"O verdadeiro perigo vem dela própria. O que permitirá, até onde está disposta a ir. Mas permitir e estar disposta não têm nada que ver com a questão. Para onde será empurrada, então; para onde será conduzida. Não examinou os seus motivos. Pode não haver nenhum motivo propriamente dito; o desejo não é um motivo. Não lhe parece que tenha qualquer escolha. Um prazer tão extremo é também uma humilhação. É como ser puxada por uma corda vergonhosa, uma trela à volta do pescoço. Ela ressente-se disso, da sua falta de liberdade, portanto estica o tempo entre os encontros, racionando-os. (...) Mas no fim volta sempre. Não vale a pena resistir. Procura-o em busca de amnésia, de esquecimento. Rende-se, é apagada; entra na escuridão do próprio corpo, esquece o seu nome. Imolação é o que ela quer, embora brevemente. Existir sem fronteiras." Margaret Atwood, in O Assassino Cego, trad. Elsa T. S. Vieira