19 de fevereiro de 2017

Henri Matisse

Henri Matisse.jpg

18 de fevereiro de 2017

Luz de segurança

Esse brilho para lá da nossa janela não é uma estrela caída.
É a própria frivolidade. É o medo da noite
que fervilha num vizinho, pesadelo de criança teimosa.

Sonhei que perseguia corvos num negrume de névoa marítima
e vento nenhum, com o cheiro gélido da barrilheira e das coisas cambiantes,
ciente de que a orla do mar e a areia se cruzavam na morada dos peixes.

Vi as águas a desenrolarem-se ao encontro da água
que chegava, os pequenos caranguejos levantados das patas.
Vi o lugar de encontro dos corvos-marinhos, as falésias

de ninhos defendidos das quais espiavam águias como reis saciados,
despertas, despertas para a ampulheta movediça do mar
onde tudo se dissolve, onde a própria terra é derrubada.

David Mason, trad. Vasco Gato

17 de fevereiro de 2017

Lugar de ausência

O profundo silêncio das flores
é um lugar de ausência. Vazia moldura
para o vôo das aves, linha oscilante
de ligeira névoa
que nada revela do que talvez esconda.

Egito Gonçalves

Eliza H. Trotter

Lady_Caroline_Lamb_by_Eliza_H._Trotter.jpg

Caminho

Caminho e atrás de mim caminham as estrelas
até seu próximo amanhã
o segredo, a morte, o que nasce, o cansaço
amortecem meus passos, avivam meu sangue.
Não iniciei a trilha, ainda
não vejo nenhum jazigo
caminho até mim mesmo, até
meu próximo amanhã
caminho e atrás de mim caminham as estrelas

Adonis, trad. Michel Sleiman

16 de fevereiro de 2017

Um amor levitante

Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

Herberto Hélder

15 de fevereiro de 2017

Marc Chagall

marc chagall.jpg

Porque vivo assim

e que me rio eu?... Eu rio horas e horas
só para me esquecer, para me não sentir.
Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras;
passo a vida febril inquietantemente a rir.

Eu rio porque tenho medo, um terror vago
de me sentir a sós e de me interrogar;
rio pra não ouvir a voz do mar pressago
nem a das coisas mudas a chorar.

Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim
o mistério de tudo o que me cerca
e a dor de não saber porque vivo assim.

António Patrício

14 de fevereiro de 2017

Sir Thomas Lawrence

Lady Caroline Lamb painted by Sir Thomas Lawrence.jpg

Alguns poemas

Passei horas e horas a escrever-te, assim começou com o dia.

Como bem sabes, sempre quis ser franco contigo, o mais possível

(evitei-te em cada pequena grande traição).

Mas hoje quis dizer-te tudo, sem rasuras e no melhor que sei dizer

(sim, é um exercício cansativo, a pedir vinho).

Segue, por tanto, esta carta; que é tua só tua.

 

Se a dividires em linhas, talvez lhe encontres forma de poemas

 

Rui A.

13 de fevereiro de 2017

Autor desconhecido

Julie_de_Montgenêt_de_St._Laurent.jpg

Julie de Montgenêt de St. Laurent

Saudade

A luz do meio-dia, transparente,
filtrava pelas paralelas bordas
da janela, e o contorno em fulgor das
frutas (ou da tua pele?) ardia quente.

Saudade é o que o torpor do sono sente
da ilha. Aquele céu (não te recordas?)
de ocaso que no opaco véu põe gordas
camadas cambiantes de poente,

um outro brilho tinha. Onde eu dormia,
numa casinha litorâea e pobre,
no ar a luz das lâmpadas de cobre

traçava lentamente espirais sobre
alva toalha, sombra em que se urdia
o teorema doutra geometria.


Severo Sarduy, trad. Glauco Mattoso

12 de fevereiro de 2017

Todo o viajante é solitário

Fui ver e era mesmo uma raposa
como a outra que atravessou a estrada
aguardando deitada na varanda
onde o gato capado dorme os dias
indiferente à vida libertária
em bocejos de carnes enlatadas.

Se a raposa chamava tinha de ir
dei ao gato a ração obrigatória
e a varanda era a selva a rua o mar
a raposa vermelha um autocarro
dos que não chegam nunca ou já passaram
e exigem sempre o pagamento exacto.

Donde parece que a moral da história
ficou suspensa entre raposa e gato
num protesto aos transportes colectivos
quando afinal a rua extravasou
a selva é sem regresso e sem saída
e todo o viajante é solitário.

Hélder Macedo

Quando a frase rosna

Passar a voz ao papel,
Ou do ladrar à rosácea,
Trova, é escrever. Estava
Ele, atónito, não vislumbrando
Como ia tanta palavra
Caber na rosácea.
Era óbvio que uma delas
Serviria de estaca,
E as restantes de rosas
No caule ainda por vir.
Quando a frase rosna,
Não há outro remédio.

Maria Gabriela LLansol

11 de fevereiro de 2017

Arthur Streeton

arthur Streeton.jpg

O que os cavalos vêem à noite

Uma vez instaladas as aves diurnas
no ranger das suas árvores,
as portas da floresta abrem-se
à deriva fugitiva
dos veados
entre os báculos luminosos
de novos fetos
e as estrelas legíveis;
as raposas manam da terra;
uma coruja-do-mato
varre o extenso prado.
Numa socapa de luz fluvial,
o focinho da doninha
está já escorregadio de gema de ovo,
e as ilhas mínimas
da baía são pingos
de solda
sob um pára-quedas lunar.
O mar está a dormir ferrado,
num sonho entrecortado por uma síncope
em cada fôlego, não se deixando perturbar
por aquele ploft -- o primeiro
de uma folia de arenques, um cardume
a fender de prata
a pele negra e amortalhada do mar.
Por entre a chuva que principia, a lua
esgueira-se pelo céu arrastando
atrás de si farrapos de nuvens.
A raposa é um lampejo de fitas
vermelhas
na sombra branca da neve.
Os cavalos observam o mar que não
cessa de subir e de avançar
para a colina onde se encontram,
ouvem o arganaz
a chiar sob o amieiro,
os nossos filhos
a respirarem devagar nas suas camas.

Robin Robertson, trad. Vasco Gato

10 de fevereiro de 2017

A noite sobe

De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.

Eugénio de Andrade

Almada Negreiros

almada negreiros.jpg

09 de fevereiro de 2017

Rio de Nuvens

Eu venho do sonho e fujo da vida.
Errei no caminho para a paz prometida.
Só sei que me chama um canto do mar
E a nau dos sonhos no céu a varar.
Ó meu capitão da barca perdida
A errar entre o sonho e o engano da vida!

Natália Correia

fevereiro 2017

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