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Carta dos Trabalhos do Olhar

(gentileza de Amélia Pais)

do outro lado das palavras os ramos altos das figueiras
a misturar o tempo com restos de casas abandonadas

levanto as mãos no meu sonho
e uma ferida de água nas pontas dos dedos
durará aqui como um beijo imaginado

lembrando correndo dormindo

falo da outra face dos rios
de coisas velozes como a terra onde dói um sorriso
onde a noite se dobra nítida ao fervor das sementes
onde o corpo adivinha essa cor rasgada nos lençóis

depois olho-te em segredo
respiro o que tu respiras
escrevo essas palavras adormecidas no ar

olho-te longe da minha insónia
contemplo o horizonte quebrado dos montes
o trigo o feno as estevas rio-me

a sombra dos meus braços move-se
junto aos gatos entre avencas e silenas
fico imóvel atento

onde começará este esquecimento?
como será o meu silêncio no teu rosto?

deita-te sobre mim vem escuta
as árvores abrem-se ao meio nas ruas da vila
nas pedras cansadas nas amoras junto ao sol dos muros

vem não tenhas medo
sou teu e também isto são pormenores
vem era uma vez dois magos numa floresta

Joaquim Cardoso Dias

comentários (3)

São tantas gentilezas de tua amiga Amélia Pais que sinto até ciúmes. Dá para acreditar num absurdo desses???

Beijos às duas.

ana r.:

Viva,Milton! o ciúme das palavras descobertas é desculpável :)
Um abraço

Sem dúvida, sem dúvida, querida amiga.

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 28 de setembro de 2007.

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