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Uma Onda

(gentileza de Amélia Pais)

Uma onda
é amar-te e medo
ciúme deste mar
tan-tan do meu naufrágio
numa canoa de pétala
de acácia

Uma jangada
que me tragas feita
de troncos de palmeira
ou de um barco de negreiros
afundado
e dentro de uma concha
uma notícia

Amar-te é esta distância
e junto ao mar
senti-lo viajado
azul e com estrondo

Amar-te é uma fogueira
sobre a onda
sítio de uma lavra
de milho ou mandioca
na areia que me foge
sob a espuma

Amar-te é isto
com o teu perdão
não agarrar a onda
e mastigar-lhe o sal
que apenas sei
ter já beijado
a tua praia

Uma onda
que penso.
Outra em que reparo.
A mesma em que pensei
e que retorna ao mar.

Porque ficar a onda
— o impossível
(dizem que não havia
mar
remos de sol
nem barcos afundados).

Manuel Rui

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 26 de dezembro de 2006.

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