A paixão tem sapatos altos e bicudos, a paixão tem uns ombros larguíssimos. A paixão nunca é pequena (já muitos falaram de pequenas paixões, mas [das duas três] ou eram todos tontos ou de português pouco sabiam). A paixão é pouco dada a regras (no dar-se sempre) ou a compromissos; A paixão é pouco tolerante e nunca é razoável (a noção de equidistância ou de regular partilha de custos e benefícios é parte de calendários mais práticos a outras sabeduras). A paixão é esquisita como tudo. A paixão não falece, a paixão nunca descansa em paz: Há toda uma violência de açúcar verde, na paixão, um compromisso com o sangue, um desafio à espinha (a paixão é um peixe antigo e asiático), uma excitação como se Bach viesse tomar uma canjinha lá a casa. A paixão vê o teu lindo vestido e o teu leque no chão (e não vê vestido nem leque nem chão) a paixão ouve-te em hora de ponta (e não percebe que chamam para sair do metro), a paixão é mais salgada que os teus dois joelhos (qualquer que seja o seu sabor, e é bom seguramente o sabor dos teus joelhos), a paixão é veludo a rasgar as noites e os dias (a paixão tem dedos de cinzel, meiga como Caravaggio ou Ulisses Brandão), a paixão cheira-me a ti e a todos os Oceanos (nem mais). A paixão tem todos os sentidos, e pelo menos mais um. A paixão é uma Mãe a olhar o filho no dia em que nasceu Rui A.