16 de janeiro de 2020

Boris Grigoriev

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Do silêncio

A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas aéreas piruetas - escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.

Clarice Lispector

15 de janeiro de 2020

Da existência

Nada garante que tu existas
Não acredito que tu existas
Só necessito que tu existas

David Mourão-Ferreira

13 de janeiro de 2020

Boris Grigoriev

Princess Salomea Andronikova by Boris Grigoriev.jpg

Revolução orbital

Revolução orbital: vai-se a rosa transformando
na coisa múltipla, amante e amada, na acção
que assim a faz e nos acidentes mínimos - paisagens,
estações dos dias e das noites, dos anos da história.
Ondula no cérebro a fronteira que as margens da luz
desenham. E a rosa é uma hélice que vibra
no ar que a respirar obriga(s): torção dos pulmões,
do tronco e do sexo, dos nomes e dos vocativos
que se respondem: como um coração que deflagra
a rosa faz do ar que te falta a terra de onde nasces
e o chão sobre que danças.

Manuel Gusmão

11 de janeiro de 2020

Kuzma Petrov-Vodkin

kuzma petrov.jpg

O que é preciso

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos severos conosco,
pois o resto não nos pertence.

Cecília Meireles

05 de janeiro de 2020

Vieste como um barco

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

Maria do Rosário Pedreira

04 de janeiro de 2020

Kuzma Petrov-Vodkin

Kuzma-Petrov-Vodkin-Girl-with-a-Red-Bandana.JPG

Definições

Olhar de perto
um rosto ou um sexo
e achá-los etéreos

Para o amor
sempre há mais uma
definição possível

Rui Caeiro

02 de janeiro de 2020

An honorable human relationship

An honorable human relationship -- that is, one in which two people have the right to use the word "love" -- is a process, delicate, violent, often terrifying to both persons involved, a process of refining the truths they can tell each other.
It is important to do this because it breaks down human self-delusion and isolation.
It is important to do this because in doing so we do justice to our own complexity.
It is important to do this because we can count on so few people to go that hard way with us.

Adrienne Rich

Kuzma Petrov-Vodkin

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01 de janeiro de 2020

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Kuzma Petrov-Vodkin

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Da Experiência

Pisei de Prancha em Prancha
Devagar, cautelosa
As Estrelas em torno da minha Cabeça
E dos meus Pés o Mar.

Sem saber qual próxima polegada
Podia ser a polegada final -
Isto deu-me esse precário Andar
Que alguns chamam Experiência.

Emily Dickinson, trad. de Ana Luísa Amaral

janeiro 2020

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