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Arquivo de fevereiro 2012

fevereiro 1, 2012

Da sinceridade

A sinceridade dessa gata,
de um tigrado quase infinito,
delicada como alegre jogo
de crianças adormecidas,
lembra-me, à tarde,
quando ouço pianistas,
uma única varanda
e uma única janela.
Como solstícios de inferno
o repuxo abre-se em luz.
Tomara o canto fosse nosso
sem searas e sem ciprestes.

Pedro Braga Falcão

Louis Icart

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a leveza art deco

fevereiro 2, 2012

The End and the Beginning

After every war
someone has to clean up.
Things won’t
straighten themselves up, after all.

Someone has to push the rubble
to the side of the road,
so the corpse-filled wagons
can pass.

Someone has to get mired
in scum and ashes,
sofa springs,
splintered glass,
and bloody rags.

Someone has to drag in a girder
to prop up a wall.
Someone has to glaze a window,
rehang a door.

Photogenic it’s not,
and takes years.
All the cameras have left
for another war.

We’ll need the bridges back,
and new railway stations.
Sleeves will go ragged
from rolling them up.

Someone, broom in hand,
still recalls the way it was.
Someone else listens
and nods with unsevered head.
But already there are those nearby
starting to mill about
who will find it dull.

From out of the bushes
sometimes someone still unearths
rusted-out arguments
and carries them to the garbage pile.

Those who knew
what was going on here
must make way for
those who know little.
And less than little.
And finally as little as nothing.

In the grass that has overgrown
causes and effects,
someone must be stretched out
blade of grass in his mouth
gazing at the clouds.

Wislawa Szymborska (1923–2012), translated by Joanna Trzeciak

Wisława Szymborska

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Clouds

I’d have to be really quick
to describe clouds—
a split second’s enough
… for them to start being something else.

Their trademark:
they don’t repeat a single
shape, shade, pose, arrangement.

Unburdened by memory of any kind,
they float easily over the facts.

What on earth could they bear witness to?
They scatter whenever something happens.

Compared to clouds,
life rests on solid ground,
practically permanent, almost eternal.

Next to clouds
even a stone seems like a brother,
someone you can trust,
while they’re just distant, flighty cousins.

Let people exist if they want,
and then die, one after another:
clouds simply don’t care
what they’re up to
down there.

And so their haughty fleet
cruises smoothly over your whole life
and mine, still incomplete.

They aren’t obliged to vanish when we’re gone.
They don’t have to be seen while sailing on.

Wisława Szymborska, translated by Stanisław Barańczak and Clare Cavanagh

fevereiro 3, 2012

Ai estas mãos

Ai estas mãos
Ai caramba estas mãos estes calos

Não parecem envelhecer,
a linha não parece acabar

Ai lluis Llach
Ai Roses Blanques ai Onades
Ai Moustaki ai Mercedes
Ai caramba meus velhos querida velha estas linhas não têm fim que eu saiba

E o tinto por tinto e a Bretanha e outros que tais
não chegam ai não chegam

Quanto ao talento, essa promessa tão antiga
não chegou nunca
(basta ler Tolstoi, esse antigo proprietário)

E não bastaria
que ser simples
e feliz
não é questão de garrafa antes fosse seria rico
sempre era uma vantagem

E o destino não existe

Não me queixo
a austeridade também se aprende

Sei lá onde acaba esta linha
Não há mas
nem campainhas
nem pontos nem vírgulas nem acordos

Estas mãos são o que são
Enfim tudo e nada

Soubesse eu escrever de novo e tudo corria melhor

Enfim...
Suponho

Rui A.

Eileen Mayo

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o corte em suspenso, até hoje.

fevereiro 5, 2012

Entre os meus amigos

Entre os meus amigos o amor é uma grande tristeza.
Tornou-se um fardo diário, um festim,
uma guloseima para loucos, uma fome para o coração.
Visitamo-nos uns aos outros perguntando, dizendo uns aos outros.
Não ardemos intensamente, questionamos o fogo.
Não caímos para a frente com os nossos rostos vivos
e ardentes a olhar para dentro do fogo.
Fixamente olhamos para dentro dos nossos próprios rostos.
Tornámo-nos as nossas próprias realidades.
Procuramos esgotar a nossa absoluta incapacidade de amor.

