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Arquivo de maio 2012

maio 2, 2012

Dedicatória

Dedico todas estas histórias aos camponeses
Que não abandonaram a terra
Para encher os nossos olhos de flores na primavera

Eu abandono Roma
Os camponeses abandonam a terra
As andorinhas abandonam a minha aldeia
Os fiéis abandonam as igrejas
Os moleiros abandonam os moinhos
Os montanheses abandonam os montes
A graça de deus abandona os homens
Alguém abandona tudo.

Tonino Guerra

Tallinn

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uma cidade medieval bem a norte

maio 3, 2012

Da memória

A memória, dizem que a memória é um bem
Por exemplo a memória dos eucaliptos
aqueles que nos ficam da infância
a lembrança de um tio Zé Roque
com sua carroça, Carriço e Boneca
e tão boas notas de vinte escudos

A memória dos jogos de carica sozinho
(que as manas se entretinham com outros passos mágicos)
extraordinários prémios de montanha anotados
com grandes e objectivos triunfos de Firmino Bernardino
esse tão grande para ti e tão grandemente esquecido
ciclista de tempos tão esquecidos

A lembrança de empenhados petardos, bola redonda a furar a tarde
na garagem do avô
testando paciências que até aconteciam

A memória de melancias ao lanche, para todos
ao grito da avó, quando andávamos ás rãs

Memória faca
memória lupa
memória limpa

E tanto que fica

E nada é mais

Rui A.

Donna Norine Schuster

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primavera, precisa-se!

maio 5, 2012

Todos os Poemas

Plantados como árvores no chão
ao alto ergueis os vossos troncos nus
e o fruto que produz a vossa mão
vem do trabalho e transparece à luz

Nenhum passado vale o dia-a-dia
Sonho só o que vós me consentis
Verdade a que de vós só irradia
- Portugal não é Pátria mas país

Ruy Belo

maio 7, 2012

Mentiras

As das crianças, para não serem castigadas;
as dos apaixonados de uma noite
quando prometem um amor eterno;
as de quem tudo vende, corpo e alma,
para subir o preço desses bens;
as dos que inventam histórias inverosímeis
em busca de atenção;
as dos médicos, quando compreendem
que já não é possível;
as dos candidatos a eleições;
as dos melhores actores, tão perfeitas
que se tornam verdade;
as dos padres de todas as igrejas
anunciando a salvação;
as mais inofensivas ou as mais perversas;
as mais piedosas ou as mais cruéis;
as que todos descobrem num relance;
as que só se conseguem detectar
num momento feroz de lucidez;
as que apenas se dizem ao telefone
quando falta a coragem de um olhar;
as que começam por pedir desculpa
e geram outras cada vez maiores
até que uma só vida se transforme
em duas ou três vidas paralelas;
as que explodem de súbito, lavadas
pelas lágrimas de uma confissão;
as que perduram pela vida inteira
como um crime perfeito
e levamos connosco para o túmulo.

Sobre elas assenta desde sempre
o que chamamos mundo, o que chamamos
ainda humanidade.

Fernando Pinto do Amaral

Johan Moreelse

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Madalena arrependida seiscentista

maio 9, 2012

Em todos os naufrágios há um assim

Mal se percebe tanto desamparo
o corpo é triste e desalinho
Tábuas quebradas e escuras
Trincheiras naufragadas
Um frio lá dentro maior que um Inverno com sabor a permanente
Podias ser flor e marca registada
vereda rio baloiço
e estrada
Podias ser janela
ser portada
E esta mágoa sem nortada arrasa
(assim contada)
a impossível relva
despontada
As minhas mãos estão geladas
e não de vento
- não de tempestade.
Cuidado.

Rui A.

Joanna Sierko

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sugestão para um dia assim

maio 10, 2012

À flor da voz

rapariga pintando caixilhos de janelas mãos de
tinta manchadas rápida ela emerge à flor
da voz com o vagar do gato mas numa
prudência tão ensaiada que em nada poderia
persuadir outra palavra dita mergulharia
entre as imagens cujas cores rápido se esquece

Tatiana Faia

Dizeres Ocultos

(gentileza de Violante Grilo)

Não há palavras exactas capazes de dizer o que levamos.
Não existem olhares que demonstram nossos múltiplos sonhos.
Existirão razões que justificam as nossas sofridas penas?

