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Arquivo de abril 2012

abril 1, 2012

O Intendente Sanshô, de Kenzo Mizoguchi

(gentileza de alguém que prefere não ser mencionado, e assim é e não é)

O Intendente Sanshô - 山椒大夫 Sanshō dayū,1954

Um abrigo de restolho, breve chama,
é tudo o que podemos.
Antes que da noite o lobo venha
devorar o que nos resta.

«sê severo, Tsushiô, contigo próprio,
e brando com os outros.»

Um pai é uma medida,
não oferece protecção;
a mãe uma raiz, leve prece,
muito longe;
sob as águas, a irmã,
um galho que se quebra.

De tão tardio mundo
pode um homem exilar-se?

José Miguel Silva

abril 2, 2012

O Dia

Passa o dia contigo
Não deixes que te desviem
Um poema emerge tão jovem tão antigo
Que nem sabes desde quando em ti vivia

Sophia de Mello Breyner Andresen

Anthony van Dyck

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Lady Mary Killigrew, pirata quinhentista, uma raridade no seu género

abril 3, 2012

Declaro que

Tudo em ti é citação
de talentosos autores
de rematados estupores
de gente vulgar
- e dos teus amores.
Podias ter o nome de um mosaico
de um Puzzle de cinco mil
de uma faixa em vinil
- ou de um mapa antigo
Podias ter o nome do inventor
da gravura de um campo de batalha
Farias pincéis
farias punhais
e serias um actor inspirado
- nesse palco.
Podias ter ainda
um dos nomes de Rainer Maria Rilke
cuja obra ainda não leste.
Cujo nome tão bem
- e com tanto cuidado
- decoraste.
Podias ser o assobio
a estrofe
ou o refrão - e o romper inesperado de um solo desmedido
na voz rouca
e cheia de arestas
do Bob Dylan.
Podias ser Tom Waits a comandar um assalto à casa dos licores
- com um jarro de sangria em cada mão.
Poderias figurar também por inerência - se quisesses
no coro dos bem intencionados rapazes
da Santo Amaro dos escritores
dos poetas
dos Bocages
que sempre pisaste.

Se pudesses escolher serias
Cavaleiro aguerrido
num livro de Milo Manara
com a participação do Corto Maltese
- e belas nádegas.
Terias que ser ainda (é verdade)
Coluna do Record devorada às escondidas
E a página cento e tal do Sexus e Henry Miller
Nas casas de banho da tua idade
madura
Gostarias de ser um dia
(para não envergonhar tão orgulhoso arquivo)
capa de jornal esgotada
em 15ª edição
por motivos nobres.
E é assim que tudo em ti
é citação.
De talentosos autores.
De rematados estupores.
De gente vulgar…
… e dos teus amores.
Que não se te acabe
- o pavio.

Rui A.

abril 4, 2012

Hugo van der Goes

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pormenor do tríptico Portinari, ou o prazer no detalhe

Para longe

Vai para longe
não leva a bandeira
fala com os de longe
não leva a pátria
sorri aos de longe
o sorriso esconde
a veracidade:

está aqui
na casa
na rua
na calçada
na mesa
no fundo
do bar

longe é estar presente
em não acontecimentos.

Pedro Du Bois

abril 5, 2012

Ar

É da liberdade destes ventos
que me faço.

Pássaro-meu corpo
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.

Olga Savary

Bryce Cameron Liston

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entre a timidez e a vaidade

abril 6, 2012

Dançar

Vejo: pés rápidos deslizam
passos convencionados.
O rosto preso no exemplo.
Mãos inertes ao contato.

Reflito a posição exigida
e lamento o acontecimento:

dançar é esquecer o que vejo.

Ativar as mãos
deslizar o rosto
reinventar o som
em movimento.

Pedro Du Bois

Hugo van der Goes

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ameaça maior

abril 7, 2012

Cidades do Sul

Nas cidades do sul
há violência e há excesso,
de semente.
Estalam os rios e foge a água.
O corpo, encortiçado, racha.

Lendas vêm de há séculos assoreando
as margens.
E quando à boca de um poço vamos
provar o nosso eco,
águas puras irrompem,
noutra língua.

Maria Luiza Neto Jorge

Boris Kustodiev

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a cor da abundância

abril 8, 2012

O Caminho do Lótus

A raiz do lótus está na lama,
Cresce atravessando as águas profundas,
E se ergue na superfície.
Ela mostra a beleza perfeita e pura e a luz do sol.
Ela é como a mente se desdobrando para atingir a perfeita felicidade e sabedoria.

