13 de junho de 2021

Da exatidão

O ocultismo, escreveu Adorno com muita pertinência num dos fragmentos de Minima Moralia, é a metafísica dos imbecis.

António Guerreiro

Georgy Kurasov

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Rapariga

Tu própria, que podes ter a noção e ao mesmo tempo
o atrevimento de simplesmente expor
de vez em quando uma opinião
ou um seio: quando começa isso,

e no fundo quando acaba? As mulheres
são feitas de raparigas, aos quarenta
ainda deitam a língua de fora como aos quinze,
ficam cada vez mais jovens,

não sabem não seduzir. Como a poesia:
um gato que prudentemente caminha sobre as teclas
de um piano e olha para trás:
ouviste? viste-me?

Ah, o ar jovem das raparigas de quarenta,
como umas vezes querem, e outras não,
mas afinal sempre, se repararmos bem.
Onde estão os bons velhos tempos? Estão aqui, esses tempos.

Herman de Coninck

outras vidas

chegava a roubar oito automóveis só
numa noite ao volante apertava
outras mãos nas minhas e sobrepondo
as impressões digitais imaginava
o nome a idade quem seria
o condutor e guiava como ele
por momentos vivendo a sua vida

José Ricardo Nunes

12 de junho de 2021

Barragem da Aguieira II

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Entardecer

Uma água mineral e um café.
O cinzeiro cheio de fantasmas.
Um jogo de bilhar tardio disfarça
não saber o que fazer das mãos.
A chuva caía com aparato o chaval
serviu o café e a água fria que repousa
sob os meus olhos.
A rapariga moura trazia certamente
sandálias com uma imperceptível
chama de rancor. Pediu um copo de
sidra e rarefazia os olhos ao bebê-la.
Ouvi abrir-se uma clareira nas conversas
das mesas quando ela se ergueu
e os seus seios brilharam unânimes.

Fernando Luís Sampaio

10 de junho de 2021

Barragem da Aguieira

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Dia claro

Em Junho existem dias
em que o vento vem de norte
e o ar é gelado e limpo
o céu nu e apagado
Ao longe no horizonte
um pássaro gela parado
Tirando isso não há sinais
e nenhum rastro marcado
Quem olhar para cima cai
como se a gravidade não mais
segurasse as suas maçãs
Esse é o dia que a terra pára
para recuperar o fôlego

Barbro Dahlin

09 de junho de 2021

Para uso diário

Se a vida não fosse tão insubstituível
talvez ousássemos utilizá-la.
Porém arrumamo-la na prateleira
como um vistoso par de sapatos
que é bonito de se ver
mas não para uso diário.
Assim, continuamos por aí sentados
numa expectativa descalça.

Margareta Ekström

Nigel van Wieck

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08 de junho de 2021

Isso dizem as velas brancas

Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo - uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.

Tomas Tranströmer

Paul Delvaux

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Do not make me do the human things

What bloody lense holds firm between this mystery & us? Two shiny crows
tapping intelligently on the glass of a dream.

              Please! Do not make me do the human things--

I must tend to my many plankton realities,
                          must be off with my better self:
                                                                            One million faces lined
                          along a mirrored tunnel & in each that same tricky knot begging.

You couldn't know how long I suffered over it, my long waiting at the end of the maze.

I can only guess what you think I'm after,             stretching in the mirror
while you rattle on about sabotage,

                                                       an old tension springing in the body.

Gabrielle Octavia Rucker

07 de junho de 2021

Pássaros Matinais

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta que como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

Tomas Tranströmer

Will Barnet

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junho 2021

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