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Arquivo de setembro 2012

setembro 1, 2012

Algo assim

As coisas grandes
as coisas raras
acontecem em momentos de decisão ou de loucura
por exemplo:
deixar seu país,
cortar o cabo do freio
com um alicate para liberar a bicicleta,
desfrutar
gozar
com o crime
quebrar a roda da outra bicicleta ou
jogar ácido no banco
Algo assim.

Cecilia Pavón

Ria de Alvor

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outra ria, este verão

setembro 2, 2012

Palavras que não há

Devia haver palavras sagradas com que povoar a alma
Não sei se língua se linguagem
Seguramente um vento um porto cheio de casa
Devia haver sentidos caminhos livres
Devia haver paz devia haver tempo
Devia haver silêncio,
o respirar da música em qualquer vento
e aí nosso nome, ainda que não mastro
ainda que não rádio e muito menos
capital ou capitão
Nome vasto vasto vasto
como vastos são
Gatafunhos de menino
Mil quedas do mesmo galho
Conversas com aves
Esperas do carteiro certeiro e mais que competente
Ansiedades das mais certas, que sempre passava,
e a tal carta um dia
Palavras joelhos, jóias e jornas ao pescoço
das belas resineiras
Palavras de infinito no tempo de estar
por cá
Palavras que não devessem nada a ninguém
Encontro no mais fundo de cada
Almas povoadas
de mar e transparência
brisamarinhemterra
algurespassa um marinheiro

Devia haver perguntas a iluminar respostas
Dessas tão comuns, em qualquer clima, esse rei
E também das outras, não menos nevoentas e nobres, já agora
ou um pouco depois,
antes da deita

A vida é assim mesmo,
pelo menos às vezes,
começar certinho e bem devagarinho
não esquecer lavar os dentes
ser simpático com os clientes
que mereçam
despachar os chatos,
ou viver com eles

Logo se verá o caminho e,
com sorte ou mais que sorte,
o caminhante.

Tarde ou cedo virá o sono

Mas, na minha absoluta ignorância das coisas,
acho mesmo que,
pelo menos por vezes
enfim devia haver,
finalmente e num qualquer sempre,

palavras que não há

Rui A.

Ria de Alvor II

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Perna-vermelha, um dos muitos habitantes da ria

Oração aos vivos para que sejam perdoados por estarem vivos

Eu suplico-vos
fazei qualquer coisa
aprendei um passo
uma dança
alguma coisa que vos justifique
que vos dê o direito
de vestir a vossa pele o vosso pêlo
aprendei a andar e a rir
porque será completamente estúpido
no fim
que tantos tenham sido mortos
e que vós viveis
sem nada fazer da vossa vida.


Charlotte Delbo, versão de Luís Filipe Parrado

setembro 3, 2012

À frente da coragem

Eu quero partir com os loucos o pão,
migalhas diárias do desespero grande,
também o sino em meio ao peito,
ali onde o pombo aninha-se
e tem seu refúgio minúsculo
no ermo sobre as águas.
Residi por anos como pedra
no chão das coisas.
Eu ouvi, porém, o sino
sussurrar teu segredo
nos peixes com asas.
Hei-de aprender a voar e nadar,
deixar o pedregoso sob as pedras,
aconchegar em madrepérola
a melancolia, elevar aflição, ira.
Minhas asas são mais velhas
que tua paciência, minhas asas
vão à frente da coragem
que tomou sobre os ombros o louco.
Eu quero partir com os loucos o pão,
ali no ermo assustador do pombo,
onde o sino triparte o maior desespero
ao som tríplice do teu nome.

Christine Lavant, trad. Ricardo Domeneck

Julio Romero de Torres

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outro ângulo do olhar

Amor à distância

A lua
Ergueu-se entre nós,
Entre dois pinhos
Que se inclinam um ao outro;

O amor ergueu-se com a lua,
Alimentou-se de nossos caules solitários;

E agora nós somos sombras
Que se prendem uma à outra,
Mas beijam apenas ar.