Siddhartha Gautama ( Buda )

Nelombo nucifera

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a flor do lótus

abril 9, 2012

A Sombra

Há anos do passado que são como
uma frase riscada, anos que doem
de uma forma imprecisa, pois seu dano
não deixou cicatriz mas sim vazio,
uma sombra inexacta, tão extensa,
que surge para mais além da memória.
Mas talvez esses anos e esse vão,
diferente do olvido, são matéria
de cinza dispersada, tempo quebrado
que não pôde cumprir-se a não ser como
a total negação do que nós amávamos.
E o coração turva-se se recorda.
e rasga-se ao rasgar o que o fere
e fica só um vão, um denso vão
afundado em nosso ser, um fundo muro
que tanto nos defende como encerra,
mas em nada diferente da vida.

Abelardo Linares, trad. Joaquim Manuel Magalhães

Bryce Cameron Liston

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beleza contida

abril 11, 2012

O alfabeto no Parque

(gentileza de Amélia Pais)

Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,
composição escolar narrando o belo passeio
à fazenda da vovó que nunca existiu
porque ela era pobre como Jó.
Mas escrevo também coisas inexplicáveis:
quero ser feliz, isto é amarelo.
E não consigo, isto é dor.
Vai-te de mim, tristeza, sino gago,
pessoas dizendo entre soluços:
«não aguento mais».
Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais
que o volume das águas denominadas mar,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.
Imagine que uma dita roda-gigante
propicia passeios e vertigens entre
luzes, música, namorados em êxtase.
Como é bom! De um lado os rapazes.
Do outro as moças, eu louca para casar
e dormir com meu marido no quartinho
de uma casa antiga com soalho de tábua.
Não há como não pensar na morte,
entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio.
Levas tudo a peito, diz a minha mãe,
dá uma volta, distrai-te, vai ao cinema.
A mãe não sabe, cinema é como diria o avô:
«cinema é gente passando.
Viu uma vez, viu todas.»
Com perdão da palavra, quero cair na vida.
Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde...
Assim escrevo: tarde. Não a palavra,
a coisa.

Adélia Prado

Jan Lievens

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autoretrato

abril 12, 2012

(IN)CONSEQUÊNCIAS

Arranco da sequência
a ordenação autorizada

anarquizo a imagem

grito lemas de guerra
em desordenadas palavras

inconsequente, responde
o homem não inflamado
inconsequente, esbraveja
a mulher dentro do carro
inconsequente, pensa
a moça no canto do olho.

Pedro Du Bois

abril 13, 2012

Jan Lievens

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autoretrato, uns anos mais tarde

Do que interessa

Querias ter sido anzol
Uma flor à beira da estrada
Imagina que foste - e és
Nunca menos que nada.

Tudo em ti me lembra o verde
A escada, mesmo se escarpada

Não interessa agora falar do belo, das flores e dos abetos
Porque em rigor nada disso interessa
As ondas chegam com o mar, cachorras,
Como se quisessem chegar
Ai onde somos somos somos

Rui A.

abril 14, 2012

Brisa Marinha

A carne é triste e eu, ai! já li todos os livros,
Fugir! Fugir pra longe. Ouço as aves aos gritos
Ébrias na espuma ignota e sob o céu, em bando!
Nada, nem vãos jardins nos olhos se espelhando
Retém meu coração que se embebe de mar,
Oh noites! nem a luz da candeia a alumiar
O deserto papel que a brancura defende;
Nem mesmo jovem mãe que seu filho amamente.
Hei-de partir! Vapor em marítimas crises,
Iça o ferro e faz rumo a exóticos países,
Um Tédio triste, em cruel e inútil esperar,
Crê no supremo adeus dos lenços a acenar.
Que os mastros, porventura, atraindo presságios,
São os mesmos que um vento inclina nos naufrágios.
Soltos no mar, no mar, sem ilhas nem esteiros.
Mas ouve, coração, cantar os marinheiros.

