Falemos de coisas sérias
A paixão tem sapatos altos e bicudos,
a paixão tem uns ombros larguíssimos.
A paixão nunca é pequena
(já muitos falaram de pequenas paixões, mas [das duas três]
ou eram todos tontos ou de português pouco sabiam).
A paixão é pouco dada a regras (no dar-se sempre)
ou a compromissos;
A paixão é pouco tolerante e nunca é razoável
(a noção de equidistância ou de regular partilha de custos e benefícios é parte de calendários mais práticos a outras sabeduras).
A paixão é esquisita como tudo.
A paixão não falece, a paixão nunca descansa em paz:
Há toda uma violência de açúcar verde, na paixão,
um compromisso com o sangue, um desafio à espinha
(a paixão é um peixe antigo e asiático),
uma excitação como se Bach viesse tomar uma canjinha lá a casa.
A paixão vê o teu lindo vestido e o teu leque no chão
(e não vê vestido nem leque nem chão)
a paixão ouve-te em hora de ponta
(e não percebe que chamam para sair do metro),
a paixão é mais salgada que os teus dois joelhos
(qualquer que seja o seu sabor, e é bom seguramente o sabor dos teus joelhos),
a paixão é veludo a rasgar as noites e os dias
(a paixão tem dedos de cinzel, meiga como Caravaggio ou Ulisses Brandão),
a paixão cheira-me a ti e a todos os Oceanos (nem mais).
A paixão tem todos os sentidos, e pelo menos mais um.
A paixão é uma Mãe a olhar o filho no dia em que nasceu
Rui A.
Publicado em 29 de Novembro de 2015