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Como quem acende um fogo

Para arder no lume da intensa doçura
é preciso desviar a palavra do seu alvo redondo
e balbuciar vacilando em verdes veredas
o som vegetal da nua imperfeição
Se as consoantes rangem com uma matéria espessa
se as vogais oscilam como se fossem de água
é porque de algum modo é a terra que vibra
e quanto mais áspero é o movimento das sílabas
mais se toca o osso do discurso na sua indolente violência
Como quem acende um fogo com ramos entre pedras
e o sopra lentamente para que a chama se eleve
assim os materiais do poema têm a natural secura
da matéria inerte e gasta e que no entanto se inflama
para que possamos arder no lume da intensa doçura
e consagrar o que ainda resta do primitivo fogo
para que o mundo avançando retorne ao seu princípio

António Ramos Rosa

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 29 de setembro de 2007.

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