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Arquivo de dezembro 2006

dezembro 1, 2006

O Olhar do Mundo

Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes se mostrasse?
Basta de enganos!
Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.
Olha: não posso mais!
Ando tão cheio
Deste amor, que minh'alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo...
Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.

Olavo Bilac

Autobiographia Literaria

When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.

I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.

If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried out "I am
an orphan."

And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!

Frank O'Hara

De Kooning

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ilustração para poemas de Frank O'Hara

The Black Art

A woman who writes feels too much,
those trances and portents!
As if cycles and children and islands
weren't enough; as if mourners and gossips
and vegetables were never enough.
She thinks she can warn the stars.
A writer is essentially a spy.
Dear love, I am that girl.

A man who writes knows too much,
such spells and fetiches!
As if erections and congresses and products
weren't enough; as if machines and galleons
and wars were never enough.
With used furniture he makes a tree.
A writer is essentially a crook.
Dear love, you are that man.

Never loving ourselves,
hating even our shoes and our hats,
we love each other, precious, precious.
Our hands are light blue and gentle.
Our eyes are full of terrible confessions.
But when we marry,
the children leave in disgust.
There is too much food and no one left over
to eat up all the weird abundance.

Anne Sexton

Anne Sexton

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dezembro 2, 2006

Antes...

Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Pablo Neruda

Sonia Delaunay

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The First Thing

This is the first thing
I have understood:
Time is the echo of an axe
Within a wood.

Philip Larkin

Blake

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Livro da semana: A Curva do Rio, de V. S. Naipaul

O livro recomendado é um belíssimo romance de V. S. Naipaul, prémio Nobel da Literatura em 2001. O original A Bend in the River (1979) foi traduzido por José Vieira de Lima para a Dom Quixote e publicado em 1990. A densidade dos personagens e a descrição de uma África muito particular tornam a narrativa sedutora e capaz de prender o leitor horas a fio.

Título: A Curva do Rio
Autor: V. S. Naipaul
Edição: Dom Quixote
Tradução: José Vieira Lima

dezembro 3, 2006

Arca

(gentileza de Amélia Pais; dedicado à Márcia)

Tenho,
na velha arca,
minha provisão
de estrelas.

Noites quietas
e nítidas manhãs.

Asas
sobre a tarde.

Um campo de lilases
na tela de Monet.

Cisnes sobre o lago
de Lugano.

E as pupilas
luminosas
de um cão.

O perfume
do tabaco
impregnando
a casa.

E, no silêncio,
o livro,
a palavra.


Ivanira Bohn Prado

Ah! Os Relógios

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...

Mário Quintana

Sonia Delaunay

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Cold Poem

Cold now.
Close to the edge. Almost
unbearable. Clouds
bunch up and boil down
from the north of the white bear.
This tree-splitting morning
I dream of his fat tracks,
the lifesaving suet.

I think of summer with its luminous fruit,
blossoms rounding to berries, leaves,
handfuls of grain.

Maybe what cold is, is the time
we measure the love we have always had, secretly,
for our own bones, the hard knife-edged love
for the warm river of the I, beyond all else; maybe

that is what it means the beauty
of the blue shark cruising toward the tumbling seals.

In the season of snow,
in the immeasurable cold,
we grow cruel but honest; we keep
ourselves alive,
if we can, taking one after another
the necessary bodies of others, the many
crushed red flowers.

Mary Oliver

Kiarostami

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dezembro 4, 2006

Desimportância

O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma.

Cecília Meireles

Cecília Meireles

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dezembro 5, 2006

Despedida

(gentileza de Amélia Pais)

A todos disse adeus. Desde a minha infância
fez-me homem, lentamente, a despedida.
Mas persisto em voltar, quero recomeçar,
este regresso nítido liberta-me o olhar.

Só me resta dar-lhe plenitude,
e essa minha alegria que nunca aprendeu
por ter amado as coisas quase parecidas
com essa ausência que nos faz agir.

Rainer Maria Rilke

Rembrandt

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A vida e os livros

«Um dia li um livro e toda a minha vida mudou.»

Ohran Pamuk, in A Vida Nova, ed. Presença.

Circe's Torment

I regret bitterly
The years of loving you in both
Your presence and absence, regret
The law, the vocation
That forbid me to keep you, the sea
A sheet of glass, the sun-bleached
Beauty of the Greek ships: how
Could I have power if
I had no wish
To transform you: as
You loved my body,
As you found there
Passion we held above
All other gifts, in that single moment
Over honor and hope, over
Loyalty, in the name of that bond
I refuse you
Such feeling for your wife
As will let you
Rest with her, I refuse you
Sleep again
If I cannot have you.

Louise Glück

Louise Glück

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dezembro 6, 2006

Fuga imaginada

Seascape With Sun And Eagle

Freer
than most birds
an eagle flies up
over San Francisco
freer than most places
soars high up
floats and glides high up
in the still
open spaces

flown from the mountains
floated down
far over ocean
where the sunset has begun
a mirror of itself

He sails high over
turning and turning
where seaplanes might turn
where warplanes might burn

He wheels about burning
in the red sun
climbs and glides
and doubles back upon himself
now over ocean
now over land
high over pinwheels suck in sand
where a rollercoaster used to stand

soaring eagle setting sun
All that is left of our wilderness

Lawrence Ferlinghetti

Pearlstein

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Desejo

Ai, quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto simples e sem fim
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai, quem me dera ver morrer a fera
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor.
Ai, quem me dera uma manhã feliz.
Ai, quem me dera uma estação de amor

Ah, se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais

Ai, quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E, finda a espera, ouvir na primavera
Alguém chamar por mim.

