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Arquivo de agosto 2012

agosto 1, 2012

Um Só Trevo

«Para fazer uma campina
basta um só trevo e uma abelha»


Emily Dickinson


Com pouco me satisfaço:
em ver uma papoila,
por ser só e ser vermelha
no verde tenro de maio;
em ler três ou quatro versos
de um poeta morto
e numa folha de trevo
encontrar o meu rosto;
na lua subindo a serra,
nem tanto pela velha lua,
mas por eu desejar vê-la.


Pouco? Talvez nada me contente
e nunca nada me complete.
Por isso canto os dias planos.

Ah bolhinhas de ar, plops de nada —
espuma de ondas em redor dos meus pés.

Soledade Santos

Agosto

Reeve_and_Serfs.jpg

assim representado no saltério inglês ‘Queen Mary’ (século XIV)

agosto 2, 2012

As Palavras

Disse, num dia de grande e fecunda inspiração,
Um grande e admirável senhor, dado às letras
(certamente conceito e postura vindos diretos
do seu coração),
Que as palavras são, por vezes, bonitos cristais
E outras vezes afiados e cruéis punhais
O que, em boa da verdade,
Ele bem soube o que disse, não foram tretas….
São preciosas quando, relâmpagos de beleza,
Significam verdade, pureza, inocência,
E não naufrágio, despudor ou aparência
Nem inverdades ditas com inconsequente leveza.
São como dores fundas e indizíveis, as palavras
Quando, mágicas, desvendam ambiguidades
(Talvez reveladoras de certas necessidades),
E transformam amizades boas em outra coisa
Qualquer.

As palavras têm poder e temperatura interna
Têm corpo e podem cegar qualquer um
Não só eu ou tu, mas outro mortal comum
Mesmo quando ditas ainda em ventre materno…
Muitas vezes podem salvar, proteger ou, sensuais,
Prender o ingénuo amante nas teias do amor
(mal sabe ele as suas futuras penas de dor….)
E podem também dar cor e luz à vida e ao mais.
Há palavras que doem, como mentiras que me
Pregam
E palavras que aliviam, como mães que nos
Embalam
São quimeras, castelos e dragões imaginados,
As palavras, quando me abraçam e quero acreditar
Porém tenebrosas, quando me devassam e reduzem
A nada…
Ou quase nada.

É na inegável síncope da noite
E na metáfora indecifrável da vida
Que as palavras tomam corpo
E transformam o que supostamente se tem
Naquilo que se tem que ter.
São sonâmbulas, como algozes, as palavras
E reinam entre as trevas e os montes desertos
Da nossa imaginação,
Onde o limbo e a quase consciência
Tomam conta dos nossos sonhos mais secretos.
As palavras são fascinantes e fortes mistérios
Com poderes absolutos - e mais sérios
Do que se pensa…
Quem mente, com palavras, sobre o que é
Cai no primeiro degrau da sua consciência.
Difícil o enleio, já que aqui não há ciência,
No mastigar verdades com certeza e boa-fé.

Mas nem sempre serão as palavras que me dirão
Aquilo que quero ver…
Serão sempre os meus olhos que verão
Aquilo que não existe.

V.G.

agosto 3, 2012

Paul Meltsner

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um rosto novecentista

As Veias do Espaço

digo o voo das aves
essas veias levíssimas do espaço
as suas sílabas subitamente sentadas
em cadeiras voláteis
digo essas delicadas naves
que navegam por metáforas matemáticas

as suas figuras de números tranquilos
os seus modos de penetrar o espaço
as suas danças de átomos
os seus múltiplos resíduos
em silenciosos halos de naufrágios

digo as suas galáxias de luz e números

Maria Azenha

Paul Meltsner

Paul%20Meltsner.jpg

coreografia em perspectiva

agosto 4, 2012

Navegação

navegar o silêncio a memória
navegar as estrelas o odor do espaço
o seu sangue coagulado em planícies de vento
por jardins alinhados de poeira e ar
navegar os destroços
as palavras e os barcos
navegar por sinais intemporais
ou por silêncios de espectros
terraços
templos imersos
em conversas de aéreos vitrais

navegar os astros em cânticos desertos
em grandes transatlânticos do espaço
entrevistando luzes terrestres
navegar alucinadamente
vocábulos e tendões
por inúmeros portais invisíveis
electrões

navegar na cápsula do Tempo muito lentamente
galáxias ritmos e ritos
navegar o vento
navegar inesperadamente
a astrofísica da vida
navegar secretamente contra o escuro
contra a luz apodrecida
uma esfera de silêncio
navegar contra os átomos ausentes

