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Arquivo de março 2012

março 1, 2012

A uma Desconhecida

Quando os anos passarem, quando passarem
Os anos e o ar tiver cavado um fosso
Entre a tua alma e a minha; quando passarem os anos
E eu for apenas um homem que amou, um ser que se deteve
Por um momento frente aos teus lábios,
Um pobre homem cansado de andar pelos jardins,
Onde estarás tu? Onde
Estarás, ó filha dos meus beijos!

Nicanor Parra, versão de Henrique Fialho

Anthony van Dyck

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retrato da bela e confiante Maria de Tassis

março 3, 2012

Simplicidade

atravesso o bosque
de castanheiros
pisando o manto das folhas
levadas pelo vento
no princípio do outono.

fecho a cancela de madeira do jardim
e lavo o rosto para entrar em casa.

esta noite
dormirei à luz das velas
se for preciso.

Carlos Saraiva Pinto

Anthony van Dyck

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autoretrato do artista quando jovem

março 4, 2012

Maneiras

melhor maneira: liberdade
coerente no estado inercial
do tempo (não antes: outubros
equilibram planejamentos)

acalorado em expectativas: tristezas
invadem e sentem o bater
das pedras (desacerto de corpos
compactados em estreitas
formas).

Pedro Du Bois

março 6, 2012

Anthony van Dyck

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retrato de nobre flamenga seiscentista

março 7, 2012

Pedra-poema para Henry Moore

Um homem pode amar uma pedra
uma pedra amada por um homem
não é uma pedra
mas uma pedra amada por um homem

O amor não pode modificar uma pedra
uma pedra é um objecto duro e inanimado
uma pedra é uma pedra e pronto
Um homem pode amar o espaço sagrado

que vai de um homem a uma pedra
uma pedra onde comece qualquer coisa ou acabe
onde pouse a cabeça por uma noite
ou sobre a qual edifique uma escada para o alto

Uma pedra é uma pedra
(não pode o amor modificá-la nem o ódio)
Mas se a um homem lhe der para amar uma pedra
não seja uma pedra e mais nada
mas uma pedra amada por um homem

Ame o homem a pedra
e pronto

Emanuel Félix

março 9, 2012

O nascimento da tragédia

Quando Aristóteles estabeleceu o verdadeiro estado
das coisas
e determinou como transformar o claro em obscuro
quando o riso se tornou num esgar
e a palavra numa espada
a dor já existia
Porque havia muito a mão tinha sido modelada como uma mão
e a palavra como uma palavra
para expulsar o mal do mundo
Mas o mal estava presente
mesmo entre as regras mais exactas
e as acções mais inevitáveis
E Dionísio embriagado de vinho e de sol
havia muito que brandia o falo e a espada
forçando ao canto as feras esfoladas
Assim tinha nascido a canção
Enquanto as mulheres se cobriam a si mesmas de negro
enquanto as torres ardiam e os navios eram afundados
e os cavalos calcavam os frutos da terra
e o coração murchava como uma maçã
e o sangue abandonava o corpo
Isso pouco tinha a ver com heroísmo
ou com a dor da solidão ou com as lágrimas em caminhos desertos
contudo mesmo assim o velho filósofo aplicaria
as elegantes regras do jogo
a tais selvajarias
enquanto a audiência continua
aplaudindo a morte

Mateja Matevski

Hashiguchi Goyo

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duas figuras em traço fino

março 11, 2012

Esta Gente / Essa Gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

Ana Hatherly

Hashiguchi Goyo

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depois do banho

março 13, 2012

Uma Rosa

Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
- de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...

Cecília Meireles

Anthony van Dyck

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um autoretrato curioso

março 14, 2012

Esculturas

de pedra na cidade do sal.


março 17, 2012

Regressar

Agora outra vez a caminhar
atraso de propósito o bater dos vários ritmos

Não estou contra
não vou contra
apenas subo um pouco
e desacelero

Assim vou desdobrando
um fio de oração sobre a cidade
Depois dos triunfos
e das pequenas mortes
é só pela humildade (a terra da alegria)
que posso regressar

Carlos Poças Falcão

Salzburgo

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da luz em recorte

março 20, 2012

No vasto Inverno

Por tanta vida que transporto no meu sangue
vacilo
no vasto Inverno.

E de repente,
como por uma fonte que se solta
na estepe,
uma ferida que no sonho
se reabre,

nascem pensamentos
no desértico castelo da noite.

Criatura de fábulas, pelas mudas
habitações onde se consomem as lâmpadas
esquecidas,
transcorre leve uma palavra branca:
voam pombas desde a açoteia
como numa paisagem marítima.

