Wish: Keep on going
"Saints are sinners who kept on going."
Robert Louis Stevenson
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"Saints are sinners who kept on going."
Robert Louis Stevenson

conversa calma depois das festas
Quando Goethe punha a mão
direita – segurando a pena –
sobre uma página, os deuses
fixavam-no, temendo
que, ao escrever, porventura
lhes roubasse a sua língua,
na qual cada coisa tem um nome
vedado aos mortais.
E quando se punha
em pé, com a cabeça
inclinada, as deusas
despiam-se das suas túnicas
e dos seus longos pendentes
para que as cantasse pelos seus nomes.
Ángel Crespo

indumentária ideal para o tempo húmido
(suscitado por uma leitura de Henry David Thoreau)
Uma coisa são factos, outra a poesia.
Assim Thoreau tentou pôr no mundo ordenação.
Mas quê? Descobriu afinal que nos factos havia,
quanto mais interessantes e mais belos, mas a tradução
da terra ao céu que os porta,
e toda a sua poesia num livro único cabe,
indiscerníveis os factos da beleza.
Seu crivo.
Aurélio Porto

aproveitando o inverno
Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.
Fernando Pessoa

forma(s)
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um abrigo mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
José Tolentino Mendonça

uma lenda com encanto
Os Reis Magos (em grego), na tradição cristã, são personagens que teriam visitado Jesus logo após o seu nascimento, trazendo-lhe presentes. Foram mencionados no Evangelho segundo S. Mateus, onde se afirma que teriam vindo "do leste" para venerar o Cristo, "nascido Rei dos Judeus".
Cuando te quedas solo, eres espejo
de lo que fuiste:
una mañana
contemplada desde el balcón
entornado; unos pasos
armoniosos que no has seguido
para no derramar tu gozo;
unas cuantas palabras
que te cambiaron más que el tiempo;
una mirada que se ahogó
como luz en tus venas;
un viaje que nunca querías
terminar; tu alma ausente
de lo que te esperaba
al quedarte tan solo.
Ángel Crespo

a improvável levitação
A tarde põe as tristes mãos de seda,
ermas de jóias e de pedraria
sobre o cabelo de ouro da alameda
sonolenta de maio e fim de dia
a tarde põe as tristes mãos de seda.
O mistério do outono embala tudo
no silêncio de seu recolhimento;
e as mãos da tarde, suaves, de veludo,
descem do céu, num gesto longo e lento,
ermas de jóias e de pedraria.
Um par de lábios, trêmulos, fugazes,
perfumados de sombra e de desejo,
depõem, numa carícia de lilases,
a religiosa unção de um grande beijo
sobre o cabelo de ouro da alameda.
E esta fica a sonhar, como quem sonha
um infinito sonho de saudade,
numa quietude mística e tristonha,
sob o incenso da meia-claridade,
sonolenta de maio e fim de dia...
Alceu Wamosy
(gentileza de Zeferino Silva)
Quando ficas sozinho, és espelho
Do que foste:
uma manhã
contemplada da janela entreaberta
da varanda; alguns passos
harmoniosos que não seguiste
para não derramar teu prazer;
umas quantas palavras
que te mudaram mais que o tempo;
um olhar que se afogou
como luz em tuas veias;
uma viagem que não querias
terminar nunca; tua alma ausente
do que te esperava
ao ficares sozinho.
Ángel Crespo, trad. José Bento
estrelas, para que vos quero?
Escrevo; logo, sinto, logo, vivo,
e tiro-lhe ao viver a indisciplina
que o espraiaria, que o dispersaria,
e dou-lhe a minha forma comedida,
a que tem o tamanho de um amor
que eu guardo, que não gasto, não disperso;
amor que se concentra em dura pérola,
não pétala, não isto que é um excesso,
pois que pode voar; o que me fica
de tudo o que acontece e não se altera,
de tudo o que acontece e me escraviza,
e do que escravizando me liberta.
Escrevo; logo, sou quem se domina,
e quem avança numa descoberta.
Marly de Oliveira

