(gentileza de Amélia Pais)
Todos os corpos, diz Espinosa, o polidor
de lentes, nascem do atributo divino
da extensão. Mas, deflagrada a ausência –
que inerência se alega, irreparável?
E da neve - para quê emudecer
o mundo numa cor de si esquecida,
que dá aos lugares um ar de corvos
virados pelo avesso? Como se Deus,
o indivisível, delapidasse em espuma
a memória do mar, sem descortinar
sereia onde o canto se abismasse.
Reflectirá nisso o polidor, no dominical
passeio de bicicleta, ao lado do cão,
Março num esplendor inefável?
Pode esta palavra – que é uma criança
não baptizada - ser mais que a latência
indevassável duma extensão? Enfio
o talher no robalo, corro a lâmina
ao longo da espinha. É óptima
esta esplanada na praia - ao longe,
no mar, os últimos pescadores
lançam redes. E se precisamente
naquele ponto, forem menos
determinados os atributos divinos?
Um cardume é uma extensão ou mil?
Pode o suceder ser exterior à sua sorte,
à malha a que escapa, ao lavor do verbo?
A minha mulher pede-me o azeite.
Adoro o seu modo de aspergir o peixe.
Ter-lhe-ei já dito que à altura da queda
do império romano havia quarenta
maneiras de refinar o azeite?
E chega-me numa lasca de peixe:
se no amor o corpo é comum socorro
talvez isso cilindre o demónio,
na fragilidade que o afasta de Deus.
O demónio vivo em cada um. Mas
não pode o afecto ser a extensa ar-
borescência que em Deus implanta o Mal?
Arrepio-me. O riso dela interrompe-me,
é um caudal que me desapropria ternamente
de juízo. O riso, como a derradeira
extensão? Que o polidor de lentes, no limbo,
ou Grouxo Marx, no Olimpo, me respondam.
António Cabrita


comentários (4)
Como é que a Amélia Pais (que nao conheco) teve acesso a um poema meu que esta inedito? Desculpem, mas e uma simples curiosidade? Antonio cabrita
Por antonio cabrita | janeiro 26, 2007 8:05 AM
em 26/01/2007 08:05
Amélia Pais,
é só para a sossegar pois já me lembro de ter publicado esse poema, numa revista, a pedido de Amadeu Baptista, mas como não tenho por costume guardar todas as folhas de couve em que imprimo a baba não me lembrava de todo de o ter feito, quando proferi esse comentário, que lhe deve ter parecido bizarro ou insolente, ou no mínimo insólito. Eu estava de facto atónito e deslembrado.
Peço desculpa, António Cabrita
Por antónio cabrita | fevereiro 4, 2008 9:08 AM
em 04/02/2008 09:08
Caro António Cabrita, obrigada pela visita; não posso garantir que a Amélia Pais leia estes seus comentários, mas fico satisfeita por, afinal, não ter publicado um"presente envenenado" ;)
Por ana r. | fevereiro 4, 2008 9:20 AM
em 04/02/2008 09:20
Que sorridente questionamento de Espinosa,
perpassa tão fluído na mente irónica
deste antónio cabrita,
excelente poeta! :)
Foi para mim uma grata surpresa,
eu que demorei tantos anos a conseguir penetrar
na sua Ética, demonstrada à maneira dos geómetras.
(Excepção à Parte V que nem a saborear
um delicioso robalo consigo deslizar
a lâmina do espírito pela espinha
daqueles fulgurantes escólios!)
Por vbm | fevereiro 17, 2008 12:09 PM
em 17/02/2008 12:09