Até aos trinta anos tens 

a cara que Deus te deu. Depois 
tens a cara que mereces. É uma promessa 
de ironia, uma sentença 
sem recurso. 

É-te assim dito: 
estás entregue ao labor íntimo 
do que comes, ao número de horas que dormes, 
àquilo que fazes e sobretudo 
àquilo em que pensas. Deus 
(perdoa-lhe a fraqueza) 
tolera-nos enquanto somos jovens, 
ampara-nos, alisa-nos 
a fronte após um desgosto, talvez 
nos ame, mas deixa-nos 
sozinhos quando a beleza 
é terreno pouco firme 

e assiste de longe 
ao desafio temerário que lançou 
a cada filho. 

Sabes então que o rosto é uma flor
plantada no escuro, uma corola
tenra, redonda e impenetrável
que desabrocha e se abre
com as pétalas lisas e brilhantes, ou
confusas e despenteadas,
conforme a força
e a direcção do vento.

Andreia C. Faria