Modus vivendi

"Werde der du bist."   Goethe

blogue de Ana Roque

20 de Maio de 2022

Os poemas

Os poemas que escrevas,
ainda que muitos, são
um só, inacabável,
interceptado um dia:
sufocante abertura
por onde irás descendo
a um poço, uma vertigem,
com uma única saída
que, enfim, vislumbrarás
quando já não tiveres olhos.

José Bento


20 de Maio de 2022

Ilya Repin



20 de Maio de 2022

Animais

Dois homens abraçaram-se ruidosamente na rua,
e o seu colóquio a sombra de ábditos deuses
transportou-me para um comércio de infâncias e de começos.
Cheguei a invejar-lhes a cruel alegria.
Dois cães brincaram na água,
e a sua herança de sangue expôs-se:
ira inclemente, rigorosa forma expondo-se.
Cheguei a invejar-lhes a ausência de conceito.
Aqui te abrigas, nesta vaga hereditária e antiga,
aqui sonhas a tua origem e o teu fim,
aqui repousas no eixo do fátuo enigma.
Nada foste. Nada és, animal cego e piedoso.

Luís Quintais


19 de Maio de 2022

Tomás Nevinson

Só custa o primeiro passo. Talvez se pudesse dizer o mesmo acerca de tudo, ou da maioria dos esforços e do que se faz com desagrado ou repugnância ou reservas; é muito pouco o que se empreende sem nenhuma reserva, há sempre algo que nos induz a não agirmos e a não darmos esse passo, a não sairmos de casa e não nos mexermos, a não nos dirigirmos a ninguém e a evitarmos que os outros falem connosco, olhem para nós, nos chamem.

Javier Marías, trad. Vasco Gato


18 de Maio de 2022

Tom Roberts



18 de Maio de 2022

as minhas mãos astutas de princesa

Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;
mas com cuidado, para não ferir
as minhas mãos astutas de princesa.

António Franco Alexandre


17 de Maio de 2022

Émile Friant



17 de Maio de 2022

Música Nocturna

Pequeno ribeiro que passas por minha casa,
Gosto da melodia que trauteias a ti mesmo
Quando sobrevém a noite
E só nós os dois estamos acordados.
Fazes-me companhia
Para que não tema
A escuridão em torno da minha cama
Nem os pensamentos na minha cabeça
Que esvoaçam sinuosos como morcegos
Entre a velha igreja e o cemitério.

Charles Simic, trad. Vasco Gato


16 de Maio de 2022

Estamos no mundo, como as palavras, que bom, estamos todos aqui

1 – O dia sibila como uma torneira vazia


2 – Existem algumas falhas na tua história, dirias, eu digo que o vento acorda
       o xaile nos teus ombros, o laço é feito de nós ou de buracos?


3 – A sombra de um falcão colide com a tua. Nem tu nem o falcão se
       apercebem disso


4 – A propósito, prefiro pensar em mim como um pequeno banco.


5 – Escrevi coisas que têm histórias, sem contar a história.


6 – Estamos no mundo, como as palavras, que bom, estamos todos aqui


7 – Se apartares e penteares o meu cabelo, abelhas mortas choverão
       sobre nós

Gökçenur Ç., trad. Valter Hugo Mãe


16 de Maio de 2022

Destino

É naquele remoto sopro
dentro do coração
que cada um reconhece
o seu destino.
O sonho mais proibido:
a ideia de um infinito
por fim quotidiano
deixado em sorte
ao corpo do amor.
Rendido e aprisionado
para conservar intacto
o seu sabor,
subtraído ao vazio
apertado entre as coxas
longamente, em vão,
como a água
que todavia escorre
da mão.

Paolo Ruffilli, trad. Manuel Simões e Maria do Rosário Pedreira


16 de Maio de 2022

Bertha Wegmann



15 de Maio de 2022

Distração

Portei-me mal ontem no cosmos.
Passei o dia sem fazer perguntas
e sem me espantar de nada.

Fiz as tarefas diárias
como se fossem a única obrigação.

Inspirar, expirar, passo a passo, obrigações,
sem outros pensamentos a não ser
sair de casa e voltar para casa.

Podia tomar-se o mundo por louco,
mas eu tomei-o para uso diário.

Nada de - comos - e - porquês –
nem donde é que ele vem –
e para que precisa ele de tantas peças em movimento.

Eu mais parecia um prego mal pregado na parede,
ou
(falta-me aqui um termo de comparação).

As coisas mudavam umas a seguir às outras
mesmo no limitado tempo de uma piscadela.

Na mesa nova o pão de ontem foi cortado de outra maneira
por uma mão um dia mais nova.

As nuvens eram como nunca e a chuva como nunca,
porque chovia com outras gotas.

A terra girava em volta do eixo,
num espaço para sempre abandonado.

Tudo isto durou 24 horas.
1440 oportunidades.
86 400 segundos para inspecionar.

Savoir-vivre cósmico,
que nada diz a nosso respeito,
mas ainda assim exige algo de nós:
alguma atenção, uns quantos pensamentos de Pascal
e participação espantada neste jogo
de regras desconhecidas.

Wisława Szymborska, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz


15 de Maio de 2022

Erik Henningsen



14 de Maio de 2022

Consolação

Darwin.
Ao que parece lia romances para descontrair.
Mas tinha as suas exigências:
não podiam ter um final triste.
Se calhava ler um desses,
em fúria o atirava para a lareira.

Verdade ou não –
estou pronta para acreditar.

Alcançando mentalmente tantos espaços e tempos
estava tão saturado de espécies extintas,
do triunfo dos fortes sobre os fracos,
das muitas tentativas de sobrevivência,
mais cedo ou mais tarde em vão,
que, pelo menos, da ficção
e do seu micromundo
tinha o direito de exigir um happy end.

Logo, eram obrigatórios: um raio por entre as nuvens,
os amantes de novo juntos, as famílias reconciliadas,
as dúvidas dissipadas, a fidelidade premiada,
as fortunas recuperadas, os tesouros desenterrados,
os vizinhos arrependidos da sua obstinação
o bom nome restituído, a ganância vexada,
as solteironas casadas com dignos pastores,
os intriguistas banidos para o outro hemisfério,
os falsificadores de documentos atirados das escadas,
os sedutores de virgens a correr para o altar,
os órfãos acolhidos, as viúvas reconfortadas,
o orgulho rebaixado, as feridas saradas,
os filhos pródigos convidados para a mesa,
o cálice da amargura derramado no mar,
os lencinhos molhados com lágrimas felizes,
de um modo geral, festas e bolos
e o canito Fido,
desaparecido no primeiro capítulo,
corre e ladra alegre pela casa
no último.

Wisława Szymborska, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz