26 de junho de 2017

Sobre as pedras

Olhámos ao longo da manhã em redor de todo o castelo
começando pelo lado da sombra aí onde o mar
verde e sem cintilação, o peito de um pavão
morto
nos acolheu com o tempo sem nenhuma fenda.
As veias da rocha desciam do alto
vides contorcidas nuas de muitos ramos ganhando vida
ao tocar a água, enquanto os olhos que as seguiam
lutavam para escapar ao cansativo embalo
perdendo cada vez mais força.

Pelo lado do sol um longo mar costeiro todo aberto
e a luz esfregando pedraria na grandes muralhas.
Nenhuma figura viva os pombos-bravos partiram
e o rei de Assini que há dois anos
procuramos
desconhecido olvidado por todos e por Homero
apenas uma palavra na Ilíada e essa incerta
atirada para aqui qual máscara tumular em ouro.
Tocaste-lhe, lembras-te do seu som? Oco dentro da luz
como o odre seco na terra escavada;
e o mesmo som no mar com os nossos remos.
O rei de Assini um vazio debaixo da máscara
por todo o lado connosco por todo o lado connosco, debaixo de um nome:
"e Assini...e Assini..."
e os seus filhos estátuas
e os seus desejos um esvoaçar de aves e o vento
nos espaços das suas reflexões e os seus barcos
atracados em porto que não se vê;
debaixo da máscara um vazio.

Por detrás dos olhos grandes dos lábios curvos do cabelo
encaracolado
relevos na cobertura de ouropel da nossa existência
um sinal obscuro que viaja como o peixe
pela serenidade alvorecente do mar e estás a vê-lo:
um vazio por todo o lado connosco.
E a ave que voou num outro inverno
com a asa quebrada
paradouro de vida,
e a jovem mulher que partiu para brincar
com os caninos do verão
e a ama que procurou aos guinchos o mundo inferior
e o lugar como a grande folha de plátano que a torrente do
sol arrasta
com os monumentos antigos e a tristeza contemporânea.

E o poeta demora-se olhando as pedras e
interroga-se
existem acaso
entre estas linhas estragadas as arestas os
gumes os côncavos e as curvas
existem acaso
aqui onde se encontra a passagem da chuva do vento
e do desgaste
existem o movimento do rosto o traçado do carinho
daqueles que diminuíram tão estranhamente dentro da nossa vida
desses que ficaram sombras de vagas e reflexões com
a imensidade do mar
ou porventura não nada fica a não ser apenas o peso
a saudade do peso duma existência viva
aí onde agora sem substância ficamos vergando
como hastes do salgueiro abominável amontoadas dentro
da duração do desespero
enquanto lenta a amarela torrente arrasta para baixo dentro da lama/
juncaria arrancada
imagem de rosto que se tornou mármore na decisão de uma
amargura para sempre.
O poeta um vazio.

Com seu escudo o sol subia combatendo
e do fundo da caverna um morcego assustado
bateu na luz como a flecha sobre o escudo:
"e Assini e Assini..." Não seria ele o rei de
Assinni
que procuramos tão minuciosamente nesta acrópole
tocando por vezes com os nossos dedos o tato deles
sobre as pedras

Yorgos Seferis, trad. Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis

25 de junho de 2017

Jean Béraud

Jean Béraud.2.jpg

Os filhos levam muito tempo a crescer

Precária a vida e consentida a morte.
Quanto eu julguei saber como assim eram!
Mas não sabia.

Morreram-me pessoas queridas
e é como se ausentes permaneçam;
mesmo quando morreram perante mim,
não foi à morte delas que assisti:
outrem morreu, que é outro alguém que morre.

Mas também isto ainda o não sabia,
como o sei agora,
se aos meus filhos o olhar se turva
se não sorriem logo, prontamente,
ao mais singelo aceno desta vida
que tão precária acena por seus lábios.
A morte é consentida: se a consentem?
Se se desdobram, numa imagem fixa,
que se perde,
e noutra que parte para sempre,
como se só ausente permaneça,
mas que nunca mais volta,
para viver precariamente
e morrer consentidamente
depois de a morte a mim me haver vivido?
Tudo isto meus versos o sabiam,
que não eu.
E agora que o sei tão ansiosamente,
leio estes versos e suspeito
amargamente que estes o não sabem.

Jorge de Sena

Indeed

Grief, when it comes, is nothing like we expect it to be.

Joan Didion

23 de junho de 2017

Jean Béraud

Jean Béraud.jpg1.jpg

Quase tudo

Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.
 
Maria do Rosário Pedreira

21 de junho de 2017

Love Is Anterior To Life

LOVE is anterior to Life,
Posterior to death,
Initial to creation, and
The exponent of breath.

Emily Dickinson

Jean Béraud

beraudfigarodereve.jpeg

Início do verão

O solstício de verão de 2017 ocorre a 21 de junho, mais precisamente às 04h24 em Portugal.

20 de junho de 2017

Encantamentos negros (again)

Às tantas o futuro aparece em toda a parte:
Verões corpulentos e noites insones em traços
carregados e borrões escuros, pele puída.
Eis a loja de esquina ampliada a um apartamento,
a bicicleta reduzida a uma roda que gira,
o fantasma de um cão que existiu outrora, o seu trilho
que deixou de ser pisado, mera depressão nas ervas.
A água límpida que, crianças sedentas, bebíamos
ainda nos corre nas veias. As estrelas que víamos então
ainda as vemos agora, só que são menos, mais ténues, mais raras.
Ouve-se as velhas cantigas e continuam a comover-nos
apesar da nossa erudição, o espectro do romance,
a inocência perdida, a literatura, a morte dos poetas.
Continuamos a falar, ainda que em sussurros,
a algo dentro de nós que anseia ser nomeado.
Chamamos-lhe passado e arrastamo-lo atrás de nós,
saco semelhante a um pulmão repleto de sombra e canto,
sonhos de correrias, as chaves de nomes perdidos.

Dorianne Laux, trad. Vasco Gato

junho 2017

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