« Se me puderes ouvir | Main | Manuel A. Ortiz »

Alfredo Pereira Gomes

Hesitei antes de publicar este post, mas ele escreveu-se aos poucos, subterrâneo e procurando a luz escassa e fugaz. Alfredo Pereira Gomes, matemático e humanista, democrata nos tempos em que se perdia a liberdade por desejá-la ampla, morreu há poucos dias. Soube aqui. Tal como o irmão, Soeiro, foi um jovem antifascista, nos dias em que a coragem era o resultado de vencer os medos vários - de perder o emprego (a carreira académica), da polícia, da tortura, do exílio, da prisão. Embora não o contactasse há um pouco mais de dois anos, as ocasiões em que o ouvi falar, na sua pequena sala num rés do chão sossegado, perto da avenida de Roma, com a simplicidade e a elegância discreta que mostrava ao mundo, produziram-me uma impressão duradoura. Ele, como outros já falecidos, dentro os quais recordo o advogado Manuel João da Palma Carlos e o embaixador Humberto Morgado, ou figuras tão densas e ricas como Stella Biker Correia Ribeiro Piteira Santos e Pilar Baptista Ribeiro (creio que ainda vivas, bem dobrado o cabo dos oitenta), mostravam a diferença do tempo longo, de uma vida cheia - com mágoas, glórias, projectos e esperanças. Vidas que atravessaram um século turbulento e perigoso, interessante e arriscado, onde os seus privilégios de nascimento, nuns casos, ou de carreira, noutros, não os desviaram de sacrifícios pessoais em nome de um ideal de igualdade social. Intelectuais que discutiam, discordavam, se zangavam, mas não traíam as causas em que acreditavam. Gente inteira, imperfeita, exemplar. Tê-los conhecido, ter privado, por uma mera circunstância de acaso, com alguns deles, fez-me mais humana.

comentários (1)

Paulo Almeida:

Por acaso decorrente da "navegação internética" --- sem grande rumo --- encontrei o seu texto ao qual fui sensível, por ter sido eu próprio um Amigo de Alfredo Pereira Gomes, visitando-o regularmente há muitos anos, até ao fim dos seus dias. Coube-me o dever de lhe fazer o elogio fúnebre no cemitério do Alto de S.João e cabe-me também a incumbência de o recordar em páginas evocatórias a publicar proximamente: recordar um rebelde íntimo.

A sua opinião?

Acerca

Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 09 de dezembro de 2006.

Post anterior

Post seguinte

Leia também a primeira página, faça uma pesquisa ou navegue através desta página de todos os títulos em arquivo.

pub




Arquivo

&

Primeiro endereço

© 2004/07 Ana Roque | Powered by TubarãoEsquilo | Editado com Movable Type | Top