09 de maio de 2008

Apenas uma Coisa

Existe amor?
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nutrindo em tantas coisas?

Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?

Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.

Nauro Machado

Fazeres

Fazer da hora terminada
o tempo decorrido
do livro lido
a folha preenchida
da encosta do morro
a terra revolvida

do grito da criança
o medo possuído
da ilusão da imagem
o reflexo consumado
e
do saber habitado
o vazio da lembrança.

Pedro Du Bois

08 de maio de 2008

Francisco de Zurbarán

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caminhos menos óbvios

O vento, a noite

Entristece
a tua tristeza — e canta

(os ombros modulam o vento
modulam a noite
a soberana voz
dos horizontes)

entristece
a tua tristeza
— e canta

Zetho Cunha Gonçalves

Corpo completo

Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.
Mas eu quero e é necessário
que me sofra e me solidifique em poeta,
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório
e me alucine na essência de mim e das coisas,
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,
trazer-me à tona do poema
com um grito de alarme e de alarde:
ser poeta é duro e dura
e consome toda
uma existência.

Nauro Machado

Bolsa de valores

Um caminho no sertão
vale uma avenida
e um cavalo, mesmo velho,
um caminhão.

Um banho de enxurrada
vale, assim, a própria vida
num açude ou corredeira pelo chão.

Um aboio de vaqueiro vale um hino,
e o pião de um menino
um avião.

Um chocalho de ovelha
vale um sino
e uma casa, mesmo velha,
a solidão.

Contemplar a natureza vale a pena
um poema vale igual a uma oração.

E o valor daquela estrela imorredoura?
que igreja se compara à manjedoura ?

Luis Manoel Siqueira

Ukiyo-e

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mais do que horas de fazer a toilette...

Destino manifesto

De cratera em cratera
Erguer
na boca das sementes
A força contida dos vulcões

Corsino Fortes

Proveniência

Venho de Elêusis a inefável
onde o arco de Hélios
Me revelou em sonho o rosto de Perséfone
No relastérion
Essa presença esquiva espero agora
Sem cessar sou jovem
A beleza persigo na terra com ardor
Das coisas feitas apenas sei
O que a um deus
Presságio algum proibe
Das coisas ditas o que a ouro debruam
As paisagens
Enquanto Perséfone escrutina
O trevo e a morte

Vergílio Alberto Vieira

07 de maio de 2008

Descoberta

Após o ardor da reconquista
não caíram manás sobre os nossos campos.
E na dura travessia do deserto
Aprendemos que a terra prometida
era aqui.
Ainda aqui e sempre aqui.
Duas ilhas indómitas a desbravar.
O padrão a ser erguido
pela nudez insepulta dos nossos punhos.

Conceição Lima

A Oriente, outro desejo

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pintura tradicional

Mais Desejo

O meu olhar cai sobre ti
como água fresca de Verão
desliza sobre o teu corpo
possuindo-te no abandono
Tudo em ti é fascínio
porque tudo exclusivamente
os cabelos, o brilho dos olhos
os lábios, pétalas rosa
a sombra que desliza dos seios
e o tesouro intímo e mágico
que ocultas tão meigamente
na elevação planetária de deusa
O meu olhar cai sobre ti
perpassando corpo e essência
suave, ternamente, comendo-te
Derivas para dentro de nós
realizas não haver distâncias
quando assim somos encontro
vivendo este morrer e nascer
entre suspiros feitos gemidos
tão loucos tão sentidos

Manuel Martins Gaspar Tomé

Primavera

Vem, Primavera! Abre o sendal de flores na terra,
Estende o pálio azul no espaço,
lava num beijo o firmamento baço,
traz a magia das luzes e das cores!
Com teus perfumes entontecedores, aromatiza as balsas.
Passo a passo acorda os ninhos
e de teu regaço
lança a mãos plenas rosas, esplendores.
A natureza em júbilo te espera:
aclamando-te os pássaros bisonhos
já se põem a cantar, Mãe da quimera.
E em minh'alma, entre frêmitos risonhos,
em febril disparada,
ó Primavera,
passa a galope o batalhão dos sonhos...

Mário de Lima

Sidi Amar no Inverno

(gentileza de Amélia Pais)

Penso que nunca vi o teu rosto
Num dia de chuva, quando as sombrias artérias do céu
Pulsam junto às árvores, e no teu coração
A água corre. Nunca te vi chorar
Com o monólogo da noite, com a tua mente resistindo ao silêncio.