Entre os meus amigos o amor é uma questão dolorosa.
Procuramos entre os rostos que passam
a face da esfinge que apresentará o enigma.
Entre os meus amigos o amor é uma resposta a uma questão
que não chegou a ser colocada.
Por isso coloquemo-la.

Entre os meus amigos o amor é um pagamento.
É uma dívida antiga cujo valor foi gasto de uma forma idiota.
E continuamos a pedir emprestado uns aos outros.
Entre os meus amigos o amor é um salário
que qualquer um pode receber para ter uma vida honesta.

Robert Duncan, versão de Luís Parrado

Eileen Mayo

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da cor dos gatos

fevereiro 6, 2012

Canção de Amor

Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.

Por isso canto. Alegre ou triste, canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.

Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.

Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.

Assim quero cantar-te, meu amor,
para além da morte, para além de tudo.

Joaquim Pessoa

fevereiro 7, 2012

Eileen Mayo

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primavera à vista

A Vida é Ilegível

A vida, meu caro, é ilegível. Acontece
e desaparece. Não há inteligência
que a descodifique: vem em linguagem-nada,
surge no corpo como surge o dia, e como
se dia e vida individual fossem materiais paralelos.
A vida não surge em prosa
nem em poesia — e a existência não fala
inglês, apesar de tudo. A natureza dos acontecimentos
resiste às invasões matreiras da publicidade e
dos filmes. Já não é mau.

Gonçalo M. Tavares

Camilo Mori

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em pose

fevereiro 8, 2012

Meditação Sobre os Poderes

Rubricavam os decretos, as folhas tristes
sobre a mesa dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes, dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas,
murmurando forjadas confidências,
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez
de tudo quanto julgavam ser grande,
com os quadros, com o fulgor novo-rico
das vénias e dos protocolos. Vinha a morte
e mostrava-lhes como tudo é fugaz
quando, humanamente, se está de passagem,
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar sobre a miséria
dos seus títulos afundados na terra lamacenta.

José Jorge Letria

fevereiro 9, 2012

Louis Icart

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bela sugestão para o dia

Certeza

Se é real a luz branca
desta lâmpada, real
a mão que escreve, são reais
os olhos que olham o escrito?

Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.