Christopher Okigbo, trad. Ricardo Domeneck

setembro 4, 2012

Albukassen

A este
segue o ato de roubar,
para dar-lhe duas tragadas,
o cigarro da irmã
e, ao mesmo tempo, tomar
do balcão um copo
de vidro grosso com pirâmides
talhadas em baixo
relevo
da base até uma altura
de quatro centímetros sendo
o restante cinco lisos centímetros
polidos, girá-lo
com os dedos em tenda
sobre a boca do cristal,
soerguê-lo com as duas mãos,
tornar a olhar,
levar o copo aos lábios,
baladeira pilhada pelo líquido
caramelado,
sorver de um gole
a metade do conteúdo,
deixá-lo na boca com o cimo
da língua pressionado
contra o palato,
endireitar a cabeça
em sua direção,
sorrir com os lábios
úmidos bem tesos,
erguer a mão livre, a esquerda,
mover com a palma a si
o dedo índice em gancho, estender o braço
em posição horizontal,
tocar
o que vinha olhando, uma boca, nuca,
com os lábios sempre tesos
abrir esta outra boca e destilar.

Cristian De Nápoli, trad. Ricardo Domeneck

Albukassen: alquimista persa que viveu no século X, autor da mais antiga descrição conhecida sobre o processo de destilação do uísque.

Pamela Colman Smith

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uma bela ilustração

setembro 5, 2012

A árvore

A raiz atingiu
Um veio de pedra.

A seiva seca no caule
Em ascensão:
O sangue seca na veia
Como seiva.

Christopher Okigbo, trad. Ricardo Domeneck

Cacela Velha

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vista sobre a ria Formosa

setembro 6, 2012

Pudesse Eu

(Para a Guida, grande amiga de venturas e desventuras)

Pudesse eu transformar
A rosa que exibes, em segredo,
No corpo marcado pela incerteza
Por outra tatuagem, também de flor,
De uma outra flor qualquer, a que mais
Gostasses, a que escolhesses,
E essa sim, exibisses , sorridente,
A um mundo que não te espera assim…

Pudesse eu dizer ao mundo
O valor do teu olhar crente, do teu
Sorriso de esperança e da tua
Humildade de mãe, amiga, mulher e
Pessoa que tudo ou nada espera
De um caminho ainda pleno por
Percorrer e de uma luz ainda pueril
Gémea no amor e na ternura
E no género dos seus 8 anos
E no difícil que é esse ficar em nada…

Pudesse eu dar-te ainda mais vida,
Aquela que está latente em forma de luz
e que me mostra todos os dias o quanto
Pensas nos outros e menos em ti
E que disso sempre fizeste,fazes e farás
Do mundo um carrossel
De criança, onde brincarás sempre
E sempre, com quem quiseres.

Violante Grilo

setembro 7, 2012

O cerco

Um pássaro em queda mesmo
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena

Para fazeres ideia pensa
Como perde um homem a idade
De encontrar os ninhos

Retém na memória: o homem cai. Desloca-se
O pássaro para que as estações não mudem

É dessa rotação que o muro
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O cerco
Do voo é a pedra da idade

Para fazeres uma ideia pensa
Em engoli-la

Daniel Faria

Julio Romero de Torres

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beleza de perfil

setembro 8, 2012

Um pouco acima

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe

Daniel Faria

Kate Moross

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diferente, muito diferente

Verbo no feminino

Quem sabe, sabe bem
Que há sorriso, quando o tempo é de choro
Que também há choro, quando a luz está lá fora
Que se ama sem qualquer freio, uma cria
Que se perdoa porque nunca faz por mal
Que se é vaidosa quando apetece
Que é bom ser bela, só porque dizem
Que não se cuida, porque não há tempo
Que não importa só o que se vê, acrescentam
Que é assim, que acontece…
Que se é mãe, ou não, não importa
Mais se daria, sem mais, e sempre
Profundamente, porque o instinto chama
E não se quer mais nada que o riso dos outros
E o nosso, também
Que a estima vale tanto como a vida
Que é a vida.
Que é o verbo, este, o verbo.