Vinícius de Morais

Hiroshige

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dezembro 7, 2006

Going

There is an evening coming in
Across the fields, one never seen before,
That lights no lamps.

Silken it seems at a distance, yet
When it is drawn up over the knees and breast
It brings no comfort.

Where has the tree gone, that locked
Earth to sky? What is under my hands,
That I cannot feel?

What loads my hand down?

Philip Larkin

Sonia Delaunay

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Estreia da semana: Happy Feet

A estreia de hoje é um filme de animação, como de resto é típico na quadra natalícia, sempre pródiga em filmes para toda a família, uma vez que as crianças têm mais tempos livres (efeito "perverso" das férias escolares) e o inverno convida ao refúgio das salas de cinema. Com as vozes de Robin Williams, Hugh Jackman, Elijah Wood, Nicole Kidman e Brittany Murphy, oferece música, canções e entretenimento de qualidade para uma tarde divertida.

Título: Happy Feet
Realização: George Miller, 2006

Happy Feet

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O Conselho das Árvores

Sofro, luz dos meus olhos, quando dizes
Que a vida não te alenta nem conforta.
Olha o exemplo das árvores felizes
Dentro da solidão da noite morta.

Que lhes importa a dor, que lhes importa
O drama que há no fundo das raízes?
Não sentem quando o vento os ramos corta
E as folhas leva em várias diretrizes?

Que lhes importa a maldição do outono
E os dedos envolventes da garoa,
Se dão sombra às taperas no abandono?!...

Levanta os braços para o firmamento
E canta a vida porque a vida é boa
Mesmo esmagada pelo sofrimento.

Olegário Mariano

Blake

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dezembro 8, 2006

Bookshelf

I like to think that when I fall,
A rain-drop in Death's shoreless sea,
This shelf of books along the wall,
Beside my bed, will mourn for me.

Regard it. . . . Aye, my taste is queer.
Some of my bards you may disdain.
Shakespeare and Milton are not here;
Shelly and Keats you seek in vain.
Wordsworth, Tennyson, Browning too,
Remarkably are not in view.

Who are they? Omar first you see,
With Vine and Rose and Nightingale,
Voicing my pet philosphy
Of Wine and Song. . . . Then Reading Gaol,
Where Fate a gruesome pattern makes,
And dawn-light shudders as it wakes.

The Ancient Mariner is next,
With eerie and terrific text;
The Burns, with pawky human touch -
Poor devil! I have loved him much.
And now a gay quartette behold:
Bret Harte and Eugene Field are here;
And Henly, chanting brave and bold,
And Chesteron, in praise of Beer.

Lastly come valiant Singers three;
To whom this strident Day belongs:
Kipling, to whom I bow the knee,
Masefield, with rugged sailor songs. . . .
And to my lyric troupe I add
With greatful heart - The Shropshire Lad.

Behold my minstrels, just eleven.
For half my life I've loved them well.
And though I have no hope of Heaven,
And more than Highland fear of Hell,
May I be damned if on this shelf
ye find a rhyme I made myself.

Robert Service

Brueghel

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Dia frio com o inverno a chegar

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.

Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira

e. e. cummings

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As The Poems Go

as the poems go into the thousands you
realize that you've created very
little.

it comes down to the rain, the sunlight,
the traffic, the nights and the days of the
years, the faces.

leaving this will be easier than living
it, typing one more line now as
a man plays a piano through the radio,
the best writers have said very
little
and the worst,
far too much.

Charles Bukowski

dezembro 9, 2006

Kiarostami

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Livro da semana: Antologia, de Manuel Bandeira

O livro desta semana é uma antologia de poemas de Manuel Bandeira, editada pela Relógio D'Água. Figura maior da literatura lusófona (1886-1968), nasceu no Recife e em 1940 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Muitos dos seus poemas são bem conhecidos, como este, que fica para aguçar a voracidade dos leitores:

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

Título: Antologia
Autor: Manuel Bandeira
Edição: Relógio D'Água

True

one of Lorca's best lines
is,
"agony, always
agony ..."

think of this when you
kill a
cockroach or
pick up a razor to
shave

or awaken in the morning
to
face the
sun.

Charles Bukowski

Kiarostami

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Se me puderes ouvir

O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo

José Tolentino de Mendonça

Alfredo Pereira Gomes

Hesitei antes de publicar este post, mas ele escreveu-se aos poucos, subterrâneo e procurando a luz escassa e fugaz. Alfredo Pereira Gomes, matemático e humanista, democrata nos tempos em que se perdia a liberdade por desejá-la ampla, morreu há poucos dias. Soube aqui. Tal como o irmão, Soeiro, foi um jovem antifascista, nos dias em que a coragem era o resultado de vencer os medos vários - de perder o emprego (a carreira académica), da polícia, da tortura, do exílio, da prisão. Embora não o contactasse há um pouco mais de dois anos, as ocasiões em que o ouvi falar, na sua pequena sala num rés do chão sossegado, perto da avenida de Roma, com a simplicidade e a elegância discreta que mostrava ao mundo, produziram-me uma impressão duradoura. Ele, como outros já falecidos, dentro os quais recordo o advogado Manuel João da Palma Carlos e o embaixador Humberto Morgado, ou figuras tão densas e ricas como Stella Biker Correia Ribeiro Piteira Santos e Pilar Baptista Ribeiro (creio que ainda vivas, bem dobrado o cabo dos oitenta), mostravam a diferença do tempo longo, de uma vida cheia - com mágoas, glórias, projectos e esperanças. Vidas que atravessaram um século turbulento e perigoso, interessante e arriscado, onde os seus privilégios de nascimento, nuns casos, ou de carreira, noutros, não os desviaram de sacrifícios pessoais em nome de um ideal de igualdade social. Intelectuais que discutiam, discordavam, se zangavam, mas não traíam as causas em que acreditavam. Gente inteira, imperfeita, exemplar. Tê-los conhecido, ter privado, por uma mera circunstância de acaso, com alguns deles, fez-me mais humana.

