Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.
Clarice Lispector


comentários (3)
Gosto imenso de Clarice Lispector.
Vê esta reflexão tão cativante quão misteriosa
«Sentia-se estranha e preciosa,
tão voluptuosamente hesitante e estranha
como se hoje fosse o dia de amanhã.»
Sentindo viver, hoje, o dia de amanhã
uma mulher sente-se assim,
mais voluptuosamente
hesitante e
estranha!?
:)
Por vbm | janeiro 8, 2008 3:20 PM
em 08/01/2008 15:20
A volúpia da antecipação só me faz sentido quando é, precisa e preciosamente, a antecipação da volúpia.
C.L.envolve a escrita, pinta-a, desdobra as palavras, preenche sombreados, desenha labirintos. Um prazer.
Por ana r. | janeiro 8, 2008 11:33 PM
em 08/01/2008 23:33
:) Bela observação!
Por vbm | janeiro 9, 2008 10:10 AM
em 09/01/2008 10:10