16 de maio de 2012

A raiva passada a escrito

A raiva. Vou-vos contar desta raiva que sinto. Do seu sabor.

A raiva passada a escrito tem mais sabor. O sabor do alecrim que não provei ou de uma túlipa andina que escapa. Da escarpa que hei-de subir e que eu sei que está lá, incrédula, quase trocista.

A lamentável depreciação das coisas novas um dia e hoje velhas. A raiva.

A raiva passada a escrito apresenta-se bem, com uma dignidade imparável – a placidez de um ancião bem vivido quase se lhe equipara em garbo e compostura.

A raiva. Passada a escrito quase parece recato. Ou fonte.

Portanto, se fores à raiva, guarda-me um bilhete. Uma chávena.

Rui A.

resumo

Invadiu-me uma sensação de calma,
de tristeza e de fim.

virgínia woolf


Ao teu lado, mudo.
Suponho que pousei a mão
No teu ombro, não sei,
Ausentes, ambos,
Tu do ombro, eu da mão.
Lá fora, não muito longe
Do vidro, a manhã passa
E é calma, tristeza, fim.

nuno rocha morais

15 de maio de 2012

arrebatar o tempo

serás feliz e jovem mais que tudo
Pois se és jovem, a vida que vestires

há de tornar-se tu; e se és feliz,
tal qual deseja a vida assim serás.
Meninas (os) precisam de meninos (as)
e basta: posso amar somente aquela

cujo mistério é dar espaço à carne
e arrebatar o tempo à alma do homem

e quanto a cogitar se deus proíbe
e (em sua graça) puro amor se exclui:
pois nisso irão razão, tumba fetal
dita progresso, e injuízo final

digo que aprendo canto com um pássaro
mas não ensino a não dançar estrelas.

e.e. cummings, versão de Gil Pinheiro

14 de maio de 2012

Como uma flauta nas mãos de um piano

Bailando acima das águas e de todas as pratas
Eras assim uma espécie de deus, um príncipe urbano
Ramos saltaram de incontáveis dedos e
Na abertura das noites despontaram várias Áfricas
As pessoas finalmente calaram-se e
Rostos abriram-se ao passar de tão jovem flauta
Desenhos surgiram em paisagens extremas e
Os homens, alguns, coraram de prazer e
Simpáticas damas ficaram ainda mais simpáticas.
As crianças, essas, limitaram-se a adorar.
Sonhos romperam a faca dos dias
Sulcos rasgaram as costas dos mundos
E tudo como se nada passasse
Tudo como se um segundo fosse tudo
Tão grande de grande, esse ser sem tamanho
Irrompendo, sem tempo, pelas mãos de um piano

Rui A.

13 de maio de 2012

Algarve

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contraste colorido na praia da Falésia

Para não desesperar

O balouçar
da roupa sereníssima
no bairro das traseiras
recorda-me o engano
que ilumina em volta o mundo.
Não saltes tão de força, coração, mas também tu
oscila sereníssimo no tempo que ainda tens
para não desesperar

Carlos Poças Falcão

12 de maio de 2012

Raquel Forner

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vanidad

Gracias a la vida

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me dio dos luceros que, cuando los abro,
perfecto distingo lo negro del blanco,
y en el alto cielo su fondo estrellado,
y en las multitudes el hombre que yo amo.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado el oído que, en todo su ancho,
graba noche y día grillos y canarios,
martillos, turbinas, ladridos, chubascos,
y la voz tan tierna de mi bien amado.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado el sonido y el abecedario,
con él las palabras que pienso y declaro:
madre, amigo, hermano, y luz alumbrando
la ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la marcha de mis pies cansados;
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desiertos, montañas y llanos,
y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto.
Así yo distingo dicha de quebranto,
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto,
y el canto de todos, que es mi propio canto.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.

Violeta Parra

11 de maio de 2012

Aleatório

(gentileza de Amélia Pais)

é aleatório
o modo organizado das borboletas.
ergue(m)-se contra o senso
comum,
contra o tempo
- tal como o conhecemos -.
deslizam contra os nossos olhos
cegos ,
batem-nos na face,
- fascinação -
muito leves,
com seu segredo contido
entre cores, formas
e movimento das asas.

não sabemos como vão ou vêm.
nós, os ignorantes.

eternamente perguntamos.

Silvia Chueire

Raphael Soyer

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que o banho possa ser lustral

Formas do nada

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último —
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

Paulo Henriques Britto

10 de maio de 2012

Raquel Forner

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imagem clássica, retomada no século passado

Dizeres Ocultos

(gentileza de Violante Grilo)

Não há palavras exactas capazes de dizer o que levamos.
Não existem olhares que demonstram nossos múltiplos sonhos.
Existirão razões que justificam as nossas sofridas penas?

Não existem sinais que vêm de muito longe.
Não há argumentos que a lógica não traduz.
Subsistem vontades antigas em coisas novas.

Existem gestos que substituem palavras.
Existem palavras que nascem mudas.

Há vontades. Há gestos. Há palavras cada vez mais novas.
E ainda há dizeres ocultos no silêncio absoluto das horas.

Garcia Bires

À flor da voz

rapariga pintando caixilhos de janelas mãos de
tinta manchadas rápida ela emerge à flor
da voz com o vagar do gato mas numa
prudência tão ensaiada que em nada poderia
persuadir outra palavra dita mergulharia
entre as imagens cujas cores rápido se esquece

Tatiana Faia

09 de maio de 2012

Joanna Sierko

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sugestão para um dia assim

Em todos os naufrágios há um assim

Mal se percebe tanto desamparo
o corpo é triste e desalinho
Tábuas quebradas e escuras
Trincheiras naufragadas
Um frio lá dentro maior que um Inverno com sabor a permanente
Podias ser flor e marca registada
vereda rio baloiço
e estrada
Podias ser janela
ser portada
E esta mágoa sem nortada arrasa
(assim contada)
a impossível relva
despontada
As minhas mãos estão geladas
e não de vento
- não de tempestade.
Cuidado.

Rui A.

07 de maio de 2012

Johan Moreelse

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Madalena arrependida seiscentista

Mentiras

As das crianças, para não serem castigadas;
as dos apaixonados de uma noite
quando prometem um amor eterno;
as de quem tudo vende, corpo e alma,
para subir o preço desses bens;
as dos que inventam histórias inverosímeis
em busca de atenção;
as dos médicos, quando compreendem
que já não é possível;
as dos candidatos a eleições;
as dos melhores actores, tão perfeitas
que se tornam verdade;
as dos padres de todas as igrejas
anunciando a salvação;
as mais inofensivas ou as mais perversas;
as mais piedosas ou as mais cruéis;
as que todos descobrem num relance;
as que só se conseguem detectar
num momento feroz de lucidez;
as que apenas se dizem ao telefone
quando falta a coragem de um olhar;
as que começam por pedir desculpa
e geram outras cada vez maiores
até que uma só vida se transforme
em duas ou três vidas paralelas;
as que explodem de súbito, lavadas
pelas lágrimas de uma confissão;
as que perduram pela vida inteira
como um crime perfeito
e levamos connosco para o túmulo.

Sobre elas assenta desde sempre
o que chamamos mundo, o que chamamos
ainda humanidade.

Fernando Pinto do Amaral

maio 2012

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