Não existem sinais que vêm de muito longe.
Não há argumentos que a lógica não traduz.
Subsistem vontades antigas em coisas novas.

Existem gestos que substituem palavras.
Existem palavras que nascem mudas.

Há vontades. Há gestos. Há palavras cada vez mais novas.
E ainda há dizeres ocultos no silêncio absoluto das horas.

Garcia Bires

Raquel Forner

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imagem clássica, retomada no século passado

maio 11, 2012

Formas do nada

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último —
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

Paulo Henriques Britto

Raphael Soyer

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que o banho possa ser lustral

Aleatório

(gentileza de Amélia Pais)

é aleatório
o modo organizado das borboletas.
ergue(m)-se contra o senso
comum,
contra o tempo
- tal como o conhecemos -.
deslizam contra os nossos olhos
cegos ,
batem-nos na face,
- fascinação -
muito leves,
com seu segredo contido
entre cores, formas
e movimento das asas.

não sabemos como vão ou vêm.
nós, os ignorantes.

eternamente perguntamos.

Silvia Chueire

maio 12, 2012

Gracias a la vida

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me dio dos luceros que, cuando los abro,
perfecto distingo lo negro del blanco,
y en el alto cielo su fondo estrellado,
y en las multitudes el hombre que yo amo.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado el oído que, en todo su ancho,
graba noche y día grillos y canarios,
martillos, turbinas, ladridos, chubascos,
y la voz tan tierna de mi bien amado.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado el sonido y el abecedario,
con él las palabras que pienso y declaro:
madre, amigo, hermano, y luz alumbrando
la ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la marcha de mis pies cansados;
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desiertos, montañas y llanos,
y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto.
Así yo distingo dicha de quebranto,
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto,
y el canto de todos, que es mi propio canto.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.

Violeta Parra

Raquel Forner

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vanidad

maio 13, 2012

Para não desesperar

O balouçar
da roupa sereníssima
no bairro das traseiras
recorda-me o engano
que ilumina em volta o mundo.
Não saltes tão de força, coração, mas também tu
oscila sereníssimo no tempo que ainda tens
para não desesperar

Carlos Poças Falcão

Algarve

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contraste colorido na praia da Falésia

maio 14, 2012

Como uma flauta nas mãos de um piano

Bailando acima das águas e de todas as pratas
Eras assim uma espécie de deus, um príncipe urbano
Ramos saltaram de incontáveis dedos e
Na abertura das noites despontaram várias Áfricas
As pessoas finalmente calaram-se e
Rostos abriram-se ao passar de tão jovem flauta
Desenhos surgiram em paisagens extremas e
Os homens, alguns, coraram de prazer e
Simpáticas damas ficaram ainda mais simpáticas.
As crianças, essas, limitaram-se a adorar.
Sonhos romperam a faca dos dias
Sulcos rasgaram as costas dos mundos
E tudo como se nada passasse
Tudo como se um segundo fosse tudo
Tão grande de grande, esse ser sem tamanho
Irrompendo, sem tempo, pelas mãos de um piano

Rui A.

maio 15, 2012

arrebatar o tempo

serás feliz e jovem mais que tudo
Pois se és jovem, a vida que vestires

há de tornar-se tu; e se és feliz,
tal qual deseja a vida assim serás.
Meninas (os) precisam de meninos (as)
e basta: posso amar somente aquela

cujo mistério é dar espaço à carne
e arrebatar o tempo à alma do homem

e quanto a cogitar se deus proíbe
e (em sua graça) puro amor se exclui:
pois nisso irão razão, tumba fetal
dita progresso, e injuízo final

digo que aprendo canto com um pássaro
mas não ensino a não dançar estrelas.

e.e. cummings, versão de Gil Pinheiro

maio 16, 2012

resumo

Invadiu-me uma sensação de calma,
de tristeza e de fim.

virgínia woolf


Ao teu lado, mudo.
Suponho que pousei a mão
No teu ombro, não sei,
Ausentes, ambos,
Tu do ombro, eu da mão.
Lá fora, não muito longe
Do vidro, a manhã passa
E é calma, tristeza, fim.

nuno rocha morais

A raiva passada a escrito

A raiva. Vou-vos contar desta raiva que sinto. Do seu sabor.

A raiva passada a escrito tem mais sabor. O sabor do alecrim que não provei ou de uma túlipa andina que escapa. Da escarpa que hei-de subir e que eu sei que está lá, incrédula, quase trocista.

A lamentável depreciação das coisas novas um dia e hoje velhas. A raiva.

A raiva passada a escrito apresenta-se bem, com uma dignidade imparável – a placidez de um ancião bem vivido quase se lhe equipara em garbo e compostura.

A raiva. Passada a escrito quase parece recato. Ou fonte.

Portanto, se fores à raiva, guarda-me um bilhete. Uma chávena.

Rui A.

maio 17, 2012

Hubert-Denis Etcheverry

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um olhar sem sombra de ilusão

maio 19, 2012

Amanhã falamos, ou depois

Quando os barcos partirem, quando os barcos partirem para o sem fim,
Uns ficarão por cá, e outros certamente não – segundo muitos dizem, é sempre assim.
E se bem que partam barcos por esses mares, se bem que partam velas
Rios ficarão quietos de quietos, à espera, como xailes esquecidos na ombreira da porta.
Inventados melros cantarão mais tarde na concha do rio, quando a saudade romper, e
Desta cidade nascerão alguns assobios, apenas para quem os saiba,
Ainda que até agora ninguém tenha pensado nisso muito a sério.
Dona Dália, Dona Dália, quem poderá saber nesta terra
Onde florescem os cucos e onde voam as rosas?
Nada nos preparou sem enfeites para tal lição de vida,
Ainda que pensemos saber bastante, e não só de meteorologia - imensa cultura.
Dona Dália, sabe bem que quando os barcos partirem, quando os barcos partirem mesmo,
Águas ficarão ainda que parta - com pequenos ramos, para descanso das libelinhas. E
Lá, onde sussurram os ventos de São Tomé, é bom pensar que o sol bate forte.
Imagino que se sentirá agora bem melhor, mesmo esquecido o xaile e outros adereços.
Amanhã falamos, ou depois. Até lá, fica esta porta – com os melros, os cucos, e as rosas.

Rui A

Ichiro Tsuruta

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do estilo

maio 20, 2012

em cor de sépia

aquele que conversando pôde apenas
aprender uma forma de ver esse nunca
falou contigo inteligente e cínico calculou
a projecção do próprio eco a conversa
entrou em areia pela noite alastrou
às lanternas ténues fios brancos e estreitas
femininas mãos por engano a luz feriu-te
um pouco acertando-te no rosto tu reclamado
em cor de sépia se a memória fosse um resgate
uma coisa sem fala e sem pena uma memória
calorosamente guardada e esquecida
coisas que podemos suportar perder
porque nos foram totalmente concedidas

Tatiana Faia

Hugues Merle

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banho em beleza

maio 21, 2012

o dia de amanhã

Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.

Fernando Namora

maio 22, 2012

Helen Knoop

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uma Rute sombria

Poema do regresso

(gentileza de Violante Grilo)

Quando eu voltar da terra do exílio e do silêncio,
não me tragam flores.

Tragam-me antes todos os orvalhos,
lágrimas de madrugadas que presenciam dramas.
Tragam-me a fome imensa de amor
e o queixume dos sexos túrgidos na noite constelada.
Tragam-me a noite longa de insônia
com mães chorando de braços vazios de filhos.

Quando eu voltar da terra do exílio e do silêncio,
Não, não me tragam flores...

Tragam-me apenas, isso, sim,
o último desejo dos heróis tombados ao amanhecer
com uma pedra sem asas na mão
e um fio de cólera a esgueirar-se dos olhos.

Jofre Rocha

maio 23, 2012

Aniversário

O modus completou nove redondos anos há mais de uma semana, e nem dei por isso. Lembrava-me sempre, uns dias antes, primeiro sobretudo da sua circunstância inicial, depois da coisa em si. Com o passar do tempo, passei a lembrar a efeméride sobretudo pela coisa para mim, para nós, para os nós que são invisíveis mas por aqui vogam, e às vezes transparecem, afloram os textos tornando-os mais ricos, descobrem nas imagens cores e contornos até aí desapercebidos.
Do prazer originário retirado da escrita pessoal, por vezes enraivecida, fui passando para a calma da partilha, a serenidade do olhar, a vontade de dar a ler/ver o que a maré dos dias vai trazendo, e logo levando sem grandes delongas.
Nove anos, pois. Outro tempo, outra vida, outros (bem mais fortes) afetos. Mas com a palavra por perto, sempre.

