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Arquivo de outubro 2011

outubro 1, 2011

Outonais

1.
Névoa no cabeço do monte.
A folhagem de Outono cobre o chão.

2.
Chuva nas vidraças.
A maré sobe nas pedras do rio Tejo.

3.
Acabou o Verão.
Mudou o canto dos pássaros.

4.
Rupturas no Outono.
Lágrimas caindo com a chuva.

5.
Ao sol poente romãs abertas.
Cintilam as estrelas.

6.
Outono. A noite dissolvida na bruma.
A lua brilhando alto.

7.
Nuvens rosa no horizonte tranquilo.
Despertam as gaivotas.

8.
Pingos de chuva. Lágrimas no lago
dos peixes prateados.

9.
Caem no lago as folhas amarelas.
Foge um peixe assustado.

10.
Folhas orvalhadas aguardam em suspenso
auroras de Dezembro.

11.
Melancolia do mundo
sem princípio nem fim.

Yvette Centeno

outubro 2, 2011

Viseu revisited

(gentileza de Amélia Pais)

Não falo das ruas da minha infância,
nem as nomeio,
para que ignorem a pequenez do meu mundo.

Tinham, porém, fauna e flora,
as árvores davam sombra e frutos,
os homens bom-dia e os pássaros cantavam.

Fernando Ferreira de Loanda

Audrey Kawasaki

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imaginação à solta

outubro 4, 2011

Corrente

Sobre a corrente
o rio desfaz o tempo
aquoso da espera:

nenhuma carta recebida
no tempo inócuo de lembranças

a água caudalosa
despejada pela represa:

toda água represada
repercute caudas
de dragões extintos.

Pedro Du Bois

Audrey Kawasaki

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white feathers

outubro 5, 2011

Harmonia(s)

“Portanto, trata de realizar sempre, sem apego, a acção d’harmonia com teu próprio karma, porque, ao realizar a acção sem apego, o homem, na verdade, alcança o Ser Supremo.”

Bhagavad-Gitá

Krishna & Arjuna

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a procura infindável

outubro 6, 2011

Labirinto de sombras

Fabricava sombras,
chinesas, decorativas e pontualmente comunhões,
mas o telefone nunca tocava,
por vezes um rato cruzava o cenário,
procurando queijo, esconderijos, essas
coisas, já sabem ao que me refiro,
outras vezes havia fantoches,
amiúde ia perdendo os poucos papéis a que se podia permitir,
em raras ocasiões bebo, declarou, nunca
quando trabalho,
só quando a garrafa caiu
ao chão, e depois,
é que adivinhou aquela solidão que o contemplava,
inventou um chapéu imaginário, também de sombra,
e fez uma saudação magnífica no ar,
as cores das lâmpadas resvalam ainda pelas paredes,
as algemas embutiram as mãos, uma
última saudação, disse, o cenário, disse,
trata-se da minha vida, a solidão
brindava, tão solitário como ela o carro partiu,
outro jogo de sombras contra a parede.

Alfons Navarret

as artes do fogo

(gentileza de Amélia Pais)

Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas.
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.
Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.

Herberto Hélder

outubro 7, 2011

Krishna & Arjuna II

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instruções prévias

outubro 9, 2011

Acaso de existir

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira

outubro 10, 2011

Submerso

Recupero na música
triste dos portenhos
a saudade
escondida
sob a pele
curtida
do progresso:

tenho medo
de não regressar
ao útero

e me ver afastado
ao todo da família

a música cadencia o olhar
absorto ao nada: olho
e não vejo o presente

no arco do trajeto

a música se faz ágil
e forte: corto as amarras
e submerjo.

Pedro Du Bois

outubro 12, 2011

Da vida breve

Usem as vossas jóias de oiro e os vossos vestidos de seda.
Saboreiem enquanto é tempo os frágeis prazeres da vida.
Os ramos ficarão despidos quando vier o grande frio.
Sem o sol, emurchecidas as flores, que é a vida? Apenas saudade.

