Com o rigor do guia turístico
à sombra dos monumentos poderia descrever
as coisas que ainda amo.

O calor da roupa ao fim de um dia de uso,
o interior adocicado e acre dos pombais.
O coração fresco das igrejas.
A superfície lenta da beleza.
Um cão cheirando a sol,
o cadinho do sol
perfumando a carne viva.

E também a ideia dos trópicos,
aves prometendo vómito e ternura,
a gaiola aberta, lassa,
qualquer coisa sexual na lassidão.
A palavra propulsão e cravos bem temperados.
As mãos, que envelhecem
antes que o corpo dê o tempo por perdido.

E das mãos pequenas manchas,
a velha mímica de semear.
Mulheres de uma beleza ínvia,
amarga. Olho-as
como quem experimenta o gosto
térreo de uma raiz.

Andreia C. Faria