Maria Azenha

Paul Meltsner

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aula de Martha Graham, em 1939

agosto 5, 2012

Outras Palavras

No entanto
Há palavras que os encantam
Na certeza
Da haver beleza
No seu reflexo
E nos seus sentidos
Muitas vezes difusos,
Pois, esquecendo as mágoas,
E deixando correr as águas,
São sinfonia,
Constelações,
Muitas delas, alegria
E outras, canções.
Milagres, é o que fazem,
Também, as palavras

V.G.

Paul Meltsner

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ao pé do mar

Ao Longe os Barcos de Flores...

(em memória de Amélia Pais, com o apoio de um leitor/autor muito especial)

Só, incessante, um som de flauta chora,
viúva, gracil, na escuridão tranquila.
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som desimulando a hora

Na orgia ao longe, que em clarões scintila
e os labios, branca, do carmim desflora…
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, gracil, na escuridão tranquila…

E a orchestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
cauta, detem… Só modulada trila
a flauta flebil… Quem ha-de remil-a?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora…

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençoes de linho,
Onde esperei morrer – meus tão castos lençoes?
Do meu jardim exiguo os altos girasoes
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A meza de eu cear, - taboa tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco…

Oh! minha pobre mãe!... Não te erguas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruina a casa nova.
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe… Não andes mais á neve,
De noite a mendigar ás portas dos casaes.

Camillo Pessanha

agosto 6, 2012

Jornada

Triste, triste,
é não respeitar o silêncio
depois de tanto tempo calado

Triste, triste,
é querer entrar numa casa habitada
sem ao menos bater à porta,
e subir de quatro em quatro
a escada de qualquer lado
sabendo que é no caminho
que se encontra o achado

Igualmente triste, senão mais
é confundir a virtuosa ausência de estratégia
com a brutalidade de quem abalroa um barco
usando palavras suaves
sem qualquer cuidado

Entretanto, há terramotos em Itália
e fome perto de minha casa.

Há o amar sem amor em quase todas as casas do meu bairro
(única coisa proibida por Thiago de Mello, no ano em que nasci)

E há muita gente descontente e habituada
com a vida com que leva

É sem dúvida triste, sabendo da importância de tudo isso,
parecer que tudo passa ao lado

No meio deste tudo fica,
como irónico e curioso registo
o embaraço de um agnóstico
perante os seus excessos
- os seus pecados.
Tão bom seria ir à missa
e vir de lá perdoado.

Triste, triste, é pensar
Que a biblioteca de Alexandria não está lá

Imperdoável e triste é, sabendo isto,
deixar de procurar moinhos
onde crescer
e fazer pão

Rui A.

Paul Meltsner

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retrato de Martha Graham

agosto 7, 2012

De Tudo Fica Um Pouco

de tudo fica um pouco
às vezes mesmo fico eu
e já lá vai o tempo
em que ficava
à espera de um café quente
à espera de uma cara
ou de um café universal

de tudo fica um pouco
às vezes mesmo fico mouco
com o grito do meu canto
com a história do meu pranto
na glória dum pardal

de tudo fica um pouco
às vezes mesmo fico eu
mesmo às vezes
quando não canto
por esse papel branco
que se chama o meu quintal

de tudo fica um pouco
às vezes mesmo fico eu.
sou os gritos do meu pranto
onde o mistério é todo meu!

de tudo fica um pouco
de tudo fica um pouco
até do silêncio do canto
onde o mistério se escondeu
até dos meus anos ocos
entre mil versos poucos
onde o mistério sou eu.

de tudo fica um pouco
de tudo fico eu
até dos meus sapatos routos
entre dois versos loucos
o meu corpo e o que é o outro
e o que adiante será morto.

de tudo fica um pouco
de tudo fica um pouco
até de dois filhos soltos
roubados ao mistério
que é só meu e que sou eu

de tudo fica um pouco
às vezes mesmo fica tanto
de um casamento solto
(um surdo e outro mouco)
entre dez anos loucos,

no dia do funeral
de Deus e do meu porco!

de tudo fica um pouco
de tudo fico eu
deste poema fica sobretudo
o que eu não canto

porque o mistério
é todo meu!

