Não tenhas pressa,
disse no fim do verão,
porque setembro, com o seu delicado ouro,
converte os dias,
e junto à sebe de descuidados arbustos
encontrarás o meu cão
e num vaso de estranho anil as dolorosas
plantas queimadas.
Deixa que os cachos amadureçam,
emoldurados pelas suas esferas rubras.
Na euforia dos lagares,
dança com os teus pés de sangue escuro.
Vislumbra,
na estação do mosto, o primeiro enigma das
mãos desoladas.
José Agostinho Baptista
É típico da poesia autêntica, da que não é evasiva, não ter por onde se pegue para fugirmos à consciência, à lucidez, à crua luz da verdade moral.
Jorge de Sena
A poesia é um gozo
um uso sabido
do erro errado
A poesia é um gozo
e se o não é
a culpa é do vizinho do lado
A poesia é um gozo
de palavras paralelas
daquelas
que não há
A poesia é um gozo
como um osso encravado
A poesia é um gozo
o leitor
deve sentir-se gozado
E. M. de Melo e Castro
Humana fonte bela,
repuxo de delícia entre as coisas,
terna, suave água redonda,
mulher nua: um dia,
deixarei de te ver,
e terás de ficar
sem estes assombrados olhos meus,
que completavam tua beleza plena,
com a insaciável plenitude do seu olhar?
(Estios; verdes frondas,
águas entre as flores,
luas alegres sobre o corpo,
calor e amor, mulher nua!)
Limite exacto da vida,
perfeito continente,
harmonia formada, único fim,
definição real da beleza,
mulher nua: um dia,
quebrar-se-á a minha linha de homem,
terei que difundir-me
na natureza abstracta;
não serei nada para ti,
árvore universal de folhas perenes,
concreta eternidade!
Juan Ramón Jiménez, trad. José Bento
Viver sem amor
É como não ter para onde ir
Em nenhum lugar
Encontrar casa ou mundo
É contemplar o não-acontecer
O lugar onde tudo já não é
Onde tudo se transforma
No recinto
De onde tudo se mudou
Sem amor andamos errantes
De nós mesmos desconhecidos
Descobrimos que nunca se tem ninguém
Além de nós próprios
E nem isso se tem
Ana Hatherly
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
Manuel António Pina
Todas as gerações e os poentes.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima.
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem.
Jorge Luis Borges, trad. Fernando Pinto do Amaral
Sobre a bondade. Reflexo espelhado
do tempo: roubo
o espaço e o detenho
à frente do espectro:
esperto agente gentios
expostos gêmeos
separados no aporte
do barco ao porto: deslizo
remos em águas
de malefícios: o mal estar
da bondade na fronte franzida
por estar sozinho na gravidade
da presença reposta ao ato.
Pedro Du Bois
Sometimes
if you move carefully
through the forest,
breathing
like the ones
in the old stories,
who could cross
a shimmering bed of leaves
without a sound,
you come to a place
whose only task
is to trouble you
with tiny
but frightening requests,
conceived out of nowhere
but in this place
beginning to lead everywhere.
Requests to stop what
you are doing right now,
and
to stop what you
are becoming
while you do it,
questions
that can make
or unmake
a life,
questions
that have patiently
waited for you,
questions
that have no right
to go away.
David Whyte
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