Violante Grilo

setembro 9, 2012

Sobre as águas do céu

Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

Daniel Faria

Julio Romero de Torres

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a mantilha negra, ou do pormenor

setembro 10, 2012

Preços

Arrecado
óbolos
desprovidos
de futuro: o pagamento
permite
a viagem

(não a estada).

Pedro Du Bois

Pamela Colman Smith

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o elogio da cor

setembro 11, 2012

Da voragem

Acontecera que as coisas se destruíssem sem que nelas sobrevivesse
E era tarde.
Sozinho em tempos não fora a falta de ninguém
E o que doía não tinha o quisto da doença
Só o espaço sereno das coisas que se deixam.
Acontecera que nada se fizera fora
Do coração.
Acontecera que passara a noite a abrir os olhos
Para não se interromper
A estender a mão para estar vivo
E certo de que nem ele próprio se abeiraria de si mesmo
Pois ocupara-se rigorosamente de ausentar-se.
Mesmo se caminhara muito devagar
Sem outro meio para esperar que o visitassem.
Ele que é agora o que nunca repousou
O que nunca encontrará o sítio do sossego
A não ser que haja o equilíbrio na vertigem
Uma luz parada no meio da voragem.

Daniel Faria

Julio Romero de Torres

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em passo de dança

setembro 12, 2012

Já gastámos as palavras

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

Arcachon

arcachon

outras dunas, o mesmo mar, a norte

setembro 15, 2012

Fome

A fome não é um verso que tu digas
na aragem de desceres a madrugada.

É uma escassez de ombros que são vidros
partidos pelas mãos de quem os guarda.

É o imaginar-te ali, aqui tão perto,
e encontrar apenas a cerrada

névoa que é tangente ao som do nada.

João Rui de Sousa

Poitiers

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quase outono

setembro 16, 2012

Engenho e arte

Vivo com certas palavras, abelhas domésticas;
ou com qualquer palavra, como a palavra qualquer
que, agora, irrompe e se impõe ao desaviso,
como se houvesse em mim a força e o propósito
de palmilhar vagamente uma estrada de Minas,
solene e à espreita de um desencanto grave;

E como se eu vivesse ao correr da pena,
em leva e trás sem trégua, ao peso de mim mesmo,
sujeito ao escárnio, por exibir solene,
o dom da analogia e a música adequada,
em certos instantes que invento.

Porém, quisera-me inventor de um descrever feroz,
à margem ou ao centro: uma construção esperta,
sem a falsa elegância ou a sedução barata,
que são meus vícios brutos, sem alma e sem remédio;
e que rondam renitentes, agorinha, neste instante.

Abriria os olhos, incuriosos, lassos,
para a máquina, o discurso (e por que não a vida?)
construídos com o engenho e a arte dos milagres.
E ficaria só, contente, no meu íntimo,
a remoer o sentimento apagado
e o traço tosco da poesia.

José Almino

Bordéus

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uma bela cidade, a fechar o verão

setembro 17, 2012

Intranscendência

Um momento.
E devagar, shhhh...
Que o gato não desperte.
Que os pardais na laranjeira
não se espantem.
Ferve a água, fecho o livro,
maio voltou à janela.
Alguém quer uma xícara de chá?
Algum de vocês deseja
uma xícara de chá?
Na segunda prateleira,
à esquerda, há duas latas
uma vermelha e outra branca.
150 milhões de km
percorreu este raio de sol
que transluz o vidro
e as cortinas
e se fixa na madeira do chão.
Dentro do raio, na não-gravidade,
a poeira cinza enlouquecida
formigando.
A branca não, a vermelha.