Maria Azenha

William Hogarth

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manobras de sedução no século XVIII inglês sob visão algo mordaz

agosto 8, 2012

Podia

Podia falar na vertigem das manhãs
No ocre e cinzento da paisagem nos olhos
Podia falar de todas as ilhas perdidas
Podia falar do não voltar e de alguns desgostos por trás
Preparando outros maiores
Ou talvez não

Podia falar das agulhas que espetam no dia
As veias vermelhas e cansadas
Podia falar das ligaduras com que vou cozendo
Tempos de desconcerto
Arrefecimentos de Agosto

Podia falar dos pés p’ra cima
E das bengalas obedientes
Que suportam apenas um corpo

Podia falar das almofadas e lençóis
Nem sei se de linho
Em linha com os dias

Podia falar da vontade de dormir
Um sono mais justo
De um acordar mais esperto
Do desagradável espanto dos noticiários
Que não vejo

Podia falar e falo
De um equilíbrio outro
Convocado nas andas de estar aqui
Parado

Mas não.

O que penso agora, profunda e sentidamente
Com a inerente saudade do facto consumado
É naquela carreira para a infância
Traçada em campos de bola algures
Com balizas feitas das pedras que encontrava
Ou de mochilas da escola

Essa carreira não passa por aqui
Mudei-lhe o trajecto
num pontapé sem sorte

Não queria
Não quero
Não pode ser assim tão claro

E disso falarei
Um dia.

Rui A.

agosto 9, 2012

William Hogarth

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retrato de Mary Williams, com uma irrepreensível solidez setecentista

agosto 10, 2012

A Estreiteza das Mesmas Ruas

tu na mesa de outono te sentaste o rigor
do corpo direito as mãos nos joelhos
pousadas fazes lembrar aqueles soldados
que muito tempo longe regressam
quando já ninguém os esperava
com altivez olham o que é deles
e já só podem sentir desdém
assim percorres de novo e de novo
a estreiteza das mesmas ruas

Tatiana Faia

George Frederic Watts

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belo retrato vitoriano da fotógrafa Julia Margaret Cameron

agosto 12, 2012

Portos de Alexandria

continuarás a voltar a estes quartos junto
aos portos de alexandria como fez kavafis
nos seus poemas o encontro e diálogo com
as coisas será por fim uma pequena variação
de cor na luz do dia será esta forma de
silêncio o ajeitar da última flor no vaso
em que a aprisionaste

Tatiana Faia

Berlenga

Berlengas2.jpg

uma beleza discreta

Com um livro no colo

E aqui estava ele
Perigosamente sentado
Murmurando ventos
Em dia calmo e abafado
Aqui estava ele
O esperado cigarro entalado
Nos dentes
Amarelando sem fervor
Rosas brancas insuspeitos
Poentes
Aqui estava ele
Ninguém o virá buscar
E ele sabe

Rui A.

agosto 13, 2012

George Wilson

George%20Wilson.jpg

a feiticeira da primavera, pintada por um pré rafaelita que nunca pertenceu à irmandade

Se eu pudesse

Se eu pudesse dispunha-me
num tabuleiro de poder ser
- mesa de alquimista sem truques de magia
nem excessiva severidade

Limpava os ossos desbastava as cartilagens
deixava de lado a pequenez e a presunção
e algumas indignidades cometidas
nem todas sobre mim

E se algo sobrasse de efectivamente promissor
enviava-me urgente à tua excelência
em carta não registada e sem aviso
de recepção

Para que só me chamasses
se quisesses

Rui A.

William Hogarth

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Sigismonda, ilustrando a versão poética de John Dryden (1631–1700)

agosto 14, 2012

Obstinado Voo

precisavas de uma linha de tempo que fosse
como aquelas rodas imperfeitas que meninos
conduzem em aprumos de aros de arame
por imperfeitas ruas de pedra cada oscilação
o eco de pequenos oráculos prováveis traços
de riscar o chão ecos de apostas mentais
curva de obstinado voo e consequente queda

Tatiana Faia

agosto 15, 2012

Sem repouso

Isso que eu digo vem tanto da terra
quanto do mar. Do ventre da terra e
do mar do ventre. Dia e noite
sem repouso, palavras são postas sobre
a têmpora, azul, frágil, da crosta
terrestre. Assim que digo escrevo,
talvez só seja preciso escutar
que me inclino, estico a mão, coleto
rochas e rochedos sonoros.

