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Arquivo de julho 2012

julho 1, 2012

Partindo

Triste, por te deixar, de manhãzinha
Desci ao porto. E logo, asas ao vento,
Fomos singrando, sob um céu cinzento,
Como, num ar de chuva, uma andorinha.

Olhos na Ilha eu vi, amiga minha,
A pouco e pouco, num decrescimento,
Fugir o Lar, perder-se num momento
A montanha em que o nosso amor se aninha.

Nada pergunto; nem quero saber
Aonde vou: se voltarei sequer;
Quanto, em ventura ou lágrimas, me espera

Apenas sei, ó minha Primavera,
Que tu me ficas lagrimosa e triste.
E que sem ti a Luz já não existe.

Eugénio Tavares

Praia

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uma cidade com luz própria

julho 2, 2012

O Dom

Defronte à matriz do tempo
interrogo uma vez mais as noites
através da fala irónica dos loucos
ou do sorriso ingénuo dos filósofos

José Vicente Lopes

Tarrafal

Tarrafal%20Santiago.JPG

memórias terríveis, em contraste profundo com a serenidade do presente

julho 5, 2012

Futuro

Não havia o traço esbranquiçado
rasgando o firmamento, nem a britadeira
e o caminhão misturando cimento e areia:

manualmente transportados
manualmente contados
manualmente colocados
blocos de pedras
superpostos
sobrepostos
erguiam paredes
em pequenos arcos
de telhados

sobre o topo o homem
sonhava traços de fumaça
cortando o firmamento.

Pedro Du Bois

Ilha do Sal

ilha-do-sal2.jpg

Baía de S. Martinho

Naquela noite quente, em conversas
Simples e toques de cristal
Houve um mar companheiro, também solitário
Calmo, sereno mas nunca esquecido
(Por quem o conhece desde menino)
Que fez dessa noite uma festa
De cumplicidades e novas descobertas.
Olhávamos, estava alta a lua,
E a baía fazia magia,
Nos silêncios meus e teus
Iluminada pelo tremendo esplendor da luz.
A maresia escutava, lá em baixo, o som das nossas vozes.
(Por vezes calava-me e pensava em ti)
E a tal lua, cheia, íntima, bela e deslizante
Que mais parecia saída de uma fábula
Tinha rosto de criança que, em pose para fotografia,
Sorria, tornando-se nossa cúmplice,
Como se aos meninos narrasse
De todas as aventuras possíveis, a melhor.
Lá estava o rosto do indizível, dizia eu
O da lua.
(por vezes calava-me e pensava em ti)
Aquela brisa quente ajudava,
E o vinho e a noite e os risos também
(Ou outras brincadeiras e confissões).
Aquelas palavras, aquela confiança,
Compuseram o brilho daquela noite.
Entre conversas, sorríamos, esperando
Que o doce escutar do silêncio fosse o resto
De uma ternura algo adiada
Na mágica Baía de S. Martinho.

V.G.

julho 6, 2012

Mindelo

mindelo

a favorita

Pecado Original

Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...

Corsino António Fortes

julho 7, 2012

Sodade

Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Ess caminho
Pa São Tomé

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

Si bô 'screvê' me
'M ta 'screvê be
Si bô 'squecê me
'M ta 'squecê be
Até dia
Qui bô voltà

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

(interpretado por Cesária Évora)

julho 9, 2012

Poema Reservado

Sim, o meu olhar é triste:
Você bem vê, bem disse.
No entanto, é de uma tristeza

Quieta, e quase suave;
Não é tristeza hasteada,
Exasperada, em riste.

É uma tristeza sem adornos,
Sem enfeite de lágrima, choro:
Até tem riso, e canto.

É tristeza (assim seja)
De alguém que viu
… E não deteve o espanto.

Pedro Amaral

George Owen Wynne Apperley

Apperley_George_Owen_Wynne_Malaguena_Song_.jpg

uma Malagueña muito "salerosa"

julho 10, 2012

Da Lua

Da Lua disseram já ilustrados sábios que foi musa

da sua ciência
da sua literatura
dos seus devaneios

Investigadores avulsos do comportamento atestam que a Lua influencia, claramente, a nossa disposição para viver o dia e a noite, mas que é ao crepúsculo e ao amanhecer que a Lua nos pode tornar, verdadeiramente, cúmplices de um deslumbramento cósmico.

Muitos poetas devem já ter falado de como a Lua participa no voo das gaivotas.
Guerreiros emplumados desde sempre esperaram da Lua participação empenhada

nas suas cóleras
nas suas conquistas

mas as fronteiras que a Lua desenha são feitas daquilo que nos une e não daquilo que nos separa.

É de muitos sabido que a Lua é boa confidente e que é seu mester tratar bem os nossos sonhos – quando sonhamos.