Octavio Paz

fevereiro 10, 2012

The Great Lover

I have been so great a lover: filled my days
So proudly with the splendour of Love's praise,
The pain, the calm, and the astonishment,
Desire illimitable, and still content,
And all dear names men use, to cheat despair,
For the perplexed and viewless streams that bear
Our hearts at random down the dark of life.
Now, ere the unthinking silence on that strife
Steals down, I would cheat drowsy Death so far,
My night shall be remembered for a star
That outshone all the suns of all men's days.
Shall I not crown them with immortal praise
Whom I have loved, who have given me, dared with me
High secrets, and in darkness knelt to see
The inenarrable godhead of delight?
Love is a flame; -- we have beaconed the world's night.
A city: -- and we have built it, these and I.
An emperor: -- we have taught the world to die.
So, for their sakes I loved, ere I go hence,
And the high cause of Love's magnificence,
And to keep loyalties young, I'll write those names
Golden for ever, eagles, crying flames,
And set them as a banner, that men may know,
To dare the generations, burn, and blow
Out on the wind of Time, shining and streaming. . . .
These I have loved:
White plates and cups, clean-gleaming,
Ringed with blue lines; and feathery, faery dust;
Wet roofs, beneath the lamp-light; the strong crust
Of friendly bread; and many-tasting food;
Rainbows; and the blue bitter smoke of wood;
And radiant raindrops couching in cool flowers;
And flowers themselves, that sway through sunny hours,
Dreaming of moths that drink them under the moon;
Then, the cool kindliness of sheets, that soon
Smooth away trouble; and the rough male kiss
Of blankets; grainy wood; live hair that is
Shining and free; blue-massing clouds; the keen
Unpassioned beauty of a great machine;
The benison of hot water; furs to touch;
The good smell of old clothes; and other such --
The comfortable smell of friendly fingers,
Hair's fragrance, and the musty reek that lingers
About dead leaves and last year's ferns. . . .
Dear names,
And thousand other throng to me! Royal flames;
Sweet water's dimpling laugh from tap or spring;
Holes in the ground; and voices that do sing;
Voices in laughter, too; and body's pain,
Soon turned to peace; and the deep-panting train;
Firm sands; the little dulling edge of foam
That browns and dwindles as the wave goes home;
And washen stones, gay for an hour; the cold
Graveness of iron; moist black earthen mould;
Sleep; and high places; footprints in the dew;
And oaks; and brown horse-chestnuts, glossy-new;
And new-peeled sticks; and shining pools on grass; --
All these have been my loves. And these shall pass,
Whatever passes not, in the great hour,
Nor all my passion, all my prayers, have power
To hold them with me through the gate of Death.
They'll play deserter, turn with the traitor breath,
Break the high bond we made, and sell Love's trust
And sacramented covenant to the dust.
---- Oh, never a doubt but, somewhere, I shall wake,
And give what's left of love again, and make
New friends, now strangers. . . .
But the best I've known,
Stays here, and changes, breaks, grows old, is blown
About the winds of the world, and fades from brains
Of living men, and dies.
Nothing remains.

O dear my loves, O faithless, once again
This one last gift I give: that after men
Shall know, and later lovers, far-removed,
Praise you, "All these were lovely"; say, "He loved."

Rupert Brooke

Camilo Mori

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beleza assimétrica

fevereiro 11, 2012

Do tempo

O tempo, que tudo transforma, transforma também o nosso temperamento. Cada idade tem os seus prazeres, o seu espírito e os seus hábitos.

Nicolas Boileau

Quando Eu não te Tinha

Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza ...
Tu mudaste a Natureza ...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.

Alberto Caeiro

Te recuerdo Amanda

(in memoriam, tantos anos depois)

Te recuerdo Amanda
la calle mojada
corriendo a la fábrica
donde trabajaba Manuel.
La sonrisa ancha
la lluvia en el pelo
no importaba nada
ibas a encontrarte con él
con él, con él, con él
son cinco minutos
la vida es eterna
en cinco minutos
suena la sirena
de vuelta al trabajo
y tú caminando
lo iluminas todo
los cinco minutos
te hacen florecer.

Te recuerdo Amanda
la calle mojada
corriendo a la fábrica
donde trabajaba Manuel.
La sonrisa ancha
la lluvia en el pelo
no importaba nada
ibas a encontrarte con él
con él, con él, con él
que partió a la sierra
que nunca hizo daño
que partió a la sierra
y en cinco minutos
quedó destrozado
suena la sirena
de vuelta al trabajo
muchos no volvieron
tampoco Manuel.

Te recuerdo Amanda
la calle mojada
corriendo a la fábrica
donde trabajaba Manuel.

Victor Jara

fevereiro 12, 2012

O Tempo Vive

O tempo vive, quando os homens, nele,
se esquecem de si mesmos,
ficando, embora, a contemplar o estreme
reduto de estar sendo.
O tempo vive a refrescar a sede
dos animais e do vento,
quando a estrutura estremece
a dura escuridão que, desde dentro,
irrompe. E fica com o uivo agreste
espantando o seu estrondo de silêncio.

Fernando Echevarría

Louis Icart

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antes de sair

fevereiro 13, 2012

Arte da Respiração

Um homem leva mais tempo a desaprender o que não faz falta do que a aprender o cisco da vida. Mas então o tempo já não conta.