Antoine Wauters, trad. Juliana Bratfisch

George Frederic Watts

george%20frederic%20watts.jpg

retrato da actriz Ellen Terry, chamado "A Escolha"

agosto 16, 2012

Submissão

Submeto o poder
ao gesto de renúncia

anuncio ao vento
a água fervente
da conversão anímica
dos espíritos corporificados

da renúncia retiro a verdade
escalada em elevados tetos

cubro a história em divisões
estéreis e no consenso
sei do início:

o poder sucumbe ao encontro
no desprazer da morte
em sequência.

Pedro Du Bois

agosto 17, 2012

Aspirações, mais ou menos

Gostava de escrever um dia sobre a ciência
E a conquista do espaço
Sobre religião e mitologias
E mais ainda sobre os vinhos e a natureza
Da alma dos vizinhos
Sobre a luta diária de tantas mães sem filhos
Sobre o primo que não arranja emprego
Sobre os desgostos de amor da Eulália
Sobre as esquinas onde se escondem os miúdos de todos
Os bairros ou sobre todas as aldeias
Umas sem escola e meninos
Outras tantas com meninos sem escola
Todas com padre ao domingo
Dizem que vivo
Gostava de escrever sobre os desafios
Em todas as áreas domésticas do século XXI
Sobre moda e política internacional
E todas as questões internas e intestinas
Sobre medicinas alternativas
Sobre coisas sérias e brincadas
Sobre o universo e tudo o que abarca
Sobre o direito à greve
Sobre rendições de pais e de filhos
Sobre decisões mais ou menos acertadas
Da hora zero à vinte e quatro
Sobre a neutralidade que afecta
E a indecisão que corrompe
Sobre as mulheres de má vida
Sobre os homens infelizes
Sobre as certezas viris e sobre as virais
Sobre a luz e a sombra nos olhos de um fotógrafo
Sobre a virtude mais careca
E o inacreditável penteado
De sicrano que é um homem
Um pouco desorganizado
Mas percebe de selos como ninguém
E há-de casar com a Eulália e terão ambos
Alguns dias felizes e bem regados
Para infelicidade dos filhos aos quais
Se renderão nos primeiros anos de birra
Isto enquanto o vizinho
Que perdeu greve e sustento
Não é chamado para nada
Para logo a seguir, aí pelos seis dos meninos
Lhes trocarem as esquinas
Pela catequese ao domingo
Com sistemática falta de cinema e passeios à aldeia
Do pai que não tem escola
E da mãe que escola tem
Para que finalmente percebam que
No poupar de todas as coisas
Está o ganho
Ficam os miúdos sem saber que há espaço
Para outras conquistas
E para reflexões matemáticas e filosóficas
Que até poderiam ter
O seu interesse
Nomeadamente todas as matérias
Ou pelo menos as mais relevantes
Atrás mencionadas
Pesa mais a almofada e a falta de viagem
Da Senhora Dona Eulália
Que não aprendeu com os desgostos
Do seu marido despenteado
E numismático
E dos seus filhos pouco carismáticos
Mas não sou poeta
Nem tão pouco inteligente que não saiba
Que muita da boa poesia nasce
Da falta de poesia

Sou porém razoável
A elencar assuntos

E esse é
O meu eterno descanso

Rui A

George Frederic Watts

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as belas irmãs Terry - Kate e Ellen - ambas actrizes de grande sucesso

agosto 18, 2012

A letra a mais

acordados, virão
perguntar por que presságio, que desleixo
ficou esta mão gravada
em precipício de pedra;
Rito de caça? promessa
de chuvas além-terra, aonde o manto

da inteira solidão se desvanece?
Talvez, da ignorância, tenha feito
a mais precisa forma de memória. Ou me baste
essa visão de enganos, quando o vento sopra
mais forte no rumor da bicicleta;
ou seja o crânio, à pressa encomendado,

a peça no relógio que faltava,
a letra a mais na terra, que ao farol nos guia.

