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O fardo da memória

Os grandes acontecimentos da vida deixam-nos, com frequência, indiferentes; escapam à consciência e, quando pensamos neles, tornam-se irreais. Até as encarnadas flores da paixão parecem crescer nos mesmos prados das papoilas do olvido. Rejeitamos o fardo da sua memória e tornamo-las irreais dentro de nós. Mas as pequenas coisas, os pequenos instantes, permanecem. Em minúsculas células de marfim, o cérebro retém as mais subtis e fugazes sensações.

Oscar Wilde, in O Retrato do Sr. W.H., trad. André Pinto

comentários (2)

T:

Encontrei esta poesia por acaso, de Mário Benedetti.

ESSE GRANDE SIMULACRO

Cada vez que nos dão lições de amnésia
como se nunca houvesse existido
os ardentes olhos da alma
ou os lábios da pena órfã
cada vez que nos dão aulas de amnésia
e nos obrigam a apagar
a embriaguez do sofrimento
convenço-me de que meu território
não é a ribalta de outros

Em meu território há martírios de ausência
resíduos de sucessos / subúrbios enlutados
mas também singelezas de rosa
pianos que arrancam lágrimas
cadáveres que ainda olham de seus hortos
lembranças imóveis em um poço de colheitas
sentimentos insuportavelmente atuais
que se negam a morrer no escuro

O esquecimento está tão cheio de memória
que às vezes não cabem as lembranças
e rancores precisam ser jogados pela borda
no fundo o esquecimento é um grande simulacro
ninguém sabe nem pode / ainda que queira / esquecer
um grande simulacro abarrotado de fantasmas
esses romeiros que peregrinam pelo esquecimento
como se fosse o caminho de santiago

o dia ou a noite em que o esquecimento estale
exploda em pedaços ou crepite /
as lembranças atrozes e as de maravilhamento
quebrarão as trancas de fogo
arrastarão afinal a verdade pelo mundo
e essa verdade será a de que não há esquecimento

ana r.:

Texto belíssimo, cara T.

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 19 de setembro de 2008.

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