19 de outubro de 2020

Pedro Du Bois

Pedro Du Bois.png

A Ilha do Lago Innisfree

Sim, partirei já, partirei para Innisfree,
E aí uma pequena cabana edificarei, uma cabana de argila e canas:
Plantarei nove renques de feijão e haverá uma colmeia,
E solitário entre o rumor das abelhas viverei.
E alguma paz desfrutarei, porque como lenta gota é a paz,
Desprendendo-se dos véus da manhã até ao lugar onde o grilo canta;
Eis aí a meia-noite de esplendor, o meio-dia de fulgurante púrpura,
E uma plenitude de asas cantantes o entardecer.
Ergo-me e vou, parto com a noite, parto com o dia,
Oiço as águas do lago, o seu murmúrio junto à costa;
Seja pelos caminhos, seja pelas sombrias ruas,
Oiço esse murmúrio no mais fundo do coração.

William Butler Yeats, trad. José Agostinho Baptista

18 de outubro de 2020

Da vontade

Entre hábitos mais inocentes e comuns
acontece por vezes dar-me à doutrinação do próprio
(por via, as mais das vezes, de distracção ao lugar e aos afluentes).

É mais forma de usar, a vestir um dia:
e nunca, que lembre, antes das vinte e duas
(não sendo esse um requisito ou advertência).
Quando acontece, traz a força de uma verdade simpática,
mesmo se contrária (quase sempre muito)
à feitura dos tempos.

A cuidar que a válida escrita sobre nós outros
vem apenas de pessoas interessantes
não escreveria jamais
(ponderado o excesso, sobejamente contrariado).

Valem mais as pessoas interessadas
(lá está a doutrinação, mais ou menos a explicar).

A vontade de te ver.
E de me encontrar.

Rui A.

John Lavery

Sir John Lavery.jpg

17 de outubro de 2020

Circense

Visito o circo
pela manhã: o palhaço
                   foi ao banco
o trapezista ao mundo
o equilibrista ao dentista
a violinista ainda dorme

os animais alimentados
descansam em suas jaulas

os homens comuns da cidade
fazem o restante dos trabalhos

sentada sob a lona
lendo o jornal do dia
a bailarina procura
algum emprego estável.

Pedro Du Bois

16 de outubro de 2020

O que eu ando a ler, ou do escritismo

Eu tinha um plano para este texto, queria escrever algo muito confessional mas também disfuncional sobre o ato de escrever, desisti parcialmente disso porque recebi entretanto um email alucinante, é tão mau que se torna bom e serve melhor o meu propósito de explicar a doença da escrita - e se o que vai ler parecer inicialmente um problema irrelevante para a sua vida na verdade vai ser uma comédia derivante de termos o Estado na nossa vida, sim, o Estado com E capitular perante quem eu capitulei depois de ele (devia escrever Ele?) me ter enviado por correio eletrónico o melhor pior texto que li este ano, vamos então a isto: o meu plano inicial era portanto desenvolver pensamentos elaborados e certamente delirantes sobre a dificuldade e até o sofrimento de escrever, preparei citações do Gonçalo M. Tavares e do Roland Barthes porque temos de nos socorrer dos consagrados quando nos sentimos desesperados, fui parar a ambos depois de andar a pensar e a discutir e até a fazer terapia sobre a amargura de escrever, não sou caso único e conheço mais como eu, andam por aí muitos convalescentes da escrita, então decidi num esforço terapêutico que devia prosar sobre a angústia de escrever, tenho um distúrbio obsessivo: quando nós os patológicos começamos um texto escolhemos minuciosamente palavras que criem um determinado sentido rítmico quando antecedidas e sucedidas de outras escolhidas com a mesma minúcia, é uma dança intelectual; construímos demoradamente frases que retocamos infinitamente até acharmos que são capazes de incendiar os sentidos de quem nos lê, é uma piromania emocional; repetimos sequencialmente uma mesma palavra que adquire sentidos diferentes consoante as palavras que a acompanham, foi o que ainda há pouco fiz ao escrever três vezes "sentido", é uma repetição que tenta transformar o texto num refrão, trata-se de uma tentativa pop de deixar algo insistentemente marcado no pensamento do leitor; porventura até ousamos violar a pontuação porque queremos um estilo que cause inquietação; temos fundamentalmente a ilusão de atingir uma escrita singular que proporcione uma visão diferente sobre as coisas de sempre da vida, e quando falhamos nisto tudo, e nós os patológicos achamos que falhamos sempre, é uma aflição que tem manifestações e proporções físicas, há algo no corpo que se contrai aperta sufoca, que acentua a desconfiança na nossa autoconfiança, é um pânico provocado por uma obsessão de perfeição que na verdade é uma doença, tenho um neologismo para isso, inventei agora, é o escritismo, "os ismos são sufixos formadores de nomes abstratos", é o que está no dicionário, os ismos são também sufixos de problemas concretos, este está em mim e noutros, eu tinha alertado que isto ia ser momentaneamente delirante e agora vai ser instantaneamente diletante, Roland Barthes: "O estilo [do escritor] tem sempre qualquer coisa de bruto: é uma forma sem destino, é o produto de um impulso, não de uma intenção, é como uma dimensão vertical e solitária do pensamento. As suas referências estão ao nível de uma biologia ou de um passado, e não de uma História: o estilo é a 'coisa' do escritor, o seu esplendor e a sua prisão, é a sua solidão", e agora complemento com as "Breves Notas sobre o Medo" do Gonçalo M. Tavares, há lá uma frase que só não tatuo no meu corpo porque é demasiado longa para a minha altura mas não para o tamanho deste texto, "tratas as palavras que dizes como se fossem passageiros de primeira classe e tu um empregado servil e, face às palavras dos outros, comportas-te como se elas fossem o empregado servil e tu o passageiro que viaja em primeira classe", e como o Estado me pôs na terceira classe ou noutra pior num email que enviou enquanto eu andava a ler o Barthes e o Gonçalo constatei que tudo o que acabo de escrever é extremamente aborrecido, peço perdão, vamos passar para algo mais mundano:

eu quero doar o meu carro, é obrigatório comunicar ao Estado a mudança de propriedade, já o fiz: há covid e recomendam que se faça tudo online, mesmo que não houvesse pandemia recomendam o mesmo, não nos querem lá nas repartições deles e eventualmente nós também não, o site promete que até é mais barato fazer tudo digitalmente apesar de este processo de uns 15 cliques acabar numa página com referências multibanco para se pagar €50, fiquei com a impressão de que o preço por clique está muito caro, e dias depois veio esta resposta de volta, um email que vou afixar na parede lá em casa, é uma decoração surrealista:

"O pedido de registo automóvel número XXXXXXX/2020 foi actualizado para o estado Recusado. Motivo: Recusado, nos termos do artº 49º, alínea b), do Decreto n.º 55/75, de 12 de fevereiro, por o pedido de registo não ter sido requerido de acordo com o artigo 4.º, da Portaria n.º 99/2008, de 31 de janeiro, impedindo a feitura do registo - as pessoas singulares não podem requerer atos de registo online quando haja documentos para arquivar, os quais seriam necessários para a feitura do mesmo. Informo que o mesmo é passível de recurso, nos termos dos artºs 140º e seguintes do C.R.P., ex-vi o artº 29º do Decreto-Lei nº 54/75, de 12 de Fevereiro. Por motivo e na sequência da recusa supra, solicita-se a Vª. Exª. , de modo a permitir a devolução emolumentar ANTES dos 30 dias estipulados no artigo 140º do CRP, o envio de DECLARAÇÃO em como NÃO IRÁ SER INTERPOSTO RECURSO AO DESPACHO DE RECUSA e do IBAN, SWIFT/BIC e do NIF DA ENTIDADE a favor de quem pretenda que seja efectuada a transferência, para o endereço XXXXXXX@irn.mj.pt. Mais se informa que não haverá devolução nas situações previstas no artigo 13º, nº 3, do Decreto-Lei 201/2015, de 17/09. CRA de Braga, 07/10/2020 A oficial de registos, com delegação de competências XXXXXXXXX",

