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A dolorosa perfeição da indiferença

Finalement, finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes

Jacques Brel


O desespero - percebes finalmente -
era uma energia, uma espécie de caminho
para quem não tinha passos. Os amigos
(se assim lhes podias chamar) encontravam-se
à volta de uma garrafa e injuriavam toda a noite
o amor de que em breve se fariam escravos.

Falavam de quase nada, os olhos parados
na música, o corpo disponível
para charros, risos e derrotas. Essas ruas,
sabes, nunca mais foram assim
o rastilho da descrença e o motim da desrazão.
Coisas de facto imberbes - navalhas
que fingiam a dolorosa perfeição da indiferença.

Pouco importa. Outros sinais cresceram,
fazendo desses rostos uma porta
fechada onde nem pela memória
esperas o milagre de encontrar alguém.
Deve ser a morte, o fim, isso mesmo
que julgavas esconjurar quando punhas flores
no gargalo verde e vigiado das garrafas.

A luz dos últimos bares tomba agora
sobre um corpo esquivo, mais sozinho,
que nem sequer nestas palavras acredita.

Manuel de Freitas

comentários (5)

vbm:

Espantoso!

ana r.:

Também me tocou muito este poema, Vasco.

vbm:

Editei-o aqui,
com uma imagem,
que me pareceu,
apropriada.

Às vezes faço isso com os teus posts,
mas referencio o modus vivendi.

São coisas belas demais
para estarem tão discretas
se bem que isso não lhes afecte a beleza,
mas doi-me não as "espalhar por toda a parte"
como diria o nosso Camões. :)

vbm:

http://www.excitador.net/forum/viewtopic.php?t=3329&start=135

Esqueci-me. Um fórum
onde se finge
ler pouca
poesia.

lol

(E, aposto,
ninguém vai apôr
um comentário que seja.)

:)

ana r.:

obrigada... a divulgação é sempre bem vinda :)

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 22 de setembro de 2008.

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