Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos, folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.
Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.
Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens
voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.
De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.
E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho,
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.
Ingeborg Bachmann


comentários (2)
É mesmo a queda total.
Por circe | março 7, 2008 11:14 AM
em 07/03/2008 11:14
a mais absoluta de todas as quedas, depois da queda em si.
Por ana r. | março 7, 2008 6:39 PM
em 07/03/2008 18:39