Manuel A. Ortiz

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dezembro 10, 2006

Sueños y Deseos

Cuando en días venideros, libre el hombre
Del mundo primitivo a que hemos vuelto
De tinieblas y de horror, lleve el destino
Tu mano hacia el volumen donde yazcan
Olvidados mis versos, y lo abras,
Yo sé que sentirás mi voz llegarte,
No de la letra vieja, mas del fondo
Vivo en tu entraña, con un afán sin nombre
Que tú dominarás. Escúchame y comprende.
En sus limbos mi alma quizá recuerde algo,
Y entonces en ti mismo mis sueños y deseos
Tendrán razón al fin, y habré vivido.

Luis Cernuda

Soun

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If Hands Could Free You

If hands could free you, heart,
Where would you fly?
Far, beyond every part
Of earth this running sky
Makes desolate? Would you cross
City and hill and sea,
If hands could set you free?

I would not lift the latch;
For I could run
Through fields, pit-valleys, catch
All beauty under the sun--
Still end in loss:
I should find no bent arm, no bed
To rest my head.

Philip Larkin

Augustus John

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dezembro 11, 2006

Confiança

A propósito da morte da actriz Adrienne Shelley, Pedro Mexia escreve na última Notícias Sábado, referindo-se ao filme "Trust": O que é que Matthew encontra em Maria? E Maria em Matthew? Acima de tudo, confiança. O nome do filme ilustra essa ideia: amamos aqueles em quem confiamos totalmente. Belo. E simples.

Hunt

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Remorso

Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

Olavo Bilac

Sonia Delaunay

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dezembro 12, 2006

Cacos

(gentileza de Amélia Pais)

Fragmentos, sim, fragmentos, mas de quê?
Que formaremos juntos, nós, pedaços?
Que imagem, qual visão que não se vê
Nascerá da união de nossos traços?
Nós cacos, nós, partidos, nós, a falta
No que daremos, fim que aos olhos salta,
E quem nos juntará? Qual ser? Qual mão?

Alexei Bueno

Singer Sargent

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Bluebird

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?

Charles Bukowski

Anúncio

Vou pôr anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro da água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes.
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.

António Franco Alexandre

Modigliani

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dezembro 13, 2006

Vida: Indefinições

(gentileza de Amélia Pais)

Todo o meu ser é um cântico negro
que te levará
fazendo-te durar
ao despertar dos crescimentos e florescimentos eternos
neste cântico eu suspirei tu suspiraste
neste cântico
eu acrescentei-te à árvore à água ao fogo.

A vida é talvez
uma rua comprida pela qual uma mulher segurando
um cesto passa todos os dias.

A vida é talvez
uma corda com a qual um homem se enforca num ramo
a vida é talvez uma criança a regressar a casa da escola.

A vida é talvez acender um cigarro
na pausa narcótica entre fazer amor e fazer amor
ou o olhar ausente de um homem que passa
tirando o chapéu a um outro homem que passa
com um sorriso vazio e um bom dia.

A vida é talvez esse momento fechado
quando o meu olhar se destrói na pupila dos teus olhos
e está no sentimento
que eu irei pôr na impressão da Lua
e na percepção da Noite.

Num quarto grande como a solidão
o meu coração
que é grande como o amor
olha os simples pretextos da sua felicidade
o belo murchar das flores no vaso
a jovem árvore que plantaste no teu jardim
e o canto dos canários
que cantam para o tamanho de uma janela.

Ah
este é o meu destino
este é o meu destino
o meu destino é
um céu que desaparece com a queda de uma cortina
o meu destino é despenhar-me no voo de estrelas agora inúteis
reconquistar qualquer coisa no meio da putrefacção e da nostalgia
o meu destino é um passeio triste no jardim das memórias
e morrer na dor de uma voz que me diz
eu amo
as tuas mãos.

Irei plantar as minhas mãos no jardim
crescerei eu sei eu sei eu sei
e as andorinhas virão pôr ovos
no vazio das minhas mãos manchadas de tinta.

Vou usar
um par de cerejas gémeas como brincos
e pôr pétalas de dália nas minhas unhas
há um beco
onde os rapazes que se apaixonaram por mim
se demoram ainda com o mesmo cabelo despenteado
os mesmos pescoços finos e as mesmas pernas magras
e pensam nos sorrisos inocentes de uma rapariga
que foi levada pelo vento uma noite.

Há um beco
que o meu coração roubou
às ruas da minha infância.

A viagem de uma forma na linha do tempo
fecundando a linha do tempo com a forma
uma forma consciente de uma imagem
a regressar de uma carícia num espelho.

E é desta maneira
que alguém morre
e alguém segue vivendo.

Nenhum pescador jamais achará uma pérola num pequeno regato
que se esvazia num lago.

Eu conheço uma pequena e triste fada
que vive num oceano
e toca a flauta mágica do seu coração
suave, suavemente
pequena e triste fada
que morre com um beijo todas as noites
e com um beijo renasce a cada amanhecer.