Chegará o dia em que as linhas do céu
Se desprenderão das torres
E em que tu, que tremes pela noite
Partirás para os lugares sombrios ao lado de um desconhecido.

Paul Bowles, trad. José Agostinho Baptista

Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mário Quintana

06 de maio de 2008

Altdorfer

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uma presença majestosa

My Inner Life

'Tis true my garments threadbare are,
And sorry poor I seem;
But inly I am richer far
Than any poet's dream.
For I've a hidden life no one
Can ever hope to see;
A sacred sanctuary none
May share with me.

Aloof I stand from out the strife,
Within my heart a song;
By virtue of my inner life
I to myself belong.
Against man-ruling I rebel,
Yet do not fear defeat,
For to my secret citadel
I may retreat.

Oh you who have an inner life
Beyond this dismal day
With wars and evil rumours rife,
Go blessedly your way.
Your refuge hold inviolate;
Unto yourself be true,
And shield serene from sordid fate
The Real You.

Robert Service

05 de maio de 2008

Porque às vezes...

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por instantes, o peso dos dias é maior

Razão de fundo

Je l'aimais, parce que c'était lui, parce que c'était moi.

Montaigne, sobre Étienne de La Boétie

Terra feita de céu

A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

Fernando Pessoa

Percentagem

she tries to get things
out of men
that she can't get
because she's not
15% prettier

Richard Brautigan

Ukiyo-e

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antes sair, a importância de rever a agenda

O Coração do Poeta

tudo o que voa, trepa, se alça e plana sobre o Universo
aves, flores, perfumes, fontes, ramos dobrados,
mares, grutas, cumes, lugares habitados, vulcões, desertos,
sombra e luz, noite e estações, nuvens, trovões,
neve e bruma passageira, furacões, chuvas generosas,
religião e ensinamentos, visões, sensações, silêncio e canto,
tudo isso vive e mexe em meu coração: uma liberdade
irmã da subtil magia dos filhos da eternidade.
no meu coração, aqui sem fundo nem medida,
a morte dança com os espectros da vida.
aqui sopram os terrores da noite,
treme o sofrimento das rosas
e, ao seu eco, ergue-se a arte.

Abû Al-Qâsim Al-Shâbbî, trad. Adalberto Alves

04 de maio de 2008

Amor do prazer e amor da acção

Há duas tendências muito naturais que podemos distinguir nas mais virtuosas e liberais disposições: o amor do prazer e o amor da acção. Caso o primeiro seja refinado pela arte e a ciência, melhorado pelos encantos do convívio social e corrigido pelo justo cuidado com a economia, a saúde e a reputação, ele origina a maior parte da felicidade da vida privada. O amor da acção constitui um princípio de natureza mais forte e duvidosa. Conduz, frequentemente, à ira, à ambição e à vingança; mas sempre que é dirigido pelo sentido do decoro e da benevolência, torna-se o pai de todas as virtudes e, caso estas virtudes se façam acompanhar de talentos iguais, uma família, um Estado ou um império podem ficar a dever a sua segurança e prosperidade à coragem intrépida de um só homem. Ao amor do prazer podemos, assim, atribuir a maior parte das qualidades agradáveis, e ao amor da acção a maioria das que são úteis e respeitáveis. Um carácter em que ambos pudessem unir-se e harmonizar-se pareceria constituir a noção mais perfeita da natureza humana.

Edward Gibbon, in Declínio e Queda do Império Romano, ed. D. M. Low, trad. Maria Emília Ferros Moura

Escuridão nova na velha escuridão

"Seldom we find" says Solomon Don Dance
"Half ann idea in the profoundest sonnet"

E.A.Poe

A fisionomia, o carinho das coisas impalpáveis,
o balbuciar, todo em amarelo, dos limões...
Cintura na pedra,
correio subtil de Lesbos para Marte.

Antinous visitou-me. Deixou a casa desarrumada
e um projecto em mim demasiadamente longo.
No frágil da memória eu durmo e sou eu
deuses de papelão sentando-se a meu lado.

No leito fluvial por onde dorme o cisne
chamam por mim os outros príncipes. Todos
irmãos.

Escuridão nova na velha escuridão,
efeito de luz nas janelas do poema...
O meu cão dorme. He is a poet, isn't he?

