28 de fevereiro de 2017

Onde, porém?

Com que palavras ou que lábios
é possível estar assim tão perto do fogo,
e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,
tão sem peso por cima do pensamento?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,
e não só uma voz de ninguém.
Onde, porém? Em que lugares reais,
tão perto que as palavras são de mais?

Agora que os deuses partiram,
e estamos, se possível, ainda mais sós,
sem forma e vazios, inocentes de nós,
como diremos ainda margens e como diremos rios?

Manuel António Pina

Sir George Hayter

Sir George Hayter.jpg

27 de fevereiro de 2017

Nada se perde

sabendo que se passa
pelos lugares
e que só eles ficam
deve guardar-se
num lugar inacessível
a água do silêncio
para aflições futuras
e sobretudo saber
que nada se perde
porque nada chegou
a ser nosso um dia

Manuel Afonso Costa

26 de fevereiro de 2017

Almada Negreiros

almada negreiros.jpg

Não foi há muito

não foi há muito
que os teus dedos
se ocupavam em alisar
os meus cabelos
e também
não foi há muito
que os teus olhos
se ocupavam
em ver os meus olhos
e agora
nem os teus lábios
se atrevem
a dizer o meu nome
estranho mal foi
cometido pelos anjos
que nos habitam
a luz iluminava tanto
os nossos corpos
que, de repente,
sumiram-se

Manuel Afonso Costa

25 de fevereiro de 2017

Sir George Hayter

The Duchess of Kent by Sir George Hayter in 1835.jpg

Lição sobre a Água

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, ácidos, base e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

António Gedeão

24 de fevereiro de 2017

Sonho de menina

A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha...

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

Cecília Meireles

George Romney

Elizabeth_Lamb_by_George_Romney.jpg

22 de fevereiro de 2017

Prisões

Fecho os olhos na visão dos carros
enfileirados na rua estreita
parados no sinal vermelho

os que nos transportam
os que nos levam e nos trazem

a visão aterroriza no que mostra
pessoas encarceradas
em vidros levantados
de trancadas portas

o sinal fechado antecede
o vermelho do corpo
arremessado

não abro os olhos ao destino
em repetições: sei do sinal
aberto ao corpo
que escapa de raspão.

Pedro Du Bois

21 de fevereiro de 2017

Aberto ao vento

E olhar desmedidamente
os tectos
nas penumbras impossíveis
em que os olhos são alimento
de silêncios siderais
de crianças afugentadas da própria infância
de máculas irreversíveis na tela
da solidão

os pés alinhados
com o que será a narração
desse abandono
uma simbiose perfeita entre um grito
e o líquido espesso que o levará
intacto
até ao papel de um
corpo amado

não é chamamento
nem invocação desesperada
apenas a dedicatória singela
de uma vida
separada à nascença
do seu acerto
retalho cujo desconchavo
vai passando ao largo
do artesão da identidade
e da morte

e um mar inteiro para temperar
este leque de feridas
aberto ao vento

Vasco Gato

Ilona Royce Smithkin

Ilona Royce Smithkin.jpg

20 de fevereiro de 2017

A vida era serena

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.
Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.
Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego, às horas em
que entrava e saía do emprego.
Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.

António Gedeão

19 de fevereiro de 2017

Henri Matisse

Henri Matisse.jpg

18 de fevereiro de 2017

Luz de segurança

Esse brilho para lá da nossa janela não é uma estrela caída.
É a própria frivolidade. É o medo da noite
que fervilha num vizinho, pesadelo de criança teimosa.

Sonhei que perseguia corvos num negrume de névoa marítima
e vento nenhum, com o cheiro gélido da barrilheira e das coisas cambiantes,
ciente de que a orla do mar e a areia se cruzavam na morada dos peixes.

Vi as águas a desenrolarem-se ao encontro da água
que chegava, os pequenos caranguejos levantados das patas.
Vi o lugar de encontro dos corvos-marinhos, as falésias

de ninhos defendidos das quais espiavam águias como reis saciados,
despertas, despertas para a ampulheta movediça do mar
onde tudo se dissolve, onde a própria terra é derrubada.

David Mason, trad. Vasco Gato

fevereiro 2017

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