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Depois não sobrou nada

Nos fins do outono uma rapariga deitou fogo
a um trigal. O outono
 
fora muito seco; o campo
ardeu como palha.

Depois não sobrou nada.
Se o atravessávamos, não víamos nada.

Nada havia para colher, para cheirar.
Os cavalos não compreendem -

Onde está o campo, parecem dizer.
Como tu ou eu a perguntar
onde está a nossa casa.

Ninguém sabe responder-lhes.
Não sobra nada;
resta-nos esperar, a bem do lavrador,
que o seguro pague.

É como perder um ano de vida.
Em que perderias um ano da tua vida?

Mais tarde regressas ao velho lugar -
só restam cinzas: negrume e vazio.

Pensas: como pude viver aqui?

Mas na altura era diferente,
mesmo no último verão. A terra agia
como se nada de mal pudesse acontecer-lhe.

Um único fósforo foi quanto bastou.
Mas no momento certo - teve de ser no momento certo.

O campo crestado, seco -
a morte já a postos
por assim dizer.

Louise Glück, trad. Rui Pires Cabral

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Esta é uma página de arquivo individual, publicada em 08 de outubro de 2020.

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