27 de janeiro de 2012

Dod Procter

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melancolia ou reflexão?

A Noite É Muito Escura

É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

Alberto Caeiro

25 de janeiro de 2012

John Lavery

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Miss Auras em pose de leitura, ou outro livro vermelho

Exercício

Primeiro esquece que horas são
por uma hora
faz isto regularmente todos os dias

depois esquece em que dia da semana estás
faz isto regularmente por uma semana
depois esquece em que país estás
e pratica esta acção acompanhado
por uma semana
depois faz as duas coisas juntas
por uma semana
com tão poucas interrupções quanto possível

em seguida esquece como se adiciona
ou como se subtrai
tanto faz
podes substituir uma acção por outra
passada uma semana
ambas te ajudarão
mais tarde
a esquecer como contar

esquece como contar
a começar pela tua própria idade
a começar por como se conta para trás
a começar pelos números pares
a começar pelos números romanos

a começar pelas fracções de números romanos
a começar pelo antigo calendário
seguido do velho alfabeto
seguido do alfabeto
até ser tudo contínuo outra vez

passa então ao esquecimento dos elementos
a começar pela água
logo depois a terra
a crescer em fogo

esquece o fogo

W. S. Merwin, versão de António Ladeira

24 de janeiro de 2012

Dod Procter

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retrato de Eileen Mayo

Rosas na Bruma

Vinham rosas na bruma florescidas
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.

Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.

Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.

E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
em bruma a brisa em que se aviva a rosa.

Fernando Echevarría

23 de janeiro de 2012

David Inshaw

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as árvores vão reflorir não tarda

Elogios

(gentileza de Amélia Pais)

Deitada, repousa a flor. Deitado, além, repousa o canto.
Lapido esmeraldas, derreto o ouro: e eis o meu canto.
Engasto esmeraldas: eis o meu canto.
O homem inclina-se para polir o canto como uma turqueza.

E o deus faz brilhar o escudo de plumas de quetzal.
Imitas o pássaro verde-azul, o pássaro de fogo.
Embriaga-se teu coração: absorve a flor da pintura, o canto pintado.

E abres agora as asas de quetzal.
Ondulas com tuas plumas de arco-íris, ó pássaro de
colo vermelho e plumagem cor de malva.

Bebe o mel. A grande flor perfumada apareceu na terra.

Herberto Helder

22 de janeiro de 2012

circunstância(s)

Estou contando prosa
mas, em vista do que disseste,
tudo são gestos de circunstância,
versinhos
pura
brincadeira
sempre à parte,
como a modéstia
e a ironia
que não dão conta nem para o gasto
nem para o resto

José Almino, in A Estrela Fria

21 de janeiro de 2012

Um Amor Depois do Outro

Virá o tempo
quando exultante
hás de saudar-te ao chegar, em teu espelho, e cada qual
retribuirá sorrindo a saudação do outro,

e dirá, senta-te aqui. Come.
Amarás de novo a quem te era estranho: a ti mesmo.
Dá vinho. Pão. Teu coração de volta
a si mesmo, ao estranho que toda a vida

te amou, que, por causa de um outro,
desconsideras, quem te conhece de cor.
Pega as cartas de amor na estante,

As fotos, as anotações desesperadas,
Descasca do espelho tua imagem.
Senta-te. Refastela-te com tua vida.

Derek Walcott, trad. Nelson Archer

Franz Skarbina

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atmosfera de inverno, ainda

19 de janeiro de 2012

Gatos

Tão esguia a gata
Não da falta de cevada
mas do amor

Matsuo Bashô

David Downton

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uma rosa é uma rosa?

18 de janeiro de 2012

Passaram como a nuvem sobre a batalha

Nada resta
um rastro de calafrio,
nem uma trisca,
ou sombra de voo de canário?

Mas a nuvem que passou,
intocada sobre a batalha,
pousa na crista do poema
e risca o vivo da memória.

José Almino, in A Estrela Fria

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