Mário Botas

Artes Marginais

As Aves

1
Diversas, pousam-nos, habitam-nos
por dentro, as aves. Por que milagre
ainda quando negras voam branco?
As aves abundam nos antigos caminhos:
umas são comestíveis, outras têm cores.
O bico, um certeiro utensílio.
Aves flutuantes, a quem são vulneráveis
tão íngremes lugares, convosco
transportai nossas dores, aflições.
Oh, rogai por nós, que recorremos a vós.
Dispensai à funda cidade a graça
de vosso olhar oblíquo e concentrado,
olho após olho, com método
revezado. Alcançai dos astros, de

2
quem sois vizinhas e rivais,
cálidas disposições
favoráveis.
Por que voareis, senão por nosso
(que vos adoramos) benefício?
Depositai-nos nas sôfregas gargantas
gases raros, vitais, trazidos no
precário recipiente dos bicos:
tudo o que venha da altitude tem
um nome ao som do qual nos prostraremos.
As aves, as aves!, a asa refeita
e veloz sobre as cabeças, sobre o vale
de lágrimas, seus guinchos povoando
a tensa solidão desta viagem.

3
Lugar às aves: às que voando
perturbam as vísceras do tempo;
às que nem sempre trazem cura,
mas sim no bico perverso
alimentos letais; às que
(advogadas nossas!)
(de tantas cores!) nos devoram
os sentidos.
Lugar às aves: a gratuita
rapacidade, a existência breve,
os membros exíguos,
de improviso.
Lugar às aves, as sobrevoadoras,
mais leves, mais pesadas do que o ar.

A. M. Pires Cabral

Narayan Shridhar Bendre

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Dia da Mãe

The Forgotten Dialect Of The Heart

How astonishing it is that language can almost mean,
and frightening that it does not quite. Love, we say,
God, we say, Rome and Michiko, we write, and the words
get it all wrong. We say bread and it means according
to which nation. French has no word for home,
and we have no word for strict pleasure. A people
in northern India is dying out because their ancient
tongue has no words for endearment. I dream of lost
vocabularies that might express some of what
we no longer can. Maybe the Etruscan texts would
finally explain why the couples on their tombs
are smiling. And maybe not. When the thousands
of mysterious Sumerian tablets were translated,
they seemed to be business records. But what if they
are poems or psalms? My joy is the same as twelve
Ethiopian goats standing silent in the morning light.
O Lord, thou art slabs of salt and ingots of copper,
as grand as ripe barley lithe under the wind's labor.
Her breasts are six white oxen loaded with bolts
of long-fibered Egyptian cotton. My love is a hundred
pitchers of honey. Shiploads of thuya are what
my body wants to say to your body. Giraffes are this
desire in the dark. Perhaps the spiral Minoan script
is not laguage but a map. What we feel most has
no name but amber, archers, cinnamon, horses, and birds.

Jack Gilbert

Muito distante a cidade

Muito distante a cidade
o alinhamento em fuga das ruas.
Cercada de luz a escura preia-mar das montanhas,
até o debrum das últimas encostas
até a clareira onde começa o mar.
Muito distante do tempo
a casa
o lugar de morar e estar à vontade

Aí o silêncio torna-se muito.
Um portão, um caixilho, encontro
Imagem e fuga.

Alois Hergouth, trad. Celeste Aida Galeão

A Ilha do Lago de Innisfree

Erguer-me-ei e partirei já, e partirei para Innisfree,
E uma pequena cabana içarei lá, de barro e vime feita:
Nove alas de feijão aí terei, uma colmeia de obreiras e
Viverei sozinho entre enxames nas clareiras.

E aí terei uma certa paz, porque a paz vem lentamente,
Caindo pelo véu da manhã, até onde o grilo canta;
Onde a meia-noite é trémula, e o meio-dia é roxo brilho,
E a noite, de asas de pardais se completa.

Erguer-me-ei e partirei já, porque sempre noite e dia
Escuto a água do lago folheando murmúrios na rebentação;
Quanto vou pelas estradas ou pelos passeios cinza,
Oiço-a no lúmen profundo do coração.

William Butler Yeats

03 de maio de 2008

Delaunay

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retrato do escritor Tristan Tzara

O livro dentro do leitor

Closing the book, I find I have left my head
inside. It is dark in here, but the chapters open
their beautiful spaces and give a rustling sound,
words adjusting themselves to their meaning.
Long passages open at successive pages. An echo,
continuous from the title onward, hums
behind me. From in here, the world looms,
a jungle redeemed by these linked sentences
carved out when an author traveled and a reader
kept the way open. When this book ends
I will pull it inside-out like a sock
and throw it back in the library. But the rumor
of it will haunt all that follows in my life.
A candleflame in Tibet leans when I move.

