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Chuva

ergue-te ó chuva
nos olhos das manhãs
inquietantes de deus

reflexo indecifrável
esculpido no tempo
estala entre
o imenso consolo
das nossas poderosas emoções
e o pavor que trazemos
aos gritos no crepúsculo
de ti debruçada
sobre os campos
sobre a fome

ergue-te
acende no olhar
a carícia das flores
encantada janela de deuses
voltada às estrelas
de onde caem nenúfares
camélias flores de papel...

sentes-te só
miraculosamente viva
corajosa recordas em silêncio
a piedade que resta
aos espíritos da água
misteriosos como pingos
preciosos cintilantes
na angústia humilde
da transformação

deixai falar a alma
transfigurada adormece a chuva
nos olhos inquietantes de deus

vulto cinzento de sombras
a tua valiosa máscara
esconde no nevoeiro pálido
o martírio a graça o corpo
de quem se despe de vida

ergue-te ó chuva
em gemidos
escavas e beijas as fontes
buscas os olhos de deus
indo sozinho anseia
em teus braços molhados adormecer...

redimido em
cristalinas lágrimas
onde navegaram
ensombrados os meus sonhos
de rir de cruzes de batalhas

és a sombra desenhada
pelas águas tuas
num jardim desfeito
de tanta ilusão incompleto
ergue-te ó chuva!

Henrique Levy

comentários (2)

Lúcio Noronha:

Gostei muito do poema editado. Não conheço o autor , mas vou procurar nas livrarias os seus livros de Versos. Será um poeta português?! Pena que tão bons poetas não se encontrem mais divulgados. Obrigado por ter publicado este poema que demonstra que a literatura em Língua Portuguesa está viva e tem ainda bons poetas!

ana r.:

Obrigada pela visita e pelo comentário, caro Lúcio Noronha. Henrique Levy é de facto um autor português, poeta e ensaísta (tem uma obra muito interessante sobre Florbela Espanca, intitulada MÃOS NAVEGADAS).

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 07 de outubro de 2008.

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