23 de agosto de 2016

Leon Wyczolkowski

Leon Wyczolkowski9.jpg

Fui

Fui procurar-te para ser contigo
quanto colhi das horas que invadias.
Colhi da própria dor um nome antigo
que fosse o nome exacto em que virias.

Da límpida substância dos teus risos
fui-te inventando dentro dos meus braços
e os sóis mais densos puros e precisos
vieram dar-me a sombra dos teus passos.

E já não eram meus senão de erguê-los,
a tua face e os lábios e os cabelos
e o teu olhar para ninguém voltado.

Mas quem, o pleno amor de que nascias
se o deus que que a ti igual encontrarias
ficou, pelo teu olhar, desabitado?

Vítor Matos e Sá

22 de agosto de 2016

Quase

uma mulher quase nova
com um vestido quase branco
numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

vem e quase estende os dedos
ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

quase harmónica corrida
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos
transparente quase solta

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora

Mário Dionísio

21 de agosto de 2016

Pablo Picasso

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Ventura

Cada dia sem gozo não foi teu
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

Ricardo Reis

19 de agosto de 2016

Dois Gumes

Marcar o passo pelo compasso da vida.
Regressar finalmente. Dizer pouco.
As palavras são silêncios de dois gumes.
Dizer muito pouco.
Ver o perfil
Das coisas
Até que o centro regresse
Voluntariamente. Destruí-las?
Até serem amor dentro de nós.

Para poder cantar uma vez mais.

Alberto de Lacerda

18 de agosto de 2016

Comovente

É sempre comovente o pôr do sol
por indigente ou berrante que seja,
mas ainda bem mais comovedor
é o brilho desesperado e derradeiro
que enferruja a planície
quando o último sol ficou submerso.
Dói-nos reter essa luz tensa e clara,
essa alucinação que impõe ao espaço
o medo unânime da sombra
e que pára de súbito
quando notamos como é falsa,
quando acabam os sonhos,
quando sabemos que sonhamos.

Jorge Luis Borges

Leon Wyczolkowski

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17 de agosto de 2016

Passagem

Até que a chuva pare (entre muros)
Até que o poema aconteça (p'ra lá do verbo)
Há o lento preparar
de uma nova estação

Não está esgotada esta terra
(apenas não sabe por onde crescer)
Não está esgotado este sangue
(em cada nova estação o meu sangue é debutante).
Não está esgotada a memória
(é de um novo mapa que preciso)
Não está esgotado este tempo não está esgotado o passado
(descubro também coisas que já vivi)

Não me serve já aquela velha agenda
de geometria descritiva
(onde não encontro o ângulo que procuro)

Não está esgotada esta terra
Apenas prepara uma nova estação

Rui A.

Rumor

Acorda-me
um rumor de ave.
Talvez seja a tarde
a querer voar.

A levantar do chão
qualquer coisa que vive,
e é como um perdão
que não tive.

Talvez nada.
Ou só um olhar
que na tarde fechada
é ave.

Mas não pode voar.

Eugénio de Andrade

O tear da noite

Depois das capitais
e dos retratos
para forrar
tintas arrendadas,
a verdadeira viagem
dá-se
quando enfrentas
o tear da noite
de mãos
desmanchadas.

Eis
o teu desporto
preferido:
flutuar
na esparsa
pontuação
do mar.

Vasco Gato

Leon Wyczolkowski

Leon Wyczolkowski.jpg

outro silêncio

que eu não esqueça nunca
a luz que me ensinaste

a que ascendia do fundo
da tua antiga inocência
e transbordava
o espaço colocado
entre tuas coisas e as minhas

que nunca esqueça
certas palavras tuas
que falavam da tua gente
dos dias de cinema
do pai
da guerra
de duas mulheres sozinhas tanto tempo

é essa zona intacta da tua voz
onde não chego
tua presença e a minha
o mundo que respiras
o desse menino
sentado entre as pedras
atentos os seus olhos
ao brilho dos teus olhos

hoje a tua voz contida
une-me mais
às palavras que não percebo

a leve passagem da tua voz
fura o ar e vibra
expande-se
mais aquém da luz que antecede
o rosto dessa infância sem testemunhas

emudecia sempre quando menino

porém se tu falavas nascia outro silêncio

Ángel Campos Pámpano, trad. António Cândido Franco

16 de agosto de 2016

As mãos e só as mãos

(dedicado ao poeta Rui A., em pousio)

No obscuro as mãos e só as mãos, as puras
extremidades da matéria, as graves
e silenciosas, deambulantes formas,
as flores estranhas que pela noite sobem

com o seu peso de amargura e esperança,
modelando um sopro, um hálito, uma leve
flutuação da luz que é o suporte
da alma gasta pelas horas lentas.

No obscuro as mãos, trémulas, vivas,
asas buscando o corpo e o espaço,
densas flutuando, o reprimido

voo erguendo além dos olhos
até onde um toque subtil desgarre
a fonte oculta, o resplendor de um rosto.

José Terra

Edward Hicks

Edward Hicks.jpg

Coisas

Coisas discretas
como o peso da água,
as sombras do caminho,
o lábio que sangra
a favor da estação
e das uvas.

Coisas reais
como descalçar o dia
e beijar-lhe os pés
contra todo o esforço
de haver tempo
e solidão.

As ruínas da conversa
deixada a meio,
o teu corpo estafado
da exigência
da juventude,
o suor.

Vasco Gato

15 de agosto de 2016

Uma espécie de canção

Que a cobra espere sob
a sua erva daninha
e que a escrita
se faça de palavras, lentas e rápidas, acutilantes
no golpe, serenas na espera,
insones.

-- pela metáfora reconciliar
as pessoas e as pedras.
Compor. (Ideia nenhuma
senão nas coisas) Inventar!
Saxífraga é a minha flor que fende
as rochas.

William Carlos Williams, trad. Vasco Gato

14 de agosto de 2016

Maria Helena Vieira da Silva

Vieira da Silva.jpg

Aos Amigos

Faz-se tarde. Vejo-vos, verdadeiramente
iguais a mim no vício da paixão,
com os sobretudos, os papéis, as luzes
das salivas, os cabelos já frágeis,
com as palavras e as piscadelas, exaltados

e deprimidos, estragados e meninos, roucos
de tanta conversa ininterrupta,
como descem este vale cinzento,
como a desmaiada erva comprimem
onde o caminho se perde já e a luz.

Ouço as vozes ao longe como os fios
da nortada entre as pedras e as cavidades...
Cada palavra que me chega é adeus.
E afrouxo o passo e sigo-vos no coração,
um aqui, outro ali, por essa descida.

Franco Fortini, trad. Vasco Gato

Nada

O início
da temporada
     encerra
     a expectativa
     de que o ciclo
                 se renove
                  na permanência
                       da temporada
                       que conhecemos
                                           nova.

A novidade nos desconforta
em haveres desconhecidos

até
termos certeza
de que o início
continua o nada.

Pedro Du Bois

agosto 2016

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