24 de janeiro de 2021

O ausente

Alguém se atrasou a voltar para casa.
A lâmpada deixada acesa na janela
Arde enquanto o dia irrompe,
e vai arder durante meses.

À noite, a nossa pequena rua é escura.
As gaiolas cedo são cobertas.
Os peixes mal se mexem em seus jarros.
Mesmo as luzes da varanda são desligadas

Deixando apenas aquela janela acesa
Para as mariposas prestarem homenagem
Até que o tempo fique frio
E os telhados, brancos de neve.

Charles Simic

Helena Almeida

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não faças caso

Quando conheces alguém
mais inteligente ou mais estúpido do que tu -
não faças caso disso.
As formigas e os deuses,
acredita, sentem o mesmo.
Que exista mais gente na China,
digamos, que em San Marino,
não é uma desgraça.
A maioria das pessoas, sem dúvida, é
mais negra ou mais branca que tu.
Por vezes és um gigante,
qual Gulliver, ou um anão.
Em algum lugar ou outro estás sempre a descobrir
uma beleza ainda mais radiante,
alguém ainda pior.
És medíocre,
felizmente. Aceita-o!
Sete graus centígrados a mais
ou a menos no termómetro -
e estarias além da salvação.

Hans Magnus Enzensberger

23 de janeiro de 2021

Robert Frank

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Porquê este medo?

Prisioneiros
culpados ou não
parecem sempre iguais quando são libertados -
patriarcas destronados.

Este acabou de passar cabisbaixo
pelo portão, apesar de não ser alto
seus gestos como os de um Beduíno
entrando na tenda
transportando às costas o dia inteiro.

Cortinas de algodão, paredes de pedra, o cheiro a cal queimada
levam-no de volta para o momento
em que a guerra fria terminou.

No outro dia, o seu lençol foi pendurado no pátio
como se a ostentar a mancha de sangue
depois da noite de núpcias.

Rostos manchados pelo sol
cercam-no, todos olhos e ouvidos:
"Com o que é que sonhaste a noite passada?"
Os sonhos de um prisioneiro
são pergaminhos
feitos sagrados pelas passagens em falta.

Sua irmã ainda está a descobrir os seus estranhos hábitos:
pedaços de pão escondidos nos bolsos, e sob a cama
o implacável corte da madeira para o inverno.

Porquê este medo?
O que pode ser pior do que a vida na prisão?

Ter escolhas
mas ser incapaz de escolher.

Luljeta Lleshanaku

22 de janeiro de 2021

Dee Nickerson

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no princípio

Quando pela primeira vez olhei uma pintura verdadeira
dei alguns passos atrás instintivamente
sobre os calcanhares
procurando o local exacto de
onde pudesse explorar sua profundidade.

Foi diferente com as pessoas:
Construi-as,
amei-as, mas não cheguei a amá-las plenamente.
Nenhuma chegou tão alto quanto o tecto azul.
Como numa casa inacabada, parecia haver uma folha de plástico por cima delas,
em vez do telhado
no princípio do outono chuvoso da minha compreensão.

Luljeta Lleshanaku

21 de janeiro de 2021

Jack Vettriano

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Mensagem numa garrafa

Quando umas páginas nos comovem, a primeira pessoa a quem falaremos sobre elas será um ente querido. Ao oferecer um romance ou um livro de poemas a alguém com quem nos preocupamos, sabemos que a sua opinião sobre o texto se refletirá em nós. Se um amigo, uma amada ou um amante coloca um livro nas nossas mãos, rastreamos os seus gostos e as suas ideias no texto, sentimo-nos intrigados ou visados pelas linhas sublinhadas, iniciamos uma conversa pessoal com as palavras escritas abrimo-nos com maior intensidade ao seu mistério. Procuramos no seu oceano de letras uma mensagem numa garrafa para nós.

Irene Vallejo, in O Infinito num Junco, trad. Rita Custódio e Àlex Tarradellas

20 de janeiro de 2021

Dee Nickerson

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Suspenso no ar

Arlequim mete
no bolso das calças a bolsa de Pierrot.
Pierrot, portanto perdeu a bolsa.
Dómino, o cão de Pierrot, caça perdizes
ao luar.

Pulcinella e Colombina convidam Pierrot a jantar.
Pierrot está desolado.
Com um salto, Dómino aparece no meio da mesa
com as calças de Arlequim.
Já podem imaginar a alegria de Pierrot!
Na manhã seguinte devolvem as calças a Arlequim e brincam
à saúde de Dómino.

Por trás
uma armação ou bastidor percorre de cima
a baixo este poema.
A teia tem um punho na sua parte inferior.
Levantai-a um pouco e o poema ficará
suspenso no ar.

Joan Brossa, trad. Egito Gonçalves

19 de janeiro de 2021

Camille Corot

Camille Corot.jpg

Feliz o homem

Árvore plantada
à beira das correntes.
Fruto na estação própria.
Folhagem que não murcha.
Feliz o homem
que tudo quanto faz em bem se torna.

Mário Castrim (via Zeferino Silva)

18 de janeiro de 2021

Dee Nickerson

Dee Nickerson9.jpg

Traseiras

Abro a porta, entro na varanda. Noite.
Nos quintais vestígios de pombos. Neve
que jaz ao acaso. Um gato sob um arbusto
sacode o pêlo, embosca uma sombra.

A lua descansa sobre um telhado. Cortada por vozes
que cantam. Al Jazeera.
Roupa enregelada pendurada num silêncio de morte.
A camada branca ocupa tudo sem vergonha, faz amizade

com ombreiras pálidas, grades de varandas, antenas parabólicas.
Também eu pertenço aqui. Sozinha. Porém,
rodeada de gente e animais.
Porém e porém. Isto é tão inverno, tão noite
como uma noite de inverno. Aspiro. Cheiro. Lixo.
Humidade. Cozinha. Pêlo de gato.

Jannah Loontjes, trad. Maria Leonor Raven-Gomes

janeiro 2021

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