24 de agosto de 2017

Tudo é silencioso

Tudo é silencioso
e a noite
é urgente o silêncio
é urgente ouvir os pássaros
ao longe
o que eles têm a dizer
com o seu voo
escutar as coisas simples
a respiração do mar
os ritmos da manhã
as pequenas rotinas
a senhora que compra o pão
a que vai para o trabalho e apanha o metro
a criança com a mochila que vai para a escola
o trânsito das cidades
o sol que sobe sobre os campos no verão
e que dá possibilidade às flores de florirem
é urgente escutar estar atento olhar
assistir com serenidade
aos ciclos à espontaneidade
ordenada da vida

 

Rui Esteves

23 de agosto de 2017

Peter Hurd

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A tarde

A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em rimos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.

Carlos de Oliveira

Salgados

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Estás longe

Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
Num autocarro, num café me pergunto
porque não falam o que vai
no seu silêncio aqueles cujo olhar
me fala da solidão.
Esqueço-me de mim. Tão quieto
pensando na sua pouca coragem, a minha
sempre adiada. Por um rosto
chegaria o teu rosto, mesmo de um convite
ousado fugiria, esta mão conhece-te
e desenha no ar o hábito
por que andou antes de saíres
do espaço à sua volta. Estás longe,
só assim podes pedir algumas horas
aos meus dias. Sem fixar a voz
a tua voz é uma corda, a minha
um fio a partir-se.

Hélder Moura Pereira

22 de agosto de 2017

do amor irreparável

Arde no lar o fogo antigo
do amor irreparável
e de súbito surge-me o teu rosto
entre chamas e pranto, vulnerável:

Como se os sonhos outra vez morressem
no lume da lembrança
e fosse dos teus olhos sem esperança
que as minhas lágrimas corressem.

Carlos de Oliveira

Andrew Wyeth

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Vê se percebes

Que voz lunar insinua
o que não pode ter voz?
Que rosto entorna na noite
todo o azul da manhã?
Que beijo de oiro procura
uns lábios de brisa e água?
Que branca mão devagar
quebra os ramos do silêncio?

Eugénio de Andrade

18 de agosto de 2017

da cor dos teus olhos

Já tive um carro da cor dos teus olhos. Deixava-o
estacionado à frente de prostíbulos onde alugava
quartos com vista sobre o quintal dos vizinhos.

Esperava por semáforos, sem saber que esperava
apenas por ti. No auto-rádio, a tua voz cantava
fados demasiado velhos até para a minha mãe.

A segunda circular era uma manifestação pacífica
de pára-brisas, as palavras de ordem eram simples
porque ainda não sabia que já me tinhas escolhido.

Quando os outros rapazes folheavam revistas de
carros nas aulas de matemática, eu apenas me
interessava por unicórnios e farmácias abandonadas.

Agora os meus olhos contam quilómetros nos teus,
procuro papéis entre os papéis do guarda-luvas e
tenho tanto medo que me vendas em segunda mão.

José Luís Peixoto

Um corpo que se ama

Para quem o deseja e quem o ama
um corpo é sempre belo no seu esplendor
e tudo nele é belo porque é sagrado
e, mesmo na mais plena posse, inviolável.

Um corpo que se ama é uma nascente viva
que de cada poro irrompe irreprimivel
e toda a sua violência é a energia ardente
que gerou o universo e a fantasia dos deuses.

Tudo num corpo que se ama é adorável
na integridade viva de um mistério
na evidência assombrosa da beleza
que se nos oferece inteiramente nua.

Não há visão mais lúcida do que a do desejo
e só para ela a nudez é sagrada
como uma torrente vertiginosa ou uma oferenda solar.
Esse olhar vê-o inteiro na perfeição terrestre.

António Ramos Rosa

17 de agosto de 2017

Andrew Wyeth

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eu não vivo por extenso

Mente o tempo:
a idade que tenho
só se mede por infinitos.

Pois eu não vivo por extenso.

Apenas fui a Vida
em relampejo do incenso.

Quando me acendi
foi nas abreviaturas do imenso.

Mia Couto

16 de agosto de 2017

Andrew Wyeth

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A noite de Hopper

Figuras de Hopper
estão sentadas no bar.
Nenhuma palavra me vem
aos lábios.
Uma pequena cobra branca vem-me
aos lábios.
Desaparece no jardim,
quem me conhece, sabe-o.

Em cadeiras altas
estão sentadas figuras de Hopper
e mantêm conversa
sem dizer palavra.
Falam e
uma pequena cobra branca
serpenteia-lhes à volta.
O barman sabe-o.

Ele lava os copos,
olha o copo
e sabe
que no copo está um olho
que não lhe pertence.
O barman sabe-o.

Ele pondera um pensamento
enquanto tu ponderas uma palavra.
Uma palavra desmedida e negra.
Ninguém repara nela.
Mais um, dizes tu.

Richard Wagner

15 de agosto de 2017

Andrew Wyeth

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Não me venham com histórias

Não me venham com histórias.
Os meus olhos cintilantes
viram as nuvens,
os meus sapatos afundaram-se
em muitas poças de água
e a minha boca solitária
engoliu muitas palavras. Que é o mundo?
Um céu de farrapos e vento
nas moitas. O cabelo sempre
me caiu a pique da cabeça.
Arregalo os ouvidos
desde o princípio. Não me venham
com histórias: os meus pés
tocaram o chão.

Hans-Ulrich Treichel

agosto 2017

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