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um poema de amor

Ainda bem
que não morri de todas as vezes que
quis morrer -- que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem
que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem
que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí -- ainda mais perdida do que
antes -- a olhar sem ver. Ainda bem
que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.
Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer -- mas é -- um poema de amor.    

Maria do Rosário Pedreira

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 12 de novembro de 2020.

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