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Do anónimo rumor

Estou ouvindo sem ouvir o que sempre ouço
o anónimo rumor de tudo ser o que é
tão irrevogável como o silêncio que através dele é só silêncio
Nunca uma palavra ou um gesto poderá alterar esta ausência
do que nunca se manifesta mas que faz surgir os seres e as coisas
Tal é o domínio da existência a que não se pode fugir
e em que se morre com a boca apagada por um grito ou um suspiro
O que acontece em cada dia é o fortuito fluir
do que só é necessário em si mas não para nós
Não nós não estamos no mundo mas na distância insuperável
de um ser inacessível e essa distância somos nós
Nunca poderemos conhecer o insondável ser
que não é mais do que tudo o que é mas sem o ser
Em vão procuramos a presença deste ausente
Sabemos que se ele se manifestasse o mundo não seria o mundo
e a sua presença seria um excesso que anularia a nossa liberdade
Não há contrapartida para o desamparo não há consumação
para o que no existir é a crispada urgência
e a morte é sempre extemporânea

António Ramos Rosa

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 06 de outubro de 2007.

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