificar o interesse próprio ao que se acreditava ser melhor para a humanidade toda. Foram cometidos erros de perspectiva, é sabido, mas não é isso que agora importa. Álvaro Cunhal, e tantos outros que por ínvias razões tive a sorte de conhecer, foram abnegados até ao limite. Somos devedores de meses, anos, de privações várias, desde o encarceramento à pura e simples negação de uma vida familiar e pessoal tranquila e normal - aquilo que temos por garantido, e que eles poderiam ter tido, não fôra a força das convicções que os animava. Nem sempre é fácil saber isto hoje, saber sem ter olhado nos olhos quem se sacrificou e não se lamentou nunca. Houve "fraquezas dos camaradas"? Naturalmente que sim. Como se prova para além de qualquer dúvida razoável, todos somos só humanos.

Publicado por Ana Roque às 12:29

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Comentários

"Somos devedores...". Devedores? De quê? De ele não ter conseguido instaurar a ditadura que queria? Não, Ana, não estou de acordo: uma ditadura é uma ditadura é uma ditadura é uma ditadura, qualquer que seja a razão que apresenta para se justificar.

Publicado por: Luis Serpa às 15:03 de 13-06-2005

Luís, a liberdade resultou da luta anti-fascista. Se não te fazia falta a liberdade, tudo bem. A mim, certamente fazia, e sei que faria cada dia mais. A ditadura do proletariado não foi instituída, e ainda bem. Mas a democracia que conseguimos salvar, salvaguardar, foi-nos entregue por quem se sacrificou por ela durante muitos anos. Há uma esplêndida biografia de Cunhal (é ainda um work in progress, pelo rigor com que está a ser escrita, por José Pacheco Pereira), cuja leitura te aconselho vivamente. Para navegares para longe dos pré-conceitos. Boa viagem ;)

Publicado por: Ana R. às 15:20 de 13-06-2005

Apesar de não surpreender, não deixa de ser digno de nota, a forma absolutamente lamentável como com tanta ligeireza se manipulam as palavras.
Não me cabendo a mim, obviamente, qualquer defesa de ideias alheias (sou uma simples leitora de passagem deste espaço como do blog de L.), devo dizer que é muito básico distorcer um comentário que expressa uma opinião diversa.
Mas L. por algum momento argumentou contra a Liberdade? Muito pelo contrário. Há erros que não são meras 'fraquezas', cara A. Roque. A desresponsabilização do que fomos e somos paga-se ao longo da História. Essa sim uma dívida que vai ficando por cobrar. Com a complacência e a tal ligeireza dos que gostam do 'isso agora não importa'.

Publicado por: Sílvia às 16:08 de 13-06-2005

Cara Sílvia, ainda bem que não se surpreende com facilidade - é sinal de vida vivida. Contudo, a ligeireza é sua, que não me conhece para se surpreender ou deixar de surpreender com a forma como argumento com o Luís Serpa - cujo pensamento, aliás, esse sim, conheço. Mas vejo que essa vivência também lhe trouxe, a si, defensora oficiosa contra a uma acusação inexistente, o gosto pela distorção: o que "agora não importa" é esquecer que a democracia, a liberdade, se deve em muito grande parte à luta anti fascista, dos comunistas e de outros. A social democracia venceu a tentativa totalitária de 1975? Ainda bem. Mas o passado dos anos 30, 40, 50, 60, foi o que foi. Só isso. Ponto final.

Publicado por: Ana R. às 19:49 de 13-06-2005

Álvaro Cunhal era um português excelentíssimo. Tinha a inteligência, a coerência e a vontade de mudar que poucos políticos nacionais actuais querem assumir. Uma vida para relembrar!

Publicado por: SB às 20:48 de 13-06-2005

Duas Pessoas com grande carisma cuja obra ficará para sempre. É preciso é transmitir isso aos mais novos.

Publicado por: wind às 22:48 de 13-06-2005

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Publicado por: Viagra às 01:32 de 21-06-2005

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