António Franco Alexandre

Retrato do Artista em Cão Jovem

Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos

aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra

António José Forte

Emmelina Deane

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Edith Craig, filha de Ellen Terry, retratada em 1911

agosto 19, 2012

O Bom Artífice

Entretanto
dez séculos mais tarde no local do drama
o diabo
diante do seu fomo
levanta por instantes seus doces olhos
para quatro mil cadafalsos

Vêde
mais além o bom artífice
mostrando
anjos
ou
batéis

ainda uma canção
se gostais
de belas torturas
não ouvireis nada

António José Forte

agosto 20, 2012

Do caminho

Era um sujeito que valorizava sobretudo o caminho
A forma do andar no fazer caminho
Mais que a da partida ou da chegada
Pensava o sujeito no seu predicativo incerto
Que incerta é a qualidade da estrada
E que na estrada era certo o acontecer
Integral e derivado
No final se veria da qualidade de vida
Assim longamente prosseguida
E se acaso encontraria a sua dama
E seria por ela encontrado
Se o trabalho ficara bem feito
E se enfim tinha morada
Fosse ele mais conforme com o mundo
E moldado a sucessos de outra natureza
Usaria das estratégias planas
Tão naturais nesse mundo
E tão desconformes à sua imaginação
E conseguiria chegar salto
Ao que lhe negava o caminho
Mas perderia no processo infame
Mais que a sua razão
Perderia, além de um estimável coração
E desta feita irremediavelmente
todo e qualquer outro vigor

Rui A.

George Frederic Watts

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Eveleen Tennant, fotógrafa pioneira, mais tarde Mrs. Myers, pintada em 1880

agosto 21, 2012

O porto

Nós contamos a eles os mitos de outros
Sentados ao redor da velha, imponente nau
E à mesa da nau, que fora despachada
Dalgum porto distante.
O despenseiro chegou em busca das cartas
À espera de notícias de um porto próximo
Mas, como o vinho que bebêramos cedo demais,
Nossos corações estavam com a nau
Onde afinal nossa mesa fora posta.
Parte de nossa atenção concentrava-se
Na tempestade a flagelar-nos como se a chuva
Pudesse sobrepujar a presença de outros
E da velha devoção no discurso do capitão.
O capitão preferia antigos modelos de exórdio
Àqueles que eram curtos
E interceptara a carta do despenseiro
Durante o seu próprio discurso inicial,
Abreviado com loas à companhia dona da nau.
Ele acusou-nos de sermos velhos e alcoólatras
E de deixarmos bigodes que se enroscavam
No sal do mar em que navegávamos
Se ao menos pudéssemos deixar o porto.

Bernadette Mayer, trad. Ricardo Domeneck

O Pequeno Demiurgo

escrevo barco e uma quilha fende o vastíssimo mar
e as árvores crescem dos espaços enevoados
entre olhar e olhar movem-se
animais presos à terra com suas plumagens de ferro
e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa
comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver

penso outono ou inverno
e o lume resinoso dos pinhais escorre sobre o rosto
sobre o corpo em tímidos gestos
eis o tempo
do capricórnio reduzido ao esconderijo tatuado
na asa mineral da ave em pleno vôo e digo nuvens
relâmpago erva águas
homem
movimento do susto oceanos sal exaustos corpos
transumantes paixões digo
e surge irrompe escorre ergue-se move-se vive
morre
mas não julguem ser trabalho simples nomear
arrumar e desordenar o mundo

para que não se apague esta trémula escrita
preciso do sonho e do pesadelo
da proximidade vertiginosa dos espelhos e
de pernoitar no fundo de mim com as mãos sujas
pelo árduo trabalho de construir os gestos exactos
da alegria que por descuido deus abandonou ao cansaço
no fim do sétimo dia

Al Berto

agosto 22, 2012

Falso Retrato de Andy Warhol

não penso
transcrevo conversas telefónicas ou falo
com a noite de new york
ou não falo e gravo a voz dos outros filmo
obsessivamente a morte
ou não filmo e multiplico cadeiras eléctricas
excito-me
sou o centro do mundo dos outros e
não existo
ou é a vida que me atravessa o sexo
e finjo a morte ou cintilo
como o diamante

Al Berto

Andy Warhol

andy%20warhol.jpg

jogo de cores

Ex Patria

Pedantes, indignos pederastas geográficos
Ordenam queda de lágrimas que, como cascatas,
Rolam pelas faces pálidas de outros homens, outrora
Ternos, crentes e amantes da pátria
(Um outro imposto, só por respirar, ia bem…!).
Gulosos, os tais, como lobos esfaimados
Arrancam carne e escalpam cérebros
Louvando, em choro alegre, o bem que lhes sabe….

