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O peixe de Neruda

(excerto)

Sonda teu elemento com perícia mas denodo,
Não deixes o recôndito esquecido,
Nele há tesouros que ainda não fulguram
Por lhes faltarem olhos que os vejam.

Vai mais fundo, explora os teus recursos mais íntimos,
A força potencial que jaz nestas escamas
Que tatalaram como virgens rêmiges,
Um dia nas alturas.
Usa teus olhos oblíquos para veres na sombra
O que muitos não vêem em pleno dia,
Sê tu mesmo, sabendo bem que podes
Ser outro, muitos mais, ser legião, miríade
Sem trair o que de mais teu trazes contigo.
Amanhã, serás outro meu amigo.’

E ouvindo o Poeta descobri que havia
Algo de mais recôndito na imagem:
Além de toda essa mitologia,
Há no peixe uma última mensagem.

A de que é a Poesia um peixe-alado
E o Poeta um ser que busca o vir-a-ser.
Vive para dar vida ao Incriado,
Que a missão do Poeta é transcender.

Ivo Barroso

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 03 de janeiro de 2008.

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