Modus vivendi

"Werde der du bist."   Goethe

blogue de Ana Roque

20 de Abril de 2024

Joaquín Sorolla



20 de Abril de 2024

Mistanásia ou a consequência de ser indiferente

O que é a indiferença? Etimologicamente, a palavra quer dizer ‘sem diferença’. Um estado estranho e antinatural em que se esbatem as linhas entre a luz e a escuridão, crepúsculo e alba, crime e castigo, crueldade e compaixão, bom e mau.

Elie Wiesel


19 de Abril de 2024

capitão pirata

Sei de um capitão pirata,
que é dono de um verde mar,
que tem seu barco de prata,
mas deixou de navegar.

Que se enamorou da terra,
que se entregou à prisão,
e entre quatro muros erra,
murmurando uma canção.

Cecília Meireles


17 de Abril de 2024

Sonhei que me guiavas

Sonhei que me guiavas
por uma branca vereda,
entre o campo verde,
em direcção ao azul das serras,
em direcção aos montes azuis,
numa manhã serena.
Senti a tua mão na minha,
a tua mão de companheira,
a tua voz de menina no meu ouvido
soando como um sino recente,
como um sino inaudito
na manhã de primavera.
Eram a tua voz, a tua mão,
em sonhos, tão reais!...
Vive, esperança. Quem sabe
o que devora a terra!

Antonio Machado, trad. Bruno M. Silva


16 de Abril de 2024

Joaquín Sorolla



16 de Abril de 2024

Soledades

Andei por tantos caminhos,
abri inúmeras veredas;
naveguei por cem mares,
e atraquei em cem margens.
Em toda a parte vi
caravanas de tristeza,
sombras negras de soberbos
e melancólicos bêbedos,
e pedantes embrulhados em robes
que olham, calam e pensam
que sabem mais, porque não bebem
o vinho miserável das tabernas.
Homens cruéis que caminham
e vão empestando a terra…
E em toda a parte vi
pessoas que dançam e brincam,
quando podem, e trabalham
a pouca terra que lhes coube.
Nunca, se chegam a um lugar,
perguntam onde chegaram.
Quando caminham, cavalgam
às costas de velhas mulas,
e não conhecem a urgência
nem em dias de festa.
Onde há vinho, bebem vinho;
onde não há, bebem água fresca.
São pessoas boas que vivem,
trabalham, passam e sonham,
e num dia como qualquer outro,
se deitam debaixo da terra.

Antonio Machado, trad. Bruno M. Silva


14 de Abril de 2024

Sem título

Ela habitava em lugares desconhecidos,
Junto às fontes de Dove,
Uma donzela que ninguém louvava
E poucos podiam amar:
Uma violeta sobre o musgo das pedras,
Velada do nosso olhar!
Bela como uma estrela solitária
Entre o céu nocturno.
Ela viveu ignorada, e poucos poderiam saber
A hora em que Lucy deixaria de existir;
Mas agora ela está na sua campa, e, oh,
A diferença que isto é para mim!

William Wordsworth, trad. Bruno M. Silva


14 de Abril de 2024

George Hendrik Breitner_3



14 de Abril de 2024

O próprio eu

Todos estes assuntos absorviam o seu pensamento, atraíam o mundo para o interior, para aquele grande espaço caótico que todo o ser humano carrega em si como uma bagagem invisível que se arrasta com ele durante toda a vida, sem saber para quê. O próprio eu.

Olga Tokarczuk


13 de Abril de 2024

Da esperança

A esperança nada mais é do que uma alegria inconstante que emerge da imagem de qualquer coisa futura ou passada, sobre cujo resultado temos alguma dúvida.

Baruch Spinoza


7 de Abril de 2024

George Hendrik Breitner



7 de Abril de 2024

Tudo é preciso

Traça a reta e a curva,
a quebrada e a sinuosa
Tudo é preciso.
De tudo viverás.

Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
traçarás perspectivas, projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.

Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitarás.

Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.

Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.

Cecília Meireles


5 de Abril de 2024

A Penosa Descoberta

“Poética”, disse ele, pousando o copo.
Posso não acreditar em nada, nem seguir
o barulho regular dos relógios, continuou
no mesmo tom de voz: a minha vida
aproxima-se do ideal poético superior.
Abriu a janela e recebeu na cara os ventos
do norte. Nada o impedia, agora,
do encontro com a solidão irremediável.
Pousou a bebida no parapeito, agarrou
com a mão direita um ramo de árvore e,
com a mão esquerda fechada no ar, disse
em voz alta: “Poética”, para que todos
ouvissem. No entanto, ao dar-se conta
de que estava só, em plena madrugada,
fechou a janela, fechou o livro que começara
a ler, na véspera, fechou a luz
– e à claridade baça e fria do inverno
sentou-se no chão de madeira, a pensar,
como se não houvesse mais ninguém
naquele mundo.

Nuno Júdice


2 de Abril de 2024

George Hendrik Breitner