Forough Farrokhzad

Orazio Gentileschi

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You Begin

You begin this way:
this is your hand,
this is your eye,
this is a fish, blue and flat
on the paper, almost
the shape of an eye
This is your mouth, this is an O
or a moon, whichever
you like. This is yellow.

Outside the window
is the rain, green
because it is summer, and beyond that
the trees and then the world,
which is round and has only
the colors of these nine crayons.

This is the world, which is fuller
and more difficult to learn than I have said.
You are right to smudge it that way
with the red and then
the orange: the world burns.

Once you have learned these words
you will learn that there are more
words than you can ever learn.
The word hand floats above your hand
like a small cloud over a lake.
The word hand anchors
your hand to this table
your hand is a warm stone
I hold between two words.

This is your hand, these are my hands, this is the world,
which is round but not flat and has more colors
than we can see.
It begins, it has an end,
this is what you will
come back to, this is your hand.

Margaret Atwood

Kunisada

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dezembro 14, 2006

Da brevidade

(gentileza de Amélia Pais)

Horas breves do meu contentamento,
nunca me pareceu quando vos tinha,
que vos visse tornadas tão asinha
em tão compridos dias de tormento.

Aquelas torres que fundei no vento,
o vento mas levou, que mas sustinha;
do mal que me ficou, a culpa é minha,
pois sobre cousas vás fiz fundamento.

Amor com brandas mostras aparece,
tudo possível faz, tudo assegura,
mas logo no melhor desaparece.

Ó cegueira tamanha! ó desventura!
Por um pequeno bem que desfalece
aventurar um bem que sempre dura!

Diogo Bernardes

Ortiz

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dezembro 15, 2006

Da Distância

(gentileza de Amélia Pais)

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


Al Berto

Hiroshige

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dezembro 16, 2006

Nunca

(gentileza de Amélia Pais)

Nunca
mas nunca será ela capaz
de andar
da mesma forma que foi capaz
de sulcar os espelhos

Vasko Popa

Anónimo

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Trying To Pray

This time, I have left my body behind me, crying
In its dark thorns.
Still,
There are good things in this world.
It is dusk.
It is the good darkness
Of women's hands that touch loaves.
The spirit of a tree begins to move.
I touch leaves.
I close my eyes and think of water.

James Wright

Compassion

What puts me in a rage is
The sight of cursed cages
Where singers of the sky
Perch hop instead of fly;
Where lions to and fro
Pace seven yards or so:
I who love space of stars
Have hate of bars.

I wince to see dogs chained,
Or horses bit restrained;
Or men of feeble mind
In straight-jackets confined;
Or convicts in black cells
Enduring earthly hells:
To me not to be free
Is fiendish cruelty.

To me not to be kind
Is evil of the mind.
No need to pray or preach,
Let us our children teach
With every fond caress
Pity and gentleness:
So in the end may we
God's Kingdom bring to be.

Robert Service

Em Todos os Lugares

Escrevi o teu nome em todos os lugares
procurei-te sem fim nos dias mais incertos
tive sede de ti na solidão dos bares
e fome do teu corpo em todos os desertos.

Fui soldado e lutei em busca do teu rosto
que vi impresso a fogo em todas as esquinas.
Deixei que me queimasse a dor do sol de Agosto
e mergulhei sem medo em plagas submarinas.

Para te ter venci as longas avenidas
de todas as cidades que ninguém ousou.

E por ti viverei largos anos de vida
na ânsia de te dar tudo o que tenho e sou.

Torquato da Luz

Sonia Delaunay

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Livro da semana: O velho que lia romances de amor, de Luís Sepúlveda

O livro hoje recomendado pelo modus é uma bela história… para ouvir. Este áudio-livro ( MHIJ Editores) foi apresentado ao público no dia 28 de Novembro, na Casa Fernando Pessoa, pela voz de Vítor Nobre, que fez a leitura de partes da outra obra editada em simultâneo, “As Rosas de Atacama”. A apresentação foi feita por Francisco José Viegas.

dezembro 17, 2006

Amor

Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Carlos Drummond de Andrade

Sonia Delaunay

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You Take My Hand

You take my hand and
I'm suddenly in a bad movie,
it goes on and on and
why am I fascinated

We waltz in slow motion
through an air stale with aphrodisms
we meet behind the endless palms
you climb through the wrong windows

Other people are leaving
but I always stay till the end
I paid my money, I
want to see what happens.

In chance bathtubs I have to
peel you off me
in the form of smoke and melted
celluloid
Have to face it I'm
finally an addict,
the smell of popcorn and worn plush
lingers for weeks

Margaret Atwood

Picasso

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When a Woman Loves a Man

When she says margarita she means daiquiri.
When she says quixotic she means mercurial.
And when she says, "I'll never speak to you again,"
she means, "Put your arms around me from behind
as I stand disconsolate at the window."

He's supposed to know that.

When a man loves a woman he is in New York and she is in Virginia
or he is in Boston, writing, and she is in New York, reading,
or she is wearing a sweater and sunglasses in Balboa Park and he
is raking leaves in Ithaca
or he is driving to East Hampton and she is standing disconsolate
at the window overlooking the bay
where a regatta of many-colored sails is going on
while he is stuck in traffic on the Long Island Expressway.

When a woman loves a man it is one ten in the morning
she is asleep he is watching the ball scores and eating pretzels
drinking lemonade
and two hours later he wakes up and staggers into bed
where she remains asleep and very warm.

When she says tomorrow she means in three or four weeks.
When she says, "We're talking about me now,"
he stops talking. Her best friend comes over and says,
"Did somebody die?"

