agora estou na beira do penhasco e não vou voar
como o sublime bicho estratosférico brilhante
de plumas esmeraldas tentativos braços
apenas eu baço de nenhuma asa debruçado
sobre o vidro de água e em baixo
os corredores, dispostos à partida
em músculos compactos, e deles o mais jovem (vestido
de improváveis azagaias) exclama: é esta
a fonte do trovão!, e aponta
um buraco azul mudo nas paredes da pedra. por fora
de mim regresso ao som silencioso da cidade
onde todos os rostos são o papel com linhas de inventário
e as patas dos homens pousam na larga secretária
e ficam, em relevo, caminhando no sangue. e eu queria
para ti, uma cidade sem mistério,
o gelo transparente onde mergulha a imagem
dos corredores, lançados no velocíssimo sossego sem repouso
das palavras trocadas, das bocas e dos braços misturados
pela luz, que é uma areia movediça,
este saber de nós sem ócio e sem negócio, iguais
às portas do trovão, onde o mais sábio
se lança nu compacto deus do fogo e ri
António Franco Alexandre


comentários (2)
Mais forte do que tudo aquilo que possas imaginar de intenso, forte, implacável.
Por Mapas de Espelho | outubro 10, 2008 1:21 AM
em 10/10/2008 01:21
Caro Mapas de Espelho, a plantação de links no espaço de comentários é algo que alguns rejeitam liminarmente; no caso do modus, não é tanto assim. Agora que a imagem escolhida para o seu template me parece de uma violência gratuita, paredes meias com aquele mau gosto que pretende chocar apenas porque sim (o conceituadíssimo Cronenberg tem os seus copy catters...),lá isso parece.
Boa sorte para o blog, quand même.
Por ana r. | outubro 11, 2008 10:30 AM
em 11/10/2008 10:30