23 de janeiro de 2017

Lou Dahua

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Passado

Escavamos destroços
retiramos camadas
terras e terras
sobre séculos

na busca das respostas
que não existem: (pois)
apenas crescemos
pouco a pouco nas gerações
que nos sucederam

assim
como música e vento
e árvores

escavamos trajetos
felizes em nos descobrirmos
menores e meninos.

Pedro Du Bois

22 de janeiro de 2017

Hammershøi

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Aurora

A poesia não é voz -- é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro.

Adolfo Casais Monteiro

20 de janeiro de 2017

Dizer do mar

Vamos supor que pode haver uma ternura inédita,
acreditar que há dias novos no sempre
e após as vésperas.

Vamos supor que é fácil falar de amor e lutas,
que ir longe nem sempre é longe demais.

Vamos supor que o próximo não faz o longe,
por muito que não usemos de escadas e barcos
e saibamos escolher a opção mais certa.

Entendes-me tão bem:
não te quero um frio que moleste,
um calor que arrefeça.

É teu, este reino, vamos supor
que não destruímos o mar.

Que a paz esteja contigo, sempre.

Insuportável, não te inquietar.

Sir Thomas Berard

19 de janeiro de 2017

Germaine Greer, por Lord Snowdon

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Chamarás luz

Chamarás luz
à diluição da claridade
e pressa ao modo demorado
como as coisas superam
a luxúria de serem tidas
usarás a decência de calar os dedos
diante do fruto ácido
que não tolera comércio
que só pode ser mastigado
pela saliva dos deserdados

abrirás uma estrada
cuja matéria seja a espuma
das tuas perdas
essa especiaria que ninguém
pode contrabandear
para outro trópico
darás vida a uma nação
unicamente dedicada
ao seu desmentido

e não aproveitarás
a violência da noite
para fazer do sangue
um detergente de ruas
camas ou garfos
mas escreverás
ao fundo da treva
um versículo de mãos abertas
ao corpo sideral que cai
em busca da tua exacta
temperatura

Vasco Gato

17 de janeiro de 2017

Iris Murdoch, por Lord Snowdon

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Na história do nosso amor

Na história do nosso amor há sempre um que é
Uma tribo nómada, outro uma nação no seu próprio solo.
Quando trocámos de lugares, foi o fim.

O tempo passará por nós, como o desfilar
Das paisagens atrás de actores parados nas suas marcações
Quando se faz um filme. Até as palavras
Passarão pelos nossos lábios, até as lágrimas
Passarão pelos nossos olhos. O tempo passará
Por todos nos seus lugares.

E, na geografia do resto das nossas vidas,
Quem irá ser uma ilha e quem irá ser uma península
Há-de ficar evidente para cada um de nós no resto das nossas vidas
Nas noites de amor com outros.

Yehuda Amichai, versão de Vasco Gato

16 de janeiro de 2017

Hammershøi

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Minha vida

Minha vida, não te peço feições
estáveis, rostos plausíveis ou posses.
No teu decurso inquieto têm já
o mesmo sabor o mel e o absinto.

O coração que todo o movimento despreza
é raramente sacudido por sobressaltos.
Tal como por vezes soa no silêncio
do campo um tiro de espingarda.

Eugenio Montale, trad. Vasco Gato

15 de janeiro de 2017

Hammershøi

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Nada me valerá

Como a marca dos nossos corpos
Nenhum sinal restará da nossa presença neste lugar.
O mundo fecha-se atrás de nós,
A areia alisa-se.

Já se deixam ver as datas
Em que não existirás,
Um vento sopra já nuvens
Que não choverão sobre nós os dois.

E o teu nome consta já das listas de passageiros de navios,
E dos registos de hotéis,
Cujos nomes só por si
Amortecem o coração.

As três línguas que sei,
Todas as cores com que vejo e sonho:

Nada me valerá.

Yehuda Amichai, versão de Vasco Gato

14 de janeiro de 2017

Lou Dahua

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Despedida

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

Mia Couto

13 de janeiro de 2017

Um homem não tem tempo

Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.
Não tem estações que cheguem para ter
uma estação para cada fim. O Eclesiastes
enganou-se a esse respeito.

Um homem precisa de amar e odiar ao mesmo tempo,
de rir e chorar com os mesmos olhos,
de atirar pedras e apanhá-las com as mesmas mãos,
de fazer amor na guerra e guerra no amor.
E de odiar e perdoar e recordar e esquecer,
de organizar e confundir, de comer e digerir
o que a história
demora anos e anos a fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra
esquece, quando esquece ama, quando ama
começa a esquecer.

E a sua alma é experimentada, a sua alma
é profissionalíssima.
Só o corpo se mantém para sempre
um amador. Que tenta e falha,
desnorteando-se, sem aprender nada,
ébrio e cego nos seus prazeres
e dores.

Morrerá como morrem os figos no Outono,
engelhado e repleto de si mesmo e doce,
com as folhas a ressequirem no chão,
os ramos nus a apontarem para o lugar
onde há tempo para tudo.

Yehuda Amichai, versão de Vasco Gato

janeiro 2017

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