Modus vivendi

"Werde der du bist."   Goethe

blogue de Ana Roque

10 de Agosto de 2022

Cavaleiros e caracóis



10 de Agosto de 2022

Em fogo lento

Enquanto o peixe grelha, descuidado:
o aroma dourado do incenso a romper
pela cozinha
Vem da mesa na sala, onde,
igual a vulcão, um cone colorido
sustenta a haste fina do incenso
E eu fazendo de mago,
de Menina, de Mãe e de pastor,
tudo em mesma figura
no fervor da cozinha
Em fogo lento, cumpre-se a Palavra
e uma batata só
(falta-me a mirra e o ouro)
Mas vede como, esquivo,
o peixe se queimou,
e o verso em combustão
ficou desfeito!
Ah saber acender um cenário perfeito:
além de incenso, a outra especiaria,
algum tesouro, a erupção dourada,
o preclaro milagre
de um novo peixe,
aqui
E não este puré
sem cântico nem luzes nem noites estreladas:
matéria em que a batata, esquecida,
se tornou

Ana Luísa Amaral


9 de Agosto de 2022

Como Chamar um Gato

Que há vários Gatos já aqui leste,
E agora o eu parecer é este
Não é preciso um tradutor
Pra entender o seu humor.
Já sabes muito e mais que uns pós:
Os Gatos são iguais a nós
E a outros tantos e diferentes
De muitos tipos, muitas mentes.
Pois um é louco e outro é são
E outro é bom e outro não
E um melhor, e um perverso –
Mas qualquer gato cabe em verso.
Em jogo ou em trabalho os viste,
O nome próprio até ouviste
Seus hábitos, seu habitat:
O ponto:
Como chamar um Gato?
E não esquecer esta lição:
UM GATO NÃO É UM CÃO.
Um Cão não luta apenas finge;
Um Cão que ladra não atinge;
Contudo um Cão é, no geral,
Algo simplório e normal.
À excepção do Pequinês
E do canino rafeirês.
O Cão local de toda a parte
É um truão por sua arte,
Não tem orgulho, o Cão, nenhum,
E é tratado abaixo de um.
É fácil ser levado, o tonto –
Uns mimos sobre o queixo e pronto,
Um dá cá a patinha dá,
E pula e põe-se a rir, já está.
O lorpa a qualquer um se entrega,
Responde a deita, a senta, a pega.
É bom lembrá-lo, e isto é exacto:
Um Cão é um Cão – UM GATO É UM GATO.
Com Gatos, diz-se, a regra vale:
Não fales antes que te fale.
Eu não concordo co’o ditado –
Um Gato pode ser chamado.
Mas tem em vista uma verdade:
Que não lhe apraz intimidade.
Eu tiro-lhe o chapéu, cordato,
E chamo o Gato assim: Ó GATO!
Mas se ele for da porta ao lado
Um gato visto no passado
(Vem visitar-me ao meu recato)
Saúdo-o com um EI! UM GATO!
Ouvi chamar um James Buz-James –
Mas não o chames, não te queimes.
Um Gato só te chama amigo
E só te deixa estar consigo
Provando tu quão bem o tratas,
Se lhe mostrares um pires de natas;
E torta de Estrasburgo, até,
Não fica mal, caviar, paté
De Ganso, um bom salmão em pasta –
Tem gosto, bacalhau não basta.
(Conheço um com gosto velho,
À refeição só quer coelho
E, satisfeito, as patas cola
Só pelo molho da cebola.)
Um Gato leva muito a peito
E exige mostras de respeito.
E com o tempo chegas lá,
E pelo NOME ele vem cá.
É este o trato do contrato:
Assim, tal qual, SE CHAMA UM GATO.

T.S. Eliot, trad. Daniel Jonas


9 de Agosto de 2022

Lotte Laserstein



8 de Agosto de 2022

Quatro quartetos

O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstração
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.
Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisíveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, refletidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente, contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.

- T. S. Eliot, trad. Maria Amélia Neto


7 de Agosto de 2022

Eterno é este instante

Eterno é este instante, o dia claro,
as cores das casas desenhadas em aguada rasa, castanhos e vermelhos quase em declive,
as janelas limpíssimas, de vidros muito honestos. Este instante que foi e já não é, mal pousei a caneta no papel: eterno
Sonhei contigo, acordei a pensar
que ainda eras, como é esta janela,
como o corpo obedece a este vento quente, e é ágil, mas tudo: tão confuso como são os sonhos
Agora, neste instante, recordo a sensação
de estares, o toque.
Não distingo os contornos do meu sonho, não sei se era uma casa, ou um pedaço de ar.
A memória limpíssima é de ti
e cobriu tudo, e trouxe azul e sol a esta praça onde me sento, organizada a esquadro,
como as casas
E agora, o teu andar
acabou de passar mesmo ao meu lado, igual,
e agora multiplica-se nas mesas e cadeiras
que cobrem rua e praça,
e eu vejo-te no vidro à minha frente,
mais real que este instante, e se Bruegel te visse, pintava-te, exactíssima e aqui.
E serias: mais perto de um eterno
(Eu, que nada mais sei, só o fulgor do breve, eu dava-te palavras –)

