Lorenzo Lippi

alegoria da música, no início de um mês cheio de canções
« novembro 2011 | entrada | janeiro 2012 »

alegoria da música, no início de um mês cheio de canções
De súbito - uma pequena raposa, brincalhona,
inunda com alegria o teu ferido coração
Ela procura o teu rosto com o seu olhar singular,
sabe que te identificas com ela na sua pose vagabunda
Nessa mesma noite em que suspirei por ti,
em que senti a falta do teu delicado despertar
e ansiei pela lua que sabia de cor os nossos nomes
Esse vidro estilhaçado e esquecido,
o esquilo atrevido que fugiu -
abandonando-nos tudo: a noite, e o vinho
E quanto a mim - estou bêbedo de sede,
tremo de desejo por ti -
mas não há nenhuma raposa aqui para ser encontrada
Al-ssadiq Al-raddi, versão de Luís Parrado
O que amas de verdade permanece,
o resto é escória.
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
Ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado
Ezra Pound, trad. conjunta Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari

pequenos peixes dourados
Now look at what you've just done to me
Now it's to late to pretend
I tried to play smart
But right from the start
I hoped this was how it would end
I told myself it was ridiculous
A silly adolescent or more
I argued the cost
I argued and lost
And now of one thing I am sure
You are my lucky star
I saw you from a far
Two lovely eyes at me, they were gleaming, beaming,
I was star struck
Your are my lucky charms
I'm lucky in your arms
You've opened heavens portal
Here on earth for this poor mortal
You are my lucky... lucky?
(speaking)
I wonder... I wonder how many girls would consider it lucky
To be held in the strong, manly arms of Donald Lockwood!
The glamorous star of the silver screen!
A year ago it would have scared me half to death.
That was when I was a member of your fan club.
Fan? Me? I was the president!
Why, you know, I waited outside the grad derby for two hours one night
Just to get a glimpse of you.
But it was worth it! You looked so dazzling in your green knickers,
Yellow sweater, and orange beret!
I just swooned!
You see...
I was star struck.
And now that I've confessed
I'll tell you all the rest
Your my Fairbanks,
My Moreno,
Rod La Rocque
And Valentino
You are my lucky star.

o rosto da voz abaixo
Se eu voltar a lamber as botas do passado,
se eu voltar a chorar a memória da memória:
que me seque a mão direita!
Quando o teu calor vier
pelo vento tardio deste verão tão puro
e corromper o meu tato;
e o roçar da tua nuca me fizer tremer,
se eu assobiar a tua mínima canção,
se eu procurar a tua boca
e o ruído das tuas ruas estrangular o meu coração:
que me cole a língua ao paladar!
Ó devastadora filha de Babel,
feliz quem devolver a ti
o mal que me fizeste!
Não pedirei mais
perdão às virtudes do passado.
Repetirei, em desassombro
— se eu me lembrar de ti, Jerusalém —,
com os que diziam:
“Arrasai-a!
Arrasai-a até os alicerces!”
José Almino

o vigor do traço barroco
Eu deveria ler a Bíblia.
Grande, negra, ela olha-me de uma estante.
Eu devera lê-la, mas tenho medo
de tantas palavras, pensamentos, nomes, histórias,
de tantos avisos, saberes, intenções,
de uma voz remota de uma gravidade cinzenta.
Eu deveria ler, tenho medo de não ler,
tenho medo deste medo.
Eu deveria ler, mas não faço mais do que voltar
a cabeça e abrir a janela.
Que faria o homem se não tivesse uma janela?
Danijel Dragojevic, versão de Luís Parrado

na ignorância
Comprei um cavalo a um louco.
Tinha-o desenhado ele mesmo
e era de resto um cavalo perfeitamente vulgar
excepto os olhos que ficavam nas ventas.
Tinha-o feito assim
de propósito: para as pessoas estarem bem certas
da sua loucura
e comprarem melhor.
Eu comprei.
Pensei no cavalo: ele ficaria no pinhal
à tarde quando o sangue corre das orelhas do sol.
Pentti Saarikoski, trad. Egito Gonçalves

jogo de sombras, ao gosto seiscentista
A Imaculada Conceição é, segundo o dogma católico, a concepção da Virgem Maria sem mancha ("mácula") do pecado original, e foi definida como uma festa universal em 1476, pelo Papa Sisto IV. Só se tornou dogma no pontificado do Papa Pio IX, através da bula Ineffabilis Deus, em 8 de Dezembro de 1854.