Houve já quem predissesse que a electricidade e outras conquistas de séculos recentes e emergentes permitiam antever (com a segurança própria dos simpósios) o declínio lunar, progressivo e irreparável.

E de acordo com uma das correntes, talvez a mais representada, a Lua seria banalizada, de tanto se falar nela – perderia valor, fulgor, importância.

Proclamam outras vozes que a Lua está demasiado vista e demasiado à vista – devendo o seu acesso ser condicionado.

Mas, insiste-se,
a participação da Lua no voo das gaivotas é assunto da maior relevância
e nunca é demais sublinhar a provável semelhança (também referida por alguns poetas, para não falar em muitas outras crianças) entre o comportamento das gaivotas e o de alguns homens e mulheres que teimam em ter as janelas abertas
e em participar (também)
no voo das gaivotas.

Rui A.

julho 12, 2012

Era uma vez

Era uma vez uma noite,
Uma noite com estradas e esquinas de amor
Composta por voo, sal e tom de cereja
Pintada com inúmeros lápis de cor.
Está desenhada nos sonhos dos que estremecem
À voz da viola e das cordas da vida, e até parecem
Aparentemente escarpadas, algo que aleija…
Houve, nessa noite, muito de irrecuperável e belo
E como não poderia deixar de sê-lo?

Foi ao luar que os dois, à espera do milagre,
Dissertaram diversos e muitos doutos factores
Pondo razões e números à frente dos amores.
Nem olhares nem toques nem lágrimas
Bastaram para os embriagar de sonho e aconchego.
Podiam pedir eles, em vão, a luz de mil estrelas
Que iluminassem a voluptuosa e inóspita noite…
(…quem dera aos dois poderem vê-las…)
Podiam suspirar eles por fartos e doces beijos
Vindos das suas bocas sedentas de alma e rubor.
Não.
Houve nesta noite o mistério das coisas perdidas
Ou nunca achadas, sempre desconhecidas,

Souberam eles o sabor das suas lágrimas?
Conheceram eles os roteiros do desespero,
a sombra da vida
E as dependências da alma?
Não.

Mas sabem bem que, em todas as razões,
Salvo raras excepções,
Enquanto houver ventos, sonhos, sol e mar
Não mais quererão uma noite doce assim
(Medusa, feiticeira, sedenta pelo fim)
E, em vez de sonharem com a enganosa escuridão
(Não sonharão com as suas estradas e esquinas)
Quererão conhecer o doce carpir da verdade
A sensação de deixar as águas, que vêm e vão,
Escorrerrem por eles abaixo, como se fora saudade
Do destino
E olharão para o brilho do Sol
Que então ficará maior….

“Quando souberes o que tudo isto é”, dizem,
“Saberás quanto vale um beijo meu”.

V.G.

Pan Yuliang

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uma imagem refrescante

Poder

Ávido de poder reclamo a sorte
que me cabe no negócio: o amor
tolhe os movimentos. O corpo
cede à angústia de estar vivo. A sorte
é instante acordado. O poder trafega
a ilusão da luz apagada. A lanterna
cessa a sombra imaginada. O destino
presente na ponta dos dedos. Águas
sôfregas rasgam a terra e depositam
mensagens de descobrimento.

Aviso em praça pública: o poder
combina a estática com o movimento
em falso do adormecido.

Pedro Du Bois

julho 13, 2012

Pan Yuliang

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retrato em movimento

julho 14, 2012

A tua rua

Numa manhã luminosa chegas.
Aos quarenta e dois. As andorinhas
voam de uma ponta à outra da rua.
Há uma altura em que o Cálculo
expõe friamente o fim de um limite.
De repente dás contigo só, em casa.
E com o inverno que chega à rua.
Sorriem-te os setenta anos,
e dás-te conta de como tudo é tão perto.
Um autocarro, o metro, e estás junto ao mar.

Joan Margarit

Pan Yuliang

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em passo de dança

julho 15, 2012

Saudade

(gentileza de Violante)

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda

Pan Yuliang

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nu em tons quentes

julho 16, 2012

Uma Alma Nova

Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma altura nova.
Decidida capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada
de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter…
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova,
nova, nova!

Irene Lisboa

Louis Bausil

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Collioure, ou um ar de verão

julho 17, 2012

Trabalho Poético

Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?

Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.

Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.

Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.

Carlos de Oliveira

julho 18, 2012

Pan Yuliang

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auto retrato de uma pintora controversa

julho 19, 2012

Sobre o asfalto

Meu ouvido colo ao asfalto
colo insone e ermo
onde ausculto o pulso ao mundo

encontro o homem — e nele me reconheço
em bólidos de inconseqüente pressa
em busca de um tempo além do presente.

À inspeção noturna
ouço o rumorejar do rio —
Estige moderno,
que não descansa nunca
sob o premir afoito dos carros.

