15 de outubro de 2021

Os sonhos

Os sonhos estão feitos de ramos
de onde pendem as algas da memória; e no seu fundo
há um lençol de corais em que os pés
se apoiam, fazendo voar borboletas melancólicas
e tirando das suas bocas um canto azul, feito
de sílabas abertas como a sede dos teus lábios.

Nuno Júdice

Kees van Dongen

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12 de outubro de 2021

Ondas do mar de Vigo

    Ondas do mar de Vigo,
    se vistes meu amigo!
    E ai, Deus!, se verrá cedo!

    Ondas do mar levado,
    se vistes meu amado!
    E ai Deus!, se verrá cedo!

    Se vistes meu amigo,
    o por que eu sospiro!
    E ai Deus!, se verrá cedo!

    Se vistes meu amado,
    por que hei gran cuidado!
    E ai Deus!, se verrá cedo!

    Martin Codax

11 de outubro de 2021

Ângulo Morto

Amamos uma mulher, depois um continente perdido.
Afinal, fomos nós que perdemos o norte.
Alguém abre a porta, o vento do deserto
sopra dentro da sala, somos levados para longe
do paraíso, improvável ficção consentida.
Marcamos o tempo, o compasso.
A música depois do silêncio soa a notação desabrida,
incontida fúria tomando de assalto as artérias
que insistem no seu ofício de coisas
vivas e frágeis.

Luís Quintais

09 de outubro de 2021

Rafal Olbinski

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Por outro lado

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes  loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina  realmente  os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos  e na boca

Mário Cesariny

08 de outubro de 2021

A Metamorfose dos Pássaros

É muito incrível como o cinema nos permite inventar quadros e decidir o que mostrar e não mostrar. E essa junção entre o que o ser humano não sabe mas inventa e a ideia de que quando se passa pela perda de alguém a vida continua mas nós ficamos num sítio, mulheres e homens estátua, paramos, uma parte de nós morre, e esse luto não é só a morte de uma pessoa exterior é também a morte do nosso interior. A ideia do tableau vivant é uma ideia muito interior, de nos sentirmos fora de tempo. Acho que estas são as chaves da experiência do luto, da perda.

Catarina Vasconcelos

07 de outubro de 2021

Rafal Olbinski

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E fosse breve

Escrevemos docemente. Se a figura
sobe de estar tão funda a essa mesa
é que escrever se lembra. E só da altura
de se lembrar percorre a linha acesa

a ponta de escrever, que traça a pura
forma de rosto que abre na tristeza.
E a tristeza ilumina de escultura
penumbras de volumes com que pesa.

Por isso é docemente que da linha
de estar ali aonde sempre esteve
aparece figura de rainha

que sempre foi e agora só se escreve.
E escrevermos é como se na vinha
o sol se iluminasse. E fosse breve.

Fernando Echevarría

06 de outubro de 2021

O tempo vive

O tempo vive, quando os homens, nele,
se esquecem de si mesmos,
ficando, embora, a contemplar o estreme
reduto de estar sendo.
O tempo vive a refrescar a sede
dos animais e do vento,
quando a estrutura estremece
a dura escuridão que, desde dentro,
irrompe. E fica com o uivo agreste
espantando o seu estrondo de silêncio.

Fernando Echevarría, in "Sobre os Mortos"

Aurélia de Sousa

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05 de outubro de 2021

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.

Carlos Drummond de Andrade

29 de setembro de 2021

ao nível do mar

como o nome da flor do vinho
murmurado entre relógios de carvão
escrito devagar na cal do silêncio
como o lençol de púrpura
no peito dos amantes
de costas para a morte
ao nível do mar
como um cardume de palavras cintilantes
no horizonte de cinza e de pavor
como um cavalo branco toda a noite
de estrela para estrela
ao nível do mar
como a flor que se abre na boca dos suicidas
um homem
ferido de morte
vai falar

António José Forte

On love

Your task is not to seek for love, but merely to seek and find all the barriers within yourself that you have built against it.

Rumi

28 de setembro de 2021

mais qualquer coisa

Através da escrita consigo salvar uma vida banal. Para mim viver não basta, é preciso mais qualquer coisa e aquilo de que preciso é disso.

Ana Cássia Rebelo

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