Stéphane Mallarmé, versão de A. Herculano de Carvalho

Beatrice Glenavy

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quando houver primavera

abril 15, 2012

Quando

Quando dos ventos passa a bruma
Quando da bruma ficamos nós
cheios de poeira, essa coisita tão difícil de medir
cheios das beatas deste nosso tempo
Enfim nós, feitos areia - e há-a de tantas qualidades
(preocupante factor, esse da incerta variedade)
Quando deste tempo que nem sempre queríamos nosso
nos fica o osso e apenas o osso
Quando nos ventos passa o tempo e passa a bruma
chama a bruxa se não tiveres mãe
chama do que foi o que ainda vem
Mas nunca qualquer polícia – não percas discernimento
que nisto das dúvidas e do ignaro há que ter
algum cuidado
Rezam as sortes que até poderás não estar só
esta batalha é tão comum
nada mais oblíquo que o conceito de companhia
nada mais incerto que bastares-te a ti próprio
Mas estás e estarás lá ou aqui, isso é mais que certo
com mais ou menos mérito
depois dos ventos
e da tão citada bruma
e ainda, além disso, e também,
com alguma evidência (uma vez mais)
de todas as coisitas
que fazem nosso
o nosso tempo
Tantas e tantas vezes alguém disse isto:
No fim ficamos nós
Quem dera seja claro o dia

Rui A.

abril 17, 2012

Beatrice Glenavy

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da harmonia

Acontecimento do Soneto

A doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.

Lêdo Ivo

abril 18, 2012

Conjecturas

Se eu tivesse à mão um poder divino
mesmo que nele não acreditasse
estendia hoje oferendas desfazia-me em terços
prometia ser sempre bom mais ainda que tentá-lo
E se necessário fosse, na missa,
deslumbrava beatas ou fazia por isso
em busca de um resultado.
Se tudo isso ajudasse pois tudo isso eu faria,
e seria completo, e completamente recompensado,
do esforço de rezá-lo.
E amanhã se veria.

E se eu acreditasse no poder mágico de um gesto
se soubesse, num encontro de festa,
erguer o meu corpo ao alto - mantendo pose e encanto
apenas para quem quisesse;
Se tivesse o dom de contornar fome sede e cansaço
por uns quilómetros mais de companhia
mordendo o ambiente e celebrando o sorriso
de qualquer pobre ou burguês
de qualquer idade
tudo isso eu faria, se pudesse.
Sem queixa ou visível dificuldade,
completo e refeito, mesmo se a quatro patas
do esforço de tentá-lo.
E a manhã continuaria.

Isso é que era bom, não precisava de me encomendar a um estranho
que me povoasse o caminho com os teus olhos de mel
nos sábados de esplanada, encontros e metropolitano

E a concluir:
Se eu acreditasse na força inteira das palavras,
gritava-as bem cedo
no mais cedo da manhã.
Mas se necessário fosse para um melhor resultado
sei bem que hoje seria o mais chato
dos vizinhos.

Amanhã se veria,
que a manhã continuaria.
Uma manhã de Abril.

Rui A.

Marie Laurencin

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Chanel, sempre elegante

abril 20, 2012

Pequenas nostalgias

as pequenas nostalgias como fios se prendem
em encaixes de mãos e ombros aquele
que falou contigo junto às vinhas podadas
nesse dia deixou-te para uma conversa mutilada na mesa
de outono o cheiro de uvas nas mãos
como terias tu provado desse vinho
com que timidez reclamar o que sempre
foi nosso um regresso por hábito à exígua e pobre
divisão da casa às paredes nuas solenidade
de mesa em sala vazia tecla de piano onde
se esconde uma nota em que nunca se acerta

Tatiana Faia

Marie Laurencin

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esperando a primavera

abril 21, 2012

Fábula

Um pensamento pensado
até a total exaustão
termina por germinar
no mesmo exato lugar
sua exata negação.

Enquanto isso, uma ideia
trauteada numa flauta
faz uma cidade erguer-se --
é claro, sem alicerces,
mas ninguém dá pela falta.

