27 de fevereiro de 2021

Da fugacidade

uma família é uma memória colectiva de factos fugazes

Pedro Mexia

Marie Laurencin

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No teu coração

Amigo se queres
Ser poeta
Sobretudo não armes
Em imbecil
Não escrevas
Canções demasiado estúpidas
Mesmo que as grunhas
Gostem
Não ponhas
O acessório idiota
Nem o sombrero
do México
Não ponhas
O perfume escaldante
Nem o alcatraz
Exótico
Põe flores
E alguns beijos
Ternamente depostos
Nos seus lábios
Põe notas
Em bonito ramo
E depois canta-as
No teu coração

Boris Vian

Georges Braque

Braque - Houses at L'Estaque - 1908.jpg

Dizem: é poesia

Quando nasci tinha uma faca na mão.
Dizem: é poesia.
Mas peguei na pena, melhor ainda que a faca.
Nasci para ser homem.

Alguém soluça uma felicidade apaixonada.
Dizem: é amor.
Chama-se ao teu seio, simplicidade das lágrimas!
Só contigo eu brinco.

Não recordo nada e também nada esqueço.
Dizem: como é possível?
O que deixo cair mantém-se sobre a terra.
Se o não encontro, tu o encontrarás.

A terra me aprisiona, o mar me dilacera.
Dizem: um dia morrerás.
Mas dizem-se tantas coisas a um homem
que nem sequer respondo.

Attila József

26 de fevereiro de 2021

Amadeo de Souza-Cardoso

Amadeo de Souza-Cardoso.jpg

Para que servem os sentimentos?

Para que servem os sentimentos? Poder-se-ia argumentar que as emoções sem sentimentos seriam mais do que suficientes para a regulação da vida e para a promoção da sobrevivência. Porém, não é esse o caso. Na orquestração da sobrevivência é extremamente valioso ter sentimentos. As emoções são úteis em si mesmas, mas é o processo de sentir que alerta o organismo para o problema que a emoção começou a resolver. O processo simples de sentir começa por dar ao organismo o incentivo para se ocupar dos resultados da emoção (o sofrimento começa pelos sentimentos, embora seja realçado pelo conhecer, e o mesmo se pode dizer sobre a alegria). O sentir constitui, também, pedra angular para a etapa seguinte - o sentimento de conhecer que sentimos. Por sua vez, o conhecer é pedra angular para o processo de planeamento de respostas específicas e não estereotipadas que podem, quer complementar uma emoção, quer garantir que os ganhos imediatos obtidos pela emoção possam ser mantidos ao longo do tempo. Por outras palavras «sentir» os sentimentos prolonga o alcance da emoção, ao facilitar o planeamento de formas de respostas adaptativas, originais e feitas à medida da situação.

António Rosa Damásio

Alma Thomas

Alma_Thomas.jpg

Estranhamente

Não é por acanhamento que olha para o chão,  mas pela volúpia da surpresa.  É capaz de percorrer bairros inteiros a matutar  no xadrez das calçadas,  em busca do vagaroso rei dos seus olhos.   Nos lancis vê peitos magros de braços guindados,  caudas enroscadas em flechas.  Em soleiras de portas,  canhões antiquíssimos a fumegar ainda  por entre a lã do movimento.  Fascina-a sobretudo a repentina simetria  dos pingos de chuva.  As vozes atravessam-na como bandeiras desferidas  no cimo da mais erma colina.  Toda a paisagem, fechando os olhos,  é uma investida solitária,  vociferada à constelação de nuvens que  circunspectamente  vai amparando o céu.  Ela sabe que entre a terra e o espaço  também os olhos se fecham.  O mundo é, a todas as horas, nas nações  e nos bosques, o útero de um raríssimo encontro  de bichos predadores  a que os deuses chamam embaixada.  No teu sonho, quando a tocas,  ela junta os pés,  como quem namora um precipício,  e balouça-se para trás.  Estranhamente, também tu sentes  que passaste os anos a fixar o caminho,  que só agora,  na linha dos seus ombros,  surge o horizonte inapelável  da encarnação.  Que entre ti e ela é a terra e o espaço  que cruzam os olhos.

Vasco Gato

25 de fevereiro de 2021

Giovanni Boldini

GIOVANNI BOLDINI.jpg

Meditação sobre ruínas

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

Nuno Júdice

Sonia Delaunay

Sonia Delaunay.jpg

Solidão

Eu amarei a vida, talvez ao invés dos outros... Acho-a cheia de incoerências, pobre, madrasta, mas apesar disso vou esperando sempre...
Se eu ainda espero, se ainda tenho esta tenaz e incerta sensação de esperança, de desejo, é porque de todo não renego nem maldigo a vida.
Serei uma insatisfeita. Sim, a insatisfação é em mim uma espécie de espinho permanente.

Irene Lisboa

24 de fevereiro de 2021

Nome do mundo

Nem apanhada apenas pelo tacto;
ou no aroma;
ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas
na funda malha de água.
Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.
Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,
trémulo alimento entre roupa
alta,
nas camas.
Magnificência.
Levantava-te
em música, em ferida
- aterrada pela riqueza -
a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.
Fazia tremer o mundo.
E queimavas-me a boca, pura
colher de ouro tragada
viva. Brilhava-te a língua.
Eu brilhava.
Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,
nascesse da carne única
uma cana de mármore.
E alguém, passando, cortasse o sopro
de uma morte trançada. Lábios anónimos, no hausto
de árdua fêmea e macho
anelados em si, criassem um órgão novo entre a ordem.
Modulassem.
E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.
Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.
Os planetas fechavam-se nessa
floresta de som unânime
pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador
da terra
Nome do mundo, diadema.

Herberto Helder

Léon Navez

Léon Navez.jpg

fevereiro 2021

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