27 de março de 2017

Jean Béraud

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O ex-poeta

A madeira flutua na água. As árvores
Curvam-se, lá é verde, a sombra.
Uma criança caminha no prado,
Há uma serração, vista da janela.
Conheci outrora um poeta que concluiu:
O amor não se foi, apenas as palavras do amor,
Disse ele. Foram-se as palavras
Com as quais teria pintado aquele barco.
O vermelho de chumbo nunca se impõe
Nos lívidos poentes do Cabo.
Disse-lhe que sim, que tinha toda a razão.
Ele sorriu e disse: um dia destes
Deixarei este lugar como as palavras me deixaram a mim.

Malcom Lowry, trad. José Agostinho Baptista

26 de março de 2017

A Magnólia

A exaltação do mínimo,
e o magnifico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria -- na metáfora --
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

Luiza Neto Jorge

25 de março de 2017

Tetsuo Takahara

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Nota a caminho de casa

É tarde, vou para casa, todas as coisas me olham
mas nada que seja humano; a casca das árvores brilha,
está quase a chover. Os meus amigos estão todos em
cidades,
em Liverpool, em Londres, falando ao telefone,
talvez a amar, talvez
sem saber o que fazer esta noite.
A chuva que ainda não chegou até mim
pode cair agora nos seus telhados,
enevoar as janelas dos autocarros atrás de que vão a
sonhar.

Aqui eu penso como as vidas invisivelmente se unem
tocadas por um tempo comum,
como no espaço que o tempo faz entre
olá e solidão
a memória se gera; se embebe.
Tarde a caminho de casa
o que eu sei de cada um separado dissolve-se,
forma tais sentimentos que eu não sei exprimir
melhor que o vento sobre mim saberia.

Brian Patten, trad. Joaquim Manuel Magalhães

24 de março de 2017

Ivan Pokhitonov

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És mais suave

Que és um dia de verão não sei se diga.
És mais suave e tens mais formosura:
vento agreste botões frágeis fustiga
em Maio e um verão a prazo pouco dura.
O olho do céu vezes sem conta abrasa,
outras a tez dourada lhe escurece,
todo o belo do belo se desfasa,
por caso ou pelo curso a que obedece
da Natureza; mas teu eterno verão
nem murcha, nem te tira teus pertences,
nem a morte te torna assombração
quando o tempo em eternas linhas vences:

enquanto alguém respire ou possa ver
e viva isto e a ti faça viver.

William Shakespeare, versão de Vasco Graça Moura

23 de março de 2017

Bernardo Strozzi

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O poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada e subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge

Do antiquíssimo sossego

Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendência é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.

António Ramos Rosa

22 de março de 2017

Tetsuo Takahara

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Ode ao Gato

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria

21 de março de 2017

Cornelia Hernes

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As palavras e o silêncio

Palavras não me faltam (quem diria o quê?),
faltas-me tu poesia cheia de truques.
De modo que te amo em prosa, eis o
lugar onde guardarei a vida e a morte.

De que outra maneira poderei
assim te percorrer até à perdição?
Porque te perderei para sempre como
o viajante perde o caminho de casa.

E, tendo-te perdido, te perderei para sempre.
Nunca estive tão longe e tão perto de tudo.
Só me faltavas tu para me faltar tudo,
as palavras e o silêncio, sobretudo este.

Manuel António Pina

20 de março de 2017

Recreio

Há todo um lado recreativo nos gritos de domingo

do qual raramente falamos;

É mais fácil, por escusado e habitual que seja,

deixar que o dia seguinte atrapalhe o próprio dia,

e que o dia em forma mais ou menos própria

se afogue em mágoa:

na mágoa de não ser este um domingo como os de outrora,

gozados a patins e a esperar escola,

querendo escola, o mais possível,

e múltiplas paixões

(entre outras, onde estás, Gigi?).

 

Soube agora mesmo,

no noticiário,

que o nosso presidente

esteve um quarto de hora

para chegar a um queijo

(nem mais nem menos)

e que nem isso lhe retirou o humor

e a disposição de sexta à tarde,

(disposição que enche de orgulho e fezada

uma larga maioria).

 

Foi confirmada a morte de Chuck Berry,

ocorrência que me proporcionou momentos musicais

muito agradáveis

(honra lhe seja feita).

 

No mesmo espaço de notícias

houve muita alegria

a recomeçar o dia

(afinal, não tão longo e demorado quanto isso),

a lembrar tempos épicos e já antigos,

para cá dos meus:

 

"Doidas doidas doidas andam as galinhas

para pôr o ovo lá no buraquinho;

Raspam, raspam, raspam

p'ra alisar a terra,

picam, picam, picam,

para fazer o ninho (...)"

 

E não sei se é do cansaço,

ou da espécie de laço;

Mas penso que verdadeiramente há uma lição imensa

(uma quase esperança, ou uma esperança sem vírgulas)

a retirar do fundo de um sorriso,

ainda mais se desarmado:

 

Quantas gerações de ditadores não honraram mães

e nos passaram pelas veias

(ou pelas veias de outros menos acomodados, o que é um facto),

quanta miséria, quantos queques a rir nos atormentaram?

(###, grandes cabrões, não haverá apelido que escape).

 

A infâmia mudará seus nomes,

mas há letras que enquanto lembrarmos

dão a alguns nomes (por outros que sucedam)

os nomes relevantes que merecem:

 

"Atirei o pau ao gato-to

mas o gato-to

não morreu-eu-Eu

Dona Xica-ca

assustou-se-se

com o berro

com o berro

que o gato

deu (...)"

 

Há tanta falta de amor, no mundo, no bairro e no quarto.

Mas hoje não vamos falar disso.

É domingo.

Por pouco que seja, não é conforto tão pouco quanto isso.

Rui A.

Cornelia Hernes

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Primavera

Em 2017 o Equinócio da Primavera ocorre no dia 20 de Março às 10h29min. Este instante marca o início da Primavera no Hemisfério Norte.

19 de março de 2017

Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Nuno Júdice

Emil Nolde

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18 de março de 2017

Aubade

I work all day, and get half-drunk at night.   
Waking at four to soundless dark, I stare.   
In time the curtain-edges will grow light.   
Till then I see what's really always there:   
Unresting death, a whole day nearer now,   
Making all thought impossible but how   
And where and when I shall myself die.   
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.

The mind blanks at the glare. Not in remorse   
--The good not done, the love not given, time   
Torn off unused--nor wretchedly because   
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;   
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,   
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear--no sight, no sound,   
No touch or taste or smell, nothing to think with,   
Nothing to love or link with,
The anaesthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,   
A small unfocused blur, a standing chill   
That slows each impulse down to indecision.   
Most things may never happen: this one will,   
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without   
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave   
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.   
It stands plain as a wardrobe, what we know,   
Have always known, know that we can't escape,   
Yet can't accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring   
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.

Philip Larkin

um amor selvagem

A pessoa mais insignificante pode ser objecto de um amor selvagem, extravagante e belo como os lírios-do-pântano venenosos.

Carson McCullers, in "A Balada do Café Triste", trad. José Guardado Moreira

Bertha Wegmann

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17 de março de 2017

O Frio - Um Isolamento

A linguagem é impotente, quando se trata de dizer a verdade, de comunicar, ela só permite a quem escreve a aproximação, sempre e só a aproximação desesperada e, por isso mesmo, duvidosa ao objecto, a linguagem só reproduz um falso autêntico, o horrivelmente distorcido, por mais que quem escreve se esforce, as palavras deitam tudo abaixo e deturpam tudo e tornam no papel a verdade total em mentira.

Thomas Benhard

março 2017

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