Daniel García Helder, trad. Angélica Freitas

setembro 18, 2012

mercado negro

fardo que carrega
não há quem suporte

então me entrega
sua vida e morte

do seu ponto fraco
faço ponto forte
é o meu dedo em riste
que lhe aponta o norte

nem precisa força
pra que se comporte

pague seus pecados
ou então culpe a sorte

a falta de um abrigo
alguém que lhe conforte

eu lhe tiro os filhos
tomo sua consorte
vezes por capricho
outras por esporte

você estende os pulsos
eu lhe digo
- corte

você tem um sonho
eu lhe digo
- aborte

Dimitri Rebello aka Dimitri BR

Kate Moross

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o mo(vi)mento na cor

setembro 19, 2012

É infinita esta riqueza abandonada

esta mão não é a mão nem a pele da tua alegria
no fim das ruas encontras sempre outro céu
atrás do céu há sempre outro gramado praias diversas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca suponhas que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
atrás das pegadas do teu amante há outras pegadas
atrás do canto um novo sussurro se prolonga
e as madrugadas escondem alfabetos inauditos ilhas remotas
sempre será assim
algumas vezes teu sonho acredita ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos ao coração de todos de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros sabem a palavra tu a ignoras
outros sabem esquecer os fatos desnecessários
e levantam o polegar já esqueceram
tu voltarás não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre as últimas risadas a dor e os inícios
encontrará o vento acre e as estrelas derrotadas
uma máscara de bétula pressagia a visão
tens querido ver
no fundo do dia o tens logrado algumas vezes
o rio chega até os deuses
murmúrios longínquos sobem à claridade do sol
ameaças
esplendor a frio

não esperas nada
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada

Edgar Bayley, trad. Renato Rezende

Ao amor búfalo

Que heras venenosas te recubram
o avesso dos cabelos onde a ideia
de amor brotou torta
da cratera
desde o início.
E o tempo em temporais de areia
seja-te leve
ó meu suplício.
Nada foi verdadeiro na vereda
de finos artifícios
que teceram
com palha a fogueira das malícias,
benesses pesadelas:
teu passo elefantino e orgulhoso
com seus troféus de espanto e garrotes
novos à garota agradecida.
Seja-te leve esse esconjuro
de sal e ardósia,
esta laje com jeito
e faina de esfiapar-te
da lembrança,
cataventos
de cartas de amor despedaçadas.

Elisabeth Veiga

setembro 20, 2012

Elegia

Já repeti o antigo encantamento
e só o cimento respondeu,
rastro de cinzas de maçã vencida,
desvestígio de gosto,
estanque julho que moeu vindimas
e deixou no espaço seu vinagre branco.
Onde havia um deus
os dias emboloram nuvens
de estrita agonia antepassada
que se olha no espelho
antes do adeus.
Inexiste, não soa, o que havia
fixou-se atrás da mente:
fim estalado de fotografia.
É agosto seco. É hoje e nunca houve.

Elisabeth Veiga

Julio Romero de Torres

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retrato de Conchita Saavedra, ou o detalhe curioso

setembro 21, 2012

Quase outono

O que poderia casar a densidade de uma semente à palavra explícita
senão rigidez?

Isso veste braços nus enquanto folhas caem e caem.

Elizabeth Robinson, trad. Ricardo Domeneck

George Frederic Watts

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jogo de tons

setembro 22, 2012

Eu não sei

Eu não sei se Fernando Pessoa realmente existiu
(admitindo que saibamos o que existir quer dizer)
mas eu acho que ele existe à medida
que cada um de nós acha que ele existe.
E que neste sentido ele é único.
Não no sentido em que cada um de nós é único
– ou pensa ser –
mas no sentido em que Fernando Pessoa é único
isto é, como um gerânio
no meio de outros gerânios,
isto é, como todo mundo.

