Wiriamu
Wiriamu foi há muito tempo e não estava lá
A vergonha vem pois de longe
Não só pelo que se passou que não tem nome que o valha
Mas pelo peso grande vestido e o sobretudo
Em soldados de chumbo
Homens carregados de silêncio afogado em vinho
Quase todos sozinhos de si e dos que eram próximos
Antes das tão sincopadas encomendas de natal
Feitas de suores fardas e helicópteros,
De muitos e muitas queimadas
Os que têm ainda alguma companhia batem-lhe hoje ainda
Seja mulher filho primo ou vizinho
Com a força de não regressar inteiros
De onde foram sem saber onde iam.
Alguns falam ainda dos maravilhosos poentes e do cheiro da terra
Uns quantos trazem ainda imensas Áfricas nos olhos escuros
As mulatas eram qualquer coisa de inesperado
Para quem vinha de campos e batatas
Wiriamu foi há muito tempo e não estava lá
E não se fala disso e nem por isso dá jeito falar disso
Não se acendem memórias com o calor dos mortos
Já chegam e sobram os nossos, contando os que voltaram
A vida é já de si tão incómoda para quê agitar o copo
Wiriamu foi há muito tempo ainda ontem o soube
Naquele magnífico documentário que passou lá onde
Ficou meu primo João e todas as vítimas de Joaquim
Wiriamu foi há muito tempo nem sei se ainda hoje vive
Aquele exemplar religioso o tal que tinha um estranho sotaque
Na paisagem invulgar em setenta e tal para ser exacto
Mas tudo era estranho e próximo e a pele fica agarrada sempre
A essa terrível espécie de ser gente
E por muitos televisores que lance ao chão
Sei que Wiriamu está longe quase tão longe como tudo
O que ficou
De Wiriamu
Rui A.
Publicado em 5 de Maio de 2013