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melancolia ou reflexão?

melancolia ou reflexão?
É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.
Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?
Alberto Caeiro

Miss Auras em pose de leitura, ou outro livro vermelho
Primeiro esquece que horas são
por uma hora
faz isto regularmente todos os dias
depois esquece em que dia da semana estás
faz isto regularmente por uma semana
depois esquece em que país estás
e pratica esta acção acompanhado
por uma semana
depois faz as duas coisas juntas
por uma semana
com tão poucas interrupções quanto possível
em seguida esquece como se adiciona
ou como se subtrai
tanto faz
podes substituir uma acção por outra
passada uma semana
ambas te ajudarão
mais tarde
a esquecer como contar
esquece como contar
a começar pela tua própria idade
a começar por como se conta para trás
a começar pelos números pares
a começar pelos números romanos
a começar pelas fracções de números romanos
a começar pelo antigo calendário
seguido do velho alfabeto
seguido do alfabeto
até ser tudo contínuo outra vez
passa então ao esquecimento dos elementos
a começar pela água
logo depois a terra
a crescer em fogo
esquece o fogo
W. S. Merwin, versão de António Ladeira

retrato de Eileen Mayo
Vinham rosas na bruma florescidas
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.
Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.
Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.
E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
em bruma a brisa em que se aviva a rosa.
Fernando Echevarría

as árvores vão reflorir não tarda
(gentileza de Amélia Pais)
Deitada, repousa a flor. Deitado, além, repousa o canto.
Lapido esmeraldas, derreto o ouro: e eis o meu canto.
Engasto esmeraldas: eis o meu canto.
O homem inclina-se para polir o canto como uma turqueza.
E o deus faz brilhar o escudo de plumas de quetzal.
Imitas o pássaro verde-azul, o pássaro de fogo.
Embriaga-se teu coração: absorve a flor da pintura, o canto pintado.
E abres agora as asas de quetzal.
Ondulas com tuas plumas de arco-íris, ó pássaro de
colo vermelho e plumagem cor de malva.
Bebe o mel. A grande flor perfumada apareceu na terra.
Herberto Helder
Estou contando prosa
mas, em vista do que disseste,
tudo são gestos de circunstância,
versinhos
pura
brincadeira
sempre à parte,
como a modéstia
e a ironia
que não dão conta nem para o gasto
nem para o resto
José Almino, in A Estrela Fria
Virá o tempo
quando exultante
hás de saudar-te ao chegar, em teu espelho, e cada qual
retribuirá sorrindo a saudação do outro,
e dirá, senta-te aqui. Come.
Amarás de novo a quem te era estranho: a ti mesmo.
Dá vinho. Pão. Teu coração de volta
a si mesmo, ao estranho que toda a vida
te amou, que, por causa de um outro,
desconsideras, quem te conhece de cor.
Pega as cartas de amor na estante,
As fotos, as anotações desesperadas,
Descasca do espelho tua imagem.
Senta-te. Refastela-te com tua vida.
Derek Walcott, trad. Nelson Archer

atmosfera de inverno, ainda
Tão esguia a gata
Não da falta de cevada
mas do amor
Matsuo Bashô

uma rosa é uma rosa?
Nada resta
um rastro de calafrio,
nem uma trisca,
ou sombra de voo de canário?
Mas a nuvem que passou,
intocada sobre a batalha,
pousa na crista do poema
e risca o vivo da memória.
José Almino, in A Estrela Fria

companhia invulgar
Quando alguém já não tem forças para escrever, tem de recordar.
Quando já não tem forças para fotografar,
tem de ver com os olhos da alma.
Quando já não tem forças para ler,
tem de estar repleto de histórias.
Quando já não tem forças para falar,
tem de ecoar.
Quando alguém já não tem forças para andar, tem de voar.
E quando chega a hora,
tem de se desprender das recordações
e dos olhos da alma e deixar de ressoar,
calar-se e dobrar as asas.
Mas aconteça o que acontecer a história continua, continua.
Eeva Kilpi, versão de Luís Parrado
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