Do desespero
"Manter a palavra dada a todo o custo é mais uma consequência da sua natureza sombria e desafiante. Uma forma de desespero como outra qualquer."
Arturo Pérez-Reverte, in "O Assédio", trad. Helena Pitta
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"Manter a palavra dada a todo o custo é mais uma consequência da sua natureza sombria e desafiante. Uma forma de desespero como outra qualquer."
Arturo Pérez-Reverte, in "O Assédio", trad. Helena Pitta
(gentileza de Amélia Pais)
As coisas lilases são as bonitas
E surpreendentes, embora haja coisas que
Também o são, e talvez mais.
Sonhos lilases ( as flores), e vestidos lilases,
e as olheiras lilases das heroínas
dos romances românticos.
Lilás é bom. E doce. Entristece-nos e
Reconforta-nos. O meu pensamento,
Neste momento, é lilás.
Hei-de enviar-te um ramo de lilases,
Com um cartão escrito em tinta lilás.
Lê-lo-ás, ao cartão escrito em tinta lilás,
E aqui e ali rirás, sabe-se lá. Um riso
Lilás. Helás!
Antero Abreu

a luz no detalhe
Recobro a razão aos tantos anos
deixo de lado o esbulho
trabalhoso dos horários
e me solto em meses
antes naufragados.
Retorno ao horizonte
observável das promessas.
Abdico do direito
de ser a sociedade
concentrada em gestos.
Palmilho espaços descompassados
e me aproprio do caminho.
Devolvo cada pedra ao desenho anterior.
Pedro Du Bois

momento
Neste instante, neste,
Vê como sonhaste
Tudo o que viveste.
A vida é um engaste
De pedra roubada,
Mas nunca o notaste.
Nada deixou nada.
Dormimos a vida.
Nesta madrugada.
Nesta hora escolhida,
Tua alma, em teu quarto,
Virgem e esvaída,
Faz seu próprio parto.
Alexei Bueno
(gentileza de Amélia Pais)
Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.
Carlos Alberto Machado
retrato equestre de Mademoiselle Croizette
Os poemas que escrevas,
ainda que muitos, são
um só, inacabável,
interceptado um dia:
sufocante abertura
por onde irás descendo
a um poço, uma vertigem,
com uma única saída
que, enfim, vislumbrarás
quando já não tiveres olhos.
José Bento
"Respirei, todavia, bem fundo e segui a minha regra: a de nunca falar francamente às mulheres em momentos de emoção. Daí, nunca vem alguma coisa de bom. Não faz parte da minha maneira de ser responsabilizar-me pelos outros. Penso que já é bastante difícil ver onde ponho os pés."
Iris Murdoch in Sob a Rede, trad. Maria de Lourdes Guimarães

olhando o fumo
Fumar es un placer
genial, sensual.
Fumando espero
al hombre a quien yo quiero,
tras los cristales
de alegres ventanales.
Mientras fumo,
mi vida no consumo
porque flotando el humo
me suelo adormecer...
Tendida en la chaisse longue
soñar y amar...
Ver a mi amante
solícito y galante,
sentir sus labios
besar con besos sabios,
y el devaneo
sentir con más deseos
cuando sus ojos veo,
sedientos de pasión.
Por eso estando mi bien
es mi fumar un edén.
Dame el humo de tu boca.
Anda, que así me vuelvo loca.
Corre que quiero enloquecer
de placer,
sintiendo ese calor
del humo embriagador
que acaba por prender
la llama ardiente del amor.
Mi egipcio es especial,
qué olor, señor.
Tras la batalla
en que el amor estalla,
un cigarrillo
es siempre un descansillo
y aunque parece
que el cuerpo languidece,
tras el cigarro crece
su fuerza, su vigor.
La hora de inquietud
con él, no es cruel,
sus espirales son sueños celestiales,
y forman nubes
que así a la gloria suben
y envuelta en ella,
su chispa es una estrella
que luce, clara y bella
con rápido fulgor.
Por eso estando mi bien
es mi fumar un edén.
Tango (1922) Carlos Gardel
Música: Juan Viladomat Masanas; Letra: Félix Garzo
Mudei de estação: o Outono ficou para trás e as minhas malas.
Agora o céu é duvidoso, como uma mentira inábil.
Na primeira taberna terei de esquecer
A carta melancólica que me tirou o sono.
Ocioso, arrasto-me pela rua, entre escritórios.
As andorinhas partiram e as máquinas de escrever ficaram.
No horizonte há uma grande trombeta de fumo.
Foi há pouco inventado um avião tão pequeno como uma borboleta.
Bravo! É um bom sinal.
A primeira folha de Outono cai no meu chapéu.
Rade Drainac, trad. José Alberto Oliveira

