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Cerejeira em flor

Voltei ontem
à terra e havia eucaliptos no lugar
dos pinheiros onde costumávamos
pendurar os baloiços.

Atravessei em ponto morto
a estrada principal, as casas velhas
mais velhas e as vivendas novas com crianças
desconhecidas à porta.

Dois miúdos brincavam perto da escola, agora
cercada por um gradeamento em ferro,
e um espasmo medular revelou-me de novo
a indistinta proximidade entre a inocência
e as prisões do homem.

Havia também
cerejeiras e pessegueiros em flor no quintal
da casa que fora já da nossa família.
Estudei as pessoas que lá vivem
e prometi reavê-la um dia.

Lembrei-me dos ciclos da natureza.
Quando chovia como ontem, no princípio da Primavera,
o quintal ficava repleto de laranjas e depois um verde molhado
escorria pelas encostas até bem perto de nós e um sopro
de juventude alastrava-se pela superfície da terra.

Hoje entrei no carro de manhã cedo
para voltar à cidade onde fervilham
as minhas fantasias de adulto, atravessei em ponto
morto a estrada principal, olhei as casas e as crianças,
e quando contornei a derradeira curva reparei
que levava no lugar do meu corpo
uma cerejeira em flor.

Paulo Tavares

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 26 de abril de 2008.

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