uma imagem tradicional
o corpo e a matéria em prosa
aqui e agora
nada de primeiros motores
nada de supremos valores
isso fica para os filhos da pátria
nem francisco de assis nem santa teresinha
amai-vos uns sobre os outros
nada de temores e tremores
nem de noite escura da alma
a prosa é preferível
"sei de um estilo penetrante
como a ponta de um estilete". flaubert
é só isso
Sebastião Uchoa Leite

uma expressão serena
Sou austera e destemida
quando o momento requer;
mas nos teus braços, vencida,
Sou simplesmente mulher.
Quanto esta vida seria
difícil de suportar,
se não fosse essa mania
que a gente tem de sonhar!
Quantas vezes, sem maldade,
dizemos que estamos sós...
E é quando Deus, na verdade,
está mais perto de nós!
Um carro de boi gemendo,
um longo apito de trem,
uma porteira rangendo,
isto é saudade também!
Não é quando vais embora
que tenho ciúmes assim,
é quando estás como agora,
pensativo, junto a mim.
A casinha... o verde monte...
o caminho... a velha estância...
Mas... que fizeram da ponte
onde eu pescava na infância?...
Há três coisas que a mulher
consegue fazer de um nada;
- uma intriguinha qualquer,
um chapéu e uma salada!...
Carolina Azevedo de Castro

um pintor brasileiro na passagem do século XIX para o século XX
Um vento glacial sopra
Os olhos dos gatos
Pestanejam
Matsuo Bashô
O alazão contempla
os reflexos brilhantes
do rio que submerge
as suas patas no vau.
E o cavalo crê
que voa, que a aurora
surge da sua garupa
com as suas asas de cisne.
Mas não levanta voo.
Próximo está
a árida orla
que alcança
vadeando.
Mordisca a erva.
Caem molhados
os raios
dos seus flancos sem asas.
Hannes Pétursson, versão de Amadeu Baptista

outras águas
"Faz tudo como se estivesses a ser contemplado."
Epicuro

uma releitura interessante
"De todas as coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que se originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade."
Epicuro

sanguínea em perfeito movimento
(gentileza de Amélia Pais)
Já não estou em minha casa.
Ando por Valparaíso.
Há muito que estava
A escrever poemas espantosos
E a preparar aulas espantosas.
Terminou a comédia:
Dentro de alguns minutos
Parto de bicicleta para Chillán.
Não fico nem mais um dia aqui.
Estou só à espera
Que me sequem um pouco as penas.
Se perguntarem por mim
Digam que ando pelo sul
E que não regressarei até ao mês que vem.
Digam que fui atacado pela varíola.
Atendam o telefone.
Que não ouvem o ruído do telefone?
Esse ruído maldito do telefone
Vai acabar por me enlouquecer!
Se perguntarem por mim
Podem dizer que me levaram preso.
Digam que fui a Chillán
Visitar a campa do meu pai.
Não trabalho nem mais um minuto.
Já chega o que fiz.
Que não chega tudo o que fiz?
Que diabo! Até quando
Querem que continue a fazer o ridículo?
Juro nunca mais escrever um verso.
Juro não mais resolver equações.
Acabou-se para sempre a coisa.
Bilhetes para Chillán!
Vou percorrer os lugares sagrados!
Nicanor Parra, trad. Henrique Fialho

em suspenso, na desordem aparente
ser a vida entre parênteses
na explicação dos teores ocultos
do desplante: mentir explicações
de contados elementos na imagem
modulada no limite do esgarçamento:
conta apresentada em favores;
desligar o som e explicar o silêncio
do quarto entreaberto em atos.
O sentido do rosto contra o espelho
melancólico das imagens. Texto
tosco das palavras sem sentido.
Pedro Du Bois

contrastes
All things that love the sun are out of doors;
The sky rejoices in the morning's birth;
The grass is bright with rain-drops;--on the moors
The hare is running races in her mirth;
And with her feet she from the plashy earth
Raises a mist, that, glittering in the sun,
Runs with her all the way, wherever she doth run.
William Wordsworth

um outono quase no fim
Esperando uma justa recompensa vamos entrando nos anos.
Mais valia apascentarmos ovelhas
e, se chovesse, abrigarmo-nos debaixo de uma árvore frondosa
para escutarmos, como bons cordeiros, em paz e sossego,
as reprimendas de Deus.
Ou ir ao bosque abater árvores de modo a que
o nosso corpo laborioso se adaptasse, a pouco e pouco,
como um machado,
ao ritmo dos golpes no tronco.
Abrir um buraco, pelo menos, na solidão.
Já ninguém escreve ao coronel.
Um farsante sobe à cena e faz girar os olhos
e a poeira é removida. Louvado seja até aos céus.
Mas ao cair da noite todas as partículas dessa poeira
hão-de voltar a cobrir, imóveis, o solo.
Assim, quando de súbito começarem a soprar
ventos mais quentes
apanhar-nos-ão desprevenidos e não saberemos recordar
em que ângulo exacto deveríamos desfraldar
as velas das nossas camisas.
Jüri Talvet, versão de Luís Parrado

