Ainda sobre o bem Há
Ainda sobre o bem
Há um pequeno livro de Iris Murdoch, intitulado Acasto, editado pela Cotovia há mais de dez anos,que junta dois diálogos ao estilo platónico (Arte e Eros, um diálogo sobre a arte, e Acima dos deuses, um diálogo sobre a religião). No excelente texto de Murdoch (romancista e filósofa de grande brilho), há um excerto relevante para a questão levantada pela Charlotte:
Alcibíades: O conhecimento é poder, como todos sabemos. O poder éo conhecimento de queo bem e o mal não são inimigos, são amigos. A alma humana é a sede da harmonia entre eles. A grande câmara da alma perfeita encerra o amor secreto do bem pelo mal e do mal pelo bem. Essa união é que é absoluta, e bela e real. Nós não podemos vencer a treva interior, é fundamental e indestrutível, temos de preservá-la, temos de compreendê-la e amá-la. O bem precisa do mal, só pode existir por contraste, como nos disse o sábio Heraclito, a luta entre a treva e a luz é uma espécie de jogo que dá vida, um jogo entre amantes. Portanto o mal não é realmente o mal, o bem não é realmente o bem, ultrapassamos as noções abstractas vulgares e infantis de bem e de mal e penetramos na unidade do mundo! Então somos reis, então somos deuses, a alma humana unificada torna-se soberana da realidade. É isso a religião, é isso o mistério queo iniciado conhece e agora é a nova era em que finalmente isso se tornará evidente.
Platão (furioso): Isso é uma mentira amaldiçoada, é a pior de todas as mentiras, o Bem nunca há-de reconciliar-se com o mal, nunca, nunca! Tem de exterminar o mal!
Voltando à questão inicial (e bem se vê como este é um território onde as areias movediças podem ser colocadas onde menos se espera por mero artíficio da razão), uma boa pessoa tem que saber reconhecer os antagonismos que contém dentro de si para poder dominá-los e, através de rigor e vigilância, deixar que prepondere o bem nas suas acções (e que o mal não aproveite pelas suas omissões).
AmAtA
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Publicado em 18 de Junho de 2003