Danae, a da mitologia grega
acabaram meus cigarros
dinheiro tenho pouco
nem uma pessoa influente de poder conheço
não levarei ninguém a qualquer promoção
portanto, não leia este verso
este poema como um meio,
por ele – que sou eu –
não chegará a nenhum futuro brilhante
nem a ocupar um cargo de bom salário
ou daqueles de excelentes aparências.
não tenho nem como trocar favores
não tenho nada que lhe possa interessar
se for por isso nem mesmo um minuto
vale perder comigo.
não precisa de discrição,
afasta-se rápido
finja em qualquer lugar que passo despercebido.
muitos conhecidos pensam em me querer
- no mínimo do que tenho.
mas não tenho nada, nem o mínimo
nem mesmo um verso rimado
não tenho o que oferecer
pode pensar que me ver
é avistar um rosto de dia de semana
um rosto de olhar cansado o trajeto de uma terça-feira
sim, sou um dia de semana arrastado
sem uma ninharia.
melhor, então, é me deixar jogado num canto
prometo que a partir de hoje
logo que alguém falar comigo
antes de todas as coisas falarei assim direto
não tenho nada – será meu cumprimento
Jefferson Bessa

fotografia de Christophe Clark e pintura de Virginie Pougnaud, ou a leitura combinada numa bela homenagem a Edward Hopper
Obsequio o soneto: digo em versos,
o muro erguido em tijolos diversos
guarda espaços inatingíveis, empilha
frutos ao relento. Recubro o soneto em ventos
soprados na expressão do verbo. Realizo
em sons o tormento do mar sobre as pedras.
Sobre as pedras ergo o muro: tijolo
resultante do cozimento do barro; início
cristalizado separa mundos: declamo
obsequioso o soneto. Silencio
paredes e portas em adjetivos.
Pedro Du Bois
Que glacialmente só na noite está o meu candeeiro público.
As pedritas da rua descansam as pequenas cabeças em seu redor
ali onde ele abre o seu guarda-chuva de luz sobre elas
para que não se aproxime a malvada obscuridade.
Estamos todos longe de casa, diz.
Já não há esperança alguma.
Rolf Jacobsen, trad. Luís Parrado

odalisca, ou a corrente de ar
(gentileza de Amélia Pais)
Uma mulher a fazer compota em julho
revela-se resignada a viver com o marido.
Não vai fugir às escondidas com o amante.
Se assim não fosse, de que serviria cozer fruta com açúcar?
E vejam como ela o faz de boa vontade,
como um trabalho feito com amor,
mesmo que o espaço tenha um valor excessivo
e não haja sítio para armazenar os boiões.
Uma mulher a fazer compota em julho
está a preparar-se para ficar por aqui durante uns tempos.
Pretende aquartelar-se e hibernar
para atravessar os desconfortos do inverno.
Se assim não fosse, por que razão - e, notem,
sem que haja nisso qualquer dever -
gastaria ela o verão tão breve
a limpar restos de compota.
Uma mulher a fazer compota em julho
no meio do caos de uma cozinha cheia de vapor
não se está a preparar para fugir para o Ocidente
ou para comprar um bilhete para os EUA.
Essa mulher há-de escapar aos desmoronamentos da neve
salva pelo sabor da fruta.
Na Rússia quem faz compotas
sabe que não há saída.
Inna Kabish, trad.Luís Parrado

Chloe, ou estado de espírito
Quando pela primeira vez olhei uma pintura verdadeira
dei alguns passos atrás instintivamente
sobre os calcanhares
procurando o local exacto de
onde pudesse explorar sua profundidade.
Foi diferente com as pessoas:
Construí-as,
amei-as, mas não cheguei a amá-las plenamente.
Nenhuma chegou tão alto quanto o tecto azul.
Como numa casa inacabada, parecia haver uma folha de plástico por cima delas,
por vez do telhado
no princípio do outono chuvoso da minha compreensão.
Luljeta Lleshanaku, trad. João Luís Barreto Guimarães

encarando o devir
Certos jogos gritam resultados
trancados em gargantas
afogadas em líquidos
reaparecem em esbirros
espirros
no acordo
desacordado em regras:
ao vencedor
cabe o barulho
infernal do nada
quantificado no instante.
Depois a vida segue o trajeto
previamente decorado: ao vencedor
resta a tênue lembrança
do que esquece.
Pedro Du Bois
(gentileza de Amélia Pais)
Esta língua que eu amo
Com seu bárbaro lanho
Seu mel
Seu helénico sal
E azeitona
Esta limpidez
Que se nimba
De surda
Quanta vez
Esta maravilha
Assassinadíssima
Por quase todos os que a falam
Este requebro
Esta ânfora
Cantante
Esta máscula espada
Graciosíssima
Capaz de brandir os caminhos todos
De todos os ares
De todas as danças
Esta voz
Esta língua
Soberba
Capaz de todas as cores
Todos os riscos
De expressão
(E ganha sempre a partida)
Esta língua portuguesa
Capaz de tudo
Como uma mulher realmente
Apaixonada
Esta língua
É minha Índia constante
Minha núpcia ininterrupta
Meu amor para sempre
Minha libertinagem
Minha eterna
Virgindade.
Carlos Alberto Portugal Correia de Lacerda

