Introdução ao Tempo
I
Onde estavas floresce o teu mito.
Aparelhas o rosto, o amplo e severo
gesto da mão apanhando no ar
o objecto incólume, com galhardia,
sem ostentação.
Rodeias-te dos punhais de aço cristalino,
das automáticas granitadas e puras -
um arsenal azul-aço e cobre
corolando fogos-fátuos de gestos
contidos - a esperança do ver e tactear
o radiar do tempo. Vês como é fácil?
Abre o leque aracnídeo dos telhados,
adivinha a digitalidade destas colinas
já ensombradas, decapita esta poalha
cinza e ouro.
Alongaste-te nos indivisíveis mistérios
da rota, pelas baías mansas e coralinas
afagadas de sol e panóplias de cristais,
encobrindo espectros de cimitarra à cinta,
turbantes, esmeraldas e arcas, arcabuzando
a linha do horizonte com seus arremedos
e gritos guturais nas enxárcias.
Vês como é fácil escamotear a onírica verdade?
Carlos Eurico da Costa
Publicado em 11 de Outubro de 2008