(Laus in ore proprio vilescit) (1)

Enquanto os outros homens (quem sabe se ainda em latência)
Nadam num imenso mar de solidão e desespero, vivendo
Tormentos sofridos e angústias desnecessárias (dizem!)
Riem os detritos engravatados que, ainda (em demência)
Insatisfeitos com o deserto dos outros
Saltam sobre dignidades e outros valores
Tomando de assalto os direitos merecidos
E, fazendo uso de palavras vernáculas,
Cobram a vida dos outros. Como poderá tão rigoroso
Inverno dos infelizes homens acabar?
Dói-lhes a alma… o ventre… o sangue… a força, até
O sorriso, mas não, acreditemos, a capacidade de amar.

E prosseguem….
(Esse eum omnium horatum) (2)

Alegres chefias, passem coimas a quem lamente
Doenças por tratar, saberes por terminar, vidas por viver…
Impunidade é, pois, a vossa palavra de ouro!
A quem nada teme e respeita:
Dor, silêncio, grito, abandono, fome de filhos…
Oh país adiado, como podes não chorar por isto também?
(Ius ars boni et eaqui est) (3)

(1) O louvor na própria boca perde valor.
(2) Pessoas que se adaptam a qualquer situação.
(3) O direito é a arte do bom e do justo.

Violante Grilo

agosto 23, 2012

Este Agosto

Mas porque, por amor dos bosques, não se calam?
Idiossincrasias, pela certa, que o direito
Ao silêncio é feito de pequenos nadas, e
Cada vez que um melro vem à cidade
Há sempre homens e mulheres que não reparam
Embora ao melro pouco importe, e ao seu passo elegante
Lá, onde inventa bicos isentos de avenidas fartas

Há palavras das mais espertas nos bicos de um melro
Onde, ou melhor dizendo, nas quais,
Joaquins e Marias se embraçam sem saber porquê
Este mais um mistério da vida, que
Tantas vezes fazemos bem o que não queremos
por não saber porque o fazemos e, como se não chegasse
O filosófico silêncio do melro na cidade buzinada
Cuase ou quase, como queiram os mais previstos engenheiros
Alivia as tardes muito religiosas, feitas de
Sangue murcho, quanto baste ao trono dos dias

Todos somos feitos de igualdades, nem que na maior das insatisfações
E há quem diga, ou envide, que seja isto a democracia

Belo belo era que o dia irrompesse por entre as esquinas do melro e
Ainda mais em algumas, senão muitas
Imprevistas alminhas feitas de
X individualidades elevadas ao quadrado, recalcitrantes,
Imoderadas,
Nada desconformes com o nada, mas
Hoje é um lugar qualquer
O lugar ideal para ser lugar, entre três copos de vinho

Rui A.

Pamela Colman Smith

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Ellen Terry, interpretando Mrs. Page, personagem de "As alegres comadres de Windsor"

agosto 24, 2012

Encomenda postal

destino-te a tarefa de me sepultares
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográfica

depois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceu

e numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou o precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta

Al Berto

Primeiro amor

Gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado os Pestíferos de Java
resolvi assim escrever-lhe cartas anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele fina
devia ter uma letra muito melhor que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita

Adília Lopes

Arthur Edward Waite & Pamela Colman-Smith

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um Tarot luminoso

agosto 25, 2012

Jardim da Paz

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Buddha eden, um sábado diferente

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(nenúfar e sapo)

Sonhos

Sinto o cansaço das viagens que nunca fiz
Mas nem por isso há queixume ou desalento
Porque tenho a memória das aventuras
De cavaleiros medievais e amantes renascentistas
Das bruxas hereges e dos castelos
Prestes à conquista e ao negrume do inimigo
Que ainda vivem nos meus sonhos.
E assim nunca perderei de vista
As subtis linhas do azul quase invisível do céu
Onde nunca estive e nas quais nunca naveguei
Mas nem por isso tenho as portas fechadas
Às asas da imaginação, que essas
Nunca estarão para lá do meu horizonte.

