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Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

António Ramos Rosa

comentários (2)

escrevi este poema depois de ler o "deambulações obliquas" do ramos rosa, é o meu livro favorito dele, se gostares diz qualker coisa e desculpa lá o espaÇo que vou okupar, mas olha:

O tempo vai minguando no seu infinito abstracto,
esmagado por aglomerações flutuantes mas determinadas
no percurso promíscuo de sons e satélites únicos
que irão diminuir em compassos de ampulheta mutilada –
quando o germe adoecer e fôr engolido pela criação –
constelações irão desfalecer em fontes e regorgitar este
jogo multifacetado sob a forma dum camarão marinho
que suspirou e fez bolhinhas no fundo dos oceanos,
perdido entre brumas de aguda aglutinação primordial,
como a essência da força da gravidade num abismo.

Ouço sinos da tal voz indolente em tom revolucionário
com respostas de beleza utópica e acordes usados
ante o ramo duma oliveira, caroço maçã mosquito ou rosa
que explique todos os trauteares, basta agir ao olhar e ler
pureza sentida a fazer efeito, expandir-se austera
para lá dos horizontes do conhecimento dos morangos,
entre as inevitabilidades extremistas da memória
a razão imagina-se nas trocas intrínsecas respirando
mas, nada tudo foi porque do nascimento não nos lembramos,
são questões apenas segredadas diariamente sem cor.

À medida que letras se unem, conjuram e sucedem-se
criam raciocínios inerentes ao anterior último
e pintam, com a língua, seu próprio caminho invísivel
em comunhão com o escorregar de folha caída na relva sintética
como avalanche ansiolítica, atropelamento mútuo
de genético esquecimento, bisturi obsessivo por
lutar, existir em simultâneo com o acontecer de todos
os acasos que propagam e sorriem e encontram-se e
em magia transformam-se, seguindo o frémito necessário
e original, somente vislumbrável na unicidade anatómica.

No mundo em que fui cuspido muita teoria já cá vive e
verdadeiras pequenas descobertas perdem-se às recentes,
sob autoriedade empedrada do pós-bacharelato que nos cega,
prende a castração em coro às demagogias dum bem-comum de
entretenimento que não ajuda ninguém e, impede de esvoaçar
até ao ilimitado harmónico onde reflectirás atempadamente,
na companhia de borboletas parecidas, sobre os mistérios
da Natureza que admiramos e com quem queremos passear a
morte de criar nova pele doutro deus trabalhador, buracos negros
rodeados de palmeiras, cascatas e impossibilidades inexistentes.

Um é o número triangular que adormece vacas e vegetais
ao vogarem com códigos de barras instintivos no coração,
pretendem violentar visões na doçura territorial da sede
apreciando, sem dúvidas, o prazer fulcral do momento presente,
enquanto inspiram subjugamos, dispersando-se ebriedade constante
no corpo-cobaia, através dos devaneios da invenção das raças
trocam corridas homicidas na livre pradaria sub-sariana
por assentos, carros confortáveis e pastiches no centro comercial,
invejosos por não terem esperneado essa consciência ociosa
dirigida pela parabólica bolorenta do mesmo remoto fabricante.

Qualquer putrefacção procriada provém do sentimento imediato
cuja beleza intragável, é de tão onírica expressão que, só não será
fútil para a calmia do sismo emocional contido na insegurança
interior das contradições amargurantes que todos perseguem
com tormentos cinzento-gelado, relances de calor e mal-entendidos,
nesse ritmo das ancas erectas devemos aproveitar cada fímbria de verde ou
a predisposição sonhada nunca se construirá em narrativa, enquanto a
juventude ingrata propaga reverente e segrega regra contra o virus da velhice,
graças a ocasionais hábitos de revelações banais de sujas sagitárias,
desde o egoísmo do adeus até à plenitude permanente do remorso.

O barulho, toque do movimento é semelhante ao sabor
duma cereja a desabrochar como flôr amarela, felina no tojo
à deriva por entre a turbulência de vingativas ondas gigantes
na adrenalina de atingir uma ilha pacífica sem chá elitista,
onde nada se paga, ninguém corrompe sacro suor e trai
seus companheiros por assoares bubónicos miseráveis, são
mentes já obscurecidas por iates e bijutarias reconhecíveis, mais
todas suas divinais e dolorosamente omnipresentes expressões
fictícias de vida, lá longe o chocar dum ovo soa ao gemido duma orca
abandonando comovida as raízes sugadoras da solidão das árvores.

Minha família veio dum cometa televisivo, tal como quando
o baço exclama ao aspirar tocar no céu astral banalizado
e, nos lembramos da alforreca que a custo sobreviveu,
comendo-se a si mesma, pelo plâncton pré-fotossintético
que a engasgou, perto do centro, antes da primeira Maçonaria
evaporar, contentou-se sendo lenda e originar missas modernas
que publicitam ser mais reais que signos luzídios, detêm
no cerne do seu seio de desejo mais antiquado e mal gasto,
este fumo de especiaria excedentária que hipnotiza a prescrever
insanamente, brincadeiras fugazes de quereres e consequências.


Observo os melros, bancos de jardim com cartas e copos de bagaço
comodistas, displicentes, arrogantes sãos afogados em mágoas
e doenças antigas que já só sentiram, desaparece o dia noctívago
sem calma, sem entusiasmo, sem esforço, no riso criticamos clones
desinteressados pelo sentido conhecido e sem atenção pela entidade,
deixa-se passar mais esta almofada como não se devia ter feito antes
e morre-se a acordar noutra geração sem reencarnação, quem afirma
peca obrigando o receio a recompôr rápido tanto defeito de fantasmas
falaciosos, atafulhos rasgados em lúxuria e poder d’intervenção impune
cravando a estaca na destinada estrela que sempre irá suspirar.


Ou então, fechemos as asas e olhos à informação masterizada
e vamos deixá-los tropeçar em ilusões de sorrisos simples
que atingem altas velocidades longe do asfalto conspurcado,
de mãos dadas com a chuva libertadora do fogo que assusta
e pariu o tempo, tal qual O zero vazio que contêm a luz ciclíca,
atordoante dádiva de vozes expectantes neste vórtice animalesco
incapaz de se rebaixar à condição de estar quieta na bicicleta,
aceita precisar mais querer perder-se no que abençoa, como
a trajectória inevitável dum beijo humano destinado a alado local
sem palavras, influenciado por todas as poeiras ocasionais
deste polivalente erro premeditado, a triunfante charada atómica
confluí na imagem de duas plantas numa, fodendo N0 pedestal.

joão meirinhos in trepidação/trepanação (ou a ausência de evolução) 2004.

www.motoratasdemarte.blogspot.com

ana r.:

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 01 de fevereiro de 2007.

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