27 de novembro de 2021

Adrian Allinson

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Às vezes

Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
(...)
Viste noites e dias, estações, partidas
E tão terrível tudo, porque tudo
Trazia no princípio o fim de tudo

Ruy Belo

25 de novembro de 2021

Que me quereis

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
e se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
porque estes tão ligeiros que passais,
nem todos para um gosto são iguais,
nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
que quase é outra cousa; porque os dias
têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
que do contentamento são espias.

Luís de Camões

24 de novembro de 2021

Adrian Allinson

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Estado

Estou num amor entre viver e morrer. É através desta ausência do teu sentimento que reencontro a tua qualidade, essa, precisamente, de me agradares. Penso que apenas me interessa que a vida não te deixe, outra coisa não, o desenvolvimento da tua vida deixa-me indiferente, não pode ensinar-me nada sobre ti, só pode tornar-me a morte mais próxima, mais admissível, sim, desejável. É assim que permaneces face a mim, na doçura, numa provocação constante, inocente, impenetrável.
E tu não sabes.

Marguerite Duras

21 de novembro de 2021

O amor não gira à volta da sorte

No jogo a que se chama amor, tem que se trabalhar no duro para não perder. É por isso que o amor não é um jogo engraçado. A única razão para o jogar é ser demasiado tarde para desistir de tomar parte nele.

Ilja Leonard Pfeijffer

Adrian Allinson

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Amo os Teus Defeitos

Amo os teus defeitos, e tantos
eram, as tuas faltas para comigo
e as minhas; essa ênfase
de rechaçar por timidez; solidão
de fazer trepadeiras, agasalhos
para velhos, depois para netos;
indulgência de plantar e ver
o crescimento da oliveira do paraíso,
carregada de flores persistentemente
caducas; essa autoridade, irremediável
desafio; e a astúcia
de termos ambos quase a mesma cara.

António Osório

20 de novembro de 2021

Agora me arrependo

Já proibi as letras e as imagens
e até o horizonte, azul-tranquilo,
penso bani-lo um dia, como o erro
que se corrige a tempo num esboço.
Se do poço te ergui, foi distraído
pelo suor maligno em que dormias,
julgando que mais tarde poderia
consertar o defeito de fabrico.
Agora me arrependo de ter dito
verdadeiras palavras ao ouvido
de cego e desastrado demiurgo;
vou fechar para férias o universo
e levar-te num verso com a vida
à oficina das falhas e perdidos.

António Franco Alexandre

19 de novembro de 2021

Adrian Allinson

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Grand Hotel Europa II

Na minha opinião, as liberdades individuais não são um problema das sociedades modernas ocidentais, mas sim uma conquista, enquanto o verdadeiro problema está localizado nos valores da religião mundial do neoliberalismo, erradamente vendidas ao público como liberdade, que considera o egoísmo uma qualidade e o altruísmo uma fraqueza. Agora que criámos a geração dos nossos filhos com a ideia de que a vida deve ser encarada como uma competição, na qual os vencedores são vencedores à custa dos perdedores, e o sucesso é uma escolha que consiste em não ter compaixão para com aqueles que não escolheram ter sucesso, não devemos ficar admirados por a empatia se ter tornado uma raridade.

Ilja Leonard Pfeijffer

18 de novembro de 2021

Adrian Allinson

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Assim

Que seja assim:
os pássaros chegaram e as pedras
juntaram-se às pedras
assim:
acordo as estradas e as noites
e  seguimos na procissão das árvores
Os ramos são malas verdes e os sonhos
uma almofada
numa viagem de férias
onde a manhã continua estranha
onde o seu rosto
permanece como um selo sobre os  mistérios
Assim:
Um raio indicou-me o caminho, uma voz chamou-me
do fim mais extremo do muro

Adonis

17 de novembro de 2021

Adrian Allinson

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Se perguntarem: das artes do mundo?

Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos
recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as
noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.

Herberto Helder

novembro 2021

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