28 de setembro de 2021

Talvez

Aguardo calmamente agora
que a catástrofe da minha personalidade
pareça outra vez bela,
e interessante, e moderna.
O campo é cinzento e
castanho e branco em árvores,
neves e céus de um riso
sempre a enfraquecer, menos engraçado
não apenas mais negro, não apenas cinzento.
É capaz de ser o dia mais frio
do ano, o que pensará ele
disso? Isto é, que pensarei eu? E, pensando,
talvez seja eu mesmo de novo.

Frank O'Hara, trad. Vasco Gato

27 de setembro de 2021

Se deste outono

Se deste outono uma folha,
apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,
e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente e tão avara
de alegria.

Eugénio de Andrade

Franz Marc

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26 de setembro de 2021

todo o verão

Dir-te-ia: o verão ainda
não findou. Vem
e colhe
a última
espiga. Porque
nela colhes
todo o verão.

Albano Martins

To be lucky

To be lucky, it's often essential to be open and alert to the unexpected.

Christian Busch

24 de setembro de 2021

o que fica do que passa

Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa --
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

Ricardo Reis

Franz Marc

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23 de setembro de 2021

Misteriosamente Feliz

Sonhava, quando era jovem, passear
perto do mar de Inverno com a amada.
Hoje, é ele o Inverno
e dentro de si leva a fria névoa.
Caminha sozinho e vê as raparigas
passeando sonhadoras sem o verem.
Costumamos pensar que o Inverno virá um dia
junto a uma chaminé, numa casa
de quartos com camas altas e janelas
de vidros embaciados em frente às vinhas.
Mas certa noite está frio, começa a chover
e a chuva nas ruas rasura as lâmpadas,
e vemos nos cafés, atrás dos vidros,
como os outros sorriem ao abrigo
da chuva, do frio e da noite.
E então entra, mas à sua mesa
acompanha-o o frio, não há ninguém
para lá do absurdo monólogo da chuva.
E pensa no sorriso
das mulheres que perdeu, alegre
de as ter amado. Entre as mesas
vê de novo as ruas na Primavera,
e as folhas dos plátanos e aqueles bares
com passeios de mármore à saída.
Murmura um nome, e uns olhos de rapariga
fitam-se em seus olhos, e nenhum dos dois
treme de frio ou sente a chuva.

Joan Margarit

22 de setembro de 2021

Franz Marc

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Equinócio de outono

O equinócio de outono em 2021 verifica-se em Portugal a 22 de setembro às 19h21. Este equinócio é a designação que a Astronomia atribui ao fenómeno natural que assinala o final do verão e a chegada da nova estação. É o instante preciso em que o Sol cruza o plano do equador celeste, o que decorre em setembro no hemisfério norte e em março no hemisfério sul. O termo latim "equinócio", composto pelas palavras aequus e nox, significa "igual" e "noite". Aplica-se a este momento, pois durante os equinócios os dias e as noites, com aproximadamente 12 horas, têm a mesma duração.

21 de setembro de 2021

A verdade da questão

Apesar de tudo o que se passa à nossa volta, estou empenhado no optimismo até ao fim. Não digo com Kant que o Bem será vitorioso num outro mundo. O Bem está a alcançar a vitória todos os dias. Pode até acontecer que o Mal seja mais fraco do que imaginamos. À nossa frente está uma prova indelével: se não fosse o facto de a vitória estar sempre do lado do Bem, hordas de humanos errantes não teriam sido capazes de crescer e multiplicar-se face a animais e insectos, catástrofes naturais, medo e egoísmo. Não teriam sido capazes de formar nações, de se destacar na criatividade e na invenção, de conquistar o espaço exterior, e de declarar os Direitos Humanos. A verdade da questão é que o Mal é um deboche barulhento e turbulento, e que o Homem se lembra do que dói mais do que o que agrada.

Naguib Mahfouz

o afloramento das águas

Escrevi o teu nome em todos os lugares
procurei-te sem fim nos dias mais incertos
tive sede de ti na solidão dos bares
e fome do teu corpo em todos os desertos.
Fui soldado e lutei em busca do teu rosto
que vi impresso a fogo em todas as esquinas.
Deixei que me queimasse a dor do sol de Agosto
e mergulhei sem medo em plagas submarinas.
Para te ter venci as longas avenidas
de todas as cidades que ninguém ousou.
E por ti viverei largos anos de vida
na ânsia de te dar tudo o que tenho e sou.

Torquato da Luz

Franz Marc

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20 de setembro de 2021

qualquer coisa de intermédio

Onde existo que não existo em mim?
Corro em volta de mim sem me encontrar...
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
Para mim é sempre ontem
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia
Sou estrela ébria que perdeu os céus
Morro à míngua, de excesso
Heráldico de mim,
Transponho liturgias...
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Mário de Sá-Carneiro

Franz Marc

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