29 de setembro de 2016

um talento para a poesia

Amo-te. Amo-te,
mas começo a virar-me para os meus versos
e o coração está a cerrar-se-me
como um punho.

Palavras! adoeçam
tal como eu adoeço, derretam-se,
revirem os olhos, uma poça,

que eu hei-de cravar os olhos
na minha beleza ferida
que, quando muito, não passa de um talento
para a poesia.

Não posso agradar, não posso encantar nem vencer
que poeta!
e a água límpida está repleta

de golpes cruéis na sua cabeça.
Abracei uma nuvem,
mas ao elevar-me
começou a chover.

Frank O'Hara, trad. Vasco Gato

28 de setembro de 2016

Se ao menos

Tenho o coração aos saltos!
Estou de pé na banheira
a chorar. Mãe, mãe
quem sou eu? Se ele
voltasse ao menos uma vez
para me beijar a face
o seu cabelo áspero roçasse
a minha têmpora, que lateja!

poderia então vestir a minha roupa,
diria, e andar pelas ruas.

Frank O'Hara, trad. Vasco Gato

Anton Pieck

anton pieck.jpg

27 de setembro de 2016

Agora

Aguardo calmamente agora
que a catástrofe da minha personalidade
pareça outra vez bela,
e interessante, e moderna.

O campo é cinzento e
castanho e branco em árvores,
neves e céus de um riso
sempre a enfraquecer, menos engraçado
não apenas mais negro, não apenas cinzento.

É capaz de ser o dia mais frio
do ano, o que pensará ele
disso? Isto é, que pensarei eu? E, pensando,
talvez seja eu mesmo de novo.

Frank O'Hara, trad. Vasco Gato

25 de setembro de 2016

O cavaleiro ainda persegue a mesma donzela

Há um quadro
em casa da minha mãe
onde um cavaleiro de metal
persegue uma donzela feita de limões e primavera
e eu cresci,
tornei-me pai, tornei-me avô,
e quando volto a casa da minha mãe
(que ainda é viva porque as mães não morrem)
o cavaleiro ainda persegue
a mesma donzela
e a donzela ainda consegue escapar-lhe.

Petar Stamboliski, aka Afonso Cruz

Tentar e Falhar

Uma ficção, uma maqueta
manuseada de gato, brinquedo
posto de parte, algo que foi
trazido lá de fora:
o seu pêlo branco, hirto e cinzento,
a esgarçar-se pelas costuras.
Examino o focinho
de borracha deteriorada, uma orelha
corroída, o seu corpo amargo
amontoado como um pufe,
a verter-se em fio
sobre uma toalha deprimente.
Fico a observar a luz
a degradar-se nos seus olhos.

Tenta e falha
a subida para a sua cadeira, esgueira-se
para um canto da cozinha,
intimidado, desvirtuado, deixando de ser
algo de semelhante a um gato,
e eis uma nova expressão
naqueles olhos
que se recusam a cruzar-se com os meus
e trata-se da vergonha de ter sido
descoberto. Apenas isso.
E com essa
perda da face
a sua face, reparo,
tornou-se humana.

Robin Robertson, trad. Vasco Gato

David Ligare

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24 de setembro de 2016

A destrutividade é o resultado de uma vida não vivida

A destrutividade é o resultado de uma vida não vivida.
Aquilo que não pode crescer para fora cresce para dentro:
unhas e pêlos da barba penetram a carne, desejos não correspondidos
calcificam-se nos vasos sanguíneos, a inveja
transmuda-se em úlceras, a tristeza em piolhos,
a porcaria em moscas. Somos sempre,
num certo sentido, cavaleiros errantes; estamos sempre à procura
de algo pelo qual ou contra o qual lutar, alguém
a quem odiar com um ódio justo. Essa vida não vivida
assemelha-se a uma panela de água a ferver nas nossas mãos
que desejamos à pressa largar, e não
há tempo para mais nada, e ficamos danados
com todos aqueles que se sentam tranquilamente
à volta da mesa da cozinha a falar
de Erich Fromm e de a destrutividade
ser o resultado de uma vida não vivida.

Jaan Kaplinski, versão de Vasco Gato

23 de setembro de 2016

William Paxton

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Devagar

Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas -
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós

o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.

Maria do Rosário Pedreira

22 de setembro de 2016

Henri Matisse

Henri Matisse.jpg

Oferenda

Hoje larguei umas tulipas ao fogo
e fiquei a vê-las, a arder,
nas suas várias cores.

Não chorei.
A mais bela, guardei-a para ti.

Sir Thomas Berard 

Outono boreal

Em Portugal, o início do outono ocorre hoje, dia 22 de setembro, às 14h21. O equinócio de outono assinala o instante em que o sol, tal como o vemos a partir da Terra, cruza o plano do equador celeste, o que se verifica em setembro no hemisfério norte - e em março no hemisfério sul.

O outono do hemisfério norte é chamado outono boreal.

21 de setembro de 2016

Esperar

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny

Sem remorsos, sem desculpas

Atentemos na meia-lua,
Como avança à medida que vai falhando;

Como encontra a sua verdadeira completude
Permanecendo todavia por completar;

Como conhece o seu próprio caminho,
E como se erguerá cruzando a noite
Com a frieza no olhar,
Sem medo, sem pena --

Possam as meias-luas erguer-se

Das pontas tenebrosas dos meus dedos
Tal como se erguem no céu,

Sem remorsos, sem desculpas.

Charles Wright, trad. Vasco Gato

20 de setembro de 2016

William Paxton

paxton.jpg

19 de setembro de 2016

Nos mares de uma gaivota na vista de O'Neill

O poema, dizem,
vem com as aves.
O poema vem sempre perigoso, o poema vem sempre confiante.
O poema chega às vezes a ser quase sempre
um amável e simpático malandro.

O poema: meio assim, tão inteiro.
Como se fosse, como sendo
(finalmente),
um inacreditável
marinheiro.

Desatendido, e sem suspeitas, o poema
vem sempre perigoso, de encontro aos móveis.
Vem confiante, o poema,
sem medir riscos.
Vem perfeito, o poema;
Como se fosse uma nódoa linda na escada,
como se fosse um tigre da Malásia.

O poema não se lava, o poema não encolhe os dentes.
O poema não escolhe.
Para lá de qualquer preceito,
o poema é feito do que não há.

Mas viva a rádio-telefonia,
viva a radiotelefonia.
Ouvir um fado de O'Neill
é de animal atrevido.
E estrelas.

Uma inocência feita brava.

Para lá do poema,
O poema.

Sir Thomas Berard

setembro 2016

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