Há anos do passado que são como uma frase riscada, anos que doem de uma forma imprecisa, pois seu dano não deixou cicatriz mas sim vazio, uma sombra inexacta, tão extensa, que surge para mais além da memória. Mas talvez esses anos e esse vão, diferente do olvido, são matéria de cinza dispersada, tempo quebrado que não pôde cumprir-se a não ser como a total negação do que nós amávamos. E o coração turva-se se recorda. e rasga-se ao rasgar o que o fere e fica só um vão, um denso vão afundado em nosso ser, um fundo muro que tanto nos defende como encerra, mas em nada diferente da vida. Abelardo Linares, trad. Joaquim Manuel Magalhães