06 de dezembro de 2019

Kobayashi

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À Espera dos Bárbaros

O que esperamos nós em multidão no Forum?

Os Bárbaros, que chegam hoje.

Dentro do Senado, porque tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

Porque, sùbitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.

Konstantínos Kaváfis

02 de dezembro de 2019

Florine Stettheimer

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01 de dezembro de 2019

Segredos

após a sedução
degreda o segredo
em palavras
que não deviam ser ditas
desditas
dizem os anjos
sobrevoando os destroços

a reconstrução se faz lenta
alenta
o tanto perdido
em novas paredes
metálicas
onde os sons
permanecem calados

Pedro Du Bois

27 de novembro de 2019

Florine Stettheimer

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meu amargo rio

Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?
Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.
Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.

Carlos de Oliveira

22 de novembro de 2019

Para ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto

Florine Stettheimer

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20 de novembro de 2019

If _

If you can keep your head when all about you   
    Are losing theirs and blaming it on you,   
If you can trust yourself when all men doubt you,
    But make allowance for their doubting too;   
If you can wait and not be tired by waiting,
    Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
    And yet don't look too good, nor talk too wise:
If you can dream--and not make dreams your master;   
    If you can think--and not make thoughts your aim;   
If you can meet with Triumph and Disaster
    And treat those two impostors just the same;   
If you can bear to hear the truth you've spoken
    Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
    And stoop and build 'em up with worn-out tools:
If you can make one heap of all your winnings
    And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
    And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
    To serve your turn long after they are gone,   
And so hold on when there is nothing in you
    Except the Will which says to them: 'Hold on!'
If you can talk with crowds and keep your virtue,   
    Or walk with Kings--nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
    If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
    With sixty seconds' worth of distance run,   
Yours is the Earth and everything that's in it,   

    And--which is more--you'll be a Man, my son!

Rudyard Kipling

19 de novembro de 2019

Hamlet

If it be

now, 'tis not to come; if it be not to come, it will be

now; if it be not now, yet it will come. The 

readiness is all.

W.S.

18 de novembro de 2019

as flores de hopper

felizmente não te posso ver
se o teu rosto caísse sobre o mundo
teria a futilidade das flores
seria o campo de camélias e o dilúvio

é melhor imaginar-te assim terrível
espantando as aves nos Aliados
assustando os bêbados que descem o Carvalhido
com a serpente revolvendo no intestino

é sempre melhor imaginar que és tu que os aterras
que eles cambaleiam pelas ruas
porque juram que te entreviram
entre os urinóis do café

é sempre melhor não te ver
porque só a tua voz
transparente como os tigres de Borges
nos pode dilacerar de tanta beleza

Bruno M. Silva

17 de novembro de 2019

é já longe de onde me falas

nada nos dirá
que foi daqui que vimos o mundo
ou aprendemos a dor de subir
a última manhã feita
sobre os nossos cabelos

o que disserem de nós estará certo
e será como uma luz junto aos olhos
para o lugar de onde me falas

e no entanto nada nos espera

apenas
o amor feito na escuridão das tendas
o lamber das borras do vinho
e uma garganta que se doira
ao despedir-se de ti

Bruno M. Silva

16 de novembro de 2019

Walter Richard Sickert

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Quase

Se as mãos pudessem (as tuas,
as minhas) rasgar o nevoeiro,
entrar na luz a prumo.
Se a voz viesse. Não uma qualquer:
a tua, e na manhã voasse.
E de júbilo cantasse.
Com as tuas mãos, e as minhas,
pudesse entrar no azul, qualquer
azul: o do mar,
o do céu, o da rasteirinha canção
de água corrente. E com elas subisse.
(A ave, as mãos, a voz.)
E fossem chama. Quase.

Eugénio de Andrade

14 de novembro de 2019

Walter Richard Sickert

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