Bondade, regressas a mim:

desfaz-se o Inverno no desbordamento
do meu sangue mais puro,
o pranto ainda pode ser docemente nomeado perdão.

Antonia Pozzi, trad.Henrique Fialho

Hashiguchi Goyo

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da limpidez

Primavera

Começou hoje mais uma Primavera. Esta estação prolonga-se por 92,75 dias, até ao próximo Solstício, que ocorre no dia 21 de Junho às 00h09m.

Hashiguchi Goyo

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fazendo jus à estação hoje inaugurada

março 21, 2012

se

se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio

de outro modo como poderia
a eternidade deslizar

Inger Christensen, trad. José Alberto Oliveira

março 22, 2012

Hashiguchi Goyo

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uma nota colorida

março 23, 2012

O Tamanho do Sonho

Com os pés sentiste a dureza
das pedras
Com os pés rasgaste a pele
e a alma
Com os pés saltaste lume
e labaredas
Com os pés fizeste o caminho
Onde sentistes o calor delas

Com os braços agarraste
o mundo
Com os braços abraçaste os montes
E nos teus olhos se abriram
anseios
Que rasgaram outros horizontes

Tens olhar do tamanho dos sonhos
quando gravitas
No espaço onde cresces e levitas
Ergues-te depois pelo som do grito
E sonhas para lá do infinito

Nos teus braços se envolvem
horizontes
E nos olhos rebentam as fontes

Adriano Pacheco

março 24, 2012

Anthony van Dyck

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retrato

março 27, 2012

Miramar

(gentileza de Amélia Pais)

Acender um cigarro na praia, proteger
o difícil estertor da pequena chama. Anular
o vento na manga do teu casaco. Reter
preso entre os dedos o princípio breve
dessa efémera combustão.

Inês Lourenço

Hashiguchi Goyo

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como lavar o cabelo pode ser poético

março 29, 2012

Carta para Quinta Npaca e não só

Quando uma pomba das asas se liberta
Uma pomba com bico ainda e olhos grandes, dois
(belíssimos, de resto, os olhos grandes desta pomba)
Imagine quem possa a imagem, o deslizar, o esforço e a viagem
Não é fácil – mas pouco do que verdadeiramente importa pode ser fácil
- assim dizem os estóicos e muitos malabaristas
Tão pouco importa à pomba muito do que se vê no retrato
A pomba quer, sobre tudo, recato
- e olá se o merece

Não façam pois luto não preparem mortalhas
Parem um pouco do trânsito que vos vai nas almas
Amanheçam a noite, se puderem
Caminhem nas águas, trocem das estátuas, sempre
Amem e queiram a pomba – até ao fim, dos dias

Rui A.

Hashiguchi Goyo

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outra imagem lustral

março 30, 2012

Anoitecendo a Vida Recomeça

A tua felicidade foi como um sorriso aberto numa manhã de sol,
Raiando sobre a terra numa alegria imensa.
E os teus olhos demoraram o voo das aves e alegraram-se,
Surpresos e meditativos como o olhar dos séculos
Ante o límpido acordar da paisagem.
Porém, rapidamente baixando sobre o brilho da tua alma,
Veio o sonho poisar, nos teus joelhos,
A sombra do teu destino duro,
Da tua nudez pesada e triste.

Ruy Cinatti

março 31, 2012

Uma noite acordarei...

Uma noite acordarei junto ao corpo infindável
da amada, e meu sangue não se encantará.
Então, rosa a rosa murcharão meus ombros.
Quer dizer que a sombra carregará meus sentidos
de distância, como se tudo fosse o cheiro
que as ervas pungentemente perdem
através do silêncio.
Plácido chegarei à mesa, e de súbito
meu coração se atravessará de gelo puro.
O vinho? Perguntarei. Flores de sal cobrirão
a luz poderosa do meu olhar.
Tempo, tempo. Eu próprio perguntarei no recente
pasmo da minha carne: o vinho?
Rosa a rosa murcharão meus ombros.

Então lembrarei a vermelha resina, o espesso
murmúrio do sangue,
o ocre e sobrenatural aroma das acácias.
Tentarei encontrar uma forma.
Com beijos antigos um momento ainda queimarei
o corpo solitário da amada, direi palavras
de uma ternura azebre.
E uma vez mais me perderei, dizendo: o vinho?
Rosa a rosa murcharão meus ombros.

Herberto Hélder

Jan Lievens

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retrato de Anna Maria van Schurman, uma mulher brilhante nos idos seiscentistas

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