é um email peculiar, eu sei, primeiro fiquei indignado depois entretido e agora sinto que admiro o autor, é um daqueles textos que crescem em nós, diz-se muito isso sobretudo os ingleses, it grows on you, é preciso um talento apurado para se escrever daquela maneira, é poesia burocrática, palmas, mas deixou-me hesitante, não sei se tenho de contratar um advogado ou um professor de Português porventura preciso de ambos, não entendi se vão ficar com os €50, se é preciso pagar mais, se me vão prender ou se estão só a gozar, é isso, devem juntar-se ao fim da tarde a ver quem venceu o concurso da resposta mais impercetível para o cidadão, eu sofro de escritismo mas o Estado padece de gozismo, mas há mais, o Estado enviou-me a seguir uma carta nos termos dos artigos 189.º e 190.º do Código de Procedimento e de Processo Tributário (CPPT) mas também nos termos do n.º7 do art.190.º do CPPT porque tenho de pagar €12,14 nos termos do artigo 201.º do CPPT, e depois há os termos dos artigos 169.º e 199.º do CPPT que não sei de onde vieram, sinto que devo uma fortuna mas são €12,14 que paguei duas semanas antes de receber estes termos, não interessa, o Estado avisa que posso ficar com os bens penhorados sem eu saber exatamente porquê, sinto-me o Joseph K., tenho de reler o Kafka, mas sempre posso transformar isto numa lição literária enquanto o Estado não me penhora este computador em que eu escrevo: a escrita é uma escolha, "é evidente que hoje eu posso escolher para mim esta ou aquela escrita e nesse gesto afirmar a minha liberdade, pretender uma frescura ou uma tradição", a escrita "é uma função: é a relação entre a criação e a sociedade", está tudo no "Grau Zero da Escrita" do Barthes, vai ler isso, Estado, e agora lê-me a mim, há dias recomendaram-me um medicamento para a minha doença da escrita, disseram-me para publicar um texto que eu ache só normal, do qual não goste muito, "isso vai libertar-te", pois aí está esse texto é este aqui, mas olha, Estado, faz o mesmo, escreve um texto que aches só normal quando comunicares com o teu cidadão, faz isso mesmo que não gostes muito, vai libertar-te, e nos termos do artigo 1 do Código de Procedimento do Meu Escritor Favorito, o São Rubem Fonseca, aprende com ele quando voltares a escrever aos teus cidadãos:

"- Por que você se tornou escritor?
- A única resposta inteligente para essa pergunta é aquela do Montalbán, tornei-me escritor para ficar alto e bonito".

Germano Oliveira, in Expresso Curto, 15.10.2020

Do amor

Progressivamente tenho vindo a pensar no amor como o único assunto. Na vida humana tudo é acerca do amor ou da sua ausência.

Salman Rushdie

fazer acreditar

A ficção e a mentira são inimigas de muitas maneiras. Muitas vezes diz-se que são a mesma coisa porque as duas são formas de fazer acreditar. Mas a literatura está ao serviço da verdade, enquanto a mentira está ao serviço da falsidade.

Salman Rushdie

John Lavery

lavery.jpg

15 de outubro de 2020

Tempo

Evoco a imagem materializada
em reconhecimento: recordo
os traços e sulcos
decalcam a face

outros tempos
violados ao tempo
ignorados ao tempo

(tempo: espaço entre o ranger
             de dentes e a saliva ácida
             do que foi consumido)

refaço os reflexos e no local
do encontro destruo a base

não há reencontro entre
fatos e o reconhecimento
cede espaço à indiferença.

Pedro Du Bois

Pedro Du Bois

Pedro Du Bois.png

14 de outubro de 2020

Angústia sempre idêntica

Lá longe, na Bósnia, em Sarajevo, um homem disparou sobre o arquiduque herdeiro da Áustria e sobre uma mulher. A guerra começava. Moviam-se interesses de grandes países, ideias, questões de dinheiro, rivalidades políticas, rivalidades económicas... Mas, na realidade, era como sempre mais uma eclosão da angústia humana.

Angústia sempre idêntica. O homem ama apaixonadamente a vida, mas a morte vive na sua alma, vai corroendo-o insensivelmente, aos poucos, aniquila-o ao longo dos meses e dos anos, rouba-lhe, através do tempo, a força e a juventude.

Graça Pina de Morais in A Origem

13 de outubro de 2020

onde isso se decide

Se eu pudesse
ter-te em vez dos versos,
ou ter um verso
em vez de ti,
ou ter os olhos
como os de um gato
para perscrutar a noite
onde isso se decide.

Pedro Mexia

12 de outubro de 2020

Lady Hazel Lavery

Lady_hazel_lavery01.jpg

Dreams

Some dreams aren't dreams at all, just another angle of physical reality.

Patti Smith, in The year of the Monkey

outubro 2020

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