27 de agosto de 2016

No coração do espaço

O mais seguro abrigo
é o que oscila um pouco
como se oscilássemos
sobre a matéria viva
ou no coração do espaço

António Ramos Rosa

Balthus

Balthus.jpg

26 de agosto de 2016

Tempo de ser Tempo

Suponho que deva escrever algo, suponho que seja tempo de exercitar alguma dessa espécie de ética.

Creio, sinceramente, que é tempo de me lançar a crónicas.

 Ai o que eu gostava de ter escrito estórias para três ou quatro infantes e infantas, a embrulhar em papel pardo ou em cores mais macias, a beijar caracóis em baixo da almofada, em cada vez que caísse um dente.

Ai o que eu gostava de escrever a primeira ida ao futebol,

as primeiras letras.

(Fado Negro)

 

Não vou dizer que me entretive excessivamente no vinho,

que me deixei dormir para sempre no sofá, entre actuações

para um público excelente, incluídos alguns mais ébrios

e gente carregada, de desejo e espaço

(Tom Waits)

 

Não culpo açordas, não culpo o pão.

Não culpo o excesso de paisagem,

não culpo a falta de vista até onde a vista alcança,

não culpo as danças embaladas a sol e pouco vento

- que embaladas eram, às vezes

sem culpa ou recato

(Alentejo, Alentejo)

 

Sei que havia dias marianos profundamente ateus,

dias de cada minuto ser bom para festejar o ventre.

Lembro de nem sempre estancar no cais

(Quedas d'Água)

 

Sejamos francos, o que não faltou foi tema

(sobrou sempre alguma vergonha e descaramento,

é mais que certo),

não foi por falta de assunto, sequer de vontade

de soltar vazios aos astros (lugar comum).

Sinceramente, não sei,

nem quero que me digam.

(General Complex)

 

Não foi por falta de canto a que me agarrasse

tantas e tantas vezes desatinei em coro ou a solo

(mais competente nas primeiras avarias da espécie).

Nesse contexto, nunca fiz mal a ninguém

(Poslúdio de General Complex)

 

Não foi por falta de corda, não foi por falta de uso.

Foram tantas, e tão poucas,

as vezes e as vozes que repousei

nos braços de uma amada

(atento e sensual, sugiro)

(La Corazon: lento)

 

Sempre gostei de ver como corrias uns passos

para ficares na espera inquieta do postal da praxe,

claro e com alguma falta de costumes

(aqueles que mais convêm a dois amantes).

Era uma velocidade incrível, essa,

que comia na espera

um espaço imenso

(La Corazon: rápido)

 

Várias vezes vi padres celebrar missas,

e várias vezes não soube quem era o mais dormente

ou o mais acordado.

E ainda hoje estou por saber

(Funerais)

 

Nesses pontais, nesses telhados, nessas árvores,

quis sem dúvida deixar algum perfume.

Pretendi (nem sempre com insucesso)

ter asas e navios nos braços.

(Dança Dos Pássaros)

 

Enfim: Não quis rastejar, nunca, e ainda hoje acredito nalguma espécie de redenção, para lá da possível. E acredito, em todo meu acento e com persistente falta de fé (falo, creiam-me, nesse conceito que tantas vezes torpedeia passos) que é possível mais que um dia mínimo.

 

E a isso bebo, meus amigos:

À vossa,

À nossa,

e ao tempo de ser tempo de ser tempo.

 

Rui A.

(ao som de António Pinho Vargas, Solo, com excertos de Imperfeições)

Sobre Uvas

Esbagaço a uva
esmago o grão
devolvo a casca ao solo.

Agradeço o sumo
e me despeço
em cálices de adivinhações.

Deixo amadurecer o grão.
Fermentado. Ensolarado
adocica o sentido
contraditório da urgência.

Esbagaço o corpo e dedico
      o tempo a retirar
      o espaço entre os grãos.