o enigmático prazer dos frutos
Um pedaço de pão, um copo de água fresca,
a sombra de uma árvore e os teus olhos!
Nenhum sultão é mais feliz do que eu.
E nenhum mendigo é mais triste.
Omar Khayyam

uma odalisca de ontem
Lenta, água fresca, qual minha lágrima salgada;
Porém mais lenta ainda, ó fraca fonte boa;
Ouve, a música transporta a voz magoada;
Ela chora a separação enquanto entoa:
Definhai ervas e flores;
Desabai chuvas de dores,
Beleza, nossa nunca fostes;
Oh, antes fosse minha sina,
Qual neve liquefeita em costa de colina,
Cair em gotas, gota a gota:
Da natureza o orgulho é um narciso sem vida.
Ben Jonson

o branco das formas
Fiel ao princípio da autonomia
entre poderes evite a intromissão
entre as partes. Sabe
e conhece o espectro turvo
das cores da bandeira.
O ódio intrometido entre as partes
avança e destrói o desconhecido.
Não retorna sobre escombros
e se esconde em salas
refrigeradas: poder exercido
sobre a contingência dos amores.
Alvo de paixões destroça corpos
submetidos em tensão: o suplício
descompensa a similitude do ato.
Onde repousam sonhos acorda
em batidas milimétricas. Tacões
ressoam pisos de concreto. É
o que lhe permitem conhecer.
Explodem fogos artificializados
no espaço descontinuado da espera.
Desperta e acompanha a luta
desarmada das histórias
melancólicas: herói na situação
anacrônica do enredo. Ao vilão
cabe o luxo iluminado
dos palcos de vergonhas.
Arremesso e arremate. Diálogo
continuado entre surdos. Espíritos
em testes de segunda classe.
Bestiário revivido ao dia
entre sinais e estacionamentos.
Não revê nas ruas o soldado
de outrora. Não reconhece o uniforme
e a uniformidade em trajes
desconexos prova o inimigo.
Amizades
negócios
traições
e adultérios.
A potencialidade da imagem transmuda
o ser em escolhas. A destruição das pontes
permanece receptáculo da ousadia.
Atravessar o fosso e se descobrir em fósseis
aumentados. Atravancar a saída e se cobrir
em entradas. O final do túnel
em notícias repetitivas.
A bebida descontrai o ânimo
com que a vida demonstra virtudes.
A virtuosidade da morte engalana
o recém chegado. O estrangeiro
transformado em nativo se acomoda
em estrangeirismos.
Reflete sonhos. Repete sonos. Realiza
a introdução ao processo e se perde
em meandros liberalizantes. A competição
revigora a mente na escolha da testemunha
do açodamento. diretores vicejam almas
de apenados funcionários em desconforto.
O clube recebe seus sócios e os distribui
em salões de acordo com suas situações
político-sociais.
No portão a segurança se enreda
em assaltos: o assassino sorri perplexidades
na facilidade com que perpetra o crime.
Sirenes ecoam medos. O alarme desarma
a visão silenciosa da conquista. Não distante
a ordem esconde contraditoriedade: para
os efeitos da lei a escolha se faz agora.
Manifestos distribuem raivas enjauladas
em quatro paredes. A palavra de ordem
desordena o status do melodrama.
Na similitude a coragem reencontra
sua visão feminina. A visão masculina
desencontrada em si murmura
juras de amor em eternizadas
amizades
saudades
e lembranças juvenis.
Jamais - na afirmação contraditória -
são reformados os presídios: punidos
na justaposição da indigência vislumbram
a luz penetrar janelas encadeadas.
Estar livre e gozar as prerrogativas
da indecisão. Procurar em vão
a responsabilidade no avesso
do acerto minorado em almas
desacompanhadas: o pranto
reflui torrentes e a condição afeta
a tradição perdida em silêncio.
O canto situado como livre estivesse o cantar
como se o cantar livrasse da desdita
como se desdizer fosse o conteúdo maternal
na oração primária dos dissabores.
Trair a atenção. Atrair a atenção em ato
de coragem. Descontrair a tensão
em ato covarde de agressão
e mentira.
No sorriso da mulher que passa
entre carros revê a mulher da vida
recolhida na casa dos prazeres.
No matraquear dos recreios receia
induzir a voz ao encontro da verdade
e retirar do exposto a contrariedade
das notícias não alvissareiras.
Alvo. Seta perfurante. Bala penetrante.
Símbolo cortante. Pedra contundente.
A busca nos primeiros passos
mambembes e o reluzir do ouro
conquistado. Fosse outra a época
e com certeza estaria preso ao passado.
Ao futuro são oferecidos óbices
em escaladas argutas e infiltrantes.
Se a mulher se apresenta nua, dispa-se
de sua vaidade e vá até ela. Cubra-a
com sua vergonha. A mulher se sentirá
devedora da sua ousadia.
Avesso ao estardalhaço, distribua panfletos
e torne a leitura obrigatória. Troque algumas
palavras. Entorne o caldo. Estremeça o senso
elementar das confusões. Aprofunde o tema
em nada consta. A liberdade perdura
enquanto a guarda se nacionaliza
em combates.
A fraqueza dos pais é responsável
pelo aviltamento, jogue a moeda ao mendigo
em gritos e palavrões. Desperte a vilania
e a destrate com fraquezas e ódios.
Descarregar a arma empunhada na luta
diante da máquina fotográfica o transforma
em notícia e no martírio do jornal escrito
se mantém ávido de reconhecimentos.
Não se debruce sobre a amurada: o atirador
de elite se distrai em beijos e sua arma
dispara na antevisão da morte.
Pedro Du Bois

