29 de novembro de 2016

Lluïsa Vidal

Lluïsa Vidal00.jpg

Branco no Branco

As razões do mundo
não são propriamente as tuas razões.
Viver de mãos acesas não é fácil,
viver é iluminar
de luz rasante a espessura do corpo,
a cegueira do muro


Eugénio de Andrade

27 de novembro de 2016

Horário do fim

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

Mia Couto

26 de novembro de 2016

Almada Negreiros

Almada Negreiros.jpg

Chove

Chove. Uma rapariga desce a rua.
Os seus pés descalços são formosos.
São formosos e leves: o corpo alto
parte dali, e nunca se desprende.

A chuva em Abril tem o sabor do sol:
cada gota recente canta na folhagem.

O dia é um jogo inocente de luzes,
de crianças ou beijos, de fragatas.

Uma gaivota passa nos meus olhos.
E a rapariga - os seus formosos pés -
canta, corre, voa, é brisa, ao ver
o mar tão próximo e tão branco.

Eugénio de Andrade

24 de novembro de 2016

Apenas sensível

Sobrou
a justa luz de venerar nuvens
o volume de um sigilo
em tangente ao
desnorte

-- saber-se povoado
de falésias
e sua vegetação tenaz
sem ter
o que teimar --

apenas sensível
à agulha inquieta da maresia
de chaves no bolso
como em todas
as partidas

Vasco Gato

23 de novembro de 2016

Francis Picabia

Francis Picabia.jpg

Os pássaros

As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
Deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
Quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
Mas deixo essa forma de dizer ao romancista
É complicada e não se da bem na poesia
Não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo

21 de novembro de 2016

Tudo

A janela difundia imagens
da própria realidade,
ininterruptas,
inatacáveis,
o osso mesmo
desta nossa vida
tão sujeita ao transe
da chuva.

Alinhaste os ombros
como quem se prepara
para ouvir o próprio
nome
da boca ansiada,
algures na contracapa
da noite.

O barulho da persiana
selou em ti
a idade
em que se existe
longe do terror
de perder

tudo.

Vasco Gato

20 de novembro de 2016

Suzanne Valadon

suzanne valadon - marie clementine valadon.jpg

Em quatro linhas

Se quatro linhas bastassem, para largar o peito de encontro ao teu,
quatro linhas escrevia, e não mais, a tentar a tua altura.
Se no silêncio coubesse o que quero que saibas,
não falava, nunca mais (a não ser ao teu ouvido), e seria esse o meu grito.

Movo-me na imperfeição das coisas e dos princípios,
fiel à falha.
É quase uma vaidade, e agrada-me que saibas
deste bordado.

Tem as linhas que quiseres.

Sir Thomas Berard

novembro 2016

Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
    1 2 3 4 5
6 7 8 9 10 11 12
13 14 15 16 17 18 19
20 21 22 23 24 25 26
27 28 29 30      

Arquivo


&

Primeiro endereço

© 2004/12 Ana Roque | Powered by Querido.org | Editado com Movable Type | Top