Pedro Amaral

George-Daniel de Monfreid

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de costas voltadas para os tempos futuros

julho 21, 2012

Se nos rompio el amor

Se nos rompio el amor
de tantos usarlo
de tanto de lo que paso
sin medidas
de darnos por completo a cada paso
se nos quedo en las manos un buen dia

se nos rompio el amor
de tan grandioso
jamas resisti
tanta belleza
las cosas tan hermosas duran pocos
jamas duro una flor dos primaveras
me alimente de ti por mucho tiempo
nos devoramos vivos como fieras
jamas pensamos nunca en el invierno
pero el invierno llega aunqe no quiere
una mañana gris
al abrazarnos sentimos un rugido
frio y seco
cerramos nuestros ojos
y pensamos, se nos rompio el amor
de tantos usarlo!

se nos rompio el amor
fue tanto lo que abusamos
de nuestro amor sin medidas
se nos rompio en las manos
y el viento se lo llevo
se nos rompio el amor de tanto usarlo
se nos rompio el amor
me alimente de tu amor
noche a noche dia a dia
y como todo lo bueno
se nos acabo
un buen dia

se nos rompio el amor de tanto usarlo
se nos rompio el amor
tanto y tanto lo usamos
qe nos devoramos vivos
y de amor nada quedo
y nos sorprendio el estilo
se nos rompio el amor de tanto usarlo
se nos rompio el amor
todo tan inesperado
el amor que tanto un dia
nos unio se rompio y quedo olvidado

se nos rompio el amor
nuestro amor ya se acabo
se rompio y no queda nada
pues como todo lo bueno
tarde o temprano se acaba
se nos rompio el amor de tanto usarlo

Paquito Guzmán

Alqueva

alqueva

beleza tranquila

A Escrava Feia

(gentileza de alma dada ao anonimato)

Na juventude, eu não sabia
Qual era o sabor da melancolia.
Gostava de subir aos altos pavilhões,
E fazer lá versos muito melancólicos.
Porém agora, tendo-lhe conhecido
O gosto, já não quero
falar mais dela, não,
Digo apenas: «Um dia fresco, que belo Outono.»

Xin Qiji, trad. Gil de Carvalho

julho 22, 2012

Identidade

Sou planta em terra lavrada, raízes em chão dormente
Sou planta inacabada, botão ainda em semente
Sou rocha em terra entristecida e água em frente fria
Sobrevivo onde não há nada
Nem pudor
Nem justos decretos
Nem alegria.

Vivo na memória das coisas
E dos afectos.

Naquele lado, onde os ditos resistentes
Os supostos justos,
(e quase nunca o são) se degladiam
Morro um pouco, lá, de vez em quando
E renasço sempre deste lado
Ao fim do dia.

E é nessa altura que contemplo
O vulgo, a urbe e as ilustres sapiências
Desgraças, enredos e desenlaces
A céu aberto, como se fora Hora
De querer, tanto tanto
Tornar à vida e ao azul da alma.

É o desejar ficar aqui e estar em mim
Que me faz cantar em pleno vento
As coisas desditas, invisíveis e inalcançadas.

Talvez
Precise de estar mais ali ao lado
Para ser eu, sempre, aqui mesmo.

V.G.

Monsaraz

monsaraz4.jpg

paisagem ímpar com o Alqueva em fundo

julho 23, 2012

Rudimentos

O corpo tosco, ideológico, a bebida
barata do bar da esquina, o olhar
inerte sobre a toalha: a lembrança
é mortalha viva do intelecto e o longo
caminho percorrido no alongar o físico;
o contato contamina o todo destinado
e aos ouvidos se rebelam sons inaudíveis;
repete o gesto com que bebe o líquido,
repete as vezes despretensiosas da saudade;
reafirma ao homem da outra mesa a incerteza
da sobrevivência: ideológico, destila o humor
esbranquiçado da verdade: o homem ao lado
faz de conta que não é com ele e bebe
aos santos de todos os sábados.

Pedro Du Bois

George-Daniel de Monfreid

Georges-Daniel%20de%20Monfreid.jpg

modelo em tons de ouro

julho 24, 2012

Difícil

"(...) independentemente daquilo por que se tenha passado, é duro desistir do amor; é difícil deixar de pensar no amor como um lar a que talvez um dia se regresse. É mais que difícil."