um belo perfil oitocentista
Na fronteira passo minha inexistência.
Trêmulas bandeiras desencontradas
evitam a minha mão. Desfaço os nós
presos ao estribilho e torno o hino
impatriótico na universalidade.
Espaço o caminho das ultrapassagens.
Ao lado é estar aqui na consequência.
Pedro Du Bois

glamour em estado puro
A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços
Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos
Assobio às pequenas esperanças
Que vêm lamber-me os dedos
Perco-me no teu retrato
Horas seguidas
E ao trote do ciúme deito contas
Deito contas à vida.
Alexandre O'Neill

sol de inverno
Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.
Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.
Pois deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,
Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.
Ary dos Santos
Se há pessoas que não estudam ou que, se estudam, não aproveitam, elas que não se desencorajem e não desistam; se há pessoas que não interrogam os homens instruídos para esclarecer as suas dúvidas ou o que ignoram, ou que, mesmo interrogando-os, não conseguem ficar mais instruídas, elas que não se desencorajem e não desistam; se há pessoas que não meditam ou que, mesmo que meditem, não conseguem adquirir um conhecimento claro do princípio do bem, elas que não se desencorajem e não desistam; se há pessoas que não distinguem o bem do mal ou que, mesmo que distingam, não têm uma percepção clara e nítida, elas que não se desencorajem e não desistam; se há pessoas que não praticam o bem ou que, mesmo que o pratiquem, não podem aplicar nisso todas as suas forças, elas que não se desencorajem e não desistam; o que outros fariam numa só vez, elas o farão em dez, o que outros fariam em cem vezes, elas o farão em mil, porque aquele que seguir verdadeiramente esta regra da perseverança, por mais ignorante que seja, tornar-se-á uma pessoa esclarecida, por mais fraco que seja, tornar-se-á necessariamente forte.
Confúcio

animando um céu pouco azul
Todo dia ouço o rumor das águas
Em lamento,
Graves como a gaivota, indo
Só, no vento
Que grita ao mar em seu moroso
Movimento.
No vento frio, no vento escuro
Vou-me à toa.
Escuto o manancial que lá do
Fundo escoa.
Dia e noite, escuto-o - indo, vindo,
Ele escoa.
James Joyce, trad. Alípio Correia de Franca Neto

a carta como mancha em fundo escuro
Das coisas tangíveis, as menos duráveis são as necessárias ao próprio processo da vida. O seu consumo mal sobrevive ao acto da sua produção; no dizer de Locke, todas essas «boas coisas» que são «realmente úteis à vida do homem», à «necessidade de subsistir», são «geralmente de curta duração, de tal modo que - se não forem consumidas pelo uso - se deteriorarão e perecerão por si mesmas».
Hannah Arendt, in A Condição Humana

elegância a preto e branco
Reafirmo a descrença
no regresso
no progresso
no anverso do bilhete
escrito no estertor do espírito
prefiro crer na indolência
caseira dos profetas:
no livro reaberto
nos dias de raciocínios
intransigentes em defesa do futuro.
Pedro Du Bois

Madalena arrependida, mas de quê, ao certo?
Como quem, vindo de países distantes fora de
si , chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.
Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.
Manuel António Pina
Quando alguém já não tem forças para escrever, tem de recordar.
Quando já não tem forças para fotografar,
tem de ver com os olhos da alma.
Quando já não tem forças para ler,
tem de estar repleto de histórias.
Quando já não tem forças para falar,
tem de ecoar.
Quando alguém já não tem forças para andar, tem de voar.
E quando chega a hora,
tem de se desprender das recordações
e dos olhos da alma e deixar de ressoar,
calar-se e dobrar as asas.
Mas aconteça o que acontecer a história continua, continua.
Eeva Kilpi, versão de Luís Parrado

companhia invulgar
Nada resta
um rastro de calafrio,
nem uma trisca,
ou sombra de voo de canário?
Mas a nuvem que passou,
intocada sobre a batalha,
pousa na crista do poema
e risca o vivo da memória.
José Almino, in A Estrela Fria

uma rosa é uma rosa?
Tão esguia a gata
Não da falta de cevada
mas do amor
Matsuo Bashô

