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Os anos passam

Os anos passam. Gastaste-os, eles gastaram-te
e ainda não escreveste o poema.
Não te esqueças de que uma paisagem é mais poética
do que uma janela do outro lado da rua.
Mas dentro de casa também é poético:
um cinzeiro cheio pode assemelhar-se a um vulcão
antes de entrar em erupção,
um livro por abrir em cima de uma mesa
é um nevoeiro matinal,
a chávena de café uma gruta ou uma lagoa,
a máquina de escrever uma colónia de aves,
as palavras pedras num ermo.
Há cascatas
que ninguém ouve
mas que competem com aspiradores,
rios torrenciais
que correm por salas de estar,
margens de musgo verde
que enfrentam uma máquina de lavar louça,
um sossego que invade as casas
com cheiros do litoral
e a lufada de asa
das aves da charneca.
Numa janela do outro lado da rua
existe um farol de porcelana
que fica aceso toda a noite
para que os bêbedos não se percam
e por trás da casa há um quintal
com caixotes do lixo cinzentos,
um jornal amarelecido,
um muro adornado com caca de pombo,
uma árvore miserável,
um tordo assustado
e um gato cruel.
Tudo para nos recordar
de como a vida é poética.

Jóhann Hjálmarsson, versão de Vasco Gato

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 19 de novembro de 2015.

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