Andrew Miller, in A cidade impura, trad. Miguel Romeira

julho 25, 2012

Coja

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porque tem que ser

julho 26, 2012

Difícil (em modo de glosa)

Nem sempre fácil a primeira linha
Difícil normalmente escrever com a mão esquerda
e ainda mais quando se é destro
Difícil quase sempre tesourar direito
mesmo para quem é hábil com ambas as mãos
e dependendo do claro do corte
Difícil beber lisuras na palavra amor
Sobretudo passado algum tempo e brigas várias
Difícil e mais que difícil estúpido mais que um pouco
partir sem olhar para trás
sabendo que há um horizonte nem sempre cumprido
Que levamos connosco nos senhores dos passos
que fazemos adiante
Difícil perceber a falta de uma razão inteira
mesmo na presumida admissão de um erro
Difícil admitir a natural errância
de um destino por fazer
Mais que difíceis pouco suportáveis
as noites em claro
sem um corpo que espere e descanse
mesmo se apenas a certeza do nosso
Difícil crescer difícil aguentar
Difícil manter um azul mundo nos olhos dos mundos
complicados
Difícil não ser fácil difícil ser simples
Difícil acabar
nem que seja apenas e só
um texto despido
de talento
E do mais

Rui A.

Agroal

agroal1.jpg

a montante

julho 27, 2012

Na casa defronte

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!
Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não são eu.
As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.
As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.
Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta —
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.
Que grande felicidade não ser eu!
Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.
Nada? Não sei...
Um nada que dói...

Álvaro de Campos

Rio Alva

alva.jpg

sempre plácido

julho 28, 2012

Prodígios

Abro a minha boca e o mar se regozija
E leva as minhas palavras a suas escuras grutas
E às suas focas pequenas as murmura
Nas noites em que choram os tormentos do homem.

Abro as minhas veias e enrubram-se os meus sonhos
Transformam-se em arcos para os bairros dos meninos
E em lençóis para as raparigas que velam
Para ouvir às ocultas os prodígios do amor.

Aturde-me a madressilva e desço ao meu jardim
E enterro os cadáveres dos meus mortos secretos
E às estrelas traídas que eram suas
Corto o cordão dourado pra caírem no abismo

O ferro enferruja e eu castigo o seu século
Eu que já experimentei a dor de mil pontas
Com violetas e narcisos a nova
Faca vou preparar que convém aos Heróis.

Desnudo o meu peito e os ventos se desatam
E vão varrer as ruínas e as almas destruídas
Das espessas nuvens limpam a terra
Pra que surjam à luz os Prados encantados.

Odysséas Elytis, trad. Manuel Resende

Pomares

pomares.jpg

paisagem refrescante

Mitad de la Vida

(dádiva deste belo espaço, a visitar)

Como un hombre que ha hecho tantas cosas olvidadas,
y en el futuro otras tantas que no recordará,

inculto, sin lecturas,
que sólo tuvo en casas viejos libros en desorden
nunca leídos,
y su cabeza da vueltas en un oscuro remolino
bajo la tierra,
y nunca tuvo voces, cielo abierto,
ramas sobre ramas.
Como un hombre de rosados oídos de caracol.
Lejos del mar
que a mitad de su vida oye la orden,
la obsesión.

Soñamos escribir algunos libros
pero nunca lo hicimos.
En nada se rebajan.
Hemos cantado, silbado por lo bajo
canciones ordinarias
que significaban otra cosa desconocida.
La verdad, hemos callado hace tiempo,
no sé las razones.
Busco entre mis cosas un libro que no he tenido,
busco fotos que no he guardado,
colecciono hermosos papeles que se deshacen.

Víctor Gaviria

julho 29, 2012

Endereço Desconhecido

Aqui
Onde o espaço é quase tudo
E o tempo quase nada
Escrevo estas palavras de ouro
E de veludo
Vestidas de uma manhã quase terminada.

Aqui
Contemplo as arribas, senhoras do momento,
Magestosas, sábias e escarpadas
E em cada coral brilhante e de paz sedento
Sou comandante da minha própria alma.

Aqui
Ouço, ao longe, um cantar jamaicano
Que traz o doce desejo de um não chorar
De mulher
(Curioso….!),
Quando o horizonte, azul e luxuriante,
Pisca o olho a um sereno carpir masculino,
deitado na areia,
Abraçado pela força daquela que está
Ali mesmo ao lado, em afago simples e cristalino…

Aqui
Um veleiro espreita a orla da praia
Na esperança de momentos menos árduos,
Ancorados em sonho
E azul celeste.

Aqui
Onde os deuses dormem, em beliche,
Com este cenário à cabeceira,
Ouvem o rumor da minha respiração.

Na felicidade,
Há sempre um momento em que se está só.
Este é o lugar.

V.G.

Secarias

secarias.jpg

calma em tons de verde

julho 31, 2012

Sobre o Pranto

Sobre o pranto derramado
na inutilidade do ato
ouso o desconsolo
no fato não abortado
quando necessário
na escolha negada
ao corpo escravizado
na pobreza retida
em inconsequências

choro a amoralidade
do agente avesso
em ensinamentos.

Pedro Du Bois

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