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Arquivo de novembro 2011

novembro 1, 2011

Unicamente para a poesia

(gentileza de Amélia Pais)

Unicamente para a poesia esta vida, unicamente
para a poesia certos jogos, para a poesia uma tarde de inverno e só
atravesso o mundo inteiro, a paz de um instante,
de um rosto imóvel;
unicamente para a poesia, tu, a mulher,
unicamente para a poesia tantos crimes,
o aguaceiro do Ganges nas nuvens,
unicamente para a poesia desejo viver por largo tempo,
viver como um homem, viver imperfeito,
unicamente para a poesia
rejeitei a eternidade.

Sunil Gangopadhyay, versão de Luís Parrado

Hyde Park

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um belo começo de Outono

novembro 2, 2011

Cair do pano

As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa

de areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz

do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá

irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.

Rui Knopfli

Giotto

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turning points

novembro 3, 2011

A velha

Esculpida em silêncio,
sentada e sábia,
fita o horizonte da mágoa.

Ao seu lado,
o mar murmura
as sílabas do ocaso.

Ó beleza antiga e súbita:
sobre o seu ombro
o instante se debruça,
iluminado.

Adriano Espínola

Giotto

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"que ninguém me toque..."

novembro 4, 2011

Um sonho

Movida
pelos singulares flocos de neve
em que me traja,
por um instante pareço uma noiva
a bailar
ante o instrumento que segura
nas mãos,
deve ser um sonho,
é um sonho,
pois ele não toca

Aasne Linnesta

novembro 5, 2011

O fim da estrada

Bem junto do portão
da minha Torre branca de Marfim,
silente e pequenina,
que brilha, intensamente, ao sol de verão
como gota de orvalho cristalina
nas folhas dum jasmim,
passa uma estrada
que tem nas valas rosas de toucar.
Via suave, ainda não trilhada,
que ninguém sabe, não, onde vai dar!

Um camponês velhinho,
de negra tez e fronte recurvada,
cabelos brancos, mais que o branco linho
que a moça doba em horas de lazer,
me disse que nascera aquela estrada
ali, na hora em que me viu nascer.
Contava mais caminhos de montanha
do que estrelas o céu pode contar,
mas essa estrada lisa, assim tamanha,
nunca soubera, não, onde ia dar!

Aéreo sonhador
— um misto de Pierrot e de Arlequim —
à luz do sol que me aquece e me desvela,
já vão vinte anos que parti por ela,
há dez não vejo a Torre de Marfim!
A ocultar-me o passado — que se esfuma
numa saudade que faz mal à gente —
e a esconder-me o futuro até ao fim,
há uma cortina azul de fina bruma
que, penosa, se arrasta à minha frente
e, insondável, se estende atrás de mim!
Há vinte anos caminho, no entretanto,
ora abatido, ora de novo audaz:
ou vendo o fim tão longe, num quebranto,
com mil desejos de voltar atrás.

Ora tropeço e caio e vou seguindo
desalentado já deste medonho,
interino correr, ora vou rindo,
na mente a abrir a flor dum novo sonho.

Da minha Torre branca de Marfim
há vinte anos parti, brilhante o olhar,
buscando o fim da estrada, que, sem fim,
não sei, eu próprio, ainda, onde vai dar.

Álvaro Feijó

Lilya Corneli

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em tom sépia fora de tempo

novembro 6, 2011

O modo mais simples

Guio-me
Por teus olhos abertos
Sobre a trémula e ardente
Superfície das lágrimas.

De tantas coisas
É feito o Mundo!

Entre escombros, espigas, dias e noites
Procuram os homens ansiosamente
O ramo de louro.

Quando, fatigados,
Próximos estão do limiar, do pórtico,
Os homens deixam, à entrada,
Suas mais queridas coisas.

E ei-los que apenas se incomodam,
E se interrogam,
Sobre o modo mais simples
De se despir e adormecer.

Raul de Carvalho

Lilya Corneli

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o vento lá fora

Hábito

Dos hábitos incrustados o hálito
da serpente antecipa o bote:

límpido momento
amortecido no veneno
inoculado

(o silêncio receoso
da verdade no deslizar
do corpo e a peçonha)

dói o ponto atingido
amortecido espírito:
a luz se apaga
na mágica
do regresso.

Pedro Du Bois

novembro 7, 2011

Cotovia

Extrema brasa do céu e primeiro ardor do dia,
Engastada na aurora canta a terra agitada,
Carrilhão dono de seu alento e livre caminho.

Fascinante, matam-na maravilhada.

René Char, trad. Eugénio de Andrade

Lilya Corneli

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sem disfarces

novembro 8, 2011

Boletim Meteorológico

Céu muito nublado vento
Fraco moderado de sudoeste

Soprando forte nas terras
Altas aguaceiros em especial

Nas regiões do Norte e Centro
E que serão de neve nos

Pontos mais altos da Serra
Da Estrela e no teu coração.