Violante Grilo

agosto 26, 2012

Louvor do lixo

para a Amra Alirejsovic

(quem não viu Sevilha não viu maravilha)

É preciso desentropiar
a casa
todos os dias
para adiar o Kaos
a poetisa é a mulher-a-dias
arruma o poema
como arruma a casa
que o terramoto ameaça
a entropia de cada dia
nos dai hoje
o pó e o amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão come-se
ou deita-se fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar o lixo)
o poema desentropia
o pó deposita-se no poema
o poema cantava o amor
graças ao amor
e ao poema
o puzzle que eu era
resolveu-se
mas é preciso agradecer o pó
o pó que torna o livro
ilegível como o tigre
o amor não se gasta
os livros sim
a mesa cai
à passagem do cão
e o puzzle fica por fazer
no chão

Adília Lopes

Jardim da Paz II

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buda no meio do arvoredo

agosto 27, 2012

Sede

Ser
Sereno,tolerante,
bem vestidinho
Aceitar
o que o mundo tem para dar.
Pois, e é isto dito nos anais das decisões
De doutos democratas …
Mas, ó deuses! …
Porque me sinto então
Mar em terra batido,
Desconhecido,
Sol em dia de nevoeiro,
Apagado,
Sal em prato raso,
Adocicado…?
Sou isto e aquilo…
Talvez seja melhor
Ser aquilo
Que isto
E nenhum deus é maior
Que a sede do meu desejo
De redenção.

Violante Grilo

Esquecimento

O nome do autor é o primeiro a partir
seguido passivamente pelo título, a trama,
a conclusão de partir o coração, todo o romance
que de repente torna-se algo que você nunca leu,
nem dele ouviu falar,

como se, uma a uma, as memórias que costumava aportar
decidissem retirar-se para o hemisfério sul do cérebro,
para uma pequena vila de pescadores sem telefones.

Há muito tempo você deu adeus aos nomes das nove Musas
e assistiu à equação do segundo grau fazer as malas,
e mesmo agora enquanto memoriza a ordem dos planetas,

alguma outra coisa está sumindo, um emblema floral
talvez, o endereço de um tio, a capital do Paraguai.

O que quer que você esteja lutando para lembrar-se
não está equilibrado à ponta de sua língua,
nem mesmo a espreitar de um beco escuro em seu baço.

Foi correnteza abaixo de um rio mitológico e escuro
cujo nome começa com um L se você se lembra bem,
você, a caminho de seu próprio esquecimento onde se unirá
àqueles que esqueceram como nadar ou andar de bicicleta.

Não é de admirar que você se levante no meio da noite
para conferir a data duma batalha num livro de guerras.
Não é de admirar que a lua à janela pareça ter vagado
para fora de um poema de amor que você sabia de cor.

Billy Collins, trad. Ricardo Domeneck

Jardim da Paz III

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em contraluz

Presságio

Um sol todo nu – um sol amarelo
Um sol todo nu de apressada alvorada
Derrama vagas de ouro do lado de lá da
Margem do rio todo amarelo.

Um sol todo nu – um sol todo branco
Um sol todo nu e todo branco
Derrama vagas de prata
Sobre o rio branco branco.

Um sol todo nu – um sol todo rubro
Um sol todo nu e todo rubro
Derrama vagas de rubro sangue
Sobre o rio repleto de rubro.

Birago Diop, trad. Leo Gonçalves

agosto 28, 2012

Ninguém nos diz

Ninguém nos diz como
voltar a cara contra a parede
e
morrer simplesmente
assim como o fizeram o gato
ou o cachorro da casa
ou o elefante
que caminhou
em direção à sua agonia
como quem vai
a uma impostergável cerimónia
batendo orelhas
ao compasso
do cadencioso
fôlego de sua tromba
só no reino animal
há exemplares de tal
comportamento
mudar o passo
aproximar-se
e cheirar o já vivido
e dar as costas
simplesmente
dar as costas

Blanca Varela, trad. Angélica Freitas

Rudolf Koppitz

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Olive Ann Alcorn, em 1925

História

Ela é história por contar, rosa fogo
Vermelho sangue, com sabor a paixão
Verde esperança, na dor e na virtude,
E tem no colo réstias do azul de uma criança
Pronta a mamar um leite materno
Muito, muito adocicado.

