25 de outubro de 2021

A hora do cansaço

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse gosto acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade

Rafal Olbinski

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24 de outubro de 2021

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

Ruy Belo

Salvador Dalí

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23 de outubro de 2021

A meu favor

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demônios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina

22 de outubro de 2021

Carta de Amor

(A Eugénio de Andrade)

Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de costume)
a medir o tesão das flores
ali no jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e...
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de eternidade

Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar...
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração

Jorge de Sousa Braga

Do livro

De los diversos instrumentos del hombre, el más asombroso es, sin duda, el libro. Los demás son extensiones de su cuerpo. El microscopio, el telescopio, son extensiones de su vista; el teléfono es extensión de la voz; luego tenemos el arado y la espada, extensiones de su brazo. Pero el libro es otra cosa: el libro es una extensión de la memoria y de la imaginación.

Jorge Luis Borges

20 de outubro de 2021

Edward Hopper

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O Cão Sem Plumas

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

João Cabral de Melo Neto

19 de outubro de 2021

Decepção à Regra

Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?

João Luís Barreto Guimarães

17 de outubro de 2021

Arthur Rackham

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Moendo o verso

Roubo a voz que me fala do espelho,
faço minha a sua entoação, cavalgo
o seu ritmo de veleiro a caminho
do estuário, recolho as suas pausas
no côncavo das mãos, e levo-as
ao ouvido para saber o que me diz
o seu silêncio, de que timbre é feita
a respiração que nasce da imagem
que o espelho projecta na minha
cabeça, e vejo as velas do moinho
rolarem nos meus olhos para que
neles se faça uma farinha de sons,
e eu as possa amassar como sílabas,
fazendo o pão luminoso do poema.

Nuno Júdice

15 de outubro de 2021

Os sonhos

Os sonhos estão feitos de ramos
de onde pendem as algas da memória; e no seu fundo
há um lençol de corais em que os pés
se apoiam, fazendo voar borboletas melancólicas
e tirando das suas bocas um canto azul, feito
de sílabas abertas como a sede dos teus lábios.

Nuno Júdice

Kees van Dongen

Kees van Dongen.jpg

12 de outubro de 2021

Ondas do mar de Vigo

    Ondas do mar de Vigo,
    se vistes meu amigo!
    E ai, Deus!, se verrá cedo!

    Ondas do mar levado,
    se vistes meu amado!
    E ai Deus!, se verrá cedo!

    Se vistes meu amigo,
    o por que eu sospiro!
    E ai Deus!, se verrá cedo!

    Se vistes meu amado,
    por que hei gran cuidado!
    E ai Deus!, se verrá cedo!

    Martin Codax

outubro 2021

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