04 de agosto de 2021

James Cowie

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A Paixão

Saímos do amor
como de uma catástrofe aérea
Havíamos perdido a roupa
os papéis
a mim faltava-me um dente
e a ti a noção do tempo
Era um ano longo como um século
ou um século curto como um dia?
Pelos móveis
pela casa
desperdícios quebrados:
copos, fotos, livros desfolhados
Éramos os sobreviventes
de um derrube
de um vulcão
das águas arrebatadas
e despedimo-nos com a vaga sensação
de haver sobrevivido
embora não soubéssemos para quê.

Cristina Peri Rossi

03 de agosto de 2021

Amigo, a que Vieste?

Onde foste ao bater das quatro horas
e, antes, quem eras tu, se eras?
Amigo ou inimigo, posso falar-te agora
sentado à minha frente e com os ombros
vergados ao peso da caneta?
Falo-te sobre a cabeça baixa
e vejo para além de ti, no horizonte,
teus riscos e passadas;
mas não sei onde foste, nem se eras.
Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva,
fazendo gestos largos ou só um leve aceno;
dizes palavras antigas,
de antes das quatro horas,
e nada sei de ti que tu me digas
dessa cabeça surda.
Não te pergunto pela verdade,
que pensas de amanhã ou se já leste Goethe;
sequer se amaste ou amas
misteriosamente
uma mulher, um peixe, uma papoila.
Não quero essa mudez de condolências
a mim, a ti, ou só à terra
que tu e eu pisamos -- e comemos.
Pergunto simplesmente se tu eras,
quem eras, e onde foste
depois que se fizeram quatro horas.
Será que não tens olhos? Não tos vejo.
De longe em longe
agitas a cabeça, mas talvez seja engano.
Palavra, não te entendo.
Amigo, a que vieste?

Pedro Tamen

02 de agosto de 2021

Pedro Chorão

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As palavras não chegam

A corrupta luz da infância
ilumina o rosto de um
desconhecido, o meu rosto,
e olha-o com olhos cegos.
Eu sou apenas
esta voz de alguém,
esta música que não vem de
nenhum sítio, ouvindo-se a si mesma.
As palavras não chegam
para levar-me onde, fora
da infância, está alguma coisa:
isto que quer falar
e vê e é visto.
Não estou aqui, sonho
(eu, também um sonho)
fora de mim comigo.
Como me ouvirei?
Como me reconhecerei?
Poderei suportar o meu olhar
quando me vir, confundir-me nele?

Manuel António Pina

01 de agosto de 2021

Anna Bilinska-Bohdanowicz

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Não vou a tempo

Não vou a tempo, sabes, de saber.
Saio tão cedo que não cheiro a flor.
Não vou a tempo já de amanhecer
e de saltar à vista a toda a cor.
O que faltou faltou, e me faltou.
Nem contas há que faça ou que me façam.
No fui - agora tal e qual igual ao sou -
tu e o resto restam, porém passam.
E limiar não há. Ou há sem que
mudança seja nó a esclarecer.
Não corro, corre a brisa que vem de
onde não sei. Ou vento. Ou a mulher
que és não és. Ou condição sem se.
Não vou a tempo, sabes, de saber.

Pedro Tamen

31 de julho de 2021

Devagar te amo

Devagar te amo, e devagar assomo
os dedos à altura dos olhos, do cabelo
dos anéis de outro turno, que é só meu
por querê-lo, meu amor, como a ti mesma quero
nos tempos de passado e sem futuro.
Devagar avanço um dealbar de dias
que vida seriam - mesmo que morto, à noite,
eu voltasse amargurado mas presente,
calado e quedo, e devagar amando.

Pedro Tamen

Anna Bilinska-Bohdanowicz

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A arte de viver

A felicidade e a liberdade começam com a clara compreensão de um princípio: algumas coisas estão sob o nosso controlo e outras não estão.

Epicteto

30 de julho de 2021

Escrito de Memória

Amar-te é vir de longe,
descer o rio verde atrás de ti,
abrir os braços longos desde os sete
anos sob a latada ao pé do largo,
guardar o cheiro a figos vistos lá,
a olho nu, ao pé, ao pé de ti,
parar a beber água numa fonte,
um acaso perdido no caminho
onde os vimes me roçam a memória
e te anunciam mãos e te perfazem;
como se o sino à hora de tocar
já fosse o tempo todo badalado,
e a tua boca se abrisse atrás do tojo,
e abaixo dos calções as pernas nuas
se rasgassem só para o pequeno sangue,
tal o pequeno preço que me pedes.
Atrás da curva estavas, és, serias,
nos muros de granito, nas amoras.
Amar-te era lembrança e profecias,
uma porta já feita para abrir,
e encontrar o lar ou música lavada
onde, se nasces, vives, duras, moras
-- meu nome exacto e pão
no chão das alegrias.

Pedro Tamen

James Cowie

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Daniel na Cova dos Leões

Não tenho para ti quotidiano
mais que a polpa seca ou vento grosso,
ter existido e existir ainda,
querer a mais a mola que tu sejas,
saber que te conheço e vai chegar
a mão rasa de lona para amar.
Não tenho braço livre mais que olhar
para ele, e o que faz que tu não queiras.
Tenho um tremido leito em vala aberta,
olhos maduros, cartas e certezas.
Neste comboio longo, surdo e quente,
vou lá ao fundo, marco o Ocupado.
Penso em ti, meu amor, em qualquer lado.
Batem-me à porta e digo que está gente.

Pedro Tamen

29 de julho de 2021

Anna Bilinska-Bohdanowicz

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Mau, muito mau

Quem vive para o amor está lixado
não tarda, que o amor é um amplo espaço
vazio sem cor nem forma e um silêncio
tumular por perto. Mau, muito mau
para se levar alguém. Mas tu vieste
e de imediato tudo fora já decidido
como quando alguém nasce e olha em torno
- pouco importa se estranha ou não a paisagem.
Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos
a nós, um ao outro por natural companhia
era o amor, tudo indicava. Podia-se morrer
disso. E tínhamos o tempo todo para ver.

Rui Caeiro

agosto 2021

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