O que o torna tão diferente de muitos dos outros poetas
é a sua indiferença a todas as coisas,
dentre elas, a poesia e a indiferença.
Sua indiferença não é uma pose, nem uma atitude.
Ela é a expressão de uma inteligência viva.
Para Fernando Pessoa, ser inteligente é duvidar de todas as coisas,
dentre elas, da inteligência e da dúvida,
é tentar se desfazer daquilo que aprendemos.
Fernando Pessoa maneja sua inteligência
como o contrabandista de Valery Larbaud usa
seu pequeno espelho de bolso
para assegurar que os funcionários da alfândega não estão na sua cola.
Eu acho que ele tinha um olhar de mosca.
E que seus olhos de mosca lhe permitiam ver tudo
ao mesmo tempo, uma coisa e seu contrário,
mais alguma coisa que não é exatamente seu contrário
e que é, no fim das contas, a mesma coisa.

Admitindo que Fernando Pessoa tenha algum dia existido
(e que tenhamos chegado a um acordo sobre o que existir quer dizer)
eu acho que ele era do tipo que podemos chamar solitário,
e que ser solitário como eu imagino que ele tenha sido
é estar presente ao mesmo tempo em todos os lugares e em lugar nenhum
é ser ao mesmo tempo todo mundo e ninguém.
Ser Fernando Pessoa é ser tudo, para ele somente.
E alguma coisa que tem a ver com o sono.

Emmanuel Hocquard, trad. Marília Garcia

Michelangelo

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Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, um génio do século XVI

Equinócio de Outono

Em 2012, o Equinócio de Outono ocorre no dia 22 de Setembro às 15h49m, estação que se prolonga por 89,81 dias até ao próximo Solstício, no dia 21 de Dezembro às 11h12m.

setembro 23, 2012

Naturalização

Mãos brancas
cabelos ruivos
olhos azuis

Pedras brancas
sangue ruivo
lábios azuis

Ossos brancos
areia ruiva
céu azul

Erich Fried, trad. Ricardo Domeneck

Monet

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tons do dia

setembro 24, 2012

Canta-se

Canta-se
de medo
contra o medo.

Canta-se
de fome
contra a fome.

Canta-se
do tempo
contra o tempo.

Canta-se
do pó
contra o pó.

Canta-se
sobre os nomes
a fazer dos nomes o inominável.

Erich Fried, trad. Ricardo Domeneck

Julio Romero de Torres

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em modo suave

setembro 25, 2012

Canto da Usura

Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra
blocos lisos e certos
que o desenho possa cobrir;
com usura
nenhum homem tem um paraíso
pintado na parede de sua igreja
harpes et luthes
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo se irradie do entalhe;
com usura
ninguém vê Gonzaga, seus herdeiros e concubinas
nenhum quadro é feito para durar e viver conosco,
mas para vender, vender depressa;
com usura, pecado contra a natureza,
teu pão é mais e mais feito de panos podres
teu pão é um papel seco,
sem trigo do monte, sem farinha pura.
Com usura o traço se torna espesso
com usura não há clara demarcação
e ninguém acha lugar para sua casa.
Quem lavra a pedra é afastado da pedra
O tecelão é afastado do tear.

Ezra Pound, trad. Augusto de Campos

Kate Moross

KATE-MOROSS.jpg

heart in b&w

setembro 26, 2012

Chula das fogueiras

Amor amor meu big amor
eu dizia shazam e tu não me ligavas

pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas

em qualquer planeta verde e avançadíssimo
tu não me ligavas

estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma

tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio

fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado

mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia

Fernando Assis Pacheco

setembro 30, 2012

Bruges

brugge.jpg

Brugge, a bela flamenga

Heureux

Heureux qui chante pour l'enfant
Et qui sans jamais rien lui dire
Le guide au chemin triomphant
Heureux qui chante pour l'enfant
Heureux qui sanglote de joie
Pour s'être enfin donné d'amour
Ou pour un baiser que l'on boit
Heureux qui sanglote de joie

Heureux les amants séparés
Et qui ne savent pas encore
Qu'ils vont demain se retrouver
Heureux les amants séparés
Heureux les amants épargnés
Et dont la force de vingt ans
Ne sert à rien qu'à bien s'aimer
Heureux les amants épargnés

Heureux les amants que nous sommes
Et qui demain loin l'un de l'autre
S'aimeront s'aimeront
Par-dessus les hommes.

Jacques Brel

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