23 de setembro de 2017

Chama e Fumo

Amor - chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor - chama, e, depois, fumaça...

Tanto ele queima! - e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor - chama, e, depois, fumaça...

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor - chama, e, depois, fumaça...

Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...

A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...
Amor?... - chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...

Manuel Bandeira

Carolyn Wyeth

wyethcarolyn_77600_6.jpg

22 de setembro de 2017

peso e sombra

Quando por fim as árvores
se tornam luminosas; e ardem
por dentro pressentindo;
folha a folha; as chamas
ávidas de frio:
nimbos e cúmulos coroam
a tarde, o horizonte,
com a sua auréola incandescente
de gás sobre os rebanhos.

Assim se movem
as nuvens comovidas
no anoitecer
dos grandes textos clássicos.

Perdem mais densidade;
ascendem na pálida aleluia
de que fulgor ainda?
e são agora
cumes de colinas rarefeitas
policopiando à pressa
a demora das outras
feita de peso e sombra.

Carlos de Oliveira

Maria Laura Bratoz

Maria Laura Bratoz.jpg

Equinócio de Outono

Em 2017, o Equinócio de Outono ocorre no dia 22 de Setembro às 20h02 (tempo universal), 21h02 em Portugal continental e na Região Autónoma da Madeira, e às 20h02 na Região Autónoma dos Açores.

Este instante marca o início do Outono no Hemisfério Norte. A estação prolonga-se até ao próximo Solstício, que ocorre no dia 21 de Dezembro.

21 de setembro de 2017

Altos Altares

Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
E sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.

Hilda Hilst

Anders Zorn

Anders Zorn.jpg

20 de setembro de 2017

Coisas da tristeza

Uma palavra uma casa e esse rastro
ardendo lentamente a solidão
Oh quem pudesse ainda reconhecer
a doce mãe do soldado
nas dispersas sombras das vigias

Colhesse a rapariga lilases como outrora
as crianças demandassem os terraços
ao peregrino assomo do pastor
e o seu canto acordasse trémulas luzes

Mas o vento é um invasor impiedoso
destrona as divindades do bosque

José Tolentino de Mendonça

Theo van Rysselberghe

Theo van Rysselberghe1.jpg

Dia e Outono

Senhor: é tempo. O verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre as campinas.
Manda que os últimos frutos se arredondem;
dai-lhes mais dois dias meridionais,
leva-os à perfeição e faze entrar
a minha doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, longo tempo o será,
Fará vigílias e lerá, escreverá longas cartas
e vagueará, de cá para lá. nas alamedas,
agitado, quandoo o vento arrasta as folhas.

Rainer Maria Rilke, trad. Paulo Quintela

18 de setembro de 2017

Theo van Rysselberghe

007-theo-van-rysselberghe-theredlist.jpeg

a ampla solidão

Na ampla praça há apenas plátanos.
Nem crianças a correm de tão fria,
nem estátuas a comovem bronzeadas.
Das margens secas, com ilhas e outras casas,
janelas, se as há, são quase setas.
O frio perfurou tábuas e latas.
Um vento seco corta junto aos olhos.

O espaço é recomposto agora mesmo: na praça
estou na sombra dos plátanos
e tudo vejo com vontade e amor.
Mas não chega a presença ou a vontade.
Outros não chegam, ou aparecem apressados.
Nomes se referem. Desenha-se um olhar.
Apenas gesto, memória, sombra rara.

Envolvo-me na praça. Os plátanos cobrem-me.
Das margens sempre vem algum calor.
Renascem os olhos. Os plátanos movem-se.
As casas iluminam-se. Um grito
cobre a sombra e assim anima
a ampla solidão de todos nós.

Eduardo Guerra Carneiro

17 de setembro de 2017

Theo van Rysselberghe

Theo van Rysselberghe.jpg

Voz Matinal

Cantando defendo a minha sombra
adolescente. Que amante ouvirá esta canção?
Eu amo tudo o que é vivo
e a minha nudez renova-me e inebria-me.
Movo-me como uma semente em silenciosos gestos
e o meu desejo confunde-se com o vagar das nuvens.
Ser é a minha primeira alegria e sou tudo o que respiro.

António Ramos Rosa

16 de setembro de 2017

Natália Correia

Natália Correia.jpg

A um Jovem Poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina

15 de setembro de 2017

Jacob Kramer

jacob kramer.jpg0.jpg

Palavras

Diremos prado bosque
primavera,
e tudo o que dissermos
é só para dizermos
que fomos jovens.

Diremos mãe amor
um barco,
e só diremos
que nada há
para levar ao coração.

Diremos terra ou mar
ou madresilva,
mas sem música no sangue
serão palavras só,
e só palavras, o que diremos.

Eugénio de Andrade

14 de setembro de 2017

Cedências

O amor triunfa sobre tudo, cedamos também nós ao amor.

Virgílio

Jacob Kramer

jacob kramer9.jpg

13 de setembro de 2017

Tanto

Vivi tanto
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida

António Ramos Rosa

Peter Brueghel o Velho

Peter Brueghel o velho.jpg

Escuta, escuta

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém -- mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

setembro 2017

Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
          1 2
3 4 5 6 7 8 9
10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23
24 25 26 27 28 29 30

Arquivo


&

Primeiro endereço

© 2004/12 Ana Roque | Powered by Querido.org | Editado com Movable Type | Top