25 de fevereiro de 2021

Giovanni Boldini

GIOVANNI BOLDINI.jpg

Meditação sobre ruínas

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

Nuno Júdice

Sonia Delaunay

Sonia Delaunay.jpg

Solidão

Eu amarei a vida, talvez ao invés dos outros... Acho-a cheia de incoerências, pobre, madrasta, mas apesar disso vou esperando sempre...
Se eu ainda espero, se ainda tenho esta tenaz e incerta sensação de esperança, de desejo, é porque de todo não renego nem maldigo a vida.
Serei uma insatisfeita. Sim, a insatisfação é em mim uma espécie de espinho permanente.

Irene Lisboa

24 de fevereiro de 2021

Nome do mundo

Nem apanhada apenas pelo tacto;
ou no aroma;
ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas
na funda malha de água.
Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.
Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,
trémulo alimento entre roupa
alta,
nas camas.
Magnificência.
Levantava-te
em música, em ferida
- aterrada pela riqueza -
a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.
Fazia tremer o mundo.
E queimavas-me a boca, pura
colher de ouro tragada
viva. Brilhava-te a língua.
Eu brilhava.
Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,
nascesse da carne única
uma cana de mármore.
E alguém, passando, cortasse o sopro
de uma morte trançada. Lábios anónimos, no hausto
de árdua fêmea e macho
anelados em si, criassem um órgão novo entre a ordem.
Modulassem.
E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.
Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.
Os planetas fechavam-se nessa
floresta de som unânime
pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador
da terra
Nome do mundo, diadema.

Herberto Helder

Léon Navez

Léon Navez.jpg

Éramos nós

Era o quarto de azulejo.
O cheiro do tabaco.
O cão
os olhos para que visse o de fora.
Cego
conhecendo a terra sem se conhecer.
Em nós
fizémos sair a lua o sol.
Em todos
o visível o invisível.
Éramos nós e estávamos no fim do mundo.
Como conversámos aquela noite. Era o quarto de azulejo
a mesa de braseira o cheiro do tabaco.
Andara sem destino durante meses
e, aquela noite surgia com o simples virar a
página de um livro,
quando uma palavra torna claro o enredo de longos capítulos.
Assim duas vidas se revelam.
Éramos nós. Estávamos no fim do mundo, quero dizer,
encontrei-me de súbito na minha vida,
na sua vida.

João Miguel Fernandes Jorge

23 de fevereiro de 2021

Leonor Fini

Leonor Fini.jpg

Ash-Wednesday

Porque sei que tempo é sempre tempo
E lugar é sempre e apenas lugar
E que o actual é actual apenas para um tempo
E apenas para um lugar

T. S. Eliot, trad. M.S.Lourenço

a trama inútil dos meus gestos

Viveríamos apenas.
Os caminhos aceitariam os nossos passos,
e as florestas a nossa respiração.
Por vezes tirarias o vestido,
e caminharíamos nus
por entre as vozes pressentidas
dos carros e de outros nómadas.

Porque estou farto
de todo este engano,
desta reunião para fins de caridade,
que pouco a pouco e sem descanso
me recupera,
me torna apto
para chegar ao dia de amanhã,
o tempo enfim dos poros em putrefacção,
a minha morte.

É um adiamento
sem igual -
cada vez mais ímpar,
que só o homem podia inventar
na sua perturbação distraída,
no seu esforço.

Por isso a sociedade
às vezes ainda me irrita,
e eu a mim próprio mas cada vez menos.
Pois o que procuro é:
tão só um lugar, onde fôssemos
como animais lentos,
como objectos reencontrados.
Onde fosse comparável ao teu
o mapa das linhas da minha mão,
o tom desmaiado das minhas gengivas,
a trama inútil dos meus gestos.

Péter Zirkuli

22 de fevereiro de 2021

Lavinia Fontana

Lavinia Fontana.jpg

estás tão bonita

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.
entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.
entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luis Peixoto

Vittorio Corcos

Vittorio-Matteo-Corcos-The-Wounded-Puppy.JPG

Do que necessitas para a felicidade?

Posto assim,
não muito:
dois seres,
uma garrafa de vinho,
queijo do país,
sal, pão,
um quarto,
uma janela e uma porta,
lá fora, que chova,
chuva de longos fios,
e claro, cigarros.
Mas, ainda assim, de muitas noites
apenas uma ou duas vezes resulta,
como os grandes poemas de grandes poetas.
O mais é preparatório,
ou epílogo,
dor de cabeça,
ou espasmo de riso,
não se pode, mas deve-se,
é demasiado, mas insuficiente.

Péter Kántor

21 de fevereiro de 2021

Peter Mitchev

Peter Mitchev.jpg

fevereiro 2021

Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
  1 2 3 4 5 6
7 8 9 10 11 12 13
14 15 16 17 18 19 20
21 22 23 24 25 26 27
28            

Arquivo


&

Primeiro endereço

© 2004/12 Ana Roque | Powered by Querido.org | Editado com Movable Type | Top