Casimiro de Brito

fevereiro 14, 2012

Agora

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Alberto Caeiro

Louis Icart

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num dia assim

fevereiro 15, 2012

Memória Consentida

Neste lugar sem tempo nem memória,
nesta luz absoluta ou absurda,
ou só escuridão total, relances há
em que creio, ou se me afigura,
ter tido, alguma vez, passado

com biografia, onde se misturam
datas, nomes, caras, paisagens
que, de tão rápidas, me deixam
apenas a lembrança agoniada
de não mais poder lembrá-las.

Sobra, por vezes, um estilhaço
ou fragmento, como o latido
de um cão na tarde dolente
e comprida de uma remota infância.
Ou o indistinto murmúrio de vozes

junto de um rio que, como as vozes,
não existe já quando para ele
volvo, surpreso, o olhar cansado.
Insidiosas, rangem tábuas no soalho,
ou é o sussurro brando do vento

no zinco ondulado, na fronde umbrosa
dos eucaliptos de perfil no horizonte,
com o mar ao fundo. Que soalho,
de que casa, que vento em que paragens,
onde o mar ao longe que, entrevistos,

os não vejo já ou, sequer, recordo
na brevidade do instante cruel?
De que sonho, ou vida, ou espaço de outrem
provêm tais sombras melancólicas,
ferindo de indecifráveis avisos

este lugar em que, não sendo consentido
o coração, se não consentem tempo e memória?
Pausa ou pena, a seu oculto propósito há-de
sempre opor-se, lenta, a inexorável asfixia
desta luz absurda, ou só escuridão total.

Rui Knopfli

Camilo Mori

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retrato de Maruja Vargas

fevereiro 16, 2012

A Demora

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto

fevereiro 17, 2012

Camilo Mori

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(des)encanto

Metodologia

Convoco os duendes da inquietação
e da alegria, urdindo um laborioso
rito circular, delicada teia iridiscente
de que, relutante, a luz se vá
pouco a pouco enamorando.

Palavras não as profiro
sem que antes as tenha encantado
de vagarosa ternura; mal esboçados,
gestos ou afagos, apenas me afloram
a hesitante extremidade dos dedos

que, aquáticos e transidos, estacam
no limiar surpreso do seu rosto.
Movimentos longos da tarde
e sussurros graves da noite
que tendessem para a imobilidade

e o silêncio, não seriam mais cautos
e aéreos. Quietas estátuas de cristal,
intensamente nos fitamos, enquanto
trémula, lenta e comburente,
a luz mais pura nos atravessa.

Rui Knopfli

fevereiro 18, 2012

Louis Icart

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um disfarce como qualquer outro

I Can't Forget

I stumbled out of bed
I got ready for the struggle
I smoked a cigarette
And I tightened up my gut
I said this can't be me
Must be my double
And I can't forget
And I can't forget
I can't forget but I don't remember what
I'm burning up the road
I'm heading down to Phoenix
I got this old address
Of someone that I knew
It was high and fine and free
Oh you should've seen us
And I can't forget
And I can't forget
Ican't forget but I don't remember who
I'll be there today with a big bouquet of cactus
I've got this rig that runs, runs on memory
And I promise, cross my heart they'll never catch us
But if they do just tell 'em it was me
I've loved you all my life
And that's how I want to end it
The summer's almost gone
And winter's tuning up
The summer's gone but a lot goes on forever
And I can't forget
I can't forget
I can't forget, but I don't remember what

Leonard Cohen

fevereiro 19, 2012

Fantasia

Fala-me dos rios que vão para o mar
- dizem ser essa a óbvia natureza das coisas, mas ainda assim
conta-me essa história, que é tão bonita

Fala-me do riso que espanta e encanta
o rosto de crianças muito pequenas, salta-pocinhas

Esse riso sem disfarces
feito de Noruegas e Equadores
estrelado com belas cordilheiras de estranhos nomes
e com um tempo tão amável que apetece estar

conta-me uma vez mais essa história
que é tão bonita
conta-ma por favor
depressa e devagar

Para que eu saiba e não esqueça
esses risos
e esses rios

que vão para o mar

Rui A.

fevereiro 20, 2012

Gustave Moreau

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a beleza intemporal de uma Galateia oitocentista

Abraços

Em meus braços cabe o corpo
(olhos fechados, passos rápidos,
a mão aperta minha mão)

tensiono as costas e dirijo o passo
no espaço incolor da inexistência

(olhos se abrem e mãos se desprendem)

meu abraço na oportunidade
do sonho.

