27 de novembro de 2020

Anos e anos

Anos e anos cresceram as casas
à roda dos homens que foram nascendo
e depois morrendo na cidade
Nas casas os homens procriaram reinaram
Todos os dias se abriam uma a uma as janelas
de todas as casas que há na cidade
janelas fechadas todas elas à noite
As casas caíam mas logo as erguiam
A chuva descia sobre a cidade
e os homens pintavam as casas
Tanta gente de pé na cidade
tão sólidos tácteis tantos pés sobre a terra
pés tão mal acabados como os dos animais
(os olhos dos homens é que não se parecem
com todos os olhos dos demais animais
tenho passado a vida a olhá-los
e é realmente outra coisa)
À volta de toda a cidade há o cerco da terra
A terra invade as ruas as casas recebe
como tributo
tão belos monumentos de carne
Em todas as casas tem havido mortos
Os mortos estendem os pés e dão
uma nova dimensão à família
Os mortos partem com intervalos regulares:
assim ao menos terão todos lugar
na capa das principais revistas
Que bom! Sábado à tarde não morre
ninguém na cidade:
a agência funerária faz semana inglesa
Anda comigo meu irmão
podemos passear tranquilamente
Que suave desliza toda esta gente

Ruy Belo

Guy Orlando Rose

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E Eu, Saudosa, Saudosa

As coisas falam comigo
uma linguagem secreta
que é minha, de mais ninguém.
Quem sente este cheiro antigo,
o cheiro da mala preta,
que era tua, minha mãe?
Este cheiro de além-vida
e de indizível tristeza,
do tempo morto, esquecido...
Tão desbotada e puída
aquela fita escocesa
que enfeitava o teu vestido.
Fala comigo e conversa,
na linguagem que eu entendo,
a tua velha gaveta,
a vida nela dispersa
chega à cama onde me estendo
num perfume de violeta.
Vejo as tuas jóias falsas
que usavas todos os dias,
do princípio ao fim do ano,
e ainda oiço as tuas valsas,
minha mãe, e as melodias
que cantavas ao piano.
Vejo brancos, decotados,
os teus sapatos de baile,
um broche em forma de lira,
saia aos folhos engomados
e sobre o vestido um xaile,
um xaile de Caxemira.
Quantas voltas deu na vida
este álbum de retratos,
de veludo cor de tília?
Gente outrora conhecida,
quem lhe deu tantos maus tratos?
Serão todos da família?
Ai, vou fechar na gaveta
a lembrança dolorosa
dos teus laços de cetim,
dos teus ramos de violeta,
do leque de seda rosa
com varetas de marfim.
As coisas falam comigo
numa linguagem secreta,
que é minha, de mais ninguém.
Quero esquecer, não consigo.
Vou guardar na mala preta
esta dor que me faz bem.

Fernanda de Castro


26 de novembro de 2020

Dante Gabriel Rossetti

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Gostos

Gosto de Ícaro que sabia que a cera se iria derreter e no entanto voou em direcção ao sol.
Gosto daquela rapariga que reparou como era azul a barba do Barba Azul - era exactamente esse o motivo. Gosto da Bela Adormecida que afinal fazia de conta que dormia.

Gosto da Branca de Neve que achava os anões um bando de neuróticos.
'Quem é que se sentou na minha cadeira? Quem é que comeu do meu prato?'
E do anão, que não simpatizava lá muito com a Branca de Neve:

'Quando ela não morava aqui, éramos só sete. E agora? É ver-nos.'
Do gigante que estava arreliado porque toda a gente chamava botas aos seus sapatos.
Não gosto de quem se acomoda no conto. Mas sobretudo

gosto de Ícaro que sabia que a cera se iria derreter e no entanto voou em direcção ao sol.

Tjiske Jansen, trad. Maria Leonor Raven-Gomes

25 de novembro de 2020

Georgy Kurasov

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Círculo

Habito o abismo no primeiro círculo
: concêntrico hábito onde me repito
  na constante libertação da alma

receio a espiral inconstante
na segurança inibidora dos sentidos
em concêntricos hábitos de repulsa.

Rasgo a máscara e me exponho
no centro do reflexo: revejo o tempo
estático na concentração de estrelas
consumidoras em círculos

    no abismo tenho o eco da voz  
    pertinente em que me projeto.

Pedro Du Bois

24 de novembro de 2020

Pierre Bonnard

Pierre Bonnard.jpg

Do erro

(...) os erros de cada homem são os erros da Humanidade. Regresso à antiguidade para me explicar melhor. A etimologia de «erro» leva-nos a oris, latim para boca - o lugar de onde oramos, a fonte  de onde surgem as palavras que conduzem ao engano, porque as palavras são o princípio de todas as decepções.

João Tordo, in Felicidade

Com o motor desligado

Ao atravessar a fronteira
entre
beleza e banalidade
sobressai um homem
cansado de inventar poemas.

Não tem nada a declarar
com a excepção de alguma
trivialidade inútil.

Daniel Hevier

Brigitte Szenczi

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23 de novembro de 2020

Oxalá

Estamos a transformar as nossas sociedades em lugares doentios, contraditórios e sem horizonte. A imaginação política não parece ir além do seleccionar de forma instrumental o passado. Quanto ao presente e futuro, parecem ter sido apropriados pelo neoliberalismo, que promete maravilhas, a maior parte artificiais, desde que exista capital para as adquirir, claro está. Para uma outra perspectiva, seria preciso que, em vez de sonhar revoluções que nunca acontecerão, nos fôssemos religando com o mundo e as muitas possibilidades que nele existem. Oxalá.

Vítor Belanciano

Do auto-engano

Antes de fazer o que fiz - porque não aguentava mais; porque, se não fizesse alguma coisa, jamais deixaria de pensar naquilo -, lembrei-me inúmeras vezes de Creso, o último rei da Lídia, cuja história eu lera n' O Grande Livro dos Mitos Gregos, que o meu pai me oferecera. Perante a ameaça dos Persas, Creso consultou o Oráculo de Delfos, que lhe respondeu que, se decidisse atacar, um grande império seria destruído. Confiante no oráculo, o rei ordenou o ataque, destruindo o seu próprio império. Era o exemplo do auto-engano; Creso iludira-se acreditando que avançava contra um inimigo exterior, quando, na verdade, avançava contra si próprio.

João Tordo, in Felicidade

Kandinsky

Wassily Kandinsky.jpg

Como toda a gente sabe

Mas não é isso estar vivo?, perguntou ela, bebendo um gole de vinho, aquela sensação estranha de que tudo muda e nada muda? Sim, és capaz de ter razão, respondi.

***

E, como toda a gente sabe, pensar é duvidar, e duvidar é corroer a realidade, morder-lhe os contornos, dar-lhe arestas pontiagudas.

João Tordo, in Felicidade

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