Ela é mulher transparente e desenhada
No mapa de um mundo feito de matrizes ocas
Onde não cabe o contemplar da grandeza
Desse vento, dessa água, desse fogo
E da terra, tão terra
Fértil, em flor na primavera e também
No outono da vida,
Da vida que ainda lhe pertence.

Desejada, admirada, excomungada e
Até muito letrada, sabedora das mais
Profícuas teorias filosóficas e literárias
Ela bem sabe que, mais que tudo,
No mais importante
É o cheiro de um poema com sabor a mar
Que torna a sua vida ainda mais salgada.

Verde, muito verde nas amargas decepções
Mundanas
Azul, muito azul no sempre perene sonho do
Inimaginável
Rubra, tão rubra no seu corpo sexual,
Pulsante, assim despido de quaisquer odores
Estranhos ao seu paladar de mulher,
É ela, no entanto, a mais doce menina
Que espera, como quem espera do Alto,
O frémito de um raio que lhe possa
Cair em cima, como se a sorte,
Em vestido, numa noite de verão
A convidasse a voar…

Também vive nela um certo acinzentado
Mesclado de castanho-escuro, que insiste
Em sentar-se na poltrona mais confortável
Da sua alma, chorosa por vezes…
Ou ainda o negro, por detrás do qual se esconde
Uma teimosa feiticeira má, que inventa
Poções pouco saborosas, que maçam e
Agrilhoam….

Mas esta mulher não deixará, nunca,
De vestir o seu melhor tailleur laranja,
Cor da vida e do sorriso mais puro,
De colocar toque de baton brilhante
Nos lábios carnudos, às vezes murchos
De se olhar no espelho e soltar o cabelo…
Nunca deixará de sorrir,
(mesmo que ainda timidamente)
Para qualquer estranho que passe no seu rio
Selvagem, vivo nas cores, nos cheiros e sabores,
E nunca deixará de ser violeta em espiral
Colorida borboleta, para sempre pronta
a dançar.

Violante Grilo

(inspirado no Modus Vivendi)

Fabulações

Da desmoralizada fábula
retiro a lição antagônica
do ato

fujo em cigarras
jogadas ao vento
na derrubada
da casa

(pela enésima vez
ofereço ao pastor
o lobo despedaçado)

no final da história
retorno em alisadas
frases. Em cada começo
reencontro a farsa.

Pedro Du Bois

agosto 29, 2012

Rudolf Koppitz

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Direitos de autor

com os direitos de autor
do meu primeiro livro de poesia
comprei um m&m amarelo
(amendoins cobertos de chocolate)
duvido que alguém tenha saboreado os meus poemas
com tanto alarido

com os direitos do segundo
comprei dois m&ms
fiquei abundantemente contente e
de queixo bem lambuzado
como convém

cada m&m lembrava-me o álvaro
que dizia, e passo a citar
come chocolates, pequena, e
eu, citando novamente,
comia chocolates, pequenos

com os do terceiro
que ainda não escrevi
já me cresce água na boca
reservei m&ms na mercearia
e pus a boca em pause
embora muito a contragosto

bem vejo como este poema é prosaico
as minhas desculpas
os direitos de autor não dão
para mais metáforas do que isto

(e, de resto, ele tinha razão, o álvaro
o mundo é uma gigantesca pastelaria
onde uns comem, outros vêem comer)

Bénédicte Houart

agosto 30, 2012

Finalmente livre

já penélope não sou
nem ulisses regressa
mudo de nome noite
a noite ao sabor da saliva
dos meus amantes
de dia troco lençóis
coso bainhas
descanso os olhos
dantes tecia para
enganar a corte que
me servia de prisão
agora chamo-me eu
não tenho estado civil e
na cela que me tem cativa
tornei-me finalmente livre

Bénédicte Houart

George Frederic Watts

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retrato da pintora Dorothy Tennant, mais tarde Lady Stanley

agosto 31, 2012

Ainda ontem

são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia

Bénédicte Houart

Rudolf Koppitz

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pureza de linhas

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