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Norte

Minha fome é outra.
Não aquela que abre um buraco negro
no estômago
- vazio invisível,
que da boca algum alimento
lácteo - via esófago -
cessa prontamente
até a próxima angústia.

Minha fome é outra.
Não um simples estar-no-mundo,
como disse Drummond
- o universo para mim
é pouco.
Minha fome salta como louca,
labareda intrépida
num incêndio grandioso.

Ela me devorará
ainda que eu entregue os pontos;
a eternidade é uma tosca
linha de partida
no horizonte, a cegar-me o olho.

Sim, minha fome é outra
- indigesta, não toca
as iguarias da estalagem.
Não tem nome,
nem forma, nem nada.
Apenas remove
montanhas, ajudando-me a vencer
o caminho penoso
sem jamais perder de vista
a paisagem.

Flávio Villa-Lobos

comentários (1)

loureiro:

Todos poetas dizem a verdade. Cada uma de nós tem ou não a inefável experiência de a buscar.

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 17 de maio de 2009.

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