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A Invenção da Escrita

Ler o verso da paisagem
o outro lado da cantiga
falando somente os fatos
dessa caminhada antiga
passada de boca em boca
havia de se extraviar
inventando muitos galhos
estranhos do caminhar.

Mas essa invenção da mente
louvada seja louvada
fez-se da pedra rochedo
da parelha acasalada.

Rochedo na forma dura
na convivência de pedra
dessa fêmea e desse macho
que aqui o canto celebra:
da fala a pedra se lasca
no diário conviver
dessa árvore com seus frutos
para a caça de comer;
do sol que vinha esquentar
a alma do dia cinzento
da chuva que lhes banhava
o solo e os muitos rebentos;
um recado a adocicar
o coração da parceira
lavrado no seu desejo
de quedar-se à sua beira.

Do gozo desses momentos
no olhar que se guardava
para a fala dos invernos
a fala que se contava.

Também cantava o registro
da vida seus outros lados
o fel dos fatos fanados
de fados tão desgarrados.

Mas o tempo adormecia
nos poros de suas peles
deixando também as trilhas
no rosto pra que revele
cada sinal cada ruga
um desafio outra mágoa
nada se esconde do tempo
nem se bebe a mesma água.

Dessa condição finita
para marcar a passagem
o homem cravou-se em rocha
no rio de sua própria margem.

Queria que outros soubessem
não mais pela boca de outros
que a história que é recontada
vem nas curvas com sons roucos.

Aníbal Beça

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 05 de março de 2008.

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