17 de agosto de 2018

Mabel Alvarez

Mabel Alvarez.jpg

Em Ceres

Em Ceres anoitece.
Nos píncaros ainda
Faz luz.

Sinto-me tão grande
Nesta hora solene
E vã

Que, assim como há deuses
Dos campos, das flores,
Das searas,

Agora eu quisera
Que um deus existisse
De mim.

Ricardo Reis

16 de agosto de 2018

Memória

A memória incorpora
o tempo: torna
leve o presente

pesado
no que repetimos
como erro

no que aprendemos errado

a memória é descanso e algoz
de que não podemos fugir
ou trocar as histórias
passadas por nossos avós

nela nos prendemos ao fantasiar

as cores que não tiveram
no futuro que não teremos.

Pedro Du Bois

15 de agosto de 2018

Mabel Alvarez

a11 Mabel Alvarez (1891-1985) Arabella with Calla Lillies 1934.jpg

Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um xadrez silencioso.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges

14 de agosto de 2018

Wisława Szymborska

Wisława Szymborska.jpg

a honra de viver

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humihante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Wislawa Szymborska

05 de agosto de 2018

John William Waterhouse

John William Waterhouse.jpg

O Espaço do Poeta

A escrivaninha negra com entalhes,
os dois candelabros de prata, o cachimbo vermelho.
Está sentado, quase invisível, na poltrona, com a janela sempre às suas costas.
Por detrás dos óculos, enormes e cautos, observa o interlocutor à luz intensa,
ele próprio oculto dentro de suas palavras, dentro da História,
com personagens seus, distantes, invulneráveis,
capturando a atenção dos outros nos delicados revérberos
da safira que traz num dedo, e alerta sempre para saborear-lhes as
expressões, nos momentos em que os tolos efebos
umedecem os lábios com a língua, admirativamente. E ele,
astuto, sôfrego, sensual, o grande inocente,
entre o sim e o não, entre o desejo e o remorso,
qual balança na mão de um deus, ele oscila por inteiro,
enquanto a luz da janela atrás lhe põe na cabeça
uma coroa de absolvição e santidade.
"Se a poesia não for a remissão - murmura a sós consigo -
não esperemos então misericórdia de ninguém".

Yannis Ritsos, trad. José Paulo Paes

04 de agosto de 2018

Coisas simples e incompreensíveis

Nada de novo -- repete ele. Os homens matam-se ou morrem,
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem -- os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado -- foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes -- muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.

Yannis Ritsos, trad. José Paulo Paes

Mabel Alvarez

Mabel Alvarez (1891-1985) Self-Portrait of the Artist 1923.jpg

03 de agosto de 2018

última vontade

Disse: creio na poesia, no amor, na morte,
e por isso mesmo creio na imortalidade. Escrevo um verso,
escrevo o mundo; existo; existe o mundo.
Da ponta do meu dedo mínimo corre um rio.
O céu é sete vezes azul. Esta pureza
é de novo a primeira verdade, a minha última vontade.

Yannis Ritsos

27 de julho de 2018

Faz-se luz pelo processo

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

Mário Cesariny

Alfredo Roque Gameiro

Alfredo Roque Gameiro.jpg

26 de julho de 2018

O mais importante

Aprendam com a folha da amendoeira
que se incendeia ao cair.
O solo arde.
A terra arde.
O mais importante
é o resplendor.

Eunice de Souza

agosto 2018

Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
      1 2 3 4
5 6 7 8 9 10 11
12 13 14 15 16 17 18
19 20 21 22 23 24 25
26 27 28 29 30 31  

Arquivo


&

Primeiro endereço

© 2004/12 Ana Roque | Powered by Querido.org | Editado com Movable Type | Top