07 de novembro de 2009

Humano

Na sujeição a fraqueza
como relógio emociona.
O choro declarado repõe
a sensibilidade. Simplifica.
Dignifica. Democratiza.
A lágrima não derramada
inunda o sentido: desanda
a máscara. Amoldada.
A criança ressurgente
diz do tempo. Sujeito
objetado à história.
Desfeito efeito.
Dispostos versos
no marco do crescimento:
trajeto e obstáculo.
Desacompanhada sombra
em que o vulto se certifica
como humana forma.

Pedro Du Bois

Philip Alexius de László

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um olhar aristocrático

06 de novembro de 2009

Ausência

Quando minha voz
se fizer
ausência, entenda o silêncio
como prova da verdade.

Arrume as palavras deixadas
entre folhas, faça frases
e desordene parágrafos.

Minha voz ausente
estará diante
do esforço. Concentre sua hora
na descoberta dos traços.

Risque as letras e deixe em branco
a parte inferior do silêncio.

Pedro Du Bois

Philip Alexius de László

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Miss Gwen Frangcon-Davies em disfarce medieval

Amor & Fama & Morte

agora está sentada do outro lado da janela
como uma velha a caminho do mercado;
está sentada e observa-me,
transpira nervosa
pelos cabos eléctricos, nevoeiro, ladrar dos cães
até que de repente
eu bato no vidro com um jornal
como se matasse uma mosca
e podias ouvir o grito
por toda a cidade,
e depois partiu.

a melhor maneira de acabar um poema
como este
é ficar de súbito
em silêncio.

Charles Bukovski

05 de novembro de 2009

Arnold Bocklin

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de costas voltadas

Diving into the Wreck

the thing I came for:
the wreck and not the story of the wreck
the thing itself and not the myth
the drowned face always staring
toward the sun
the evidence of damage
worn by salt and sway into this threadbare beauty
the ribs of the disaster
curving their assertion
among the tentative haunters.

Adrienne Rich

04 de novembro de 2009

Ono no Komachi

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Ono no Komachi, imaginada à distância

O Make Me A Mask

O make me a mask and a wall to shut from your spies
Of the sharp, enamelled eyes and the spectacled claws
Rape and rebellion in the nurseries of my face,
Gag of dumbstruck tree to block from bare enemies
The bayonet tongue in this undefended prayerpiece,
The present mouth, and the sweetly blown trumpet of lies,
Shaped in old armour and oak the countenance of a dunce
To shield the glistening brain and blunt the examiners,
And a tear-stained widower grief drooped from the lashes
To veil belladonna and let the dry eyes perceive
Others betray the lamenting lies of their losses
By the curve of the nude mouth or the laugh up the sleeve.

Dylan Thomas

03 de novembro de 2009

Finalmente a paz

(gentileza de Amélia Pais)

Cessou finalmente este inferno,
já de há muito tempo, agora a primavera:
a índole justa
do sono sobe-me pelos tornozelos
atinge-me a cabeça como um trovão.
Finalmente a paz,
as minhas ancas e a minha mente vencida,
e eu repouso justa nos declives
do meu destino pelos menos nesta hora
que me separa da infame aurora.

Alda Merini

Delacroix

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um céu povoado

02 de novembro de 2009

In The End

All that could never be said,
All that could never be done,
Wait for us at last
Somewhere back of the sun;

All the heart broke to forego
Shall be ours without pain,
We shall take them as lightly as girls
Pluck flowers after rain.

And when they are ours in the end
Perhaps after all
The skies will not open for us
Nor heaven be there at our call.

Sara Teasdale

01 de novembro de 2009

No carreiro dos sonhos

Embora os meus pés
Nunca deixem de correr para ti
No carreiro dos sonhos
Tais noites de amor não valem o mesmo
Que olhar para ti na tua realidade

Ono no Komachi

Edward Burne-Jones

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três graças do século XIX

Devagar

Vem devagar sobre a corda da minha espera
ninguém saiu à rua mas há rosas
assim a tarde assim a mudança em disfarce

Demora-se a loucura e a camisa
e o teu corpo moreno espalha-se pelas ruas

Vem devagar
o sol teceu a tarde para o nosso encontro
o sol, caindo, insiste para que nos vejamos

Ossanha

31 de outubro de 2009

Delacroix

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da suavidade

No início

O verbo nunca esteve no início
dos grandes acontecimentos.
No início estamos nós, sujeitos
sem predicados,
tímidos,
embaraçados,
às voltas com mil pequenos problemas
de delicadezas,
de tentativas e recuos,
neste jogo que se improvisa à sombra
do bem e do mal.


No início estão as reticências,
este-querer-não-querendo,
os meios-tons,
a meia-luz,
os interditos
e as grandes hesitações
que se iluminam
e se apagam de repente.


No início não há memória nem sentença,
apenas um jeito do coração
enunciar que uma flor vai-se abrindo
como um dia de festa, ou de verão.


No início ou no fim (tudo é finício)
a gente se lembra de que está mesmo com Deus
à espera de um grande acontecimento,
mas nunca se dá conta de que é preciso
ir roendo,
roendo,
roendo
um osso duro de roer.


Gilberto Mendonça Teles

30 de outubro de 2009

Delacroix

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cores românticas

Amor

"O amor que não se esquece logo, provavelmente nunca se esquece. Perdura como uma traição - e ele conhecia o significado da palavra."

Francisco José Viegas, in O Mar em Casablanca

Os Passos

(gentileza de Amélia Pais)

Teus passos, filhos do meu silêncio
Religiosamente, lentamente dispostos
Cerca do leito da minha vigilância
Procedem mudos e gelados.

Pessoa pura, sombra divina
Como eles são doces, os teus passos confinados!
Deuses !.....todos os dons que adivinho
Vêm a mim nestes pés nus!

Se, de teus lábios liberais
Tu te preparas para o apaziguar
Ao ocupante dos meus pensamentos
O alimento de um beijo,

Não precipites este acto terno,
Doçura de ser e de não ser,
Porque tenho vivido para te esperar
E meu coração não era senão os teus passos


Paul Válery, trad. Sonia Lanzillotte

29 de outubro de 2009

De passagem

"Ele tinha deixado de ser jovem há muito, mas isso não o incomodava. Era verdade que não tinha saudades da sua juventude, nem dos amores de juventude, nem dos seus medos ou dos actos de coragem, que foram os normais. Simplesmente, limitava-se a observar que o tempo passara."

Francisco José Viegas, in O Mar em Casablanca

Modigliani

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um outro dia

Da adolescência

Divisamos assim o adolescente,
A rir, desnudo, em praias impolutas.
Amado por um fauno sem presente
E sem passado, eternas prostitutas
Velavam por seu sono. Assim, pendente
O rosto sobre um ombro, pelas grutas
Do tempo o contemplamos, refulgente
Segredo de uma concha sem volutas.
Infância e madureza o cortejavam,
Velhice vigilante o protegia.
E loucos e ladrões acalentavam
Seu sono suave, até que um deus fendia
O céu, buscando arrebatá-lo, enquanto
Durasse ainda aquele breve encanto.

Mário Faustino

28 de outubro de 2009

Modigliani

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saudades desta paisagem...

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