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sobre a desolação

Não tenho casa para onde voltar

nem esperança onde me abasteça
por isso caminho.

As casas entram em derrocada quando passo
a terra é uma serapilheira de escombros.
Detenho-me a admirar as pás mecânicas
os movimentos das escavadoras eriçam-me de desejo.
De noite as contemplo:
os perfis imóveis das pás
descansando sobre o céu azul cobalto
ao lado da lua de luz nacarada
são ainda mais belos que os braços dos homens que as manipulam
e as escavadoras
com as suas enormes bocas abertas e cheias ainda
de terra e escombros
parecem enormes animais mortos.

Os meus pais ensinaram-me a nunca ter nada.
Ensinaram-me a nunca voltar para casa
a nunca dizer esta casa é minha
aqui moro eu
neste lugar que amo.

Fecho a porta e não preciso de olhar para trás para saber
que a casa já não existe.
Em nenhum lado sem falar com ninguém moro
mas se nos encontrarmos
posso ensinar-te a caminhar sorridente sobre a desolação.

Miriam Reyes

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 24 de julho de 2008.

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