24 de novembro de 2017

Peder Severin Krøyer

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22 de novembro de 2017

Procuro

Essa voz que deixei perder
já não me procura;

e nada será jamais
tão simples e singular
como aquela voz modulada
e firme na sua insegurança,
tão indefesa como estar vivo.

Porque falo nisto agora?
Desista de me ler
quem busca um fio coerente,
uma afirmação rotunda
e concisa. Não tenho loja
com essa mercadoria.

Nem com mais nenhuma.
Procuro apenas o som nítido de uma voz,
entre todas as coisas que deixei perder.
Procuro.

Luís Filipe Castro Mendes

Christian Beyer

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Ateei o fogo

Ateei o fogo
quebrei as portas de bronze
desfiz sinais nas pedras lisas
enlouqueci os adivinhos

minha língua tornou-se tão
estranha
que não se pode entender

as multidões vitoriosas
levantam em teu nome grinaldas
tamboris e danças
despojos de várias
cores

tomo o caminho por onde vieste
tropeçando como os que não
têm olhos

José Tolentino de Mendonça

Anna Ancher

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Hei-de ficar ao longe

Longe
Hei-de acabar por me sentir longe
Longe de tudo

Hei-de pertencer cada vez mais
Ao horizonte

Hei-de ficar ao longe

Barco
Conscientemente afastado
De si próprio

Alberto de Lacerda

21 de novembro de 2017

René Magritte

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Pensar em ti

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.

António Gedeão

20 de novembro de 2017

Paul Delvaux

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Já não há domingos

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.
E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.
Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.
Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.
Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?
Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.
Todas as mortes gastei
para viver contigo.

Mia Couto

17 de novembro de 2017

Mário Botas

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De um e outro lado

De um e outro lado do que sou, 
da luz e da obscuridade, 
do ouro e do pó, 
ouço pedirem-me que escolha; 
e deixe para trás a inquietação, 
a dor, 
um peso de não sei que ansiedade.

Mas levo comigo tudo 
o que recuso. Sinto 
colar-se-me às costas 
um resto de noite; 
e não sei voltar-me 
para a frente, onde 
amanhece.

Nuno Júdice

15 de novembro de 2017

Jean-Étienne Liotard

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A Noite Abre os Meus Olhos

Precisamos de uma estrela que desarme a noite
Precisamos de uma palavra transparente
que nos ofereça a possibilidade de um começo
Precisamos de uma esperança que se propague
Precisamos de lugares límpidos
fora e dentro de nós
Precisamos de reencontrar uma vida onde a prece
e o louvor voltem a ser possíveis
Precisamos de um gesto para dizer uma alegria
maior do que a alegria
Precisamos de acolher o dom
e o seu equilíbrio difícil e leve
Precisamos de alguém que em pleno inverno nos ensine
a trazer no coração a primavera a arder.

José Tolentino Mendonça

novembro 2017

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