Marquesa de Castellane
Lágrimas dos olhos, como centelhas de sílex,
como uma palavra justa, arrancar para que serve?
Nada há de especial. A palavra é como fogo,
e o coração do homem não vive de soluços.
Não é absolutamente isso que me atormenta.
Mas levantarmo-nos de madrugada, à chegada do dia,
e dizer a quem vai à frente:
- Felicidade! –
Dar-lhes uma canção, com toda a alegria,
que proteja como uma autêntica armadura,
das palavras que soam vãs e falsas.
Queremos do homem não a centelha mas o fogo.
Margarita Aliger, trad. Manuel de Seabra

salero antigo
Este ano, o Equinócio de Outono ocorre no dia 23 de Setembro às 09h05m (tempo universal), 10h05m em Portugal continental. Este instante marca o início da estação no Hemisfério Norte, a qual se prolonga até ao próximo Solstício.

um Outono colorido
Enfim aqui estou de pé
Passei por ali
Alguém passa por lá agora
Como eu
Sem saber onde vai
Eu tremia
Ao fundo do quarto a parede era negra
Ele tremia também
Como pude eu transpor o limiar dessa porta
Poder-se-ia gritar
Ninguém ouve
Poder-se-ia chorar
Ninguém entende
Encontrei a tua sombra na obscuridade
Era mais doce do que tu
Antigamente
Estava triste a um canto
A morte trouxe-te essa tranquilidade
Mas tu falas ainda
Queria abandonar-te
Se entrasse ao menos um pouco de ar
Se o exterior nos deixasse ainda ver claro
Sufoca-se
O tecto pesa-me na cabeça e empurra-me
Onde vou eu meter-me para onde partir
Não tenho espaço que chegue para morrer
Onde vão os passo que se afastam e que escuto
Longe muito longe
Estamos sós a minha sombra e eu
A noite cai
Pierre Reverdy , trad. Eugénio de Andrade

a luva caída, ou o prazer do detalhe
(gentileza de Amélia Pais)
às vezes falo na linguagem escondida dos pássaros. de uns que talvez não existam e eu só saiba sonhar. problema meu, claro,que ninguém me entende.
deixo de te entender também e ouço-te piar intermitências de um discurso humano absurdo.
às vezes falo na linguagem secreta que convém à solidão apenas, nada mais.em desespero de causa, procuro o entendimento nuns olhos, os quais construo como ninhos.chego a guardar por lá ovos. como se algum (in)certo dia esses ovos pudessem simplesmente não quebrar ,nascer asas, voar comigo.
um dia, hei-de ver filhos de olhos que os meus escolheram. e esse corpo verde há-de ser a minha casa. uma grande árvore com braços. e quem sabe...um pé no mar.
Maria Alexandra Cruz Mendes
Nota: bold da responsabilidade do modus vivendi, por afinidade electiva

passeio à luz da cor
Desde o início sou minha apropriada
profecia na organização do tempo
permitido à minha efemeridade.
O rancor cede espaço no transcorrer
dos dias: domesticado na melancolia
da memória (não a lembrança de águas
passadas na aridez do descaminho).
Pedro Du Bois
Não se pode incendiar o mar
nem convencer o homem de que a felicidade é perigosa.
Ele sabe, todavia, que o menor choque é fatal à ânfora cheia
e deixa intacta a ânfora vazia.
Omar Khayyam

uma visão do outono
Embora tenha o sol para me alumiar
e a lua e as estrelas depois do sol se pôr
sem a luz dos teus olhos negros
é sempre negra a noite em meu redor
Bhartrihari, trad. Jorge Sousa Braga

poesia pintada
Solitária,
a Poesia percorre a Terra.
Sua voz possui as notas da
dor do mundo.
Ela nada pede,
sequer palavras.
Vem de longe, jamais
avisa a hora de sua chegada:
suas são as chaves da porta.
Entra. Olha-nos profundamente.
Depois, suas mãos se abrem:
Entrega-nos uma flor,
um seixo? Algo secreto,
tão intenso que o coração
dispara.
Então, despertamos.
Eugénio Montejo, trad. Sandra Baldessin

a febre numa qualquer sexta feira
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