Wiriamu foi há muito tempo e não estava lá A vergonha vem pois de longe Não só pelo que se passou que não tem nome que o valha Mas pelo peso grande vestido e o sobretudo Em soldados de chumbo Homens carregados de silêncio afogado em vinho Quase todos sozinhos de si e dos que eram próximos Antes das tão sincopadas encomendas de natal Feitas de suores fardas e helicópteros, De muitos e muitas queimadas Os que têm ainda alguma companhia batem-lhe hoje ainda Seja mulher filho primo ou vizinho Com a força de não regressar inteiros De onde foram sem saber onde iam. Alguns falam ainda dos maravilhosos poentes e do cheiro da terra Uns quantos trazem ainda imensas Áfricas nos olhos escuros As mulatas eram qualquer coisa de inesperado Para quem vinha de campos e batatas Wiriamu foi há muito tempo e não estava lá E não se fala disso e nem por isso dá jeito falar disso Não se acendem memórias com o calor dos mortos Já chegam e sobram os nossos, contando os que voltaram A vida é já de si tão incómoda para quê agitar o copo Wiriamu foi há muito tempo ainda ontem o soube Naquele magnífico documentário que passou lá onde Ficou meu primo João e todas as vítimas de Joaquim Wiriamu foi há muito tempo nem sei se ainda hoje vive Aquele exemplar religioso o tal que tinha um estranho sotaque Na paisagem invulgar em setenta e tal para ser exacto Mas tudo era estranho e próximo e a pele fica agarrada sempre A essa terrível espécie de ser gente E por muitos televisores que lance ao chão Sei que Wiriamu está longe quase tão longe como tudo O que ficou De Wiriamu Rui A.