16 de janeiro de 2018

William Merritt Chase

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Meditação sobre Ruínas

De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.

Nuno Júdice

15 de janeiro de 2018

Marc Chagall

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Para a dedicação de um homem

Terrível é o homem em quem o senhor
desmaiou o olhar furtivo das searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima
A morte é a grande palavra para esse homem
não há outra que o diga a ele próprio
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia

Ruy Belo

14 de janeiro de 2018

Tallulah Pomeroy

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Em troca

Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar pra diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.

Almada Negreiros

13 de janeiro de 2018

Sandro Botticelli

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Dias

Todos os dias
a poesia
o que fazer
aos dias
à poesia
esquecer
os dias
um dia
a poesia

Rui Esteves

12 de janeiro de 2018

Bruma

Vinham rosas na bruma florescidas
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.

Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.

Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.

E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
em bruma a brisa em que se aviva a rosa.

Fernando Echevarría

11 de janeiro de 2018

William Merritt Chase

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Tradutor de chuvas

Um lenço branco
apaga o céu.
--
A fala da asa
vai traduzindo chuvas:
não há adeus
no idioma das aves.
--
O mundo voa
E apenas o poeta
Faz companhia ao chão.

Mia Couto

09 de janeiro de 2018

Sir Lawrence Alma-Tadema

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Alguém

Um homem trabalhado no tempo,
Um homem que nem sequer espera a morte
(as provas da morte são estatísticas
E ninguém tem que não correr o mercê
De ser o primeiro imortal),
Um homem que aprendeu a agradecer
As modestas esmolas dos dias:
O sonho, a rotina, o sabor da água,
Uma não suspeita etimologia,
Um verso latino ou saxão,
A memória de uma mulher que o abandonou.
Faz já tantos anos
Que hoje pode recordá-la sem amargura,
Um homem que não ignora que o presente
Já é o futuro e o esquecimento,
Um homem que foi desleal
E com o qual foram desleais,
Pode sentir de repente, ao atravessar a rua,
Uma misteriosa felicidade
Que não vem do lado da esperança
Mas de uma antiga inocência,
Da sua própria raiz ou de um Deus disperso.

Sabe que não deve olhá-la de perto.
Porque há razões mais terríveis que tigres
Que lhe mostrarão o seu dever
De ser um infeliz,
Mas humildemente recebe
Essa felicidade, essa explosão.

Talvez na morte para sempre seremos,
Quando o pó for pó,
Essa indecifrável raiz,
Da qual para sempre crescerá,
Equitativa ou atroz,
O nosso solitário céu ou inferno.

Jorge Luis Borges

08 de janeiro de 2018

Sir Lawrence Alma-Tadema

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Toma lá Cinco!

Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!

Um dente que estava são e agora não,
Um cabelo que ainda ontem preto era,
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração.
E na cara uma ruga que não espera, que não espera...

No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que não és...

Talvez sejas de enredos fácil presa,
Eterno marido, amante de um só dia...
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...

Talvez lances de amor um foguetão sincero
Para algum coração a milhões de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior...

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e não errar a pontaria...

Talvez te deixes por uma vez de fitas,
De versos de mau hálito e mau sestro,
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis, de resto...)

Alexandre O'Neill

07 de janeiro de 2018

William Merritt Chase

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Aos Vindouros, se os Houver...

Vós, que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;

que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;

computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;

que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.

Alexandre O'Neill

06 de janeiro de 2018

Caspar David Friedrich

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entre as tuas mãos

Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.

Daniel Faria

janeiro 2018

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