When a woman loves a man, they have gone
to swim naked in the stream
on a glorious July day
with the sound of the waterfall like a chuckle
of water rushing over smooth rocks,
and there is nothing alien in the universe.

Ripe apples fall about them.
What else can they do but eat?

When he says, "Ours is a transitional era,"
"that's very original of you," she replies,
dry as the martini he is sipping.

They fight all the time
It's fun
What do I owe you?
Let's start with an apology
Ok, I'm sorry, you dickhead.
A sign is held up saying "Laughter."
It's a silent picture.

"I've been fucked without a kiss," she says,
"and you can quote me on that,"
which sounds great in an English accent.

One year they broke up seven times and threatened to do it
another nine times.

When a woman loves a man, she wants him to meet her at the
airport in a foreign country with a jeep.
When a man loves a woman he's there. He doesn't complain that
she's two hours late
and there's nothing in the refrigerator.

When a woman loves a man, she wants to stay awake.
She's like a child crying
at nightfall because she didn't want the day to end.

When a man loves a woman, he watches her sleep, thinking:
as midnight to the moon is sleep to the beloved.
A thousand fireflies wink at him.
The frogs sound like the string section
of the orchestra warming up.
The stars dangle down like earrings the shape of grapes.


David Lehman

dezembro 18, 2006

Honey At The Table

It fills you with the soft
essence of vanished flowers, it becomes
a trickle sharp as a hair that you follow
from the honey pot over the table

and out the door and over the ground,
and all the while it thickens,

grows deeper and wilder, edged
with pine boughs and wet boulders,
pawprints of bobcat and bear, until

deep in the forest you
shuffle up some tree, you rip the bark,

you float into and swallow the dripping combs,
bits of the tree, crushed bees - - - a taste
composed of everything lost, in which everything lost is found.

Mary Oliver

Dórdio Gomes

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As Virtudes Dialogais

Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso.

Pedro Oom

dezembro 19, 2006

Da Procura

(gentileza de Amélia Pais)

queria dizer-te como as minhas mãos te procuram.
como há um sentido próximo à nossa delicadeza.

queria que soubesses a música. o mar dentro da concha.
um gesto com o pesar da sede. a coincidência da paz.

queria que regressasses bebendo deste poema anelante.
a tempo de escutares a impassível alma dos pássaros.
desentardecendo a meu lado. azulando a última flor.

porque tudo se levanta no murmúrio breve do outono.
tudo se perpetua. tudo se reacende. tudo se comemora.
unindo as águas dos sentidos à mais longa hora do dia.
suspendendo docemente um dos lados do esquecimento.

e tudo procura uma voz. um rio. uma irreversível alegria.
uma inspiração. um gesto interior ao coração do tempo.

uma palavra pulsando fremindo a folhagem da ternura.
as mãos cercando o teu corpo. a tua voz diluindo a sede.


Daniel Gonçalves

Freud

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Called Into Play

Fall fell: so that's it for the leaf poetry:
some flurries have whitened the edges of roads

and lawns: time for that, the snow stuff: &
turkeys and old St. Nick: where am I going to

find something to write about I haven't already
written away: I will have to stop short, look

down, look up, look close, think, think, think:
but in what range should I think: should I

figure colors and outlines, given forms, say
mailboxes, or should I try to plumb what is

behind what and what behind that, deep down
where the surface has lost its semblance: or

should I think personally, such as, this week
seems to have been crafted in hell: what: is

something going on: something besides this
diddledeediddle everyday matter-of-fact: I

could draw up an ancient memory which would
wipe this whole presence away: or I could fill

out my dreams with high syntheses turned into
concrete visionary forms: Lucre could lust

for Luster: bad angels could roar out of perdition
and kill the AIDS vaccine not quite

perfected yet: the gods could get down on
each other; the big gods could fly in from

nebulae unknown: but I'm only me: I have 4
interests--money, poetry, sex, death: I guess

I can jostle those. . . .

A.R. Ammons

Forgiveness

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dezembro 20, 2006

Canto do povo de um lugar

Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia
Fim da tarde a terra cora
E a gente chora
Porque finda a tarde
Quando a noite a lua mansa
E a gente dança
Venerando a noite

Caetano Veloso

Hiratsuka

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dezembro 21, 2006

The Merchant, To Secure His Treasure

The merchant, to secure his treasure,
Conveys it in a borrowed name:
Euphelia serves to grace my measure,
But Cloe is my real flame.

My softest verse, my darling lyre
Upon Euphelia's toilet lay—
When Cloe noted her desire
That I should sing, that I should play.

My lyre I tune, my voice I raise,
But with my numbers mix my sighs;
And whilst I sing Euphelia's praise,
I fix my soul on Cloe's eyes.

Fair Cloe blushed; Euphelia frowned:
I sung, and gazed; I played, and trembled:
And Venus to the Loves around.