 
Pedro Du Bois

24 de agosto de 2016

Will Barnet

Will Barnet, Reclining Woman, 1978.jpg

Silêncio partilhado

Tentas usar o telefone
que já não atende
o teu discar
é agora apenas
o belo objecto que é
como tudo assim
há-de ser
dando-se tempo ao espaço
para fixar
o seu rosto
antes da grande
debandada

mas não foi
em vão
o teu gesto
sorris ao devolvê-lo
a si mesmo
como quem tocou
sem querer
o realíssimo
braço alheio
e se julgou
chegado
à intimidade

quem diz
que o plástico negro
do telefone
não se julgou também
encontrado
na mão insensata
ele que matutava
nas vozes
que o circularam
tão longínquas já
tão definidas ainda
na sua súplica
de que não mais
findasse
aquele crepitar
do silêncio partilhado

Vasco Gato

23 de agosto de 2016

Leon Wyczolkowski

Leon Wyczolkowski9.jpg

Fui

Fui procurar-te para ser contigo
quanto colhi das horas que invadias.
Colhi da própria dor um nome antigo
que fosse o nome exacto em que virias.

Da límpida substância dos teus risos
fui-te inventando dentro dos meus braços
e os sóis mais densos puros e precisos
vieram dar-me a sombra dos teus passos.

E já não eram meus senão de erguê-los,
a tua face e os lábios e os cabelos
e o teu olhar para ninguém voltado.

Mas quem, o pleno amor de que nascias
se o deus que que a ti igual encontrarias
ficou, pelo teu olhar, desabitado?

Vítor Matos e Sá

22 de agosto de 2016

Quase

uma mulher quase nova
com um vestido quase branco
numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

vem e quase estende os dedos
ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

quase harmónica corrida
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos
transparente quase solta

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora

Mário Dionísio

21 de agosto de 2016

Pablo Picasso

Pablo Picasso.jpg

Ventura

Cada dia sem gozo não foi teu
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

Ricardo Reis

19 de agosto de 2016

Dois Gumes

Marcar o passo pelo compasso da vida.
Regressar finalmente. Dizer pouco.
As palavras são silêncios de dois gumes.
Dizer muito pouco.
Ver o perfil
Das coisas
Até que o centro regresse
Voluntariamente. Destruí-las?
Até serem amor dentro de nós.

Para poder cantar uma vez mais.

Alberto de Lacerda

18 de agosto de 2016

Comovente

É sempre comovente o pôr do sol
por indigente ou berrante que seja,
mas ainda bem mais comovedor
é o brilho desesperado e derradeiro
que enferruja a planície
quando o último sol ficou submerso.
Dói-nos reter essa luz tensa e clara,
essa alucinação que impõe ao espaço
o medo unânime da sombra
e que pára de súbito
quando notamos como é falsa,
quando acabam os sonhos,
quando sabemos que sonhamos.

Jorge Luis Borges

Leon Wyczolkowski

Irena_Solska_by_Leon_Wyczółkowski_(1899).jpg

17 de agosto de 2016

Passagem

Até que a chuva pare (entre muros)
Até que o poema aconteça (p'ra lá do verbo)
Há o lento preparar
de uma nova estação

Não está esgotada esta terra
(apenas não sabe por onde crescer)
Não está esgotado este sangue
(em cada nova estação o meu sangue é debutante).
Não está esgotada a memória
(é de um novo mapa que preciso)
Não está esgotado este tempo não está esgotado o passado
(descubro também coisas que já vivi)

Não me serve já aquela velha agenda
de geometria descritiva
(onde não encontro o ângulo que procuro)

Não está esgotada esta terra
Apenas prepara uma nova estação

Rui A.

Rumor

Acorda-me
um rumor de ave.
Talvez seja a tarde
a querer voar.

A levantar do chão
qualquer coisa que vive,
e é como um perdão
que não tive.

Talvez nada.
Ou só um olhar
que na tarde fechada
é ave.

Mas não pode voar.

Eugénio de Andrade

agosto 2016

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