Jorge Sousa Braga

George Dunlop Leslie

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encanto fin de siècle

novembro 9, 2011

Outono em Cigulda

Salto para a plataforma do comboio
e digo adeus.
Adeus, Verão.
Mas já sinto saudades
Da datcha onde o martelo soa.
Fecham a minha casa de madeira.
Adeus.

As árvores perderam já as folhas
E agora, nuas e tristes,
São como um acordeão
sem música.
E nós, nós
também somos estranhos,
partimos,
como se fosse assim determinado,
do ergo,
das mães
e das mulheres,
assim tem sido sempre assim será.

Adeus, Mãe,
começas a ficar já transparente
à janela, como num casulo.
O dia extenuou-te, certamente,
e só nos resta descansar.

Amigos e inimigos, good-bye!
Em breve, quando soar o silvo do comboio
vocês, aí, vão ficando para trás
e eu vou-me afastando de vocês.

Despeço-me da terra.
Serei talvez estrela ou salgueiro branco,
mas não irei chorar, não sou nenhum pedinte.
E agradeço à vida que passou.

Nos campos de combate,
tentei matar, poupando as munições,
mas não fui capaz
e pela terceira vez digo obrigado,
porque entre as pás transparentes a vista penetrava
como um punho de sangue
em luvas de borracha.

Andrei Voznessensky

George Dunlop Leslie

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o conforto de um bom chá num dia de chuva

novembro 10, 2011

Júbilo

Tomaste
arrancaste-me o coração
e simplesmente foste com ele jogar
como uma menina com a sua bola.

E eu de júbilo
esqueci o jogo.
Louco de alegria
saltava
como em casamento de índio
tão leve
tão bem me sentia.

Maiakovski

Lilya Corneli

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mistérios

Perdição incerta

A luz que me dás, esquiva e dura,
serve-me de abrigo onde desfeito
é já o meu cansaço. Halo escuro
a luz dói – perdição incerta
de um pobre e calcinado coração
que sabe de amor
o que batalhas são.

Casimiro de Brito

novembro 11, 2011

Livro do frio

Estou nu diante da água imóvel. Deixei minha roupa
no silêncio dos últimos ramos.

Isto era o destino:
chegar à margem e ter medo da quietude da água.

Antonio Gamoneda, trad. José bento

George Dunlop Leslie

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a sombra ao fundo

novembro 12, 2011

O Sol da Tarde

Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.

Ah este quarto, não é nada estranho.

Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.

Estarão ainda os coitados nalgum lugar.

Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.

...De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só . . . Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.

Konstandinos Kavafis, trad. Joaquim Manuel Magalhães e N. Pratsinis

Lilya Corneli

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Transparências e opacidades

novembro 13, 2011

Progresso

Ser a madrugada
do tempo
anoitecido: barbarizar
o desconhecimento
em novas ciências

cientificar
a desnecessidade
de estar vivo

ser a divulgação do próximo
desacontecimento e se apresentar
na plenitude com que o regresso
traz o medo.

Pedro Du Bois

novembro 14, 2011

George Dunlop Leslie

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bons tempos...

Fantasia da Primavera

Cai o sol no imenso horizonte, em flor, do Kiang.
Pára o viandante a olhar. A chuva, que do arvoredo ainda goteja, vai-lhe repassando a túnica...
Oh! se dos mil chorões, à volta das ruínas do palácio real de Ch'u,
As flores soltas me fizessem cortejo, à despedida, no regresso à Pátria.

Hsii-Chên C'hing, trad. Camilo Pessanha

novembro 15, 2011

Ressurreição

Volto a cantar, e voltam-me à memória
As rústicas imagens,
Que guardei na retina
De menino:
O repique do sino
Depois das negras horas da Paixão,
E a brejeira
Canção
Que num toco
Já oco
De cerdeira
- Flauta que um pica-pau lhe dera -
A seiva assobiava à Primavera...»

Miguel Torga

George Dunlop Leslie

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um prazer infalível

novembro 16, 2011

Breve momento

Breve momento após comprido dia
De incómodos, de penas, de cansaço
Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,
Posso a ti me entregar, doce Poesia.

Desta janela aberta, à luz tardia
Do luar em cheio a clarear no espaço,
Vejo-te vir, ouço-te o leve passo
Na transparência azul da noite fria.

Chegas. O ósculo teu me vivifica
Mas é tão tarde! Rápido flutuas
Tornando logo à etérea imensidade;

E na mesa em que escrevo apenas fica
Sobre o papel — rastro das asas tuas,
Um verso, um pensamento, uma saudade.

