13 de outubro de 2019

Julia Tochilina

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agora que conto isto

Gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado os Pestíferos de Java
resolvi assim escrever-lhe cartas anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele fina
devia ter uma letra muito melhor que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita

Adília Lopes

10 de outubro de 2019

Gustave Buchet

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estás tão bonita hoje

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto

02 de outubro de 2019

Ode

Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa -
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

Ricardo Reis

01 de outubro de 2019

Gustave Buchet

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Ventos

O que traz o vento
repleto
recoberto
pela poeira
no estertor
do ocaso

o vento traduz
o tempo
rápido
em retrospectos
e revoltas

avança e retrocede
vidas escamoteadas
no corpo dolente contra a parede
onde os olhos se refletem

o sexo ligeiro como contados os versos
em recorrentes correntes: os olhos sentem
o cansaço e o corpo espera: venta.

Pedro Du Bois

30 de setembro de 2019

Gustave Buchet

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Talvez o ajustar de contas com deuses etruscos II

Faz tempo que não te escrevo, amigo meu, verdade seja dita que me tenho roubado de palavras e peito. Encostei a saudade e a falta que me fazes nalgum canto do meu vestuário. Ou talvez me tenha esquecido de ti, um poucochinho, e agora me fique bem dizer assim, a limpar e a abrir caminho. Estamos longe dos tempos de liceu (concordas, verdad?), na altura éramos mais estúpidos mas também mais potentes; e as zangas absolutas resolviam-se mais depressa, ou nunca se resolviam, o que dava no mesmo (o impasse foi um conceito posterior). Para lá de todas estas mazelas, espero que estejas bem, e que não leves a mal não me lembrar do teu nome, e nem sequer da tua alcunha, ó valha-me Deus.

Posto isso, achei mesmo que era importante falar-te agora; e tentarei ser o mais objectivo possível, de início, pois de facto não falamos há algum tempo. Dizem que esse é requisito de poder dizer «parece que o tempo não passa e seguimos nós». Ou seja, «lembro-me de ti, por onde andaste?». Sejamos, pois, objectivos - é o mínimo que merece agora o que (indelevelmente) nos une.

Rui A.

28 de setembro de 2019

Lotte Laserstein

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Talvez o ajustar de contas com deuses etruscos

Sempre fui ímpio, do melhor dos sonhos ao mínimo que lembro.
E nisso encontro alguns orgulhos que me salvam do desastre,
na análise da vida terrestre.

Houve sempre, desde o Secundário,
assomos meio rebeldes, quase heróicos
(dedo médio ao alto e virado ao quadro);
e o ajustar de contas com deuses etruscos
ou outros, para lá do calibre e conhecimentos.
Eu era muito inteligente, e estou certo de que também o eras,
nomeadamente por saberes disso.

Passada essa idade de algum modo heróica
chegou a licenciatura, e suponho que também tu tenhas
aumentado qualificações
(que gaita, não me lembrar agora do teu nome).

Deves lembrar-te do Diniz, aquele das fintas maradas.
Era lixado para a porrada, e todos queríamos
que não desgostasse de nós.
Contra os prognósticos da altura,
as coisas não lhe correram especialmente bem,
e a traição da Rosa, que o trocou por ninguém
(suprema humilhação)
não deve ter ajudado.

Lembro-me de tudo e mais alguma coisa, amigo meu,
nestas coisas pequeninas se vê
como foram especiais os tempos que vivemos
com nosotros.

Passaram alguns anos, e é evidente
que a civilização ocidental vai entre a dor de dentes e a fome em África.

É cada vez mais difícil falar disso,
mas falar disso é falar de nós, amigo meu.

E que saudades tinha eu,
de falar contigo.

Rui A.

25 de setembro de 2019

Não sei

Não sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intemida em que me esqueces.

Não sei, amor, se as lavas do vulcão
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ou coração
de tudo e de ti mesma. Não que sintas

outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,

o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes.

Pedro Tamen

Anna Bilinska

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24 de setembro de 2019

Maré vasa

Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa

Sophia de Mello Breyner Andresen

23 de setembro de 2019

Equinócio de Outono

O equinócio de outono em 2019 verifica-se em Portugal a 23 de setembro, exatamente às 08:50. Esta é a hora oficial para o início do outono.

O equinócio de outono é a designação que a Astronomia atribui ao fenómeno natural que assinala o final do verão e a chegada da nova estação. É o instante preciso em que o Sol cruza o plano do equador celeste, o que decorre em setembro no hemisfério norte e em março no hemisfério sul.

O termo latim "equinócio", composto pelas palavras aequus e nox, significa "igual" e "noite". Aplica-se a este momento, pois durante os equinócios os dias e as noites, com aproximadamente 12 horas, têm a mesma duração.

equinócio de outono

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