« Seurat | Main | Peregrinação e Catábase (excerto) »

Onde não acontece nada

O passeante não sabe se procura
a sombra que vem do alto ou o vício
que nasce do fundo, o anjo ou o
testículo – deixa-se humildemente contaminar
e diz, Talvez eu possa
cantar alguma coisa. Bêbado e cego
por tantas imagens nos olhos cansados – apocalipse
todos os dias. Esgotado
por tantas batalhas perdidas e outras
adiadas o passeante encosta o ouvido
ao pó das palavras
e bebe. Escuta. O motor do mar, o azul
das altas montanhas. Mas eu o que ouço
é uma ambulância nas traseiras da casa – o coração
caindo a meus pés
como se me tivessem levado
para os cuidados intensivos. Sem saber
se procuro ou encontrei: o anjo, o
fascínio. Talvez as palavras saibam, talvez se lembrem
que o barro apodrece. Já não se ouve
nada, ninguém, sequer a brisa
na persiana corrida. O passeante
senta-se na escada
onde não acontece nada.

Casimiro de Brito

comentários (1)

Uma escolha tocante!
Gosto imenso dela.

Bj ;)

A sua opinião?

Acerca

Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 01 de agosto de 2007.

Post anterior

Post seguinte

Leia também a primeira página, faça uma pesquisa ou navegue através desta página de todos os títulos em arquivo.

pub




Arquivo

&

Primeiro endereço

© 2004/07 Ana Roque | Powered by TubarãoEsquilo | Editado com Movable Type | Top