Tu Chiu Nang, trad. António Ramos Rosa

outubro 13, 2011

Robert Bruce

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Dorothea Tanning, ou o surrealismo lá fora

Como sempre

Duas mulheres jogavam as cartas.
Eram as duas formosas e perversas.
As duas faziam batota. A partida
prolongava-se mais do que o costume,
a julgar pelos gestos de impaciência
que nenhuma ocultava. Vida e Morte
se chamavam. E tinham apostado
o coração de um homem, como sempre.

Amália Bautista, trad. Luís Januário

outubro 14, 2011

Os dias cinzentos

Os dias cinzentos. Eles vêm, eles insinuam-se com o tempo. Deixas de vislumbrar os matizes que desaparecem como ténues, cintilantes flocos na memória. Ficar sentado e pensar de repente. Que está mais cinzento, que queres libertar-te, mas continuas sentado, em completo silêncio, imaginas-te dentro do cinzento porque há nele uma leveza, porque ele é algo de fortuito que se ajusta bem aos dias, e quando queres sair dele, estás deitado indefeso no meio do caminho, como um animalzinho, destrutível, mesmo com o mais ligeiro toque.

Aasne Linnesta

outubro 16, 2011

Dorothea Tanning

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ignoti nulla cupido, ou não se deseja aquilo que não se conhece

outubro 17, 2011

A Chuva Pasmada

(gentileza de Amélia Pais)

Ante o frio,
faz com o coração
o contrário do que fazes com o corpo:
despe-o.
Quanto mais nu,
mais ele encontrará
o único agasalho possível:
um outro coração.

Mia Couto

outubro 19, 2011

Acalmia ruidosa

(gentileza de Amélia Pais)

Em quatro sinos

1. instante inicial

eis a história das sílabas igualando
os confins das linhas de água.
a alegria peregrina percorre cidadelas
como as sentinelas do mar: as águas
vêm dar à beleza das sílabas
como se houvesse um luminoso
reencontro: era o instante inicial.

2. primeiro instante intermédio

esperava que a paisagem pintasse
noites vizinhas. E insígnias rebuscando
cacimbos numa desconhecida povoação.
Porém, apareceram riozinhos esverdeados
Iluminando armadilhas, angústias
E telas infernais: nascia a nação comum
Encerrando torturas sobre as lágrimas.

3. segundo instante intermédio

parecia um reino de passo fascinante
suficiente para enriquecer estômagos estranhos.
precioso? os rios não diziam o contrário.
e desfilava maldita miséria insuficiente
para desencantar a plenitude humana.
em reino que raspava a fortuna
crescia a flor do dia frequentando
abraços virgens. ricos em sonhos enfeitiçados.

4. instante final

teria o solo da eternidade outras cinzas?
onde adormece o abrigo crescem
um insondável silêncio e delicadas
folhas cuja cor saúda a origem da sombra:
todas as cinzas pronunciavam a eternidade.
Era a repetição dos passos e imagens.
Imagens do milénio anterior.

João Maimona

Dorian Allworthy

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natureza viva

outubro 22, 2011

Canção da Alma Caiada

Aprendi desde criança
Que é melhor me calar
E dançar conforme a dança
Do que jamais ousar

Mas às vezes pressinto
Que não me enquadro na lei:
Minto sobre o que sinto
E esqueço tudo o que sei.

Só comigo ouso lutar,
Sem me poder vencer:
Tento afogar no mar
O fogo em que quero arder.

De dia caio minh’alma
Só à noite caio em mim
por isso me falta calma
e vivo inquieto assim.

António Cícero

Max Ernst

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"a lua é uma coisa boa"

outubro 23, 2011

Desfazer

Numero acontecimentos
desordenadamente. Capitulo
ao extremo desgosto
das arrumações: a cama
os objetos
a comida
o banho
retiro da estante o livro
instantaneamente convertido
em acompanhante: desarrumo os fatos
e os distribuo pela casa:
a história forjada
de reis e reinos:
a desabilitação das fábulas
moralizam o animal que teima
sua liberdade.

Pedro Du Bois

outubro 24, 2011

Real

"Real eyes realize real lies."

outubro 25, 2011

Discurso Vazio

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero
há calma e frescura na superfície intata
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Carlos Drummond de Andrade

Joana I

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rainha de Nápoles e condessa da Provença, ou o poder medieval no feminino

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