Mary Oliver

Denário de Marco Aurélio

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ou a erosão do valor facial

O Mote de Camões

Exausto
de insónias
peço ajuda ao bom Luís Vaz de Camões.

O então malquisto exilado português de Muipiti
senhor de ínclitos dotes na arte do soneto
generoso empresta-me seu método
de falar com os bruxos
no ambíguo tempo
dos homens.

Ele
o grão-sonhador que lambeu
suas crostas
imperfilado
em verso
deu-me
o mote:

Efémeros são os oiros dos biltres.
Vãos os poderes da espada e da pólvora.
Louvado seja a Dinamene
e Maria louvada seja também.

E ambos entoamos.

José Craveirinha

As cores de Maio

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ou da simplicidade

Estado, mas de alma

La patria es estar lejos de la patria:
una nostalgia de la infancia en noches
en que te sientes viejo, una nostalgia
que sube a tu garganta como el agrio
sabor del vino en las resacas duras.

La patria es un estado: pero de ánimo.
Un viejo invernadero de pasiones.
La patria es la familia: ese lugar
en el que dan paella los domingos.

Una patria es la lengua en la que sueñas.
Y el patio del colegio donde un día
bajo una lámina de cielo oscuro
decidiste escapar por vez primera.

Mi patria está en el cuerpo de Patricia:
mi himno es su gemido, mi bandera
su desnudez de doce de la noche
a ocho de la mañana. Tras la ducha
mi patria va al trabajo, yo me exilio.

Juan Bonilla

02 de maio de 2008

Ukiyo-e

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atrevimento e sensualidade q.b.

Good times

good weather
is like
good women-
it doesn't always happen
and when it does
it doesn't
always last.
man is
more stable:
if he's bad
there's more chance
he'll stay that way,
or if he's good
he might hang
on,
but a woman
is changed
by
children
age
diet
conversation
sex
the moon
the absence or
presence of sun
or good times.
a woman must be nursed
into subsistence
by love
where a man can become
stronger
by being hated.

Charles Bukowski

Uma lírica conveniente

(gentileza de Amélia Pais)

La femme qui est dans mon lit
N'a plus 20 ans depuis longtemps
Les yeux cernés
Par les années
Par les amours
Au jour le jour
La bouche usée
Par les baisers
Trop souvent, mais
Trop mal donnés
Le teint blafard
Malgré le fard
Plus pâle qu'une
Tâche de lune

La femme qui est dans mon lit
N'a plus 20 ans depuis longtemps
Les seins si lourds
De trop d'amour
Ne portent pas
Le nom d'appas
Le corps lassé
Trop caressé
Trop souvent, mais
Trop mal aimé
Le dos vouté
Semble porter
Des souvenirs
Qu'elle a dû fuir

La femme qui est dans mon lit
N'a plus 20 ans depuis longtemps
Ne riez pas
N'y touchez pas
Gardez vos larmes
Et vos sarcasmes
Lorsque la nuit
Nous réunit
Son corps, ses mains
S'offrent aux miens
Et c'est son cœur
Couvert de pleurs
Et de blessures
Qui me rassure

Serge Reggiani

Cassatt

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observar a vida a uma distância prudente

Provável

Probabilidade: amanhã acordaremos
na mesma hora. Diremos palavras.
Sorriremos faces. Espalharemos
as cobertas sob os corpos. Transitaremos
caminhos conhecidos. Reiteraremos
verbos conjugados. Diremos os bons
dias necessários ao convívio.

Diremos adeuses tantas vezes
forem as separações. Os reencontros
de abraços e beijos: a probabilidade
de irmos juntos para a cama ainda
desfeita da manhã.

Pedro Du Bois

01 de maio de 2008

Voltar ao poema

(gentileza de Amélia Pais)

Cuando se acaben estas noches
en las que estoy sola y tú estás conmigo,
cuando se acaben estas cosas
de destino,
cuando se acabe
lo que nos hemos dado para siempre,
no me odies:
recuérdame innocente
y volveremos juntos al poema.

