Teu só sossego aqui contigo ausente Na casa que te veste à justa de paredes, Tenho-te em móveis, nos perfumes, na semente Dos cuidados que deixas ao partir, A doce estância toda povoada Dos mínimos sinais, dos sapatos de plinto Que te elevam, Terpsícore ou Mnemósine, Como uma estátua fiel ao labirinto. Aqui, androceu da flor, o cálice abre aromas, Farmácia chamo à tua colecção de vidros Onde, à margem de planos e de somas, Tenho remédio para os meus alvidros. O chá é forte e adstringente, O leite grosso sabe à ordenha, E até nos quadros vive gente À espera que a dona venha. Porque tudo nos tectos é coroa, No chão as traînes, os passinhos salpicados Como o vento ainda longe de Lisboa Escolheu a gaivota do balanço Que no cais engolfado melhor voa: Um vácuo, enfim, que o não será — tão logo Chegues no ar medido e a aço propulso: Por isso um pouco de fogo Bate sanguíneo em meu pulso, Pois o amor de quem espera É uma graça a vencer. Uma casa sem hera É como gente sem viver. Vitorino Nemésio