Alberto de Oliveira

George Dunlop Leslie

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tempo de pausa

novembro 17, 2011

O homem que contempla

(gentileza de Amélia Pais)

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
Esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido

por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke

Lilla Cabot Perry

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passado em tons pastel

novembro 21, 2011

Tempos

Avesso ao calendário traço
no espaço o tempo onde me distraio:

sei do amanhecer que me acorda
do meio dia que me alimenta
da tarde propícia à tormenta
da noite em que me desoriento

revisito o tempo na capa
da magia e me refugio
em mim mesmo

mantenho o som do rádio
e me delicio em estáticas: olhos
fechados
imagino a cena na tela
despegada.

Pedro Du Bois

Lilly Martin Spencer

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descascar cebolas é sempre ingrato...

novembro 22, 2011

Resíduos

(gentileza de Amélia Pais)

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...

De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.

De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

Carlos Drummond de Andrade

Lisa Christiansen

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perdida em pensamentos

novembro 24, 2011

Canto da Manhã

Acorda. A cama está mais fria
e os lençóis sujos sobre o chão.
Olha que pelos vidros da varanda
chega o amanhecer,
com sua cor de agasalho de outono
e liga de mulher.

Acorda, pensando vagamente
que o porteiro da noite vos chamou.
E escuta no silêncio: sucedendo-se
no ar, ao longe, ouvem-se enrouquecer
os eléctricos que levam ao trabalho,
É o amanhecer.

As flores ir-se-ão amontoando
cortadas já, pelas tendas das Ramblas,
e gorgearão os pássaros - cabrões -
sobre os plátanos, quando já podem ver
a negra humanidade que se deita
depois do amanhecer.

Lembra-te do quarto em que dormiste.
Enterra a cabeça na almofada,
sentindo ainda a irritação e o frio
que dá o amanhecer
junto ao corpo que nos agradava tanto
e estamos a esquecer,

e pensa que devias levantar-te.
Pensa na tua casa ainda às escuras
onde entrarás para mudar de fato,
e no escritório, com o sono p'ra vencer,
e em muitas outras coisas anunciadas
desde o amanhecer.

Embora a teu lado escutes o sussurro
de outra respiração. Embora tu procures
o pouco de calor entre suas coxas,
meio dormente, que começa a estremecer.
Embora o amor não deixe de ser doce
feito ao amanhecer.

Junto ao corpo que à noite me agradava
assim tão nu, deixa-me acender
a luz para nos beijarmos face a face,
no amanhecer.
Pois eu conheço o dia que me espera,
e não pelo prazer.

Jaime Gil de Biedma, trad. José Bento

Lisa Christiansen

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dolce far' niente

novembro 25, 2011

Poema em que se fala de caminhos...

Andar, andar, andar
é o destino dos amantes
que não têm destino
como nós
nem têm, nem querem
casa para viver.
Por isso há tantos poemas
em que eles vão...
Iremos nós também
e todos os caminhos nos servirão
porque onde tu estiveres comigo
não haverá mais ninguém.
Iremos e se a noite nos surpreender
no meio da jornada
- e é muito natural que sim
porque sendo longe e incerto
o fim que levamos
enquanto não chegamos
estaremos no meio-
se a noite nos surpreender
a única coisa que faremos
á dar-nos as mãos
e caminharemos assim
que o que é principal
é não nos perdermos um do outro.
E se o meu ombro se cansar
de receber a tua cabeça
-e é muito natural que sim
porque é longe e incerto o nosso fim-
se o meu ombro se cansar
-que também os amantes se cansam às vezes-
se o meu ombro se cansar
sempre encontraremos uma pedra
para atapetar com o musgo dos teus cabelos
- que eu não acredito que as pedras sejam duras
e desconfio que a dureza está nas suas cabeças-.
Sempre encontraremos uma pedra...
Era de pedras que faziam o presépio do menino
lá na minha terra
o presépio onde iam dar
todos os caminhos feitos de serradura.
E eu, que no tempo era um rapazinho travesso
mas dado à meditação,
pensava se todos os caminhos acabariam ali
ou se cada um
não seria a continuação de outro.
E às vezes eu
-que no tempo era um rapazinho travesso-
gostava de fazer às escondidas do cura
com serradura
um caminho que não passasse
pelo presépio do menino.
E havia lá,
na arca da sacristia da minha terra,
um boneco de barro que não era um pastor
mas antes parecia um poeta
ou um vagabundo
ou um doutor moderno desempregado.
E era esse desengraçado boneco,
muito simpático por sinal,
que eu punha a encher todo aquele caminho
desviado do presépio do menino.
E sempre ele progredia um bocado todos os dias
-artes mágicas que eu exercia às escondidas do cura-
apesar do ar atarantado que tinha
e passava indiferente
aos coros mudos dos anjos e dos pastores
-lá que eles estavam com a boca aberta, estavam-.
E sabes tu, ó meu amor,
porque é que ele não se perdia
naquele caminho de serradura
que não passava pelo menino
apesar do ar atarantado que tinha?
Era porque a estrela de prata
-nós chamávamos prata àquelas folhas de estanho
que vêm a enrolar os cigarros e os chocolates-
era porque essa estrela de prata
estava pregada com um arame
num ramo de pinheiro
mais alta do que o presépio do menino
e alumiava todos os caminhos
sem distinção.
Assim o meu vagabundo
o meu doutor desempregado
com mais ou menos um empurrão
lá ia chegando à cidade
feita de papelão
que luzia no alto do monte
à sombra do pinheiro
de onde pendia aquela estrela de prata.
É verdade que no fim
ia para a arca como os outros
mas não tinha ficado ali
durante toda a época do natal
a olhar para o presépio
com o seu menino
e os seus animais
como um animal.

