Recordação de Lisboa
Como me agradam estas vozes cansadas,
escuras, pesadas, calmas como bois,
grávidas de luto e de saudade
e ao mesmo tempo de uma fúria contida,
centrada na aspereza da glote,
vozes que parecem vir de muito fundo,
de se terem arrastado por muitas ruas
repartidas entre o desejo e o esquecimento,
vozes que vão aquecendo pouco a pouco,
engrossando, empastando e cozendo
até coalhar de todo consigo mesmas:
são como um grande poço quase seco
de onde é difícil tirar água no início,
mas quando nos chega a sua fragância,
que jorro de vida não supura
e como ficámos impregnados e húmidos!
Isso podem ser canções de taverna
ou os versos de algum velho queixoso
que ainda tem vontade de escrever.
Àlex Susanna, trad. Egito Gonçalves
Publicado em 23 de Março de 2016