Ana Luísa Amaral


7 de Agosto de 2022

Para Ana Luísa Amaral

Acho que ficámos a meio
de uma frase, o telefone tocou
de repente, em surdina a voz
da tua filha — que surge em tantos
poemas, com tigelas, ora partidas
ora coladas, e “avessos de poema,
em fractura fluida” — a voz da filha
uma súbita flor de luz aberta no meio
da sala, por isso a frase ali suspensa,
entre parêntesis aquele fio de uma
conversa sem início nem fim, pela
janela aberta o rugido do mar de Leça,
junto a nós o miado das gatas, a cadela
com nome de poeta — Mily, como a tua
Emily Dickinson — a pousar sua cabeça
num joelho, “onde é que íamos?”, onde
é que vamos agora?, passaram os anos,
ah, o tempo, esse alçapão aberto numa
sala às escuras, o pé em falso e já só
nos vemos noutra década, mas algo
me prende àquela tarde incompleta,
ao diálogo interrompido, à ideia
que se esboroou com o toque
do telemóvel, custa-me agora
não saber a natureza dessa frase
deixada a meio, a sua textura,
se era feita de matéria fulgurante
ou só da poeira que cobre as coisas
banais, se calhar fizeste dela um verso,
se calhar acabou por chegar a mim por
outras vias, se calhar perdeu-se nesse
limbo cruel das coisas pensadas
que nunca chegam a ser ditas,
cintilações na água, ao crepúsculo,
logo apagadas pelo breu da noite,
e agora só esta tristeza de imaginar
o silêncio coagulado na tua casa,
ao longe o rugido do mar de Leça,
uma aragem que agita as folhas
das plantas, acaricia as lombadas
dos livros, toca os teus objectos,
tenta em vão abrir portas e gavetas,
à procura dessas palavras esquivas,
fugidias, perdidas para sempre.

José Mário Silva


7 de Agosto de 2022

Edmund Dulac



6 de Agosto de 2022

Nú: Estudo em Comoção

Em que meditas tu
quando olhas para mim dessa maneira, deitada no sofá
diagonal ao espaço onde me sento, fingindo eu não te olhar?
Em que pensa o teu corpo elástico, alongado,
pronto a vir ter comigo
se eu pedir?
As orelhas contidas em recanto,
as patas recuadas,
o que atravessa agora o branco dos teus olhos: lua em quarto-crescente,
um prado claro?
E quando dormes, como noutras horas, que sonhos te viajam:
a mãe, a caça, a mão macia, o salto muito perfeito
e alto, muito esguio?
Onde: a noite sem frio que nos abrigará
um dia
e que há-de ser
(só pode ser)
igual?

Ana Luísa Amaral


6 de Agosto de 2022

Não falo de palavras

Não falo de palavras, nem de goivos,
mas de horas atadas ao pescoço.
Poema verdadeiro é sermos noivos:
saber tirar a pele e o caroço
ao grito entre a morte e outra morte
que nos mantenha lassos e despertos
até que venha o talhe que nos corte
e nos retire os poços e desertos.
Por isso, meu amor, o que te dou,
beijo beijado em corpo claro e vivo,
é mais que o verso que te dizem, ou
aliterante, agudo ou conjuntivo.
Colado a tudo, mesmo a contragosto,
o rio inventa o verso, e não assim
como se ao espelho visse o próprio rosto,
mas tu além-palavra, ao pé de mim.

Pedro Tamen


5 de Agosto de 2022

Christen Dalsgaard



5 de Agosto de 2022

Matar a sede com água salgada

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga


5 de Agosto de 2022

Perseguição

Nunca estive tão perto da verdade.
Sinto-a contra mim,
Sei que vou com ela.
Tantas vezes falei negando sempre,
esgotando todas as negações possíveis,
conduzindo-as ao cerco da verdade,
que hoje, côncavo tão côncavo,
sou inteiramente liso interiormente,
sou um aquário dos mares,
sou apenas um balão cheio dessa verdade do mundo.
Sei que vou com ela,
sinto-a contra mim, -
nunca estive tão perto da verdade.

Jorge de Sena


4 de Agosto de 2022

Robert Doisneau