Ichiro Tsuruta

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um certo perfil

maio 24, 2012

Acerca do viajante

Estive já em muitos lugares, em muitas estações
e nem sempre precisei de sair de casa
(ou de preparar bagagem)
Fui como sou e assim cresci
– sempre que a vida me deixou

E das viagens que fiz guardo sempre na lembrança
Aqueles com quem me cruzei e a quem chamo amigos
Não precisam de ser muitos, serão sempre
os mais importantes prédios
dos meus caminhos

E assim vou construindo o meu mapa - a minha agenda

Pois é também nestes sinais
(que atentamente fui colhendo)
Que encontro alento e força para cada nova etapa
para cada regresso a casa

Sempre foi assim, afinal
Em cada estação um ponto de partida um ponto de chegada
E em cada memória uma imensa saudade
- do futuro

Rui A.

Hugues Merle

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sombras em tons diversos

maio 25, 2012

Em manhã de Abril

Como a água de uma fonte
Que se desvia
Em regatos mil.
Parece que estamos
Em manhã de Abril
Em que o vento se espraia,
Quase que desmaia,
Súbita brisa
Que em nós desliza como um afago.

Bebamos a água
Pura, cristalina, azul
E ao céu ergamos
Nossos olhos puros
Ainda adomecidos
E quase esquecidos
Do bem que fazemos,
Como o rouxinol
Perdido no cântico.

Ruy Cinatti

maio 26, 2012

Ichiro Tsuruta

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beleza em traços estilizados

maio 27, 2012

A Ciganita

(gentileza de Violante Grilo)

Quando Preciosa a pandeireta toca,
e fere o doce som os ares vãos,
pérolas são que espalha com suas mãos,
flores são que arremessa de sua boca.

A alma fica suspensa, a mente louca
aos atos sobrehumanos sem ação,
que por limpos, honestos e por sãos
sua fama lá no céu mais alto toca.

Pendentes do menor de seus cabelos
mil almas leva, e ajoelhado tem
Amor, que uma e outra flecha aos pés lhe deita:

cega e ilumina com seus raios belos,
seu trono Amor por eles se mantém,
e mais grandezas de seu ser suspeita.

Miguel de Cervantes, trad. José Jeronymo Rivera

maio 28, 2012

A Casa do Pobre

(em memória de Amélia Pais, o último poema que enviou ao modus, em 11 de Maio)

Quando era rapaz
Nunca perguntei o motivo
Do percurso solitário
que vinha do abrigo do homem pobre.

Por que ziguezagueava
Como a fuga de uma fera ferida.

Agora que sou adulto
Sei por que os ricos se perturbam
Quando resmungamos.

Mzi Mahola, trad. Isaac Pereira

Hugues Merle

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Rute nos campos

maio 29, 2012

Debaixo do Tamarindo

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

Augusto dos Anjos

Ichiro Tsuruta

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imaginação criadora

maio 31, 2012

Que é isso partir

Que é isso partir que coisa é essa partir e quando
Não há passo que apeteça nem vagar para estradas
E tudo fica quieto a bem dizer nem tudo
Que folhas há, e preciosas,
que não se interrompem no seu
movimento ao chão.

Que é isso de partir podíamos ficar a noite inteira
sim a noite toda ainda que incompleta
discutindo tema e mote,
espreitando o dia não mais ricos não mais pobres
talvez até (com sorte, ou dependendo das artes)
não mais cansados.

Que é isso de partir quando ficamos assim tão quietos
tão mudos tão surdos tão certos
do tempo que passa, sem asas nos sapatos
sem ar para pés descalços.

Que é isso partir
que é isso chegar
bem podámos ficar a noite toda falando ou não
partir não é marchar, alinhar o que há, picar bilhete.

Partir é talvez
amanhã ou depois
assim o vento nos sopre o corpo
como às folhas.

Pois é, ou assim parece.
A vida tem os seus mistérios.

Rui A.

Val Prinsep

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banho no Ganges, nos idos do século XIX

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