Matthew Prior

Kneller

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Matthew Prior

Um figo

Deixou cair a fotografia
um desconhecido correu atrás dela
para lha entregar
ela recusou-se a pegar na fotografia
mas a senhora deixou cair isto
eu não posso ter deixado cair isto
porque isto não é meu
não queria que ninguém
e sobretudo um desconhecido
suspeitasse que havia uma relação
entre ela e a fotografia
era como se tivesse deixado cair
um lenço cheio de sangue
porque era ela quem estava na fotografia
e nada nos pertence tanto como o sangue
por isso quando uma pessoa se pica num dedo
leva logo o dedo à boca para chupar o sangue
o desconhecido apercebeu-se disso
é um retrato da senhora
pode ser o retrato de alguém muito parecido comigo
mas não sou eu
o desconhecido por ser muito bondoso
não insistiu
e como sabia que os mendigos
não têm dinheiro para tirar fotografias
deu a fotografia a um mendigo
que lhe chamou um figo

Adília Lopes

Jogo(s)

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dezembro 22, 2006

Leitura num quarto de hotel

(gentileza de Amélia Pais)

Pouco resta daquele quarto de hotel, da neve colada às vidraças,
de ti e de mim nos gestos do amor,
da sombra do teu corpo na cama,
do ruído de Nova York, daqueles dias que a memória inventa.
No entanto, este livro, um paperback, agora em ruínas,
teima em recordar-nos, símbolo de outra época.
É curioso pensar que esta capa suja,
este papel manchado, estes poemas,
foram mais poderosos que nós,
mais resistentes que a tua pele e a minha.
Contudo, nesta noite de verão, tantos anos depois,
as suas páginas não me levam a Spoon River e às suas gentes
– desolação, estupidez, fracasso
sonhos e mentiras, um rasto de ternura –
a nós, mas somente a nós conduzem, numa noite de fevereiro,
nus e ridentes com o livro nas mãos
sem saber que também ali – desolação, estupidez, fracasso –
estava escrito o nosso inexorável destino.

Juan Luis Panero, tradução de António Cabrita e Teresa Noronha

Bartolozzi

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dezembro 23, 2006

Os amorosos

(gentileza de Amélia Pais)

Os amorosos calam.
O amor é o silêncio mais fino,
o mais trémulo, o mais insuportável.
Os amorosos buscam,
Os amorosos são os que abandonam,
são os que mudam, os que esquecem.
O coração lhes diz que nunca hão-de encontrar,
nunca encontram, procuram.

Os amorosos andam como loucos
porque estão sós, sós, sós,
entregando-se, dando-se a cada instante,
chorando porque não salvam o amor.
Preocupa-os o amor. Os amorosos
vivem dia a dia, não podem fazer mais, não sabem.
Sempre a ir-se,
sempre, para algum lado.
Esperam,
não esperam nada, mas esperam.
Sabem que nunca hão-de encontrar.
O amor é a prorrogação perpétua,
sempre o passo seguinte, mais um, mais um.
Os amorosos são os insaciáveis,
Os que sempre – que bom!- hão-de estar sós.
(...)


Jaime Sabines

Bartolozzi

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Inverno

Começou no dia 22, dizem. O frio azul e cintilante veio preparar-lhe o caminho com umas duas semanas de antecedência - as estações a quererem merecer o nome antigo, por uma vez, no meio das tropelias do aquecimento global, do efeito de estufa, da falta de neve nos Alpes, do degelo dos pólos. Até os ursos andam instáveis, neuróticos com a insónia forçada pela falta de frio adequado à hibernação. Mas, ao menos por uns dias em Dezembro, o Inverno chegou.

Mar de inverno

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No ano passado, fui vê-lo. Desta vez, resta-me adivinhar. Mas ele está lá. Sempre, como símbolo de tudo o que não cede.

Paisagens de Inverno

Ó meu coração, torna para traz.
Onde vais a correr desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou! Volvei, longas noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Cismai, meus olhos, como uns velhinhos.
Extintas primaveras, evocai-as.
Já vai florir o pomar das maceiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias.

Sossegai, esfriai, olhos febris...
Hemos de ir a cantar nas derradeiras
Ladainhas...Doces vozes senis.


Camilo Pessanha

Luz

Conheço a luz que os teus olhos derramam
e o rasto que desenham quando expostos
à nocturna solidão das minhas horas.

É a luz exclusiva dos que amam
acima de ilusões e de desgostos,
alheios a decepções e a demoras.

Torquato da Luz

Ghirlandaio

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dezembro 24, 2006

Il n'y a pas d'amour heureux

(gentileza de Amélia Pais)

Rien n'est jamais acquis à l'homme Ni sa force
Ni sa faiblesse ni son coeur Et quand il croit
Ouvrir ses bras son ombre est celle d'une croix
Et quand il croit serrer son bonheur il le broie
Sa vie est un étrange et douloureux divorce

Il n'y a pas d'amour heureux

Sa vie Elle ressemble à ces soldats sans armes
Qu'on avait habillés pour un autre destin
A quoi peut leur servir de se lever matin
Eux qu'on retrouve au soir désoeuvrés incertains
Dites ces mots Ma vie Et retenez vos larmes

Il n'y a pas d'amour heureux

Mon bel amour mon cher amour ma déchirure
Je te porte dans moi comme un oiseau blessé
Et ceux-là sans savoir nous regardent passer
Répétant après moi les mots que j'ai tressés
Et qui pour tes grands yeux tout aussitôt moururent

Il n'y a pas d'amour heureux

Le temps d'apprendre à vivre il est déjà trop tard
Que pleurent dans la nuit nos coeurs à l'unisson
Ce qu'il faut de malheur pour la moindre chanson
Ce qu'il faut de regrets pour payer un frisson
Ce qu'il faut de sanglots pour un air de guitare

Il n'y a pas d'amour heureux

Il n'y a pas d'amour qui ne soit à douleur
Il n'y a pas d'amour dont on ne soit meurtri
Il n'y a pas d'amour dont on ne soit flétri
Et pas plus que de toi l'amour de la patrie
Il n'y a pas d'amour qui ne vive de pleurs

Il n'y a pas d'amour heureux

Mais c'est notre amour à tous les deux


Louis Aragon

Véspera de Natal

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The Fly

God in his wisdom made the fly
And then forgot to tell us why.

