Modus vivendi

"Werde der du bist."   Goethe

blogue de Ana Roque

24 de Fevereiro de 2024

Duelo

Uma multidão de que te alheias.
Vozes sobrepostas
destroem o sentido

e a tua inclinação por ideias de ordem
desvia-te para um lugar escuro, silente
(assim o pressentes),

uma sala do lado esquerdo,
ao fundo, onde ninguém está.
Em rigor há uma luz dispersa,

uma atmosfera de encanto e morte.
Um espelho espreita.
Os circunstantes degladiando-se

num arremesso de vozes.
Estão nele, são espreitados.
Sonhas a armadilha que o voluntário

espelho revela. O tempo
suspende-se
sob o efeito de um sortilégio.

Nessa sala onde a obscuridade
não é total (os olhos vêem mais
depois da atenção),

a multidão a teu lado, sitiando-te,
é engolida pela perseguição
geométrica.

Antecedes o momento
em que o mundo acaba
e uma fúria de vitorioso esquecimento

apaga os despojos
das irredutíveis vozes
e a imagem do teu rosto

perseguindo o jogo perseguidor.

Luís quintais


22 de Fevereiro de 2024

Degas



22 de Fevereiro de 2024

Poemas Canhotos

em boa verdade houve tempo em que tive uma
ou duas artes poéticas,
agora não tenho nada:
sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica
e traço meia dúzia de linhas:
às vezes apenas duas ou três linhas;
outras, vinte ou trinta:
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
estremecer,
mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse
sob as minhas palavras escritas,
o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:
enquanto escrevia, o mundo parecia deslocar-se,
e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,
sabia que estava tudo feito,
sentia que devia morrer
mas, como se vê, nunca o mais simples atingiu em mim a
sua própria profundidade

Herberto Helder


20 de Fevereiro de 2024

Os Gatos

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

Manuel António Pina


17 de Fevereiro de 2024

Richard Diebenkorn



17 de Fevereiro de 2024

Riscava a palavra dor no quadro negro

Ligar o mundo por um istmo,
um canal de sangue e virtude. Ligar o mundo pela fronteira incendiada,
destruída até ao raso chão. Escutar. Rente ao chão depositar o rosto,
depois seguir caminho, como quem do chão

pede um segredo, uma verdade
num corpo e numa alma, como nos disse o vidente.

Assim deposito o rosto nesse chão
e escuto atentamente a anónima violência,

o metálico som da cidade.

Luís Quintais


13 de Fevereiro de 2024

contra a memória

As imagens gastas de tão lidas
e os sofisticados lugares comuns da poesia
colam-se-te à pele – pelo incómodo trajo do bom senso
e do bom gosto que repudias.
Vil chegada do que amaste, e que agora recordas.

A poesia faz-se contra o esquecimento?
Melhor seria dizer, contra a memória se faz a poesia.

sem a arruinada ponte não há precipício?
O que conta é o precipício além da arruinada ponte.

Luís Quintais


12 de Fevereiro de 2024

Isabel Llhano



12 de Fevereiro de 2024

A ausência de tráfego como motivo

Deveria ter feito da minha música um amor mais silencioso
como se de uma arte privada se tratasse.

A ti, a quem falo de poesia, a ti
que assistes ao desenrolar de qualquer coisa que não compreendes,
respondo-te que também eu não compreendo,
que não há que compreender,
porque nada nos condena à fala
antes que as palavras aconteçam.

Por exemplo, esse poema começado numa manhã de Junho
e nunca terminado: um princípio de verão,
a janela que dá para o alcatrão sem tráfego serpenteando pelas colinas.
A rua de dia de semana
e o arquipélago da solidão despertando
para as poucas coisas que procuro
e que o poema irá entretecer
se entretecer. –
A virtude que, cega,
vai conhecendo o seu caminho.

Desprende-se um fio luminoso da impossibilidade das palavras,
e se ficamos tristes não era para ficarmos,
pois não existem momentos irrepetíveis.
Eles aninham-se no sangue
e voltam a mergulhar-nos na experiência:
um dia de verão, um bosque, colinas
onde a serpente de alcatrão se enrola.
A ausência de tráfego como motivo.

Luís Quintais


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11 de Fevereiro de 2024

Ricardo Lopez-Cabrera



11 de Fevereiro de 2024

Imprecisa Melancolia

A pouco e pouco vou recuperando a gravura.

Agora sei que havia uma ave sobre as colinas,
pois há sempre uma ave, ou a sombra dela,
nos meus poemas. Que havia água,
o cheiro das inusitadas chuvas
pela manhã de Junho.

O rumor da imagem colado aos dedos.
O ocre escuro das areias espalhado na mesa
é um símbolo da infância,
mas não o reconheço ainda.
O poema é uma enumeração que não teve lugar,
que nunca terá. Eu, à beira do fracasso,
não o reconheço ainda.

Enquanto isso tem lugar em mim o advento
do que me define,
e o barro de que sou feito coze por dentro.

Luís Quintais


10 de Fevereiro de 2024

Algumas palavras a mais

Terra e noite,
as mãos escavam.
Insistem e desfazem-se
numa fronte ausente.
Na cabeça subsistem
algumas palavras inúteis.
A mão devagar traça
— vai traçar —
uma rede de sinais de que dependo.
A luz descobre o corpo.
Algumas palavras a mais desaparecem.
Neste instante
a pedra é nua.

António Ramos Rosa


9 de Fevereiro de 2024

Ricardo Lopez-Cabrera



9 de Fevereiro de 2024

Tanka

Se o cavalo dele
tivesse sido domado
pela minha mão –
eu tê-lo-ia ensinado
a não seguir mais ninguém.
 
Isumi Shikibu