Pedro Du Bois

fevereiro 21, 2012

Louis Icart

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da graciosidade

Lusitânia

Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

fevereiro 22, 2012

Gustave Jean Jacquet

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o gesto em detalhe

fevereiro 23, 2012

Luta de classes: O campesinato

A chave do campo está na mão das mulheres
que o lavraram, desfazendo os nós do inverno
com a exactidão da pá. Vi estas mulheres no
grande caminho da História, perdendo as suas
vidas em cada nova colheita. O sol tisnou
a sua pele; o frio enrugou os seus rostos. À
noite, quando o vento batia nas janelas
de madeira, os seus olhos atravessavam
a treva e perdiam-se em destinos que
não conheciam, como se tivessem outra
saída. Ouvi as suas queixas no murmúrio
das árvores que as abrigaram; e vi os
seus corpos deitados nas igrejas, sem
ninguém que os velasse, a caminho da vala
comum. Amei-as, sem que o soubessem;
e ouço o ruído das pás na terra, quando os
seus rostos me atravessam a memória,
e o inverno cai sobre a lama dos campos.

Nuno Júdice

Gustave Wappers

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contando estórias

fevereiro 24, 2012

Suicídio

Havia em mim uma vintena de gerações,
Assim pelo menos,
E nessa manhã, vá-se lá saber porquê,
Uma janela deixada aberta talvez,
Alguém se atirou para o vazio.

Então subitamente todos eles
Se puseram a saltar
Uns atrás dos outros,
À bicha, como que fazendo a chamada
Sobre um trampolim,
Segundo o princípio da desintegração dos carneiros.

Em menos de uma hora e meia
Encontrei-me totalmente despido, sem nada,
E de vergonha atirei-me para o vazio também eu,
Devo ter morrido à altura do quarto andar,
Ao décimo, em todo o caso,
A coisa estava consumada.

Tudo isto,
É um mero passante,
Quem vo-lo conta,
Um de entre nós,
Melhor dizendo,
Que terá talvez caído menos mal.

Marin Sorescu

Helena Dias

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Zeca Afonso

fevereiro 25, 2012

Da Vida

Que canção sem berço cantarei pelas madrugadas?

Que gritarei às janelas
antes do fogo?

Não quero repetir
gerações de deserto

Escapo-me ao deus das pragas e dos eternos sacrifícios

A canção
O berço
regressam no espelho dos meus sonhos

O balançar feliz
perdura nos meus quadris

Estou viva.

Edith Lomovasky, trad. Soledade Antos

Gustave Moreau

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a permanência dos mitos

fevereiro 26, 2012

Aqui

(gentileza de Amélia Pais)

aqui o sol aquece e o tejo corre
mas há olhos parados
incapazes da carícia

será possível a ternura sem fantasia ...

aqui há uma cidade grande
onde as flores
são privilégio de floristas

tenho as mãos vazias
Leonard Cohen nos ouvidos
e os olhos cheios de noite

António Cardoso Pinto

fevereiro 27, 2012

Gustave Wappers

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Anthony van Dick como inspiração

fevereiro 29, 2012

As manhãs

(grata a Zeferino Silva, pela ajuda atenta)

Das manhãs

Apenas levarei a tua voz

Despovoada
Sem promessas
sem barcos
E sem casas
Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas
Da tua voz
Levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas

As pedras
As nuvens
O teu canto
Levarei manhãs E madrugadas

Daniel Faria

Gustave Moreau

Gustave_Moreau_1896_XX_Galatea.jpg

outra Galateia

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