Ogden Nash

Xerox Candy Bar

Ah,
you're just a copy
of all the candy bars
I've ever eaten.

Richard Brautigan

Ao cair da noite

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dezembro 25, 2006

As Vitrines

Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
- Dá tua mão
- Olha pra mim
- Não faz assim
- Não vai lá não

Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir

Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar

Na galeria
Cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão

Chico Buarque de Holanda

Natal

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Filme da semana: The Holiday

O dia de Natal é, para muitos, difícil de ocupar. O cinema oferece uma forma de preenchimento do tempo que, a seu modo, contribui para a descompressão necessária após a azáfama do final da semana que antecede as celebrações em família. O modus recomenda um filme ligeiro, simpático, bem interpretado e sem pretensões para além de entreter com um sorriso bem disposto: O Amor não Tira Férias (The Holiday), cumpre o papel na perfeição.

Título: O Amor não Tira Férias (The Holiday)
Realização: Nancy Meyers, 2006
Com: Cameron Diaz, Kate Winslet, Jude Law, Jack Black, Eli Wallach, Ed Burns, Rufus Sewell

Kate Winslet

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Cameron Diaz

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To A Squirrel At Kyle-Na-No

Come play with me;
Why should you run
Through the shaking tree
As though I'd a gun
To strike you dead?
When all I would do
Is to scratch your head
And let you go.

William Butler Yeats

Actuação escrita

Pode-se escrever

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua
[sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever

Pedro Oom

Sagrada Família

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dezembro 26, 2006

Uma Onda

(gentileza de Amélia Pais)

Uma onda
é amar-te e medo
ciúme deste mar
tan-tan do meu naufrágio
numa canoa de pétala
de acácia

Uma jangada
que me tragas feita
de troncos de palmeira
ou de um barco de negreiros
afundado
e dentro de uma concha
uma notícia

Amar-te é esta distância
e junto ao mar
senti-lo viajado
azul e com estrondo

Amar-te é uma fogueira
sobre a onda
sítio de uma lavra
de milho ou mandioca
na areia que me foge
sob a espuma

Amar-te é isto
com o teu perdão
não agarrar a onda
e mastigar-lhe o sal
que apenas sei
ter já beijado
a tua praia

Uma onda
que penso.
Outra em que reparo.
A mesma em que pensei
e que retorna ao mar.

Porque ficar a onda
— o impossível
(dizem que não havia
mar
remos de sol
nem barcos afundados).

Manuel Rui

Koitsu

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Outro frio

A Man Said To The Universe

A man said to the universe:
"Sir I exist!"
"However," replied the universe,
"The fact has not created in me
A sense of obligation."

Stephen Crane

Observation

If I don't drive around the park,
I'm pretty sure to make my mark.
If I'm in bed each night by ten,
I may get back my looks again,
If I abstain from fun and such,
I'll probably amount to much,
But I shall stay the way I am,
Because I do not give a damn.

Dorothy Parker

Sonia Delaunay

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The Fury Of Sunsets

Something
cold is in the air,
an aura of ice
and phlegm.
All day I've built
a lifetime and now
the sun sinks to
undo it.
The horizon bleeds
and sucks its thumb.
The little red thumb
goes out of sight.
And I wonder about
this lifetime with myself,
this dream I'm living.
I could eat the sky
like an apple
but I'd rather
ask the first star:
why am I here?
why do I live in this house?
who's responsible?
eh?

Anne Sexton

dezembro 27, 2006

Distância

(gentileza de Amélia Pais)

Meu coração é uma terra que cortou relações com o mar
na metade da água, embora árida e sedenta como o deserto.
Que amargo distanciamento, digo a mim mesma,
quão larga é a distância entre os peixes e eu.

Fatema Rakei

Gobert

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Tempus Fugit

Like as the waves make towards the pebbled shore,
So do our minutes hasten to their end;
Each changing place with that which goes before,
In sequent toil all forwards do contend.
Nativity once in the main of light,
Crawls to maturity, wherewith being crowned,
Crookèd eclipses 'gainst his glory fight,
And Time that gave doth now his gift confound.
Time doth transfix the flourish set on youth,
And delves the parallels in beauty's brow,
Feeds on the rarities of nature's truth,
And nothing stands but for his scythe to mow.

And yet to times in hope my verse shall stand,
Praising thy worth despite his cruel hand.

William Shakespeare

Bonnard

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Caminho

O vento faz seu caminho
onde o sol desemboca o mar,
onde a terra tarja o vinho,
onde a noite é seu lagar.

O vento faz seu caminho
onde os mortos vão deitar
e a noite move moinho,
move outra noite no mar.

O vento faz seu caminho
e pássaros vão pousar
na floração dos moinhos
que amadurecem o mar.

O vento faz seu caminho
onde há sede de plantar,
onde a semente é destino
que um sulco não pode dar.

Carlos Nejar

dezembro 28, 2006

Song

She sat and sang alway
By the green margin of a stream,
Watching the fishes leap and play
Beneath the glad sunbeam.

I sat and wept alway
Beneath the moon's most shadowy beam,
Watching the blossoms of the May
Weep leaves into the stream.

I wept for memory;
She sang for hope that is so fair:
My tears were swallowed by the sea;
Her songs died on the air.