Paulo Henriques Britto

Marie Laurencin

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a leitora

abril 22, 2012

Contributo para mais clara leitura

Estava agora à procura daquela frase que me apareceu tão clara
há pedaço, entre Intendente e Anjos

Fugiu não sei para onde, ao jantar.
Choco e farinheira pela ordem inversa,
outras conversas e estações
refluindo o dia

Tinha a frase a sua piada
Pelo menos assim me pareceu pelo sorriso que reconheci na porta do metro
Qualquer coisa como não te fies na importância de encontrar outros iguais
ou os diferentes de sempre
Impressões digitais cada um tem as suas, e isso que importa?
Basta seres atacado em qualquer esquina desta cidade
ou apanhado em situação mais ou menos mediática
para que de nada sirva olhar diferenças ou afinidades
Haja então carisma discernimento e pernas velozes
que te tirem de embaraços ou graves problemas de saúde

Haja coragem ainda ou suficiente falta de paciência
para recusar uma guerra
que não é tua
Que importa aí se a escala é do bairro ou do quarto onde te deitas?
Vai à guerra se a guerra for tua que não sendo
melhor é ler ou não
um livro de aventuras

Qualquer coisa como acredita
os espelhos não envelhecem
não apagam rugas não escarnecem
não tornam mais caro o que parecem

Que não te preocupe pois tanto ficar bem na fotografia
A medida do tempo o preço e a carne
és tu
côncavo liso e convexo
eventualmente nu
na ordem e desordem
do dia

Quando a luz se apaga não esperes outro reflexo ou maresia
E aprecia, se puderes,
o encontro
o escuro
e o dia

Rui A.

Greta Allen

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sol difuso

abril 23, 2012

Despedidas

Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

Affonso Romano de Sant'anna

Marie Laurencin

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olhos em negro luminoso, valha-nos a contradição

abril 24, 2012

Aqueles cadernos

onde se perderam aqueles cadernos a que
teimosamente tornavas para escrever
de novo e de novo as mesmas frases
descalços pés apoiados na arcada da varanda
o sol dando-te no rosto cadernos onde
teimosamente ensaiaste alguns
gestos um verão inteiro atrasando-te
onde estão esses cadernos que não
chegaste a rasgar e a costurar de novo
onde com ténues fios brancos e estreitas
agulhas apenas alinhavaste frases
esses comprados em estações
de autocarro furtivamente guardados
em gavetas de armários com chave

Tatiana Faia

Donna Norine Schuster

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jardim florido, pintado em 1917

abril 27, 2012

Morning Coffee

”Have some coffee, man, a mean cup of coffee” -
this is what I say to spur myself on – “sip it hot, damn hot
with a slice of lemon, bitter and so hot it scalds your throat,
so that it hurts” – test your knife in the morning,
everyone ought to test their knives in the morning -
there is no other way to the lemon’s heart. A nice knife
is sharp, a sharp knife is nice, you need to know how to wield a knife
so that it hurts – what stays in mind is always the cut, open
wounds and horizons, being scared of the dark, or the acute
fear of being alone – but I sit and write and let no one near me,
for I was everywhere with everyone and then returned
to my own country, city, street, to my room and in its corner,
cowering in anger in the lamplight to write, I write…

Janis Elsbergs, translated by Peteris Cedrins

Riga

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uma bela cidade a descobrir

Keep calm

Got to sing.
The world today has amazing acoustics.
The vault of our cathedral – the sky – is in a very fine mood.

Don’t get scared.
Your blood will find a rhythm and won’t lose it.
Melodies will make themselves.

Keep calm.
Your voice is the queen of the world.
Its quiet echo is only death,
and no one else knows it.

Janis Elsbergs, translated by Peteris Cedrins

Tenderness

Now,
as the rain bends over the puddle,
and the day rusts
dropping towards night
like a dry leaf,
as the sharp wind
spreads about,
I fear the ice
and its glassy pavements,
the snow as it begins
to roughen,
I fear the cold of winter,
growing transparent from the depths,
for tenderness wells up out of me
like a first snowdrop
unfurling into your sleet,
flowering in your
hard inclement season.

Viera Prokešová, translated by James Naughton

abril 28, 2012

Entre o verde e a brisa

Não vim embarcado não me encontrei
na rua
não nos vimos
não nos beijamos
nunca parti

Não sei que idade tenho

Quando havia antes um antigamente
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo

Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seca e pálido
quando havia antes um caminho

Não houve nunca amigos nem, pureza
Nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar

A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar

António Ramos Rosa

Riga

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"Bolo de Aniversário de Estaline", a.k.a. Academia das Ciências

abril 29, 2012

O mundo e o silêncio

Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas

Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos álacres do silêncio

Um mar de espuma e alegria obscura
um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa

Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insetos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
O mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o ver e as lâminas solares

António Ramos Rosa

Vilnius

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uma capital plena de vivacidade

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