Geraldes de Carvalho

Lilla Cabot Perry

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uma rosa é uma rosa, ou da ressonância

novembro 26, 2011

Dedicatória

A todos os que nas noites tempestuosas das revoltas
procuram uma lua infantil
aos que já não tinham tempo, aos que foram esquecidos
na doçura do sono quando todos nos tinham abandonado
aos espelhos onde nos fitámos, aos mares que não
navegaremos
aos caminhos que percorremos apaixonados e a que talvez
não tenhamos voltado
ao destino, à bela juventude, aos viajantes
(e eu, aonde ia? e era assim tanto o que pedia? Mas agora é
tarde - tempo de partir)
às aves de arribação, às locomotivas a vapor que se
cansaram e se viraram de lado para dormir
às espigas que a luz ilumina, às raparigas que despem a saia
para entrarem no céu
às cartas de um anjo para um menino, aos que se atrasaram,
aos que nunca voltarão
à mulher que deita as cartas, ao velho que chora
à Odisseia que vive o poeta ao escrever o mais pequeno
poema
ao instante luminoso que viveu um homem vivendo uma
vida inteira...

Tasos Leivaditis, trad. Manuel Resende

Lilla Cabot Perry

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violetas, ou uma ligeira nota em fundo

novembro 27, 2011

Esperanças de um vão contentamento

Esperanças de um vão contentamento,
por meu mal tantos anos conservadas,
é tempo de perder-vos, já que ousadas
abusastes de um longo sofrimento.

Fugi; cá ficará meu pensamento
meditando nas horas malogradas,
e das tristes, presentes e passadas,
farei para as futuras argumento.

Já não me iludirá um doce engano,
que trocarei ligeiras fantasias
em pesadas razões do desengano.

E tu, sacra Virtude, que anuncias,
a quem te logra, o gosto soberano,
vem dominar o resto dos meus dias.

Marquesa de Alorna

Pitschmann

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Leonor de Almeida Portugal, 4.ª Marquesa de Alorna, ou da posteridade

novembro 28, 2011

Irrefletido

Não me reflito
ao cobrir o vidro
com espelhos

metalizo a vontade
inaudita de ser visto

resisto ao espaço
e cedo o corpo
em sacrifício.

Opaco: embaço
a vista.

Pedro Du Bois

Lilla Cabot Perry

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o chapéu preto, acessório imprescindível neste tempo tão outonal

novembro 29, 2011

espelho dos teus olhos

sophia de ti
disseram-me que
recitavas poemas
em voz alta nos eléctricos
que cantavas nas ruas de Lisboa
enquanto os teus filhos te procuravam
(viram a mãe, aquela que troca tudo e não confunde nada)
e dançavas frente ao espelho dos teus olhos
sempre sempre ao desafio

ah sophia
sofia eras
sophia és

(passeei pelo teu jardim
tão abandonado estava
deu-me vontade de chorar)

Bénédicte Houart

Lilly Martin Spencer

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olhar sem ver, ou enfrentando o nevoeiro

novembro 30, 2011

Do Primeiro Regresso

(gentileza de Amélia Pais)

Escuta meu Amor, quando eu voltar
De tão longe, e avistar de novo o Tejo,
O meu Restelo que em saudades vejo
Como outra Índia a conquistar

Quando a minha alma inquirida sossegar
Este voo indomável, num adejo,
E o amor e o céu e Deus, vivos num beijo,
Iluminarem todo o nosso lar:

Quando, meu Santo Amor, voltar o dia
Do primeiro regresso, e a aleluia
Madrugar tua alma anoitecida...

Hás-de embalar-me sobre o teu regaço
Arrolar, encantar o meu cansaço...
E então será o meu regresso à Vida!

Augusto Casimiro dos Santos

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