Carilda Oliver Labra

Mantegna

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Quarenta dias depois da Ressurreição, Jesus apareceu pela última vez aos seus discípulos, em Jerusalém, e levou-os ao Monte das Oliveiras.
Depois de lhes ter renovado a promessa do Espírito Santo, ergueu as mãos ao céu e abençoou-os. Nesse instante começou a elevar-se no ar e não tardou que uma nuvem o escondesse dos olhos deles. Como estes continuaram a olhar o céu, apareceram-lhes dois anjos a anunciar que Jesus voltaria do mesmo modo que o viram subir.
Então os discípulos deixaram o Monte das Oliveiras e regressaram a Jerusalém.

Quinta-Feira da Ascensão

Levantei-me de madrugada
Para varrer meu balcão
Apareceu-me Nossa Senhora
Com o cordão d' oiro na mão

Pedi-lhe uma folhinha
Ela me disse que não
Eu lha tornei a pedir
Ela me deu seu cordão

As pontas que cresciam
Chegavam até ao chão
Nossa Senhora mo deu
Em Quinta-Feira de Ascensão

oração popular

O primeiro 1º de Maio

Esta é a designação familiar para distinguir as manifestações eufóricas do 1º de Maio de 1974 - nas quais, diga-se desde já, não participei de forma alguma por motivos que ainda hoje me parecem os mais válidos do mundo: tinha acabado de entrar nos meus sweet sixteen e o meu alto e loiríssimo namorado (aposto que ainda hoje continua elegante e de pronto sorriso semi-trocista) tinha o dia livre para mim. Acresce que, dada a natural alegria dos meus pais com a liberdade recém chegada, estava certa (e não me enganei...) que iriam participar na manifestação que se adivinhava uma verdadeira catarse colectiva dos "48 anos de fascismo". Essa vontade participativa esgotou-se-lhes aliás logo a seguir, e acho que até hoje nunca mais foram a qualquer movimento de massas - com excepção dos proporcionados pela cozinha italiana, que não desdenham. Mas naquele dia, deixando a casa sob a vigilância reduzida de uma avó metediça mas também mais interessada, por uma vez, no que se passava na rua do que em casa, aqueles simpáticos trintões permitiram-me involuntariamente uma celebração particular e inesquecível do primeiro 1º de Maio.

1º de Maio

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arquivo da memória longínqua: celebração do Dia do Trabalhador em 1974

Maio maduro Maio

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu

Zeca Afonso

Versão dos Madredeus no YouTube

30 de abril de 2008

Ukiyo-e

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noites longas

Da sorte

Quem disse alguma vez que há deuses lá nos céus?
Não há, não há, não há. Não deixem que ninguém,
mesmo crente sincero nessas velhas fábulas,
com eles vos engane e vos iluda ainda,
Olhai o que acontece, e dai a quanto digo
a fé que isto merece: eu afirmo que os reis
matam, roubam, saqueiam à traição cidades
e, assim fazendo, vivem muito mais felizes
que quantos dia a dia pios são e justos.
Quantas nações pequenas, bem fiéis aos deuses,
sujeitas são dos ímpios com poder e força,
vencidas por exércitos que as escravizam.
E vós, se em vez de trabalhar rezais aos deuses,
e deixais de lutar para ganhar a vida,
aprendereis que os deuses não existem. Que
todas as divindades significam só
a sorte, boa ou má, que temos neste mundo.

Eurípedes, trad. de Jorge de Sena

Por onde passo

por onde eu passo passou o ferro em brasa
e os olhos roídos pelo fogo das lágrimas
passaram pelo sangue e o leão
ó rígido

nenhum vento estremeceu mais para dentro da noite
que a divida obscura
o mercado do sol entrou no quarto
e o quarto na cabeça cheia de zumbidos

amadurecer as iscas do desalento
que gente mais timorata atirou ao chão
quente desfalecer de uma noite de trabalho
viver toda a sua indiferença

e tão calma a noite enquanto ainda caminha na embriaguez
embrulha-se na cidade nas plantas
uma invisível mão me empurra selvagem
pelos velhos caminhos dos jardineiros

onde vibram as notícias
se reviram os canteiros
onde ainda lágrimas se tiram
e há ferros a torcer no inverno

Tristan Tzara (ou Sami Rosenstock)

29 de abril de 2008

Ukiyo-e

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toda a gueixa deve saber tocar o shamisen...

um som profundo do Outono

Como a floresta, faz de mim a tua lira
importa que também as minhas folhas caiam
o tumulto das tuas poderosas harmonias
virá arrancar-nos

um som profundo do Outono
suave, apesar da sua tristeza

Percy Bysshe Shelley