Modus vivendi

"Werde der du bist."   Goethe

blogue de Ana Roque

16 de Junho de 2024

Uma claridade que cega

Ando pelas ruas desta incerta cidade.
Deixo que o meu olhar
se ajuste ao olhar dos outros.
Entre ruas e rostos há fragmentos de solidão
que denunciam a trágica expressão da vida.
Todos conhecem a oralidade da mudez,
a vigília da revolta, a senha do desdém,
a estranheza de golpes imolando os sonhos.
Eu, com uma fala colada na língua,
somente me consinto
a áspera caligrafia do silêncio.

Graça Pires


14 de Junho de 2024

A tradição como inovação

A incorporação do passado no presente é uma acção subversiva, porque um dos efeitos mais surpreendentes da acção do tempo é transformar o usual em estranho, o conhecido em desconhecido, o ordinário em exótico. A incorporação de elementos antigos num contexto moderno rompe a continuidade, dispersa a continuidade nociva que conduz ao hábito, criando um conflito, um contraste, que não pode senão despertar o nosso consciente. Toda a cultura é diálogo e não há diálogo sem confrontação.

Ana Hatherly


14 de Junho de 2024

Kandinsky



7 de Junho de 2024

Bebo à casa arruinada

Bebo à casa arruinada,
às dores de minha vida,
à solidão lado a lado
e a ti também eu bebo –

aos lábios que me mentiram,
ao frio mortal nos olhos,
ao mundo rude e brutal
e a Deus que não nos salvou.

Anna Akhmátova


3 de Junho de 2024

Simples

Um pássaro canta sobre um fio
Essa vida simples, à flor da terra.
Com isso se alegra o nosso Inferno.

René Char


1 de Junho de 2024

Augustus Edwin John



1 de Junho de 2024

De facto

How we spend our days is, of course, how we spend our lives.

Annie Dillard


29 de Maio de 2024

do declínio

Ponho os meus romances no palco do declínio da civilização ocidental porque ela está mesmo em queda.

Michael Cunningham


28 de Maio de 2024

Augustus Edwin John



28 de Maio de 2024

O resto foi o mar

O duche de água fria lava em mim a poesia
e sabe-me a sabão se sabe a alguma coisa
coisa tão suja como o é a poesia
Sinto-me velho sei que nada valho
e amei mais o orvalho do que o ouro velho
Eu peço pouco espaço peço uma manhã
e um dia alguma terra apenas isso
O resto foi o mar e mais do que o mar mulher
foi o prazer de ouvir e mais que ouvir foi ver
Terei sido uma coisa uma pequena pedra
fechada sobre si aberta à terra
[…]
Ruy Belo


27 de Maio de 2024

Faço o que faço, quando quero e como me apetece

Não há arte sem história da arte. Não há pensamento sem filosofia. E não há arte sem história da arte, pensamento, filosofia e curiosidade, que é uma ferramenta importante.

Pedro Cabrita Reis


27 de Maio de 2024

Augustus Edwin John



27 de Maio de 2024

Deixo de lado o sonho

Na folha branca de papel faço o meu risco.
Retas e curvas entrelaçadas.
E prossigo atento e tudo arrisco na procura das formas desejadas.
São templos e palácios soltos pelo ar, pássaros alados, o que você quiser.
Mas se os olhar um pouco devagar, encontrará, em todos,
os encantos da mulher.
Deixo de lado o sonho que sonhava.
A miséria do mundo me revolta.
Quero pouco, muito pouco, quase nada.
A arquitetura que faço não importa.
O que eu quero é a pobreza superada,
a vida mais feliz, a pátria mais amada.
 
Óscar Niemeyer


24 de Maio de 2024

Pego num pedaço de silêncio

Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

Nuno Júdice