Silêncios (em alegria plena)
Houve por aqui uns poucos dias sem palavras. Estavam a sul, presas nos lábios, guardadas para os olhos onde o dia se põe, sabendo sempre que é lá o lugar onde os raios irão reflectir o próximo brilho. Não houve imagens, também. Estão na memória, plena de novos tons, reflectidas numa ria que deslumbra, num mar que se perde de vista sem que o cheiro profundo e acre da maresia falte à respiração. Foram poucos dias, parece, se a agenda conta. Mas são tempos incomensuráveis, bordados de afectos que esperavam o momento certo da partilha - uma criança recém nascida que nos dorme no colo, símbolo de uma família onde o nosso lugar existe, quente e colorido; uma mulher nova e segura de si que, envolta em inteligência e intuição, partilha com generosidade e acolhe quem chega de longe; e o reencontro (já é reencontro...) do carinho fraterno, puro e luminoso como o ar onde voam papagaios inventados, matéria de sonho tornada vida.
Publicado em 4 de Abril de 2005