atmosfera de inverno, ainda
Virá o tempo
quando exultante
hás de saudar-te ao chegar, em teu espelho, e cada qual
retribuirá sorrindo a saudação do outro,
e dirá, senta-te aqui. Come.
Amarás de novo a quem te era estranho: a ti mesmo.
Dá vinho. Pão. Teu coração de volta
a si mesmo, ao estranho que toda a vida
te amou, que, por causa de um outro,
desconsideras, quem te conhece de cor.
Pega as cartas de amor na estante,
As fotos, as anotações desesperadas,
Descasca do espelho tua imagem.
Senta-te. Refastela-te com tua vida.
Derek Walcott, trad. Nelson Archer
Estou contando prosa
mas, em vista do que disseste,
tudo são gestos de circunstância,
versinhos
pura
brincadeira
sempre à parte,
como a modéstia
e a ironia
que não dão conta nem para o gasto
nem para o resto
José Almino, in A Estrela Fria
(gentileza de Amélia Pais)
Deitada, repousa a flor. Deitado, além, repousa o canto.
Lapido esmeraldas, derreto o ouro: e eis o meu canto.
Engasto esmeraldas: eis o meu canto.
O homem inclina-se para polir o canto como uma turqueza.
E o deus faz brilhar o escudo de plumas de quetzal.
Imitas o pássaro verde-azul, o pássaro de fogo.
Embriaga-se teu coração: absorve a flor da pintura, o canto pintado.
E abres agora as asas de quetzal.
Ondulas com tuas plumas de arco-íris, ó pássaro de
colo vermelho e plumagem cor de malva.
Bebe o mel. A grande flor perfumada apareceu na terra.
Herberto Helder

as árvores vão reflorir não tarda
Vinham rosas na bruma florescidas
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.
Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.
Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.
E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
em bruma a brisa em que se aviva a rosa.
Fernando Echevarría

retrato de Eileen Mayo
Primeiro esquece que horas são
por uma hora
faz isto regularmente todos os dias
depois esquece em que dia da semana estás
faz isto regularmente por uma semana
depois esquece em que país estás
e pratica esta acção acompanhado
por uma semana
depois faz as duas coisas juntas
por uma semana
com tão poucas interrupções quanto possível
em seguida esquece como se adiciona
ou como se subtrai
tanto faz
podes substituir uma acção por outra
passada uma semana
ambas te ajudarão
mais tarde
a esquecer como contar
esquece como contar
a começar pela tua própria idade
a começar por como se conta para trás
a começar pelos números pares
a começar pelos números romanos
a começar pelas fracções de números romanos
a começar pelo antigo calendário
seguido do velho alfabeto
seguido do alfabeto
até ser tudo contínuo outra vez
passa então ao esquecimento dos elementos
a começar pela água
logo depois a terra
a crescer em fogo
esquece o fogo
W. S. Merwin, versão de António Ladeira

Miss Auras em pose de leitura, ou outro livro vermelho
É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.
Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?
Alberto Caeiro

melancolia ou reflexão?
Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.
Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer...
Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas...
Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos...
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras!-
Mas...,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada...
Fernando Namora

graciosidade delineada por volta de 1927
Sobre o monte ao longe
distingo a única presença
azulando o espaço
(perco a visão do aproximado)
os olhos detidos ao instante
sonham a seca noite
que me invade.
Pedro Du Bois

felizmente há luar
Tantas formas revestes, e nenhuma
Me satisfaz!
Vens às vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o amor é um grito
Desesperado
Que apenas ouve o eco...
Peco
Por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
Cheio de um vinho herético e sagrado.
Miguel Torga,

a lembrar um quadro familiar
(gentileza de Amélia Pais)
O nome diz tudo
levavam da ilha maior
as cabras, que no ilhéu ficavam a pastar.
Também queria uma ilha assim
deste modo pequena, sombreada pelo ombro
da outra. Que não tivesse fantasma humano
nem sequer qualquer presença de antiga raça. Que
restasse
a urze entre as rochas
a cinza nevoada do mar
o dia e a noite.
Não precisa do mundo
somente lhe resta a viagem da ave que pousa na
escarpa
quando vem o outono
e a flor amarela dos cubres pelo fim do inverno.
João Miguel Fernandes Jorge

o livro fechado, como o rosto
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