É fácil não se gostar dela, mesmo admitindo que escreve bem, porque o elitismo snob lhe é demasiado frequente, tocando sem suavidade as raias da arrogância em dias mais agrestes. Sabe-se que leu romances e tem escrito muitos artigos, milhões de caracteres que chegavam para atapetar um mundo quase tão vasto como o que pretende seu, sem adivinhar que não é de ninguém. Mas é inegável que, de vez em quando, tem a capacidade liminar de apontar,certeira, ao âmago da questão. Clara Ferreira Alves escreve, na revista Única de 16 de Dezembro passado, uma crónica intitulada "Jorge Nuno e Ela" na qual diz o que há dizer sobre o tema que preencheu tanto espaço mediático. Citando uma das frases mais lapidares: "Se Carolina tiver entretanto recebido os seus direitos de autor, e se a Dom Quixote foi generosa nas percentagens, terá dinheiro para pagar a advogados que a salvem do embrulho penal. Do que não se poderá ser salva é de si mesma, nem da sua colossal amoralidade." Nem mais.


comentários (3)
Como uma das pessoas que muitas vezes embirra com a Clara (de quem fui colega no Expresso, aliás) percebo muito bem o que queres dizer, minha gentil esposa. É fácil. Mas também deve ser(-nos) fácil reconhecer a firmeza do punho de CFA quando atira setas tão certeiras como essa. Alvíssaras, extensíveis à tua escolha da frase para este tema.
Por Paulo | janeiro 4, 2007 12:29 PM
em 04/01/2007 12:29
A moral tem patamares, pelo que não há uma mas várias, tem também formas mais directas em contraste com outras bem sinuosas e sombrias. Tenho cada vez mais dúvidas sobre o tapume da amoralidade do quotidiano que se aceita sem discussões.
E no Nosso julgamento há sempre uma alternadeira do outro lado.
Aliás, alternativa
Por José | janeiro 4, 2007 1:03 PM
em 04/01/2007 13:03
Embora concorde com a questão dos "patamares", no sentido em que é diversa a avaliação das situações, não apenas em função da índole de cada um, mas também (e muito...) de acordo com o que lhe foi inculcado pelo meio familiar e social na categoria daquilo a que chamamos valores, à falta de maior precisão terminológica. Mas convenhamos que, em concreto, o relativismo ético e cultural não é grande instrumento de análise, sob pena de tudo valer e nada ser confiável, digno. Como, no mesmo texto, faz notar CFA, se todos divulgassem as fraquezas demasiado humanas (não os crimes, obviamente, que esses têm sede própria de abordagem)daqueles com quem, em algum tempo, se teve intimidade, não ficaríamos somente perante a perda total de bom senso e bom gosto - a deslealdade e a falta de dignidade tornar-se-iam prática corrente. A evitar enquanto houver uma réstea de respeito (por nós e pelos outros).
Por ana r. | janeiro 4, 2007 6:13 PM
em 04/01/2007 18:13