sensibilidade e bom senso, ou a lição de música
Em 2011, o Solstício ocorre no dia 22 de Dezembro, às 05h30m. Este instante marca o início do Inverno no Hemisfério Norte. Esta estação prolonga-se até ao próximo Equinócio, que acontecerá no dia 20 de Março de 2012, às 05h14m.
Um desejo: que passe depressa e bem...

que o sol brilhe, para lá do frio
Seja o Natal a verde catedral
O pólen, a semente, a flor
A obscura baga ou a nossa árvore interior
Seja o Natal a água cristalina
O mar, a nuvem, o vapor
A dura lágrima ou o nosso rio interior
Seja o Natal a suma claridade
O crepúsculo, a íris multicor
A escura sombra ou a nossa luz interior
É um dia a inteira humanidade
Uma noite reluz a Alegria, o sonho redentor
Manhã fresca, a palavra renasce e desagua em Amor
António

foto de Mafalda Pires da Silva
When eggnog's generously filling
Each and every Christmas mug
And siblings tour miles and miles
To greet you with a hug
There's scarce else I'll be wishing
Than this simple little prayer
Of peace and calm and blessings much
On Christmas Day this year.

um anjo seiscentista em pleno movimento
A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.
Manuel António Pina

outro inverno, outra cidade, outro(s) tempo(s)
essa quimera palpável,
esse recanto sombrio,
essa descida precisa,
às pressas, às tais crateras
da satisfação, as sobras
desses vínculos, que são?
esse instante inatingível,
essa fresta na fronteira
do olvido, esse filme-fim,
essa vírgula perdida,
à-toa, na imensidão,
esse conchavo, que são?
e mais além e pra sempre...
é verdade sim: mentimos
de acordo com nossa carne,
esse acúmulo de sonhos,
esse tumulto de tédios,
esse eclipse de sinapses,
e o que foi e ainda mais...
porque pesávamos tempos,
não tínhamos sequer Ítaca
pra regressar, nem saídas
desses labirintos íntimos,
vivíamos a exceção:
o amor-mor, desafiando
o infinito de uma folha
em branco, essa trajetória
do existir, a alegre fonte
mágica, essa descoberta:
o lance da poesia.
Adriano Nunes

hoje, uma lua igual a esta
(gentileza de Amélia Pais)
eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento
tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros
entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada
depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou
ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia
então ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar
e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo
o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória
dos lados não ficou nada
Mário Cesariny

mercado de Natal, em Berlim, há muito tempo
E se for a árvore de Judas este amor
pendurado num canto apartado da casa.
As mãos perdidas nos cortes
nas cicatrizes dos beijos
nos pés inquietos, aguardando
percorrer o mesmo idêntico percurso.
Os nossos corpos não nos bastavam
nós os tínhamos trocado entre nós
por acaso ou para derrotar a sorte.
Agora a pele cinzela outras palavras
filtra a luz e aguarda distanciada
outros perfumes, ou os jogos da morte.
Alessio Brandolini, trad. Vera Lúcia de Oliveira

o que estará nos detalhes?
Estas linhas quis que fossem as mais certas
as luminosas e precisas as concretas
E que se espuma deixassem que fosse apenas na dose exacta
Mais que palavras estas linhas quis que fossem
A intenção que há por trás das palavras
Confesso até que quis
destas linhas
Que tivessem a subtileza o entusiasmo o sal
o infantil descaramento
Do oceano que se manifesta
na areia
no movimento das algas
e das consciências
Destas linhas fica
e não é pouco
A saudade de palavras que não estas
que estas sou eu que as digo e nelas não cabem as vossas palavras
e o que em vós há de sorriso silêncio sonho e luta
Nem sempre grandes nem sempre pequenas
nem sempre com tamanho ou sem tamanho
Estas linhas deveriam ser como nós moinhos gigantes fadas ou duendes
à conquista de todas as estações do ano e
(com sorte)
Do melhor que há em cada estação.
Assim seja.
Rui A.

um lugar inesperado
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