Christina Rossetti

Christina Rossetti

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Estreia da semana: The Prestige

Esta semana, o modus escolhe O Terceiro Passo (The Prestige), uma história cheia de surpresas e mistérios que se desenrola na época vitoriana: dois mágicos desenvolvem entre si uma terrível rivalidade que se alimenta de truques e de uma vontade insaciável de desvendar os segredos um do outro. O mais recente trabalho do realizador Christopher Nolan é um thriller envolvente.

Título: O Terceiro Passo (The Prestige)
Realizador: Christopher Nolan, 2006
Com: Hugh Jackman, Christian Bale, Michael Caine, Scarlett Johansson, David Bowie

Hugh Jackman

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Christopher Bale

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Rumor

Rumor de água
Rumor de água
na ribeira ou no tanque?

O tanque foi na infância
minha pureza refractada.
A ribeira secou no verão

Rumor de água
no tempo e no coração.

Rumor de nada.

Carlos de Oliveira

No final de (mais um) ano

O favor das estrelas é convidar-nos a falar, mostrar-nos
que não estamos sós,
que a aurora tem um tecto e o meu fogo as tuas duas mãos.

René Char

Koitsu

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Conselho sábio

Be to their virtue very kind; be to their faults a little blind.

Matthew Prior

dezembro 29, 2006

Amar se Aprende Amando

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.


Carlos Drummond de Andrade

À noite

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In Due Form

I do not doubt you.
I know you love me.
It is a fact of your indoor face,
A true fancy of your muscularity.
Your step is confident.
Your look is thorough.
Your stay-beside-me is a pillow
To roll over on
And sleep as on my own upon.

But make me a statement
In due form on endless foolscap
Witnessed before a notary
And sent by post, registered,
To be signed for on receipt
And opened under oath to believe;
An antique paper missing from my strong-box,
A bond to clutch when hail tortures the chimney
And lightning circles redder round the city,
And your brisk step and thorough look
Are gallant but uncircumstantial,
And not mentionable in a doom-book.

Laura Riding

Vieira Portuense

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dezembro 30, 2006

Cantar Alentejano

(gentileza de Amélia Pais)

Ao romper da bela aurora
Sai o pastor da choupana
Vem cantando em altas vozes
Muito padece quem ama.

Muito padece quem ama
Mais padece quem namora
Sai o pastor da choupana
Ao romper da bela aurora.

Gosto de quem canta bem
É uma prenda bonita
Não empobrece ninguém
Assim como não enrica.

Hei-de cantar, hei-de rir
E hei de ser muito alegre
Hei-de mandar a tristeza
P'ró diabo que a leve

Nolde

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No fio da navalha

"- Também eu quero saber mais coisas acerca do senhor Wataya. Creio que a minha irmã já lhe contou que, em tempos, fui desonrada por esse homem. Por agora não lhe posso dizer mais nada, mas um dia conto-lhe a história. No entanto, sempre lhe adianto que foi um acto contra minha vontade. Tinha-me encontrado com ele para ter relações sexuais. Por isso, não se trata de uma violação no sentido usual da palavra. Mas a verdade é que ele me desonrou, e isso fez-me mudar muito, como pessoa, em mais do que um sentido. Bem ou mal, consegui recuperar. Mais do que isso, e graças à ajuda da minha irmã, essa experiência permitiu-me aceder a um estádio superior. Independentemente dos resultados, porém, o facto é que fui ultrajada e desonrada contra minha vontade pelo senhor Noboru Wataya. O que ele fez comigo estava errado - e foi perigoso. Podia ter-me perdido para sempre."

Haruki Murakami, in Crónica do Pássaro de Corda, trad. Maria João Lourenço, ed. casa das letras.

Picasso, inspirado em Velazquez

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Las Meninas

Confined Love

Some man unworthy to be possessor
Of old or new love, himself being false or weak,
Thought his pain and shame would be lesser
If on womankind he might his anger wreak,
And thence a law did grow,
One might but one man know;
But are other creatures so?

Are Sun, Moon, or Stars by law forbidden
To smile where they list, or lend away their light?
Are birds divorced, or are they chidden
If they leave their mate, or lie abroad a-night?
Beasts do no jointures lose
Though they new lovers choose,
But we are made worse than those.

Who e'er rigged fair ship to lie in harbours
And not to seek new lands, or not to deal withal?
Or built fair houses, set trees, and arbors,
Only to lock up, or else to let them fall?
Good is not good unless
A thousand it possess,
But dost waste with greediness.

John Donne

dezembro 31, 2006

Caillebotte

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Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes

Nolde

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Primeira Carta

(dedicada ao leitor Hans-Jürgen Stenger)

Vozes, vozes. Escuta, coração como outrora somente
os santos escutavam: até que o gigantesco apelo
levantava-os do chão; mas eles continuavam ajoelhados,
inabaláveis, sem desviarem a atenção:
eles assim escutavam. Não que tu pudesses suportar
a voz de Deus, de modo algum. Mas escuta o sopro,
a incessante mensagem que nasce do silêncio.
Daqueles jovens mortos sobe agora um murmúrio em direcção a ti.
Onde quer que penetraste, nas igrejas
De Roma ou de Nápoles, seu destino não falou a ti, tranquilamente?
Ou uma augusta inscrição não se impôs a ti
Como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa.
Que eles querem de mim? Lentamente devo dissipar
A aparência de injustiça que às vezes dificulta um pouco
O puro movimento de seus espíritos.

Rainer Maria Rilke, excerto de As Elegias de Duíno, tradução do poeta Paulo Plínio Abreu publicada no jornal "Folha do Norte" entre os anos de 1946 e 1948 e realizada em parceria com o antropólogo alemão Peter Paul Hilbert.

Beccafumi

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